Pt. I
O bonde passava somente nas madrugadas em que os relógios tiravam folga, quando do ocaso dos ponteiros, do suicídio das engrenagens, do cair dos dentes bons. Por isso nunca nos encontramos. Até então. Até eu subir, falando sozinho. Até ela acertar o tempo defectivo. Segurando a alça de apoio triangular, uma mão com unhas de morango colou em cima da minha. Carregava uma lanterna, a garota. E à noite, através da janela, através das paradas do bonde, disparava seu canhão de luz em árvores espectrais e besouros bêbados de cansaço.
Nunca gravo os nomes na primeira vez que me falam de si. O dela repeti BAIXINHO várias vezes, para criar laço, para produzir pigmentação sadia nos lábios. Seu nome era Castanea, da família Anacardiaceae. Sua pele, de coelho cândido como açúcar. Seu cheiro, frutas importadas da infância. Gostava de pequenos suínos rosados – todos sabem, todos comem, todos os rabinhos esticados, todas as gaiolas abertas, todos os acidentes forçados, todos os movimentos de rotação que passamos no colo dos mais velhos, mas todos somem –, e, de acordo com o horário, não dispensava um baseado, uma barra de chocolate derretido e uma garrafa de refrigerante quente ou café puro. Apesar de madura, o canto das borboletas ainda habitava a alma de sua voz – supondo que no acaso dum amanhecer o canto dos pássaros precisem das asas dela para te conquistar por definitivo.
– Duas e doze.
Graciosamente, Castanea acertava às horas apenas observando a lua.
– Um cara dorme com a boca aberta na varanda, em frente à rodovia; na cozinha, a panela está em pleno repouso, já que a chama do fogão s’extinguiu com a corrente de ar que voltava para sua pátria não delimitada.
Enquanto eu completava sua avaliação com os recortes que alcançavam minhas retinas. Para tomar fôlego. Passamos sobre uma ponte.
– Aquela margem é escura. A outra margem está agitada. Venta forte sobre o rio – ao me declamar essa espécie de poema espontâneo, Castanea marejou um pergaminho de cor análoga aos seus olhos castanhos.
– O que é esse barulho vindo do fundo? Será orgulho das rodas ao não aceitarem a porta traseira como amiga? – indaguei, tentando abrandar o formato das lágrimas ao passo que as guardava para mim.
Com o vagão em movimento, ela abriu a porta traseira para ver que espécie de guerra acontecia no maquinismo do mundo.
– Sentiu o cheiro da chuva que se aproxima?
– Senti.
Praticando o exercício de inventar sinônimos, sagradas pareidolias e comparações díspares entre as coisas, os objetos sobrenaturais e as pessoas, eu vislumbrei Castanea esticar a mão e pegar o cabo de chuva caindo de uma nuvem que guardava nosso molhar.
– Quais serão os lirismos efêmeros no céu, F.?
Não tinha resposta pronta. Fiquei coagulando frases. E fui te dar um beijo. Pegou de raspão, na bochecha.
– Se as nuvens olhassem a gente, Castanea, nos comparariam com o quê? Observariam uma estrada e diriam: “Como é bonita! Amanhã farei sombra aqui.” Uma diz pra outra mal-humorada: “Você está tão insuportável quanto aquela enchente que ajudei a criar mês passado.”
– “Vou trovejar teu nome a noite inteira, Onomatopéia.”
– Coisas assim, não?
Apontei uma nuvem em forma de Basset no exato momento em que o movimento de seu corpo s’encaixava com alguma estrela. Aquilo lhe serviu de olho. Em seguida as nuvens se transformaram em outra coisa impossível de nomear. Adiante, assumiram a forma de uma cadeira vazia. E continuariam mesmo que ninguém tivesse olhos para.
– Quer fazer animação psicodelicamente meiga, F.? Copie o roteiro das nuvens exibidas no cinema lá fora.
– Desenha pra mim, Castanea.
Pouco depois, desdobrou e m’entregou um esboço com o qual ofeguei, balançando de fome os cabelos.

– Sem luas de dúvidas, isto não é meu.
– Que horas são?
– São três e vinte e oito.
– Esta menina ouve a música que a faz lembrar do gosto da neve que engoliu inverno passado quando caminhou no parque e tropeçou.
Ela abriu um sorriso cheiroso diante de mais um recorte de momento. Conferi se o pergaminho marejado estava no meu bolso. Estava, mas em forma líquida. Então encostei a cabeça no ombro dela e olhei para fora, lateralmente. Nadei de braçadas na terra, assistindo peixes-garrafa voando enterrados na linha do horizonte, criando marolas no pasto. Tornava a me virar para dentro e respirava, mergulhado na água do bonde, ao lado de pássaros-sacola nadando na resina do ar. Depois de algum exercício, levantei, e ela foi logo assumindo sua vez de deitar. Os sabores da experiência se passavam internamente, portanto, mantivemos uma espécie de silêncio airoso. Dormimos assim. Às 21:58.
