segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

ex animo dicere LXVIII


Extração indolor, incolor, insonora, desta picto-novelette (The Magic Bottle) de Camille Rose Garcia.

"Lulu and the Sad Little Turtle could hear a faint singing, coming from somewhere in the building, and it went something like this:

Who's afraid of the Peppermint Man?
Who's afraid of the Peppermint Man?
Now I've got the map and I've got a plan
And I'll flatten your world like an old tin can.
I'll build and empire out of candy and sand
And use your blood to promote my brand.

A drug I'll make, a stimulant
manufactured from a poisonous plant.
I'll bake it into sugary snacks,
they'll eat so much, they won't keep track!
Slaves of a pharmaceuticalant,
working at the manufacturing plant.
Weekends spent at Entertainment land,
no time to think about where they're at.
No anarchists, no deviants,
Just flesh machines drowning in their fat!

Who's afraid of the Peppermint Man?
Who's afraid of the Peppermint Man?
What's this place called, what's that you said?
Why, what else, but Peppermint Land!"

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

a patetice, isto é, a amizade XVI

::::: a fome nega o alimento (quando este a pede em casamento) :::::

– Se eu morresse você choraria?
– Claro que sim.
– Se eu morresse agora?
– Como é?
– Vou fingir e quero ver você chorar. Quero que você prove. Considere um ensaio para quando eu morrer.
– Pare com isso. Não é assim que as coisas funcionam.
– Não?
– ...
– Então segure este martelo.
– Para quê?
– Para despedaçar meu coração antes que você vá embora. De mim.

a patetice, isto é, a amizade XV

::::: como uma flor :::::

Com a voz do cotovelo, derrubei o copo em que ela bebia. Caiu como se fosse uma folha murcha, que também lhe pertencia.
– A gente perde os movimentos, néan? – relatou a inexperiente Flor – A cabeça fica pesada. Em volta, tudo gira.
– Até aí, nada de extraordinário... – eu disse, pensando “ela fica tão fofa quando bebe umas a mais”.
– O ruim é quando gaguejo dentro da cabeça – ela apontou seu dedo, caule delicado, na altura da testa, região das pétalas sem pólen – Mas parece que tudo sai normal da minha boca. Ao menos ninguém reclama. Espera aí, tô perdendo o controle da boca. É sério. Não tô sentindo meus lábios.
Ainda que bastante trôpega, conseguiu se levantar rapidamente. Trancou-se no banheiro.
– Ei, ela está bem? – perguntei a 1515.
– Ela quem?
– Esquece.
Voltei a minha digníssima atividade digestiva. Havia comido 2/4 do salgado de presunto e queijo e salsicha (e digo isso para saberem que não sou vegetariano) quando tive a brilhante idéia de que poderia incrementar meu almoço com ketchup. Ergui a mão, tomei três copos de querosene, xinguei, esperei mais cinco minutos e fui atendido. O “primo” trouxe o que pedi, e mais: mostarda, molho de pimenta, molho inglês, shoyu e maionese. Bem, aquilo quase me chocou. Mas serviu para me deixar exclusivamente indeciso. Estava louco por ketchup, por outro lado, todas aquelas opções eram tentadoramente atordoantes. “Ah, dane-se vou de mostarda”, pensei, inicialmente. Quem resiste ao sabor levemente acre da mostarda? Caprichei na cobertura do salgado e cometi o pecado inicial. Deu-se que fiquei arrependido por perceber que me restava apenas 1/4 da refeição. Meu Deus, e o ketchup? Que fazer? 1515, alguma idéia? (Silêncio). Esperar resposta dela era como esperar que o farol do porto viesse me acordar pela manhã. O retrogosto do condimento preparado a partir das sementes de plantas do gênero Brassica nigra e Sinapis alba decidiu por mim. Despejei mais mostarda sobre o que restava do enroladinho e me deliciei com o fim de mais uma injusta fase da vida dos pequenos prazeres.
– Muito obrigado! – disse meu eu satisfeito e mangador.
– Comeu igual um padre – zombou 1515.
Saindo do banheiro, Flor deu de cara com o açougueiro vestido em roupas brancas sujas de sangue cobertas por sacos de lixo preto carregando uma enorme peça de porco. Seu grito fez todos os pescoços girarem, então seguiu ecoando, sozinho, na acústica rústica da ruela.
– É Leeloo! Você a matou!
– Por que ela faz questão de ser tão escandalosa? – perguntou 1515, não por curiosidade.
– São frases soltas. Apenas isso – respondi, sem vontade.
– Tô me esquecendo das falas, Foche. Agora eu perguntei – afirmou 1515.
– Quando?
– Agora pouco. Exclamei?
– Esquece isso também.
Flor voltou a se esconder no banheiro. Dessa vez tive de buscá-la.
– Abre a porta, por favor. Não, ele não vai te matar, Flor. Sim, pode sair.
Escutei-a destravar. Pela fresta vi surgir seu assustado olho direito.
– Tô com medo das abelhas.
Me vi como uma abelha, indo e vindo, procurando mel, voando em volta de seu globo ocular.
– Você tem olhos de planeta terra.
– Apesar disso, você ainda pode me destruir com o ferrão, com o octostêmone.
– Com quem?
– Com seus oito órgãos florais masculino.
Sem saber qual elogio soara pior, a vi como uma verdadeira flor. Também me vi como uma abelha, me repetindo. Voando para um lugar (nela) que me atraía. Lá dentro continuava batendo asas, indo e vindo, nos limites do seu mundo. Preso em território alheio, no solo que é capaz de me sugar outra vez, e me fazer sobreviver da seiva dos galhos dos cílios.
– Olha o que encontrei aqui dentro.
Tentei forçar a porta e, de relance, vi isso.

