::::: barco de pescar :::::
Viagem I
Por um ano inteiro eu lixei o casco daquele barco. De fora a fora. Ida e volta. De esguelha, por baixo. Proa, popa, quilha, calado. A madeira ficava clara, com aspecto jovem, conforme me empenhava na função. E conforme os calos apareciam nas mãos. Aos finais de semana eu trabalhava nela. Proa, popa, quilha, calado. Milady, minha acrópole. Aos finais de semana, somente e solitariamente. Assim que alcançava a meta diária, a cobria de verniz. Dava a resistência exata para ela ir esperando o grande dia do batizado. A cobria com uma lona preta para dormir aconchegado. Nos tornamos gêmeos. De quando em quando ela conversava comigo. E de quando em quando falava mais do que eu mesmo. Não era difícil saber escutá-la uma vez que estava sendo bem tratada por mim. A consolava quando reclamava de dores na coluna por estar fora d’água. Enfim, até aqui, foram longos doze meses de comunhão que se vistos daqui do presente não parecem nem mais curtos nem menos longos.
De segunda a sexta, de seis da tarde a seis da manhã, eu trabalhava como vigilante noturno. Cantando como Frank Sinatra através da escuridão. Com o coração a palpitar. Na água salgada de olhos azuis. Enaltecendo os sentimentos nobres. Noite adentro. Mais afundo. Mais pro fundo do breu. Lanterna na mão. Do alto da guarita suspensa já me imaginava no barco qual ele fosse uma imponente nau capitaneada por mim. Gritando da gávea. Soltando a isca no rio. Fisgando um peixe. A bordo do meu barco, minha acrópole, Milady. Assando o pescado no barranco. Eu e as estrelas. Gritando da gávea. Içando velas. Recolhendo a âncora. Bússola apontando para noroeste. Bombordo, marujos, a todo vapor! Homem ao mar! Rindo de medo. Eu sozinho a bordo da minha estimada embarcação. Apenas rindo. Lutando contra terríveis feras destemidas. Circunavegando o mundo de água doce. Eu, o barco e, quem sabe, as estrelas. Rindo de saudade. Foram anos de economia para adquiri-lo. Desejo de criança velha. Um sonho modesto realizado. E outros anos de paciência e muito esforço para recuperá-la. Virei as noites. Passando-as em branco. Passeando no barco imaginário. De segunda à sexta. Deslizando por lençóis de água. Desfilando seu admirável corpo. Mão no leme. Cantando como Frank Sinatra de dentro da guarita. Parcimonioso. Do fundo do coração azul. Acionaria o alarme se pressentisse o perigo. A lanterna sobre a mesa. O revólver na cintura. A visão, contemplativa, ponderando sobre que destino tomar. Me imaginando montado em Milady. Cavalgando as ondas. Embicando-a rio acima, manobrando-o rio abaixo. Águas doces, águas salgadas. Viajaria para todo lugar com ele, meu irmão de madeira, e com ela, minha reformada menina. Eles queriam navegar. Queriam me ensinar. Cento e oitenta graus a céu aberto acima da cabeça e o balanço das águas abaixo dos pés, preferencialmente. A vara de pescar estava preparada para a inauguração do barco. Quando este ficasse pronto. E ficaria, em breve. Eu lhe dizia isso e ele se animava. Mais lixas, mais suor. Virei os finais de semana, os feriados. Passando-os em claro. Lixando o casco dela. Navegando mundo afora. Sem sair do lugar. Trezentos e sessenta e tantos dias. Parcimonioso. Nesses três anos de empreitada envelheci o dobro. Antes mesmo de comprá-la já havia mapeado o rio em que me aventuraria. Anos antes. Anos antes de tudo que não me recordo mais. Porque para mim, adquirir o barco foi um marco inicial. Nesse rio escolhido, faríamos uma ótima e refrescante pescaria noturna. Eu, o barco de pescar e o que sobrar das estrelas. Divertimento para um lobo vigilante da noite. De lá debandaríamos para o mar. Procurando uma sereia. Procurando desaguar. E aí, ninguém mais poderia prever o porvir.