Pt. II
As palmas de quem pedia licença para entrar na mata nos despertaram. Apedrejamos caules de manga e as comemos para confortar o estômago. Com o barulho, cães surgiram para nos guiar por entre cobras sorrindo em paz, troncos lodosos com veias em auto-relevo, uma prece incrustada na rocha, prateleiras de folhas, morcegos pouco higiênicos e muitos catálogos de pedras.
– Não há malícia em sentar no dedo de Deus – disse-nos um cão morador do Roncador.
Subimos e sentamos e assoviamos para sinalizar que estávamos atravessando território de dono desconhecido.
– De endereço não encontrado, F. – ela me corrigiu.
– Isso mesmo, Castanea. Nesse exato momento, na rua A, casa 06, setor norte, um várzea-grandense, capricorniano, aluno da quarta série, consegue fazer seu primeiro e único travesseiro de penas de pomba. Do outro lado da rua, um executivo bebe café e vê aquilo. No minuto seguinte, acredita ter tido a idéia que tirará sua empresa do ostracismo financeiro. Enquanto que aqui, próximo a nós, a pedra presa no desfiladeiro da saudade, forçada para baixo porque o núcleo tem ciúme da gravidade, qual obelisco invertido buscando seu encaixe, é fotografada por um atento viajante.
– A estrada parece mais densa sem seu ombro pra eu encostar – confessou-me.
– Já vi tantos sentimentos que nem os meus me comovem. Não é que eu seja frio. Acontece que minha sensibilidade somente aflora diante de perfeitos absurdos. Profundos tão perfeitos que a cada vez que lhe experimento absorvo partes, escapam outros tantos.
Recorrendo a elucubrações infecundas falei tanto que não a vi mais. Não houve terceira vez para o relógio de Castanea. Naquele momento, quando anoiteceu, ela não disse mais as horas. O bonde sumiu, ela e suas pequenas mãos também, e outros marcadores de tempo ruim ressuscitaram. Seu ponto a chamara para descer. E tudo que vai se perde antes de voltar.
O bonde passava somente nas madrugadas em que os relógios tiravam folga, quando do ocaso dos ponteiros, do suicídio das engrenagens, do cair dos dentes bons. Por isso nunca nos encontramos. Até então. Até eu subir, falando sozinho. Até ela acertar o tempo defectivo. Segurando a alça de apoio triangular, uma mão com unhas de morango colou em cima da minha. Carregava uma lanterna, a garota. E à noite, através da janela, através das paradas do bonde, disparava seu canhão de luz em árvores espectrais e besouros bêbados de cansaço.
Nunca gravo os nomes na primeira vez que me falam de si. O dela repeti BAIXINHO várias vezes, para criar laço, para produzir pigmentação sadia nos lábios. Seu nome era Castanea, da família Anacardiaceae. Sua pele, de coelho cândido como açúcar. Seu cheiro, frutas importadas da infância. Gostava de pequenos suínos rosados – todos sabem, todos comem, todos os rabinhos esticados, todas as gaiolas abertas, todos os acidentes forçados, todos os movimentos de rotação que passamos no colo dos mais velhos, mas todos somem –, e, de acordo com o horário, não dispensava um baseado, uma barra de chocolate derretido e uma garrafa de refrigerante quente ou café puro. Apesar de madura, o canto das borboletas ainda habitava a alma de sua voz – supondo que no acaso dum amanhecer o canto dos pássaros precisem das asas dela para te conquistar por definitivo.
– Duas e doze.
Graciosamente, Castanea acertava às horas apenas observando a lua.
– Um cara dorme com a boca aberta na varanda, em frente à rodovia; na cozinha, a panela está em pleno repouso, já que a chama do fogão s’extinguiu com a corrente de ar que voltava para sua pátria não delimitada.
Enquanto eu completava sua avaliação com os recortes que alcançavam minhas retinas. Para tomar fôlego. Passamos sobre uma ponte.
– Aquela margem é escura. A outra margem está agitada. Venta forte sobre o rio – ao me declamar essa espécie de poema espontâneo, Castanea marejou um pergaminho de cor análoga aos seus olhos castanhos.
– O que é esse barulho vindo do fundo? Será orgulho das rodas ao não aceitarem a porta traseira como amiga? – indaguei, tentando abrandar o formato das lágrimas ao passo que as guardava para mim.