– Estou falando de outra coisa – disse-me, seguindo a direção do meu esquadrinhar.
Flor tentou me passar a revista pelo espaço aberto da porta. Vão em vão. O fez por baixo. A edição trazia um grande número de imagens da gestação do feto. Do início, do crescimento, da formação, do cronômetro gritando 3, 2, 1, morte.
– É mais um coitado, não acha Foche?
– Costumo me perguntar como colocar isso em palavras inteligíveis, Flor – amizades são patéticas, mas é preciso mesmo salvá-las a todo custo? – O que você tem? Está ouvindo vozes?
– Nada disso. Chame o táxi e vamos embora. Esse calor está me matando.
Não quis dizer a Flor, mas eu sim estava ouvindo coisas. Vozes erguendo-se sobre o som do pensamento. Preferi também não dizer que ela estava certa e tudo a nossa volta estava tentando nos matar. Fiz como me ordenou. Uma vida se passou, outra e mais outra. O motorista chegou. Sentados no banco traseiro, parecíamos um casal em ótima fase. Eu com os braços em volta de seu pescoço. Ela com a cabeça apoiada em meu ombro. Doce clorofila exalando dela, se alastrando em mim. “F & F”, diria nosso convite enfeitado com sementes de girassol.
– Qual o endereço? – balbuciou o motorista.
– Debaixo do tapete encardido das avenidas públicas – respondeu Flor.
A corrigi e tudo ficou certo. Voltamos a ser um casal normal. Em núpcias desgraçadas.
– Como é o seu nome? – ela perguntou, mordendo minha orelha.
– Te digo se disser o teu.
– D – balbuciou.
– D.
– Antes éramos F, agora retrocedemos para D. Não é engraçado?
O trânsito estava livre como as artérias de um bom coração que dorme. Os seres de sangue podiam passear livremente. Eu não achava nada engraçado.
– Eu sou advogada, sabia? Ontem levei um presente para o delegado – notei o taxista ajustar o retrovisor para ouvir melhor a conversa que lhe interessava – Tinha de levar uma gravata para o dito cujo. Era a fiança para liberar um pobre cliente.
– Uma gravata? Que propina mais branda – ridiculamente pontuei.
– Sim. Uma gravata recheada com cinco mil.
Engoli em seco a saliva áspera do meu próprio deslize irrefletido usando um sorriso mostarda como máscara de gás.
– Amarelo é cor de louco – comentou como se tivesse ouvido a escrita do meu pensamento – E os loucos pensam assim: a energia elétrica é a alma dos peixes.
– Como? – nota-se que eu estava ficando bom em perguntar, entretanto, deveria deixar disso e começar a fingir que entendia todo o delírio alheio na intenção de poupar meu horóscopo e meus rins.
– Os peixes que morrem nas usinas.
Fiquei pensando naquilo até ela mesma me interromper. Foi um curto intervalo que eu gostaria de ter alongado.
– Quase me esqueço de dizer o nome do delegado...
O motorista freou bruscamente. Desculpou-se pelo solavanco.
– Vocês viram? O filho da puta furou o sinal do cruzamento.
Depois disso, o D feminino desabrocha e dorme. Um outro D retoma os pequenos prazeres. Um deles sou eu. Então fico acompanhando uma rã grudada no vidro traseiro, passeando entre as linhas do desembaçador na tentativa de abocanhar sua refeição: o bicho de luz.
– Um carro não passa de um elevador panorâmico. Chegamos – disse-nos o mitológico transportador antes de destravar as portas diante da nascente do Aqueronte.
Paguei a corrida. A ajudei a descer do táxi e, depois de despachá-lo, a coloquei na cama. Dormia como uma planta em terra nutritiva, como se fosse erva rainha. Sem preocupação, sem fertilizante, sem veneno, sem idéia de que eu... De que eu continuava preso à sua órbita, de que minha casa não era muito perto dali. Entretanto, estava cansado de me dedicar aos pequenos prazeres. Caminhar era o maior deles. Vê-la, o melhor. Estava, antes de tudo, cansado do ócio degenerativo. De acompanhar as nuvens se moverem ou contar quantas pessoas pisam em determinado lugar. Mesmo assim, fiquei sentado no banco da praça em frente a sua janela. Gosto de lugares vazios ou pouco movimentados. Por isso permaneci na praça. Por isso quero ficar com ela. Fazendo tudo aquilo que estava cansado. Esperando a chatice passar, esperando o momento certo, esperando a parte perdida (dentro de mim). Descongelando-me. Morosamente. Dezembro chegando. O ano esvaindo-se (fora de mim).
Quando a nuvem saiu da frente do sol, uma claridade excessiva entrou pela minha retina. Sim! Ainda havia uma planície de fuscas possibilidades de felicidade na cidade. Só precisava de sorte para ser acertado por um meteoro enamorado de mim, another dead Juliet, another bad love, one more low profile, scary scary sacred, a mental writing, dynamited mind, alguém fervente que cantasse aqueles versos anonimamente miscigenados:

................... It's not that I don't love you or are tired of your ways,
...................... but now I believe that lovers should be tied together
....................... and thrown into the ocean in the worst of weather.
...................................... While everything felt wrong.
...................................... We fell from the high notes.
..................................... We went to an old continent.
.,,,,,,,,,,,,.................................. We drink to die.
,,,........................................ We were born to lose.
............................ We think the same things at the same time.
...................... And you might need me more than you think you will.


Anoiteceu num piscar de olhos-planeta. Ouvi seu eco me chamar. Adentrei outra vez a colméia. Levantei o lençol. (Beijei as raízes de seus pés). Dormimos juntos, ainda que separados. Encasulados. Pelo amor, pela fotossíntese.

a patetice, isto é, a amizade XIV

::::: adoráveis inimigos :::::

