quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

ex animo dicere CXXVIII

"O caixeiro da loja - uma figurinha ágil, afrancesada, barrigudinha e de colete branco - expunha diante dele os revólveres e, entre mesuras e sorrisos respeitosos, falava:
- Eu lhe aconselharia, M'sieur, levar este excelente revólver aqui. Sistema Smith & Wesson. A última palavra em armas de fogo. De ação tripla, com extrator, acerta a seiscentos passos, mira central. Chamo a sua atenção, M'sieur, para a perfeição no acabamento. É o sistema mais moderno, M'sieur... Vendemos uma dezena por dia, contra ladrões, lobos e amantes. De tiro muito forte e certeiro, atira a grandes distâncias e mata a esposa ou o amante, varando-os. Quanto aos suicidas, M'sieur, não conheço melhor sistema...
O caixeiro armava e desarmava os gatilhos, soprava nos canos, fazia pontaria e fingia que sufocava de entusiasmo. Vendo o seu rosto extasiado, poder-se-ia pensar que ele mesmo teria muito prazer em se meter uma bala na testa, se ao menos possuísse um revólver de sistema tão excelente como o Smith & Wesson.
- E qual é o preço? - perguntou Sigaiev."

Bem, isso se deu à página 35 (numa edição da Ediouro velha de guerra) do conto O Vingador. Eu, na fila de espera, amassava a senha 60 e deglutia as linhas. Um cara parou ao meu lado e simplesmente m'entregou a senha 46. Abaixando a cabeça qual animal de antolhos, agradeci, mas sequer tirei os olhos do que Anton Tchecov me contava.



* imagem: divulgação.

Alors, passez le mot!

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