Na madrugada em que parti, parti também uma garrafa de champanhe no casco, e, antes de cair em pausa meditativa ao sabor do cochichar as ondas, que de tão estranhas pareciam árvores farfalhando, me vi obrigado a dar queixa perante a abóbada celeste.
– Por que as estrelas estão tão apagadas?
Viagem II
[Tosse áspera]
– Ainda bem – ruidosamente pigarreei e senti a pleura descolar –, a maré parece estar boa para mim, e amém.
Estava em noturnas águas tupiniquins, além-rio. Vegetação em miniatura. Cemitérios e ferros-velhos com cerca elétrica. Diamba em abundância. Promessas eróticas não realizadas. Vidro superfaturado para o mercado estagnado. Crime organizado, pois sim! Eis aqui o assimétrico estame das estórias sem fim... Surubas, escaramuças & escândalos, ó meus leitores de descoloridos
mullets sintéticos: além do que há de melhor em meretrizes de longa estrada. Vejam aquele ponto no mapa flutuando ao sabor das correntes, ao capricho dos ventos, na oleosidade do espermacete e no vazio do périplo: eu, Milady e nossa caturrice proposital. Notem-nos sendo atraídos para a parede de corais que protege aquela praia, que, calculo, vocês não devem estar vendo nitidamente. Bem, jamais imaginei que meu veleiro orçasse (a proa em direção ao vento, timoneiro) pela costa com tamanha facilidade. Seria melhor se meu ócio estivesse à deriva? Pode ser. Também posso adaptar uma frase de Mark Twain: “Se você não gosta do clima no mar, espere cinco minutos e ele vai mudar”. No entanto, querendo ver-me fora de algo que nunca procurei – mas que talvez tivesse involuntariamente criado –, o recomendado seria atracar no porto mais próximo e sossegar. Então lembrei que certa vez, pouco tempo atrás, interceptei, pelo rádio desengonçado, um profético gringo dizer que: “
Every harbour’s called Holy Dread”.
Navegava, portanto, a caminho do porto, no piloto automático, na brandura de um sonho oceânico, e de repente – assim como todo o sempre – a maré inverteu. Para ajudar, a gentil corrente que me embalava se opôs ao vento – que de 18 nós loucamente subiu para 37 (cerca de 33 para 68km/h, uma variação de algo em torno de 35km/h). Não demorou para o céu desabar, deixando cair tesouras com pontas abertas, sanguinárias lâminas de barbear, canivetes suíços, ferraduras rústicas, chifres de aço... Relampejava copiosamente – cabrum, cabrum-brum –, e as descargas elétricas lancinantes cortavam-me a visão por segundos que pareciam minutos de coma. Recordei-me imediatamente da época em que não me penteava ou barbeava diante do espelho (fazia-o no breu). As coisas eram feitas nas coxas, no rumo ou na ausência dele. Recordei-me também do mês em que passei tomando banho sem luz alguma no toalete. Cutucava as luminárias e seus bocais com um rodo, depois com um cabide, e nada. Pifaram-se, as lâmpadas, meus castelos de
Lego ao molho madeira, peças sobressalentes de quebra-cabeças, e praguejei, pois, nisso acreditava. No 31° dia de escuridão (isso porque os meses com menos de trinta e um dias são mancos, aleijadinhos, meses defeituosos, desafinados e desarticulados, portanto, dignos de inexistência por aniquilação), bem, neste dia, meus carrosséis desativados, vim a descobrir que a explicação para o soturno breu era o interruptor! E de idêntica maneira inoperante me senti impotente naquele momento da (agora, e excetuando o trajeto do rio) mal planejada circunavegação. Recordei-me também de séculos antes, quando em terra, na casa de algum marinheiro, ele me deu conselhos... Um deles foi o de escolher bons ângulos para deixar o vento, ondeante, me levar – nas graças do destino – para descer as ondas em caso de tormenta. Lhe pergunto: como é que se faz isso, seu viado? Onde diabos fica o porquete e a carlinga? Como saberia eu que o barômetro me alertaria sobre tais declinações climáticas? Precauções de navegação? Anúncio de tempestades que seguramente me colocariam em maus lençóis? Eu estava tão confuso quanto um menino de 13 anos que se descobre pai no dia em que os professores anunciam: parabéns, você não ficou de recuperação.