Onze e, e, e, e pouca coisa.
Depois de o mundo inflável ter se recolhido para trás dos muros do confortável medo do agora, depois de meu pé gritar meu outro nome entre aspas, depois de perder as pérolas do suor dela, as pérolas do brinco dela, as pérolas e as mordiscadelas, enfim, depois de efetuar duas chamadas e não obter sucesso, eu me preparava para desistir de encontrar qualquer diversão naquele dia e guiava-me – triste como uma torneira estragada – para o quarto. Ademais, caturro como uma bactéria e de espírito perdulário como um dândi, arrisquei outra vez. Mamífero resolveu me atender. Culpa in eligendo.
– Tchau, Foche!
– Quero falar com teu cão.
– Eu o bebi.
Verdade seja ensaiada, o cão deveria se chamar MT 235 e ligaria as cidades de Campo Novo dos Parecis à Sapezal, entretanto, ninguém entre nós pacifistas queria que o coitado crescesse carregando o fardo da alcunha “Rodovia dos Índios”. O cão, se existisse, poderia ter se chamado Cóccix ou Barrabás, mas nem os departamentos recônditos do corpo humano ou tais tipos de unfashionable literatura noir interessavam Mamífero, o hipotético dono. Ele só queria saber de uísque: litros de uísque, pratos de uísque, comprimidos de uísque, gramas de uísque, legumes, bigodes, sapatos, trompetes, motos, travesseiros de uísque... E, por mais que fosse bom companheiro do destilado, conjurá-lo e batizá-lo não era tarefa para um ser vertebrado.
– Diabos, cara. Eu estou carente. O que resta aí? – perguntei, tremendo e temendo.
– Os dias da semana.
Ouais. Et le chien botté aussi. Diga-me, que tu anda fazendo?
– Nada além de não levar o cachorro ao veterinário.
– Que tua mulher anda fazendo, então?
– Virou metalúrgica – Babel Fish explica: ela estava trabalhando, dando aula – Tá manipulando os metais do precioso futuro.
Dig dig dig – eu, onomatopéico –, a barra tá limpa, homem.
– E as mãos ocupadas. Brincando de modelar com Durepox® etc.
– Tô indo praí, Jorge.
– Traga você sabe o quê.
– Oi, Mamífero! – e desliguei.
(Tudo que havia de preciosamente mais sujo na cratera da cidade tinha o dedo amarelado de Mamífero, o clepto-colecionador, o ferrenho afanador adepto do Livro Vermelho do Yomango. Passo a citar: teatro furioso, literaturas maloqueiras, música erudita, marginal ou gay, filosofias infames, dissidentes histórias em quadrinho, maçantes jogos de tabuleiro, peneiração de sebo e pregão, brinquedo infantil mambembe, flash mob indigente, comicidade no jornalismo experimental, culinária vegetariana, esbórnia, muita esbórnia, gargalhadas, gritarias e o já mencionado uísque... Enfim, em todos esses e outros âmbitos paranormais da super-adjetivação pairava a sombra barbuda do multifacetado Mamífero).
Onze e, e mais pouca coisa ainda.
Aterrissei meu inexplicável avião em seu telhado enquanto ele terminava o ensaio do discurso sobre a filosofia da subversão (com direito a caretas e poses promocionais) e, em seguida, ao me notar, comentava um fato de experiência própria quando de sua recente tentativa de aplicação das técnicas 3D da Sabotagem Divertida Contra o Capital (SDCC).
– “O Yomango é a mão que em uma dança insubmissa traça no ar de seu shopping o arco do desejo, sem mediações: direto da estante para seu bolso, sem dinheiro nem cartões”. “Yomango. Você quer? Você tem.” “La felicidad no se compra” – aqui, Mamífero me viu entrando pela janela – O olhar mais poderoso, não é? – interrogou-me para que ele mesmo respondesse – É o do caixa do drive thru (Pronunciei certo? Pronunciei certo?) do McDonald's quando você tenta aplicar algum golpe na irmandade e o canalha percebe sua intenção.
– A cartilha tá na ponta da língua, logo se vê – pensei, em voz alta, porém – E o pinto, em baixa.
– Não interessa, canalha. “Cuando no deseo nada, tengo todo. Cuando no deseo nada, tengo más”.
– Ah é? E desde quando você se interessa por sucessos mexicanos?
– Não interessa, FOOLchesatto – sem polidez, deu um tapa na minha cara e começou a rir – Aliás, bonita camisa, Fernandinho – elogiou-me com um escarninho.
Me preparava para o combate corpo-a-corpo cuando...
Cuando pudo mirar el comedor de cristales por uno de los lados, tuvo miedocuando escutei, vindo pelo lado denso do universo, arrepiando os pêlos das pernas, aquela livre adaptação de Cortázar.
Um terceiro psiconauta estava presente.
– Monstro! – exclamei.
Apertamos as mãos daquele jeito dir-se-ia delicado, e Monstro abriu um parêntese no cerne dos fundamentos da SDCC no exato momento em que, na taciturnidade de seus movimentos, chegava.
– Ouvi dizer que esse tipo de infortúnio é deduzido do ordenado do funcionário envolvido.
– E já que o prejuízo é repassado ao próximo, a violência física também deve ser – completei – O amor é egoísta. O ódio, a mais elevada forma de altruísmo.
– Isso é um complô? – irritou-se Mamífero – Me ajudem aqui! Sinto o cheiro do conchavo.
Sugeri que, já que estávamos finalmente reunidos, deveríamos fazer uma boa ação. Escanear antigas revistas em quadrinhos d’Os Trapalhões. Didiana Jones e Didicop, por exemplo.
– Calma, Foche-Fuck – abrandou-me Monstro.
(Aliás, assim ele era. Um sujeito calmo, ponderado, voz em preto e branco, baixa entonação. Todavia, enfrentar a cólera daqueles punhos fortes não seria o que Anthony Burguess chamaria de horrorshow. Nem a fúria física tampouco a intelectual. Excêntrico fotógrafo e bondoso criador de cães, os de quatro patas, Monstro não detinha as cômicas habilidades de fazer careta e trocar de voz como Mamífero, por outro lado, suas habilidades concentravam-se na extrema capacidade de concentração budista, de um budista que arrebenta a bateria em banda de metal enquanto cita Deleuze para o público néscio. Para finalizar esses adendos a cerca de meus adoráveis inimigos, posso afirmar que éramos uma pista tripla que levava a três opções diferentes de porra nenhuma.)
– Tô calmo, Geni.
(Por se encontrar imprestavelmente ocupado com teses de mestrado, Monstro solicitou que, daqui em diante, psicografasse suas falas em forma de transgressivas citações ou nota de rodapé sem qualquer obediência à ABNT.)
1
– Rá! Temos um idiota aqui! – exaltou-se Mamífero, como um delator.
2
Monstro sacou um pedaço de papel e mostrou-nos um trabalho seu.
.......,-.______________,=========,
......[..)_____________)#######((_
....../===============..-..___,--".._\
....."-._,__,__[AC]____\.########/
......................\...(...).)...).####O##(
........................\..\____/,..#######\
.........................`===="....\#######\
...........................................\#######\
.............................................)##O####
.............................................)..####__,"
..............................................`..--."."
– Então é isso que tu faz agora, rapaz? E o mestrado? E a gente? E o JHQ? E a apuração da matéria sobre o traficante audacioso que enviava pacotes de drogas a endereços errados só para tirar a atenção da polícia do destino certo, ao lado?
3 – reportou-nos, calando-nos.
Onze e.
Sem que a iniciativa fosse minha, e heroicamente exaltado por sabe-se lá que espírito lhe ordenando imitar a própria esposa (“Nossa, ele não mostra isso pra ninguém!”), Mamífero carregou-nos para outro cômodo e nos fez ouvir trechos do disco de sua primeira banda quando tinha penosos dezesseis anos de idade. Diabos! Alvorocei as entranhas com o alarde de Mamífero. Era como se chegasse impondo novas formas no processo de entorpecer. Dichavar o plástico e fumar no palito, entende? Ele havia mudado. Que um raio me parta se eu estiver mentindo! Será que viajara para o oriente? “Céus, isso é hediondo”, devo ter pensado. Pois, em troca, e já que todos estavam no embalo da autopromoção, ofereci que ouvissem minhas composições de similar passado que preferíamos sepultar junto aos crimes da última eleição do condomínio-ninho de cupins. Mas, de sua peluda parte, não havia qualquer interesse em.
– E você, Monstro?
4
Onze e, e, e, e, etc.
De qualquer maneira, longe de falsas analogias ou comparações excessivamente pomposas, aquele ato de Mamífero era tão sincero quanto o choro de uma criança que quer mamar, quero dizer, foi de uma profunda confiança chamada amizade.
– Ô cambada de doente! – apelidei-os.
5
– Nada disso, Monstro. Nem air tampouco gromelô. O negócio agora é assim – e Mamífero desembainhou seu instrumento de cordas e começou um refrão de agitada melodia.

.......................................... "Eu sou trezentos,
...................................... Você é sessenta e cinco
...................................... Dias que não nos vemos,
................................... Dias que não vou ao médico."


– O dia em que o tranca-rua veio a Mato Grosso estava tocando essa música –falei.
Imitei o som de outros instrumentos com a boca que é pra ver se sentia o gosto das notas mais salgadas. Na bateria imaginária, Monstro acompanhou o motivo musical. Depois nós três trocamos de instrumentos. Seguimos assim até enjoar e cair e arpejar em outras armadilhas. Assim que Mamífero recobrou o fôlego, tentou engatar outros assuntos de ordem catatônica.
– Tudo que uma pessoa precisa para se educar para a vida está nas músicas certas e nos filmes certos.
– (Às vezes choro vendo filmes) – confessei, entre parênteses.
6
– E nos amigos errados.
– E nós estamos ferrados – acrescentei, mas diante do silêncio da discórdia, corrigi-me – Eu, ao menos.
– Moveu as peças erradas do xadrez, só isso. Xadrez modalidade Treta.
7
– Fato é que as músicas e os filmes surgem nos momentos certos. Ao contrário das pessoas.
8
– Mas se eu fosse um super-herói – rebati – Eu seria Herr Ludwig. Soltaria foguetes sonoros na cabeça dos vilões, da patifaria e dos pianos.
Onze e já se passaram as coisas.
– Está ficando tarde – lembrei-lhes.
– Vamos para o parque – decidiu (por todos) Mamífero.
Dentro do condomínio havia a intocada área de lazer. Nós três tomamos a pista tripla com destino à meia-noite. Meia-noite é a coisa completa. Nos acomodamos nos balanços e os pusemos em movimento, deslocando o centro da massa.

E pensar que um dia tudo isso vai acabar...