Com o vagão em movimento, ela abriu a porta traseira para ver que espécie de guerra acontecia no maquinismo do mundo.
– Sentiu o cheiro da chuva que se aproxima?
– Senti.
Praticando o exercício de inventar sinônimos, sagradas pareidolias e comparações díspares entre as coisas, os objetos sobrenaturais e as pessoas, eu vislumbrei Castanea esticar a mão e pegar o cabo de chuva caindo de uma nuvem que guardava nosso molhar.
– Quais serão os lirismos efêmeros no céu, F.?
Não tinha resposta pronta. Fiquei coagulando frases. E fui te dar um beijo. Pegou de raspão, na bochecha.
– Se as nuvens olhassem a gente, Castanea, nos comparariam com o quê? Observariam uma estrada e diriam: “Como é bonita! Amanhã farei sombra aqui.” Uma diz pra outra mal-humorada: “Você está tão insuportável quanto aquela enchente que ajudei a criar mês passado.”
– “Vou trovejar teu nome a noite inteira, Onomatopéia.”
– Coisas assim, não?
Apontei uma nuvem em forma de Basset no exato momento em que o movimento de seu corpo s’encaixava com alguma estrela. Aquilo lhe serviu de olho. Em seguida as nuvens se transformaram em outra coisa impossível de nomear. Adiante, assumiram a forma de uma cadeira vazia. E continuariam mesmo que ninguém tivesse olhos para.
– Quer fazer animação psicodelicamente meiga, F.? Copie o roteiro das nuvens exibidas no cinema lá fora.
– Desenha pra mim, Castanea.
Pouco depois, desdobrou e m’entregou um esboço com o qual ofeguei, balançando de fome os cabelos.

– Sem luas de dúvidas, isto não é meu.
– Que horas são?
– São três e vinte e oito.
– Esta menina ouve a música que a faz lembrar do gosto da neve que engoliu inverno passado quando caminhou no parque e tropeçou.
Ela abriu um sorriso cheiroso diante de mais um recorte de momento. Conferi se o pergaminho marejado estava no meu bolso. Estava, mas em forma líquida. Então encostei a cabeça no ombro dela e olhei para fora, lateralmente. Nadei de braçadas na terra, assistindo peixes-garrafa voando enterrados na linha do horizonte, criando marolas no pasto. Tornava a me virar para dentro e respirava, mergulhado na água do bonde, ao lado de pássaros-sacola nadando na resina do ar. Depois de algum exercício, levantei, e ela foi logo assumindo sua vez de deitar. Os sabores da experiência se passavam internamente, portanto, mantivemos uma espécie de silêncio airoso. Dormimos assim. Às 21:58.
Pt. II
As palmas de quem pedia licença para entrar na mata nos despertaram. Apedrejamos caules de manga e as comemos para confortar o estômago. Com o barulho, cães surgiram para nos guiar por entre cobras sorrindo em paz, troncos lodosos com veias em auto-relevo, uma prece incrustada na rocha, prateleiras de folhas, morcegos pouco higiênicos e muitos catálogos de pedras.
– Não há malícia em sentar no dedo de Deus – disse-nos um cão morador do Roncador.
Subimos e sentamos e assoviamos para sinalizar que estávamos atravessando território de dono desconhecido.
– De endereço não encontrado, F. – ela me corrigiu.
– Isso mesmo, Castanea. Nesse exato momento, na rua A, casa 06, setor norte, um várzea-grandense, capricorniano, aluno da quarta série, consegue fazer seu primeiro e único travesseiro de penas de pomba. Do outro lado da rua, um executivo bebe café e vê aquilo. No minuto seguinte, acredita ter tido a idéia que tirará sua empresa do ostracismo financeiro. Enquanto que aqui, próximo a nós, a pedra presa no desfiladeiro da saudade, forçada para baixo porque o núcleo tem ciúme da gravidade, qual obelisco invertido buscando seu encaixe, é fotografada por um atento viajante.
– A estrada parece mais densa sem seu ombro pra eu encostar – confessou-me.
– Já vi tantos sentimentos que nem os meus me comovem. Não é que eu seja frio. Acontece que minha sensibilidade somente aflora diante de perfeitos absurdos. Profundos tão perfeitos que a cada vez que lhe experimento absorvo partes, escapam outros tantos.
Recorrendo a elucubrações infecundas falei tanto que não a vi mais. Não houve terceira vez para o relógio de Castanea. Naquele momento, quando anoiteceu, ela não disse mais as horas. O bonde sumiu, ela e suas pequenas mãos também, e outros marcadores de tempo ruim ressuscitaram. Seu ponto a chamara para descer. E tudo que vai se perde antes de voltar.