Enquanto retornava consternado dessas divagações, Milady adernava parcialmente e eu choramingava – boo-hoo, boo-hoo, hoo-hoo – em nítida proporção inferior a da tormenta. Os cabos passavam rasgando pelos cunhos, pareciam cavalos correndo um GP estático: cachorros raivosos atrás da presa robótica. A biruta não indicava porra alguma, estava desorientada pelo fugaz Minuano sujo que trouxera consigo uma frente-fria dos leitos lúgubres do SUS (de todas as Santas Casas de Misericórdia!) e, em menor quantidade, do Sul, da Argentina. O GPS, esse bastardo sabichão, estava enguiçado, ensopado. “Volta, volta pro paizinho, meu amoréco” – eu lhe murmurava. Algumas defensas e tubulões caíram no mar, outros, ligeiramente firmes, como eu, não. O convés ficou inundado e com pedaços do meu gerador eólico e minhas antenas remendadas. Milady arfava nervosa em seu balouçar. Toda esforço, toda dor de coluna. Pobre doçura, surfando e lutando para não desaparecer como uma casca de pistache num balde de esterco salinizado. Aquela luz branca contínua, a luz de mastro, parecia um pára-raios, pois, atraía todos os relâmpagos. Diabos! Tinha de fazer algo, mas não conseguia: encontrava-me (
sic) tonto. Da tempestade determinada, audaciosa, medida em assombrosas escalas megalomaníacas, sibilava o vento: emaranhando meus cabelos católicos e produzindo, por conseguinte, um zunido contínuo muito do incomodo. No indeterminado instante que ele cessou, fiz, indignado, um bico retal de porcelana e, imitando-o, dei continuidade àquele longo silvo uniforme. Só para zombar. Só para rir de mim mesmo. Só para voltar a ser Frank Sinatra.
My way. Soavam como uma salva de palmas tenebrosas – com ajuda do balançar insano de Milady –, as mordidas das montanhas d’água proeminentes da torrente esfacelando-se em seu castigado casco, no pequeno calado. Calculei 5 pés de calado, algo próximo a 1,5m, desta distância vertical da quilha de Milady à linha de flutuação. Pelo visto algumas coisas eu conseguia fazer mesmo amputado pela natureza. E que dizer das grossas gotas doloridas e, portanto, torturantes, tamborilando na grande aba de meu felpudo chapéu que se equilibrava naquele turbilhão aquático de Posêidon? O adquirira num brechó, no brechó esportivo da
Travessa dos Ateliês, em
Vallegrand. Algo escorreu de meu rosto, se foi mais uma lágrima, eu não sei informar. Não me concederia o luxo de sentir saudade, de frio, medo, enfim, qualquer um desses sentimentos risíveis e insignificantes, psicológicos. Como, afinal, das nuvens escorriam tal volume líquido, feito esponja, melhor, torneira de olhos bem aberta, também não sei explicar. Deixo a cargo das esotéricas previsões.
Quatro horas, cinco horas de tempestade...
Houston, we have a problem!
Click. Click. Apertei algo que não deveria ter apertado. O dial está piscando. Não sei onde estou pisando.
Mayday. Mayday. Câmbio e desligo...