Transcrições, por Allan Kardec:
1 – Chupa meu bigode.
2 – Pega na cabeça do bigode, Al Pacino.
3 – Não quero falar sobre isso. Ando deveras ocupado. Ando desenvolvendo técnicas. De desenho, por exemplo. O quadriculado da grade de algumas janelas é semelhante ao quadriculado que os sujeitos fazem para aprender a desenhar. Deve possuir um nome, essa técnica. Não sei dizer qual é, mas ainda acho que os malditos sempre dão nome a esses recursos. Enfim, me dê mais prazo para terminar essas coisas, então retomamos.
4 – ...
5 – E nossa air band, Os Esfíncteres?
6 – O resto é perfumaria. Pura bigodagem.
7 – Nunca soubeste jogar.
8 – Sobremaneira idiota de sobreviver, Foche.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

ex animo dicere LXVII


Demorou um bocado para escolher o momento de recorte deste querido filme, As coisas simples da vida (Yi Yi). Então lembrei de quando Gordinho puxa conversa com Ting-Ting:
"- Gostou do filme?
- Achei um pouco sério demais.
- Prefere comédias?
- Não, mas também não precisa ser tão triste.
- A vida é uma mistura de coisas tristes e alegres. Os filmes são tão parecidos com a vida, por isso gostamos deles.
- Quem precisa de filmes, então? Melhor ficar em casa e viver.
- Meu tio diz: "Vivemos três vezes mais tempo desde que inventaram o cinema".
- Como é possível?
- Significa que os filmes nos dão duas vezes mais o que a vida diária dá."

Alors, passez la simplicité!




* imagem: pôster divulgação.

ex animo dicere LXVI



Acontece que eu pretendia escrever algo a respeito de Abbas Kiarostami e as costuras de seus filmes acima expostos. Certamente estaria sendo repetitivo. Afinal, raro é o material que não encontramos na web. Talvez teria algum crédito se reunisse tudo num só sítio. Assim, poderia, inicialmente, chamá-lo de o maior diretor de tomadas no interior de veículos; poderia mencionar a singular "trilogia Koker" formada por "Onde fica a casa do meu amigo?", "E a Vida Continua" e "Através das Oliveiras"; poderia enumerar as imagens recorrentes do diretor (o campo em S, ou Z - dependendo para que lado sua cabeça pende quando fita a tela, que me recordo existir nos três filmes -, e a semelhança entre finais dos dois últimos - plano geral até os personagens sumirem na paisagem também habitual, assim como em "Gosto de Cereja"); poderia afirmar que o limite alcançado (e ultrapassado) entre documentário e ficção em "Close-up" é o que há de mais interessante no cinema; poderia compará-lo a Tsai Ming-Liang, outro diretor que trabalha, ao seu modo, na fronteira dos gêneros cinematográficos; poderia laureá-lo e também lembrá-los que Godard certa vez afirmou que "o cinema termina com Kiarostami"; poderia prosseguir com minha preguiça... No entanto, acho mais prudente indicar a leitura disto e disto, sendo este segundo a fonte d'onde retiro: "Se 'Vida e Nada Mais' era um filme sobre outro filme, 'Através das Oliveiras' avança na metalinguagem e mostra um filme sobre o 'filme sobre o filme'".
Posto isso, prossigo meus recortes. Senhor Ruhi conversa com a personificação de Kiarostami em "E a vida continua" - após uma pergunta que partiu de Puya, filho do diretor:
"- Não entendo o tipo de arte em que as pessoas têm de parecer mais velhas e mais feias. Arte significa felicidade e coisas bonitas que nos tocam. Arte é rejuvenescer as pessoas, não torná-las decrépitas.
- Bem, continuar vivo também é arte.
- Suponho que seja a arte mais sublime, não pensa assim?
- Claro. E, graças a Deus, continuo vivo e mais novo do que nunca!"

Alors, passez le fin du fin du cinéma
!




* imagens: pôsteres divulgação.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

a patetice, isto é, a amizade XIII

::::: encontros fortuitos :::::

E caminhava a passos largos, olhando para o alto. Acompanhava uma pipa não-semovente, a mais alta dentre todas, a única que saíra vitoriosa das batalhas da periferia. Subi até ela, gingando na corda bamba do carretel esticado, tocando sua carriola. Alcancei o cume. De lá via toda a região, sobre a qual crescia o desespero da felicidade. Lá não era ninguém, nem mais deteriorado nem menos azedo. Mas ver tudo que os olhos conseguem alcançar pode ser incompreensível do ponto de vista do juízo, uma vez que o cegará. Desci – deliciosamente deslizando pelo Cerol cortante amplamente amaldiçoado – até o menino que a empinava, menino que fazia do cuspe, arte perene. Seu rosto sardento era o mais belo e sadio dentre os que conheci, dentre dois mil anos de totalitarismo democrático: tinha sua própria expressão de inseto morto e sorriso irradiante, tinha a imperfeição nos dentes, nos abscessos das costas acostumadas à cólera fraternal de fios elétricos, nas esbranquiçadas manchas ocasionadas por vermes sem cabresto que permaneciam indomados nos túneis do corpo semelhantes a espaguetes ansiosos por fugir do intestino via tímpano: Tinpanossoma cruzis. Pareceu-me ter ele os bolsos cheios de valiosos círculos metálicos que tilintavam. O que ele emanava era diferente do que há alguns quartos de hora atrás entravam em espirais de excitação por entre as minhas duas narinas depiladas – func-func com o nariz diante das roupas dela no guarda-roupa. Assim sendo, os pés fraquejaram e o meu toc-toc-toc no asfalto parou. Ponderando, quase me dei por liquidado, vendável. Precisava, por conseguinte, ficar longe de tudo isso.
Transplantando-me para as ruas contíguas, deparei-me com um par de nádegas charmoso. Indescritivelmente magnético. Decidi segui-las, bem como a sua dona. O fiz até o meio-dia, quando na cabeceira da ponte dois caras sem camisa carregando engradado de cerveja a esperavam. Ela cambaleou com eles para dentro do mato. Imaginei que fariam uma festa na beira do rio. Uma van passou e, como eu não fora convidado para o porre, fiz sinal para pará-la.
– Eu sonhei que meu namorado era um peixe. Acordei passando a mão na barba dele achando que eram barbatanas – divagou o motorista.
Quilômetros adiante, ele propositalmente embicou o veículo por sobre a poça. Deu banho de lama na virgem com os cadernos envolta dos braços. Caiu na risada, gingando ao volante, e, como não o acompanhei na heterofobia, o sujeito revestiu-se de um personagem de postura viril.
– Vamos logo, rapaz. Desce aqui. Vai doar sangue, sei lá. Preciso ir pra caverna. E fazer inscrições rupestres.
– Desculpe, mas eu sou tão bicha que tenho medo de ser bicha – respondi, para acalmá-lo.
Vomitado naquela rua não exatamente familiar, eu achei melhor voltar para a companhia das pipas. Passando pela cabeceira outra vez, detive-me ali no início da trilha que as nádegas hipnotizantes se lançaram ao lado de machos suspeitos. Vasculhei a área com os olhos. Zoom in, zoom out. Click, quit. Me preparava para continuar o regresso ao lar quando ouvi movimentos na mata ciliar. Encontros fortuitos são estimulantes, na minha idade, na minha cidade. E, como se o elevador tivesse chegado ao seu destino, a porta se abriu. Dois executivos engravatados saíram do matagal. O primeiro com pasta de couro numa mão e celular noutra. Já o segundo, este falou comigo enquanto embalava a criança nos braços.
– Ei, rapaz, me ajuda a encontrar uma mulher para amamentar meu filho – se meus olhos não me traem como a luz do sol, eles eram os caras d’antes.
– Cadê a mãe?
– Você quer dizer a Matrinchã do Araguaia? – o berço ambulante rebateu.
– Não sei, ela é a mãe?
– Não sei, ela é a mãe? – repetiu ele para o outro.
– O filho é do Viciado do Canachuê – disse ao celular.
– Bem, se é assim... – eu comecei sem terminar, e guinei – Além do mais, agora não tem como, cara. Mas fiquem me esperando aqui. No final de semana saio para dar umas pedaladas e trago com ajuda. Venho até a ponte. Aqui é legal.
Dei as costas e prossegui. Algumas pedras chutadas depois, não me deparei com os meninos empinando pipas e disputando quem era o dono do céu, céu tão amplo, de uma amplitude que pesava nas costas. Pequenos macacos típicos da região empinavam pipas. Brincavam de bolita. Outros macacos se beijavam. Os mais inteligentes se enforcavam. Eu nunca fiz aquelas coisas. Alguns macacos pintavam. Por que os macacos pintam? Eu nunca fiz isso. Contudo, isso só me interessa porque mistérios assim nunca serão solucionados. Como os encontros fortuitos.

a patetice, isto é, a amizade XII

::::: barco de pescar :::::

Viagem I

Por um ano inteiro eu lixei o casco daquele barco. De fora a fora. Ida e volta. De esguelha, por baixo. Proa, popa, quilha, calado. A madeira ficava clara, com aspecto jovem, conforme me empenhava na função. E conforme os calos apareciam nas mãos. Aos finais de semana eu trabalhava nela. Proa, popa, quilha, calado. Milady, minha acrópole. Aos finais de semana, somente e solitariamente. Assim que alcançava a meta diária, a cobria de verniz. Dava a resistência exata para ela ir esperando o grande dia do batizado. A cobria com uma lona preta para dormir aconchegado. Nos tornamos gêmeos. De quando em quando ela conversava comigo. E de quando em quando falava mais do que eu mesmo. Não era difícil saber escutá-la uma vez que estava sendo bem tratada por mim. A consolava quando reclamava de dores na coluna por estar fora d’água. Enfim, até aqui, foram longos doze meses de comunhão que se vistos daqui do presente não parecem nem mais curtos nem menos longos.
De segunda a sexta, de seis da tarde a seis da manhã, eu trabalhava como vigilante noturno. Cantando como Frank Sinatra através da escuridão. Com o coração a palpitar. Na água salgada de olhos azuis. Enaltecendo os sentimentos nobres. Noite adentro. Mais afundo. Mais pro fundo do breu. Lanterna na mão. Do alto da guarita suspensa já me imaginava no barco qual ele fosse uma imponente nau capitaneada por mim. Gritando da gávea. Soltando a isca no rio. Fisgando um peixe. A bordo do meu barco, minha acrópole, Milady. Assando o pescado no barranco. Eu e as estrelas. Gritando da gávea. Içando velas. Recolhendo a âncora. Bússola apontando para noroeste. Bombordo, marujos, a todo vapor! Homem ao mar! Rindo de medo. Eu sozinho a bordo da minha estimada embarcação. Apenas rindo. Lutando contra terríveis feras destemidas. Circunavegando o mundo de água doce. Eu, o barco e, quem sabe, as estrelas. Rindo de saudade. Foram anos de economia para adquiri-lo. Desejo de criança velha. Um sonho modesto realizado. E outros anos de paciência e muito esforço para recuperá-la. Virei as noites. Passando-as em branco. Passeando no barco imaginário. De segunda à sexta. Deslizando por lençóis de água. Desfilando seu admirável corpo. Mão no leme. Cantando como Frank Sinatra de dentro da guarita. Parcimonioso. Do fundo do coração azul. Acionaria o alarme se pressentisse o perigo. A lanterna sobre a mesa. O revólver na cintura. A visão, contemplativa, ponderando sobre que destino tomar. Me imaginando montado em Milady. Cavalgando as ondas. Embicando-a rio acima, manobrando-o rio abaixo. Águas doces, águas salgadas. Viajaria para todo lugar com ele, meu irmão de madeira, e com ela, minha reformada menina. Eles queriam navegar. Queriam me ensinar. Cento e oitenta graus a céu aberto acima da cabeça e o balanço das águas abaixo dos pés, preferencialmente. A vara de pescar estava preparada para a inauguração do barco. Quando este ficasse pronto. E ficaria, em breve. Eu lhe dizia isso e ele se animava. Mais lixas, mais suor. Virei os finais de semana, os feriados. Passando-os em claro. Lixando o casco dela. Navegando mundo afora. Sem sair do lugar. Trezentos e sessenta e tantos dias. Parcimonioso. Nesses três anos de empreitada envelheci o dobro. Antes mesmo de comprá-la já havia mapeado o rio em que me aventuraria. Anos antes. Anos antes de tudo que não me recordo mais. Porque para mim, adquirir o barco foi um marco inicial. Nesse rio escolhido, faríamos uma ótima e refrescante pescaria noturna. Eu, o barco de pescar e o que sobrar das estrelas. Divertimento para um lobo vigilante da noite. De lá debandaríamos para o mar. Procurando uma sereia. Procurando desaguar. E aí, ninguém mais poderia prever o porvir.
Na madrugada em que parti, parti também uma garrafa de champanhe no casco, e, antes de cair em pausa meditativa ao sabor do cochichar as ondas, que de tão estranhas pareciam árvores farfalhando, me vi obrigado a dar queixa perante a abóbada celeste.
– Por que as estrelas estão tão apagadas?