O vento ainda zunia zangado quando o granizo começou a cair. Coloquei outro chapéu de abas reforçadas, menores, entretanto. Eram como balas atirando em mim, os pedaços de gelo. Nem o sono interrompido – de 45 minutos vivo, 45 minutos morto – me era destinado. Todo esse tempo nebuloso, tentava manter as velas mareadas. Consegui manter (restabelecer, na verdade) a rota após os trovões e as pedras darem uma singela trégua. Antes disso, mal conseguia servir-me um copo de bebida para firmar o pulso ao leme e fixar a atenção no caos. De tanto amarrar cordas, os calos de minhas mãos começavam a engrossar. Larguei as amarras. Parece que involuntariamente me preparava para desistir. Deu-se um intrigante ranger do eixo do leme: tinha de lubrificar as luvas, as juntas, os cotovelos, e demais conexões, mas não agora, quem sabe antes da valsa fúnebre, pois, naquele minuto, esforcei em lubrificar as entranhas congestionadas da garganta irritada pela água salgada – glub, glup – crispando os lábios enternecidos após a passagem do destilado. O maior pesar era saber que teria de voltar à cidade anterior para reparar Milady antes de prosseguir viagem.
Finalmente, consegui amainar as velas com segurança. Justo em tempo de me entregar ao inevitável fim. Em seguida, o Minuano dissipou-se e a névoa parecia desfazer-se. Agruras e azedumes vividos, pelo menos
estes haviam passado batido. “Por minha sorte, salvo da morte”, como desabafaria o almirante genovês, biltre ou não, Cristóvão Colombo. Agora, a espuma branca que subia das ondas, borrifava alívio sobre mim. Ficou gostoso, o pós. Mais educado, o vento enchia as velas criando junto a estas uma amizade temporária. Se brincar até apareceria uma garrafa com uma mensagem dentro... Por fim, desfilávamos vertiginosamente o Atlântico: dissipando maus presságios e foices esboçadas.
Mas alguém poderia estar precisando de ajuda naquela colérica noite. Um ser menos afortunado poderia estar diante de um naufrágio e gritando:
–
There she blows!
Ou seja, a embarcação dava seu último suspiro e desaparecia no grande estômago deste imenso banheiro que é o mar.
Foi por isso que aprendi o
-.-. --- -.. .. --. --- / -- --- .-. ... . . Aprendi também as siglas, os acrônimos e as abreviações. PPB, PPS, PCB, CONEPE, CENIMAR, PIER, IMARSAT, PANAMAR, BBC, UDR, ATDI, MBV, OMPS, OCP, CZPE, MCDV, II, RPG, M&M's, RAP, ASDVOP, BR, LA, UFSC... Porém, isso tem mais que ver com a época do colégio. Professores faziam joguetes para permitirem aos alunos que acertassem o significado das siglas mencionadas saírem mais cedo. Meus amigos vagabundos subitamente ficaram metódicos. Diziam a sigla, o significado e a área do conhecimento. Todo dia, três vezes ao dia, de segunda a segunda, por meia-hora cada. Isso lá deve ter alguma relação com a necessidade de, passado os anos dourados e prosseguindo na atividade abreviativa, eles usarem capacete de futebol americano, já que desmaiavam após tais manifestações de caráter poluído. Quanto a mim, ao contrário das siglas e seus parentes, não fui capaz de assimilar e distinguir corretamente aquela enciclopédia de nós: nó raso,
ballestrinque, lais de guia, nó de correr, união,
ring knot,
surgeon... Absolutamente turvo esse ofício.
Desci
.........................do
...................................convés.
Ouvi o som que o rádio emitia.
CQ CQ CQ K
CQ CQ CQ K DX DE PYJJ72W PYJJ72W K
(Chamada geral. Chamada geral. Chamada geral. Câmbio. DX de PYJJ72W PYJJ72W. Câmbio.)