Viagem II

[Tosse áspera]
– Ainda bem – ruidosamente pigarreei e senti a pleura descolar –, a maré parece estar boa para mim, e amém.
Estava em noturnas águas tupiniquins, além-rio. Vegetação em miniatura. Cemitérios e ferros-velhos com cerca elétrica. Diamba em abundância. Promessas eróticas não realizadas. Vidro superfaturado para o mercado estagnado. Crime organizado, pois sim! Eis aqui o assimétrico estame das estórias sem fim... Surubas, escaramuças & escândalos, ó meus leitores de descoloridos mullets sintéticos: além do que há de melhor em meretrizes de longa estrada. Vejam aquele ponto no mapa flutuando ao sabor das correntes, ao capricho dos ventos, na oleosidade do espermacete e no vazio do périplo: eu, Milady e nossa caturrice proposital. Notem-nos sendo atraídos para a parede de corais que protege aquela praia, que, calculo, vocês não devem estar vendo nitidamente. Bem, jamais imaginei que meu veleiro orçasse (a proa em direção ao vento, timoneiro) pela costa com tamanha facilidade. Seria melhor se meu ócio estivesse à deriva? Pode ser. Também posso adaptar uma frase de Mark Twain: “Se você não gosta do clima no mar, espere cinco minutos e ele vai mudar”. No entanto, querendo ver-me fora de algo que nunca procurei – mas que talvez tivesse involuntariamente criado –, o recomendado seria atracar no porto mais próximo e sossegar. Então lembrei que certa vez, pouco tempo atrás, interceptei, pelo rádio desengonçado, um profético gringo dizer que: “Every harbour’s called Holy Dread”.
Navegava, portanto, a caminho do porto, no piloto automático, na brandura de um sonho oceânico, e de repente – assim como todo o sempre – a maré inverteu. Para ajudar, a gentil corrente que me embalava se opôs ao vento – que de 18 nós loucamente subiu para 37 (cerca de 33 para 68km/h, uma variação de algo em torno de 35km/h). Não demorou para o céu desabar, deixando cair tesouras com pontas abertas, sanguinárias lâminas de barbear, canivetes suíços, ferraduras rústicas, chifres de aço... Relampejava copiosamente – cabrum, cabrum-brum –, e as descargas elétricas lancinantes cortavam-me a visão por segundos que pareciam minutos de coma. Recordei-me imediatamente da época em que não me penteava ou barbeava diante do espelho (fazia-o no breu). As coisas eram feitas nas coxas, no rumo ou na ausência dele. Recordei-me também do mês em que passei tomando banho sem luz alguma no toalete. Cutucava as luminárias e seus bocais com um rodo, depois com um cabide, e nada. Pifaram-se, as lâmpadas, meus castelos de Lego ao molho madeira, peças sobressalentes de quebra-cabeças, e praguejei, pois, nisso acreditava. No 31° dia de escuridão (isso porque os meses com menos de trinta e um dias são mancos, aleijadinhos, meses defeituosos, desafinados e desarticulados, portanto, dignos de inexistência por aniquilação), bem, neste dia, meus carrosséis desativados, vim a descobrir que a explicação para o soturno breu era o interruptor! E de idêntica maneira inoperante me senti impotente naquele momento da (agora, e excetuando o trajeto do rio) mal planejada circunavegação. Recordei-me também de séculos antes, quando em terra, na casa de algum marinheiro, ele me deu conselhos... Um deles foi o de escolher bons ângulos para deixar o vento, ondeante, me levar – nas graças do destino – para descer as ondas em caso de tormenta. Lhe pergunto: como é que se faz isso, seu viado? Onde diabos fica o porquete e a carlinga? Como saberia eu que o barômetro me alertaria sobre tais declinações climáticas? Precauções de navegação? Anúncio de tempestades que seguramente me colocariam em maus lençóis? Eu estava tão confuso quanto um menino de 13 anos que se descobre pai no dia em que os professores anunciam: parabéns, você não ficou de recuperação.
Enquanto retornava consternado dessas divagações, Milady adernava parcialmente e eu choramingava – boo-hoo, boo-hoo, hoo-hoo – em nítida proporção inferior a da tormenta. Os cabos passavam rasgando pelos cunhos, pareciam cavalos correndo um GP estático: cachorros raivosos atrás da presa robótica. A biruta não indicava porra alguma, estava desorientada pelo fugaz Minuano sujo que trouxera consigo uma frente-fria dos leitos lúgubres do SUS (de todas as Santas Casas de Misericórdia!) e, em menor quantidade, do Sul, da Argentina. O GPS, esse bastardo sabichão, estava enguiçado, ensopado. “Volta, volta pro paizinho, meu amoréco” – eu lhe murmurava. Algumas defensas e tubulões caíram no mar, outros, ligeiramente firmes, como eu, não. O convés ficou inundado e com pedaços do meu gerador eólico e minhas antenas remendadas. Milady arfava nervosa em seu balouçar. Toda esforço, toda dor de coluna. Pobre doçura, surfando e lutando para não desaparecer como uma casca de pistache num balde de esterco salinizado. Aquela luz branca contínua, a luz de mastro, parecia um pára-raios, pois, atraía todos os relâmpagos. Diabos! Tinha de fazer algo, mas não conseguia: encontrava-me (sic) tonto. Da tempestade determinada, audaciosa, medida em assombrosas escalas megalomaníacas, sibilava o vento: emaranhando meus cabelos católicos e produzindo, por conseguinte, um zunido contínuo muito do incomodo. No indeterminado instante que ele cessou, fiz, indignado, um bico retal de porcelana e, imitando-o, dei continuidade àquele longo silvo uniforme. Só para zombar. Só para rir de mim mesmo. Só para voltar a ser Frank Sinatra. My way. Soavam como uma salva de palmas tenebrosas – com ajuda do balançar insano de Milady –, as mordidas das montanhas d’água proeminentes da torrente esfacelando-se em seu castigado casco, no pequeno calado. Calculei 5 pés de calado, algo próximo a 1,5m, desta distância vertical da quilha de Milady à linha de flutuação. Pelo visto algumas coisas eu conseguia fazer mesmo amputado pela natureza. E que dizer das grossas gotas doloridas e, portanto, torturantes, tamborilando na grande aba de meu felpudo chapéu que se equilibrava naquele turbilhão aquático de Posêidon? O adquirira num brechó, no brechó esportivo da Travessa dos Ateliês, em Vallegrand. Algo escorreu de meu rosto, se foi mais uma lágrima, eu não sei informar. Não me concederia o luxo de sentir saudade, de frio, medo, enfim, qualquer um desses sentimentos risíveis e insignificantes, psicológicos. Como, afinal, das nuvens escorriam tal volume líquido, feito esponja, melhor, torneira de olhos bem aberta, também não sei explicar. Deixo a cargo das esotéricas previsões.
Quatro horas, cinco horas de tempestade... Houston, we have a problem! Click. Click. Apertei algo que não deveria ter apertado. O dial está piscando. Não sei onde estou pisando. Mayday. Mayday. Câmbio e desligo...
O vento ainda zunia zangado quando o granizo começou a cair. Coloquei outro chapéu de abas reforçadas, menores, entretanto. Eram como balas atirando em mim, os pedaços de gelo. Nem o sono interrompido – de 45 minutos vivo, 45 minutos morto – me era destinado. Todo esse tempo nebuloso, tentava manter as velas mareadas. Consegui manter (restabelecer, na verdade) a rota após os trovões e as pedras darem uma singela trégua. Antes disso, mal conseguia servir-me um copo de bebida para firmar o pulso ao leme e fixar a atenção no caos. De tanto amarrar cordas, os calos de minhas mãos começavam a engrossar. Larguei as amarras. Parece que involuntariamente me preparava para desistir. Deu-se um intrigante ranger do eixo do leme: tinha de lubrificar as luvas, as juntas, os cotovelos, e demais conexões, mas não agora, quem sabe antes da valsa fúnebre, pois, naquele minuto, esforcei em lubrificar as entranhas congestionadas da garganta irritada pela água salgada – glub, glup – crispando os lábios enternecidos após a passagem do destilado. O maior pesar era saber que teria de voltar à cidade anterior para reparar Milady antes de prosseguir viagem.
Finalmente, consegui amainar as velas com segurança. Justo em tempo de me entregar ao inevitável fim. Em seguida, o Minuano dissipou-se e a névoa parecia desfazer-se. Agruras e azedumes vividos, pelo menos estes haviam passado batido. “Por minha sorte, salvo da morte”, como desabafaria o almirante genovês, biltre ou não, Cristóvão Colombo. Agora, a espuma branca que subia das ondas, borrifava alívio sobre mim. Ficou gostoso, o pós. Mais educado, o vento enchia as velas criando junto a estas uma amizade temporária. Se brincar até apareceria uma garrafa com uma mensagem dentro... Por fim, desfilávamos vertiginosamente o Atlântico: dissipando maus presságios e foices esboçadas.
Mas alguém poderia estar precisando de ajuda naquela colérica noite. Um ser menos afortunado poderia estar diante de um naufrágio e gritando:
There she blows!
Ou seja, a embarcação dava seu último suspiro e desaparecia no grande estômago deste imenso banheiro que é o mar.
Foi por isso que aprendi o -.-. --- -.. .. --. --- / -- --- .-. ... . . Aprendi também as siglas, os acrônimos e as abreviações. PPB, PPS, PCB, CONEPE, CENIMAR, PIER, IMARSAT, PANAMAR, BBC, UDR, ATDI, MBV, OMPS, OCP, CZPE, MCDV, II, RPG, M&M's, RAP, ASDVOP, BR, LA, UFSC... Porém, isso tem mais que ver com a época do colégio. Professores faziam joguetes para permitirem aos alunos que acertassem o significado das siglas mencionadas saírem mais cedo. Meus amigos vagabundos subitamente ficaram metódicos. Diziam a sigla, o significado e a área do conhecimento. Todo dia, três vezes ao dia, de segunda a segunda, por meia-hora cada. Isso lá deve ter alguma relação com a necessidade de, passado os anos dourados e prosseguindo na atividade abreviativa, eles usarem capacete de futebol americano, já que desmaiavam após tais manifestações de caráter poluído. Quanto a mim, ao contrário das siglas e seus parentes, não fui capaz de assimilar e distinguir corretamente aquela enciclopédia de nós: nó raso, ballestrinque, lais de guia, nó de correr, união, ring knot, surgeon... Absolutamente turvo esse ofício.
Desci
.........................do
...................................convés.
Ouvi o som que o rádio emitia.
CQ CQ CQ K
CQ CQ CQ K DX DE PYJJ72W PYJJ72W K
(Chamada geral. Chamada geral. Chamada geral. Câmbio. DX de PYJJ72W PYJJ72W. Câmbio.)
A princípio com algumas interferências, então, com mais nitidez. Deveria ser algum molusco cuspindo fogo, um robalo, marlin ou camarão pistola tentando contato. Averigüei. Tratava-se de uma chamada QSO para ser estabelecida entre dois pontos com estações de outros países, uma vez que o prefixo DX fora mencionado. Tendo em mão a chave eletrônica, digo, o manipulador estapafúrdio, desci lenha na radiotelegrafia internacionalizada pelo simpático CW (Continuous Wave).
DI DÁ DÁ DI
DI DÁ DÁ DI
DI DI DI DÁ DÁ
DI DI DI DI DÁ
[...]
E assim por diante como transcrevo, em mais detalhes, do honorável -- --- .-. ... ., para as abreviações abaixo.
PP341AO DE PYJJ72W R UR RST 567 MY NAME IS BIGODE PP341AO DE PYJJ72W KN (PP341AO de PYJJ72W. Tudo recebido. Seu sinal RST é 567. Meu nome é Bigode. PP341AO de PYJJ72W. KN – que é o convite de transmissão à específica estação.)
PYJJ72W DE PP341AO MY QTH IS BUDAPESTE ES MY NAME IS ORLANDO UR RST 588 588 588 73 TO U AND URS PYJJ72W DE PP341AO AR (PYJJ72W de PP341AO. Minha cidade é Budapeste e meu nome é Orlando. Seu sinal RST é 588 588 588. Saudações para você e os seus. PYJJ72W de PP341AO. AR – que se trata do fim da mensagem.)
Enfastiei-me daquilo tão rápido quanto o cetáceo preso ao trenó de Nantucket. Provavelmente era apenas um bosta querendo jogar conversa fora ou treinar seus habilidades inatas para algum dos milhares de concursos obscuros que cercam essa prática amadora.
PP341AO DE PYJJ72W OK DR OB JEAN TKS FOR ALL INFO AS AS PSE KYF KYF TKS VA (PP341AO de PYJJ72W. Ok caro amigo Orlando. Obrigado por todas as informações. Aguarde. Aguarde por favor. Mate seus amigos! Mate seus amigos! Obrigado. VA – que se trata do fim da transmissão.)
PYJJ72W DE PP341AO SRI HW PSE RPT (PYJJ72W de PP341AO. Desculpe. Como? Por favor, repita.)
Mas a essa altura já desligara meu aparelho receptor.
...................................convés.
.........................ao
Subi
No frescor da noite marinha, pisquei os olhos com força, expirando profundamente – tanto que senti uma pontada no peito. Levantara-me para dar o trago final no copo que tinha nas mãos e ir buscar outra botelha cheia, de alegria solitária também. Arrebentavam-se em Milady, ondas despreocupadas. Quando me virei, avistei um par de golfinhos com seus folguedos ruidosos no escuro do mar. Um pouco mais ao lado encontrava-se o brilho fosforescente dos plânctons valsando passivamente pelas águas correntes ao redor Milady – involuntariamente simulando waterlilies européias impressionistas. “A maré vermelha...” – resmunguei a mim mesmo. As Florações de Algas Nocivas (FAN). Uma tonalidade de água tomada pela coloração dos organismos microscópicos que nela estão em abundância. Gostaria de ter ficado admirando por mais tempo, mas com um copo cheio, não vazio. Então, rapidamente, corri até a adega, peguei a garrafa escolhida e voltei para o convés. Olhei, precisamente, em volta, o mar parecia uma piscina de clube ao fim de tarde.
Tinham ido embora...
E tinham deixado algo...
A “metade” minguante da lua invadiu-me em seu nulo reflexo, buscando não o aconchego da presença vaga, mas a redenção, e nessa redenção a tragédia envolta pelo papel laminado impermeável: seu reflexo duradouro. A profundidade oceânica estendia-se nostálgica ao além-mar. E ainda acreditava, sem fraquejar, mesmo perante essas alucinações sublinhando meu porre, que Mark Twain poderia estar certo, mas nem sempre.