A princípio com algumas interferências, então, com mais nitidez. Deveria ser algum molusco cuspindo fogo, um robalo, marlin ou camarão pistola tentando contato. Averigüei. Tratava-se de uma chamada QSO para ser estabelecida entre dois pontos com estações de outros países, uma vez que o prefixo DX fora mencionado. Tendo em mão a chave eletrônica, digo, o manipulador estapafúrdio, desci lenha na radiotelegrafia internacionalizada pelo simpático CW (
Continuous Wave).
DI DÁ DÁ DI
DI DÁ DÁ DI
DI DI DI DÁ DÁ
DI DI DI DI DÁ
[...]
E assim por diante como transcrevo, em mais detalhes, do honorável -- --- .-. ... ., para as abreviações abaixo.
PP341AO DE PYJJ72W R UR RST 567 MY NAME IS BIGODE PP341AO DE PYJJ72W KN (PP341AO de PYJJ72W. Tudo recebido. Seu sinal RST é 567. Meu nome é Bigode. PP341AO de PYJJ72W. KN – que é o convite de transmissão à específica estação.)
PYJJ72W DE PP341AO MY QTH IS BUDAPESTE ES MY NAME IS ORLANDO UR RST 588 588 588 73 TO U AND URS PYJJ72W DE PP341AO AR (PYJJ72W de PP341AO. Minha cidade é Budapeste e meu nome é Orlando. Seu sinal RST é 588 588 588. Saudações para você e os seus. PYJJ72W de PP341AO. AR – que se trata do fim da mensagem.)
Enfastiei-me daquilo tão rápido quanto o cetáceo preso ao
trenó de Nantucket. Provavelmente era apenas um bosta querendo jogar conversa fora ou treinar seus habilidades inatas para algum dos milhares de concursos obscuros que cercam essa prática amadora.
PP341AO DE PYJJ72W OK DR OB JEAN TKS FOR ALL INFO AS AS PSE KYF KYF TKS VA (PP341AO de PYJJ72W. Ok caro amigo Orlando. Obrigado por todas as informações. Aguarde. Aguarde por favor. Mate seus amigos! Mate seus amigos! Obrigado. VA – que se trata do fim da transmissão.)
PYJJ72W DE PP341AO SRI HW PSE RPT (PYJJ72W de PP341AO. Desculpe. Como? Por favor, repita.)
Mas a essa altura já desligara meu aparelho receptor.
...................................convés.
.........................ao
Subi
No frescor da noite marinha, pisquei os olhos com força, expirando profundamente – tanto que senti uma pontada no peito. Levantara-me para dar o trago final no copo que tinha nas mãos e ir buscar outra botelha cheia, de alegria solitária também. Arrebentavam-se em Milady, ondas despreocupadas. Quando me virei, avistei um par de golfinhos com seus folguedos ruidosos no escuro do mar. Um pouco mais ao lado encontrava-se o brilho fosforescente dos plânctons valsando passivamente pelas águas correntes ao redor Milady – involuntariamente simulando
waterlilies européias impressionistas. “A maré vermelha...” – resmunguei a mim mesmo. As Florações de Algas Nocivas (
FAN). Uma tonalidade de água tomada pela coloração dos organismos microscópicos que nela estão em abundância. Gostaria de ter ficado admirando por mais tempo, mas com um copo cheio, não vazio. Então, rapidamente, corri até a adega, peguei a garrafa escolhida e voltei para o convés. Olhei, precisamente, em volta, o mar parecia uma piscina de clube ao fim de tarde.
Tinham ido embora...
E tinham deixado algo...
A “metade” minguante da lua invadiu-me em seu nulo reflexo, buscando não o aconchego da presença vaga, mas a redenção, e nessa redenção a tragédia envolta pelo papel laminado impermeável: seu reflexo duradouro. A profundidade oceânica estendia-se nostálgica ao além-mar. E ainda acreditava, sem fraquejar, mesmo perante essas alucinações sublinhando meu porre, que Mark Twain poderia estar certo, mas nem sempre.