Viagem III

Quando avistei seu contorno, sua silhueta, em meio ao breu da densa neblina, a tempestade já minguara por completo. Aproximou-se de mim, cuidadosamente, a bombordo, com sua jangada maltrapilha. Limitado a uma precária visibilidade duvidosa, iluminei com uma lanterna aquele calmaria. As primeiras coisas que notei – durante o aparecimento gradual daquele vulto, escapando do sobrecéu portátil: o vetusto pálio feito de glacê – foi que ele manuseava um palito de dente pelo vão de todos os dentes sem sequer tocá-lo, apenas com os músculos do rosto, e ainda usava uma compressa de sabiá coberta de lantejoula em cima de ferimento na clavícula. Sendo assim, soube imediatamente tratar-se de um matuto. Trazia nas mãos calejadas um exemplar de “Os Pequenos Jangadeiros” de Aristides Fraga Lima – livro infanto-juvenil da nostálgica Coleção Vaga-Lume lançada nos anos 80. Apresentou-se como Coronel Medeiros, e fios de cabelos sebosos espirraram dele quando retirou a boina. Sustentou que atravessara toda a extensão do Rio São Francisco (como na estória do livro) e desembocara no Atlântico, entre Maceió, no Alagoas, e Aracaju, no Sergipe. Expressou-me sua admiração, e inspiração pelo personagem Quinquim, jangadeiro protagonista, o que não despertou nada em mim. Queixumeiro razoável, estendi a mão para que o hidrofóbico Coronel adentrasse, com segurança, Milady. Entretanto, Iemanjá confirma, jamais seria capaz de laureá-lo: tinha tanta poeira impregnada em seu corpo que se assemelhava a um macaco morto à chinelada em alto-mar.
– Vê aquilo, marujo? – apontando para uma árvore que brotava ao lado do leme da jangada – No caminho, uma cotovia granívora semeou-a: uma goiabeira, e os galhos são flexíveis. Os frutos são de interior branco e vermelho. Glóbulos, lóbulos...
– Achei que fosse beladona... E o Absinto, cadê?
– O quê? Curto circuito?
Quase isso, quase isso, parceiro. Então, simulei que enchia um copo formado com minhas mãos e o entornava goela abaixo.
– Ah, não! Águas penetrantes para pessoas repugnantes, nem. Não, não, nada de venenos sagrados, de êxtase divino induzido. Só esse fumo aqui... – e, por conseguinte, também retirou um pacote do lendário Colomy encomendado pela Souza Cruz, madrinha da Ilha Fiscal, para fazer par ideal com suas vitaminas solanáceas – Acontece que no flagelo da tempestade perdi meu cachimbo de osso de cabrito – lamentou-se.
– Vamos jogar mosquito ao alvo? – sugeri – Apostado, sem dúvida. Quem vencer leva esse capo de prata – mostrei-lhe o utensílio, o qual pouco lhe interessou, exceto pelo brilho.
– E como se joga isso?
– A gente ancora perto de uma ilha. Para tal, temos de beber muito álcool antes, e durante. Depois, temos que acertar os mosquitos com o jato de urina. Os alvos são móveis, o que dificulta o raciocínio etílico. O maior banheiro (e companheiro) do mundo, o mar, receberá nossas metralhadas e servirá de cemitério para os abatidos. Ganha quem derrubar cinco mosquitos primeiro.
– Agradeço o convite. Mas prefiro fumar, Marujo – enquanto enrolava o fumo, Coronel Medeiros alegou que o mesmo era produzido em sua vila – Além de mim, em pessoa, eternamente fardado, tão honrado quanto Drummond, isto é a única coisa de valor daquele lugar.
Fiquei com preguiça de rir, já que eu não saíra do meu lugar (na guarita). É chegado, enfim, o momento de admitir que nunca houve embarcações em meu mar, o furioso mar em ebulição de um titubeante cowboy perdido, par excellence, em sua vaga trilogia lançada ao vento litorâneo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

a patetice, isto é, a amizade XI

::::: laboratório sensorial :::::

With no hesitation, no delay, os pôneis acordaram do coma alcoólico. Levantaram da cama e puseram-se a galopar no andar de cima. Irritado, também acordei, em cânter, porém. Nesse movimento, a cabeça balançando feito um aquário, fui até a devastada sala para notar que um hímen havia comido o dichavador and the stash bag with all tomorrow’s reefers. Internando-me, portanto, aqui neste apartamento onde em cada andar funciona uma estrebaria chamada Família Para Corte. Tentei ver as coisas de outro ângulo. Bem, nessa insistência, consegui, além do torcicolo, perceber que ao menos as namoradas de Dota estavam ali para me fazer companhia. Apanhei duas edições delas – uma recente, outra antiga: as que ele menos sentia ciúme – e me dirigi a alcova. Mas antes de me apaixonar por uma personagem de propaganda, antes mesmo que eu pudesse tocar a maçaneta do banheiro, a visualizei girar pelo lado de dentro.
– A água da torneira ficou vermelha! – era Seven correndo dali, apavorado, fazendo-me desistir do fantasmagórico sexo solitário – Abre tudo que é sangue. Deixa ir embora. Aperta forte a descarga. Chuveiro e pia: no máximo!
A noite inteira Seven havia tentado me persuadir a acompanhá-lo ao terreiro. Fraternalmente beijou-me a boca para se expressar com mais convicção que as palavras. De todo modo, fiz como mandou. Referente tais assuntos, eu não passava de um macaco medroso que evitava as árvores da vida. Por outro lado, não deixo de encarar o inferno da morte alheia. E foi aí que escutei, por detrás do box da banheira, grunhidos de agonia que me fizeram investigar sua fonte.
– Eu vi um Jedi – delirava Turista afundado no gelo daquele que fora nosso freezer na madrugada anterior – Eu vi um Jedi e ele fazia mosh pit sobre uma pilha de ovos.
– Parece legal. Até eu que sou mais primata queria fazer isso.
Joguei uma toalha em seu rosto. Fechei a janela para que não adoecesse. Deixei as torneiras seguirem seu curso. E voltei à sala. A porta estava aberta e Seven, na certa, fugira do horror que eram aqueles matadouros em forma de caixotes empilhados sem perspectiva de crescimento de pasto. Tentei ver as coisas de qualquer ângulo. Parei porque senti que poderia ou vomitar ou ter um ataque epilético. Como uma vaca louca que chega ao paraíso.
– Soke! – só havia uma pessoa que me chamava daquele jeito, e eu gostava dela – Soke, cheguei, Soke!
– Não tem ninguém aqui, pula o muro, porra! – disse a minha voz para o sujeito lá embaixo, na guarita sem guarda.
Como disse, a porta estava aberta feito cicatriz recente então me sentei na poltrona do cineasta para esperá-lo adentrar meu campo de visão antropológico. Não demorou quinze minutos para subir – uma nova espécie de milagre se tratando de – McArthur. Enquanto ele engatinhava para dentro e eu ria da cena, pensei na rua, pensei nas formigas carregando corpos em plena luz do dia para além do quebra-mola da rua onde moro. Fiquei triste.
– Vamos sair daqui – ele sugeriu – O clima aqui tá pesado.
[...]
Começou a ventar orvalho salgado assim que sentamos nas cadeiras da lanchonete.
– Fecha os olhos e imagina o som do mar, Soke.
– Hmk – fiquei algum tempo assim e quase dormi.
– Agora abre, Iemanjá. Vê a areia e a espuma branca?
Photobucket
Estarrecido, respondi que sim. No meio da cidade meu coração batia ao ritmo da maré baixa. As ondas abraçando a areia e o sol abraçando o mar. Era algo para se aplaudir. Por isso começou a chover em seguida.
Photobucket
– O mar fica tão bonito quando chove – suspirou McArthur, terrorista cognitivo.
– É. Ele se agita – comentei, repleto do idiotismo culposo da ressaca.
– Mas vamos embora. Essa praia é uma merda. Estamos sem anzóis e os peixes não foram com a nossa cara. Vamos pegar o barco de pescar e ir passar uns dias na minha ilha.
– Que nada, me deixa aqui, McArthur. Vou pegar um jacaré – e aí, meus caros, eu voei ao encontro do pára-choque do primeiro carro que as correntes marítimas trouxeram.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXXII

::::: hei yan quan :::::

Nem eu.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXXI

::::: falling down :::::

Na minha frente só tinha esse cara. Queria que ele fosse bastante ágil, assim eu seria o próximo da fila antes que o chão amolecesse de vez. Na pressa, vi o saldo do sujeito sem a intenção de. Lá estava, brilhando como uma bomba mesquinha: $umsaláriomínimo. Diante dos números, ele parou e pensou por alguns segundos. Pôs-se, em seguida, a bater violentamente a cabeça no caixa eletrônico. Algumas mulheres gritaram e debandaram da fila. Eu o aplaudi, sorridente. Nada mais honesto, nada mais real que Um Dia de Fúria.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXX

::::: dreams :::::

Está ontologicamente provado: Kurosawa mora no meu subconsciente. Desde que dormi assistindo Dreams, Kurosawa mora (e não sai) daqui. Tamanha verdade inegável sobreveio-me muitos anos após o ocorrido. Em um daqueles alvoreceres de idéias contraditórias onde rememoramos todas as próprias pretéritas opções transcendentais. Logo, várias de minhas ações, melodias e produções partiam, inconscientemente, das proposições de “nossos” Sonhos.
Foi aí, então, chegando a tal fatal conclusão, que dormi por dez dias de saudade. Quando acordei nada havia mudado. O mundo prosseguira, indiferente, firme, em fogo. O céu estava lá, eu estava lá, o prazo de validade era ignorado, tudo estava se deteriorando, o ventilador girava e os pescoços também. Fiquei tão feliz que matei “meus” sonhos sobressalentes.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXIX

::::: gegen die wand :::::

Não era um bem sucedido crash test Contra a Parede. Éramos eu e McArthur, dois risonhos sentimentais, capotando o carro ao som de Molten Light.