Viagem III
Quando avistei seu contorno, sua silhueta, em meio ao breu da densa neblina, a tempestade já minguara por completo. Aproximou-se de mim, cuidadosamente, a bombordo, com sua jangada maltrapilha. Limitado a uma precária visibilidade duvidosa, iluminei com uma lanterna aquele calmaria. As primeiras coisas que notei – durante o aparecimento gradual daquele vulto, escapando do sobrecéu portátil: o vetusto pálio feito de glacê – foi que ele manuseava um palito de dente pelo vão de todos os dentes sem sequer tocá-lo, apenas com os músculos do rosto, e ainda usava uma compressa de sabiá coberta de lantejoula em cima de ferimento na clavícula. Sendo assim, soube imediatamente tratar-se de um matuto. Trazia nas mãos calejadas um exemplar de “Os Pequenos Jangadeiros” de Aristides Fraga Lima – livro infanto-juvenil da nostálgica
Coleção Vaga-Lume lançada nos anos 80. Apresentou-se como Coronel Medeiros, e fios de cabelos sebosos espirraram dele quando retirou a boina. Sustentou que atravessara toda a extensão do Rio São Francisco (como na estória do livro) e desembocara no Atlântico, entre Maceió, no Alagoas, e Aracaju, no Sergipe. Expressou-me sua admiração, e inspiração pelo personagem Quinquim, jangadeiro protagonista, o que não despertou nada em mim. Queixumeiro razoável, estendi a mão para que o hidrofóbico Coronel adentrasse, com segurança, Milady. Entretanto, Iemanjá confirma, jamais seria capaz de laureá-lo: tinha tanta poeira impregnada em seu corpo que se assemelhava a um macaco morto à chinelada em alto-mar.
– Vê aquilo, marujo? – apontando para uma árvore que brotava ao lado do leme da jangada – No caminho, uma cotovia granívora semeou-a: uma goiabeira, e os galhos são flexíveis. Os frutos são de interior branco e vermelho. Glóbulos, lóbulos...
– Achei que fosse beladona... E o Absinto, cadê?
– O quê? Curto circuito?
Quase isso, quase isso, parceiro. Então, simulei que enchia um copo formado com minhas mãos e o entornava goela abaixo.
– Ah, não! Águas penetrantes para pessoas repugnantes, nem. Não, não, nada de venenos sagrados, de êxtase divino induzido. Só esse fumo aqui... – e, por conseguinte, também retirou um pacote do lendário
Colomy encomendado pela Souza Cruz, madrinha da Ilha Fiscal, para fazer par ideal com suas vitaminas solanáceas – Acontece que no flagelo da tempestade perdi meu cachimbo de osso de cabrito – lamentou-se.
– Vamos jogar mosquito ao alvo? – sugeri – Apostado, sem dúvida. Quem vencer leva esse capo de prata – mostrei-lhe o utensílio, o qual pouco lhe interessou, exceto pelo brilho.
– E como se joga isso?
– A gente ancora perto de uma ilha. Para tal, temos de beber muito álcool antes, e durante. Depois, temos que acertar os mosquitos com o jato de urina. Os alvos são móveis, o que dificulta o raciocínio etílico. O maior banheiro (e companheiro) do mundo, o mar, receberá nossas metralhadas e servirá de cemitério para os abatidos. Ganha quem derrubar cinco mosquitos primeiro.
– Agradeço o convite. Mas prefiro fumar, Marujo – enquanto enrolava o fumo, Coronel Medeiros alegou que o mesmo era produzido em sua vila – Além de mim, em pessoa, eternamente fardado, tão honrado quanto Drummond, isto é a única coisa de valor daquele lugar.
Fiquei com preguiça de rir, já que eu não saíra do meu lugar (na guarita). É chegado, enfim, o momento de admitir que nunca houve embarcações em meu mar, o furioso mar em ebulição de um titubeante
cowboy perdido,
par excellence, em sua vaga trilogia lançada ao vento litorâneo.