::::: fazendo, dos novos inquilinos, novos amigos :::::
Pt. I
Dormitei no meio da tarde porque não tinha ânimo para fazer outra coisa. Soa meio depressivo, um quê de irresponsabilidade adolescente ou talvez velhice precoce, entretanto, aposto minhas fichas brancas do AA que você já fez isso também. Contrariedades e
all ins à parte, acordei com calor, com o calor do som do novo vizinho. Suas caixas de abelhas zumbiam religiosamente, todo bendito dia, os
hits do B-52’s, Abba, Bee Gees, Gipsy Kings, Michael Jackson, Queen e uma porção de
love rock songs on the radio, em geral, do final dos anos 80. Acumule a isso o fato de sua companheira Pepita ser uma preguiçosa que fica deitada no meio da rua impedindo a passagem dos carros. E não adianta buzinar, viu? Restava-me encará-los. Fui ao quintal de casa. A cadela, melhor inimiga dos vizinhos, convicta TL – isto é, tomba-lata, raça inferior aos soezes vira-latas –, estava com a cabeça enfiada no buraco do muro entre minha pseudo-propriedade (aqui um
merchandising da Caixa Econômica Federal, corja também interessada em arrematar o Clube do Gerson) e a dele. Ali, Pepita era um retrato do que era: um animal empalhado vivo. Resignei-me em enfrentar a fera. Pulei o muro, enfezado. Cheguei com aquela carantonha.
Ex abrupto, o que chamam “rabujo de cachorro” me perturbou, sem trégua para as idéias helicoidais se desenvolverem.
–
Desculpaí se estou fedendo, vizinho. É a roupa que não secou direito. Tem chovido tanto
presses lados... – e o sujeito desapareceu no interior da casa, retornando com galho de arruda atrás da orelha – Agora melhorou o cheiro, não?
– O cheiro sim... – apontei para as fitas
K7 piratas.
–
Desculpaí, vizinho, o som tá alto, né? Mas é
queu tô amargurado.
O sujeito tinha uma expressão de desenho animado. Acalmei-me. Dali há pouco também me acostumaria com os odores.
– Tem cerveja pra mim no freezer? Se tiver, te permito contar o que acontece.
Não tinha. Não obstante, opções e vozes internas não faltavam. Enquanto partíamos para a semi-epopéia, nos embicando na direção do mercadinho do bairro, ele começou a narração de: Espinhos que Podem Cegar um Coração.
– Bom título, não acha? – fiquei quieto – Pois é. Ela se chama Samantha, mas só vim saber disso depois de investigações não-ortodoxas. Loirinha, um metro e sessentinha, vinte aninhos, peitinhos durinhos, bumbumzinho lindo. Ó, Deus! – porque ele falava suas qualidades no diminutivo eu não sei, mas a exclamação fazia bastante sentido – Samantha é daquelas belezas que fazem os homens serem ora heróicos, ora estúpidos – as duas coisas não andam lado a lado?, perguntei-me – Nos empurram para o precipício, e concordamos sem hesitar: “Sim, eu mato, eu mato qualquer um por você, meu amor! Basta que peça. Vamos, peça sem medo”. Merda.
– Que foi? Pisou?
– Não. Tranquei a casa com a chave dentro. A planta do pé está jóia.
– Como pôde?
– Com os cadeados.
Não o repreendi por falta de intimidade. Dei de ombros. Apenas me esforçando para agir corretamente, sem desafeto,
tough love. Novas amizades são tão exigentes quanto os casamentos, as bandas ou as úlceras crônicas. Sugeri que fôssemos em frente e depois à minha casa telefonar para o chaveiro. Não muito preocupado com as perspectivas dum futuro sem a amada, ele deu continuidade como se não houvesse feito pausa.
– Você não entendeu, vizinho. Eu estava lá, fazendo minhas anotações, obrigações do fanatismo, escrevendo aquilo, “sim, eu mato...”, e isso ainda sem saber o nome da ninfa. Foi quando ela, ó Deus, se sentou ao meu lado.
– Ah, então você estava só babando de longe?
– Isso, garoto – e chegamos a um dos destinos de nosso micro-deslocamento na condição de seres-formigas – Ei, Seo João, anota essas cervejas na minha conta, por obséquio. Bom, fiquei sem fala quando sentou ao meu lado. A atitude dela foi completamente inesperada. Também duvidosa. Com tantos lugares, por que ali, não é? Pensei em deixar o livro que carregava e sair fingindo que o esquecera para saber se ela viria atrás de mim.
– E aí?
– Quer deixar eu falar de uma vez? É um momento ridículo, eu sei, mas tente não interromper.. É... – ele coçou a cabeça – Como é mesmo teu nome?
– Foche. E você é?
– Noel – terminando de secar uma lata, o cara-de-desenho-animado torceu-a e atirou-a na sarjeta – Sabe por quê? Meu pai gostava do Leon, aquele assassino profissional do
filme muito exibido na Bandeirantes. O Cine Band tradicional, não o Privê – salientou – Num dia, dentre as muitas reprises, o velho estava fazendo a barba e viu o reflexo do título. Meu nome!
– Muito prazer, Noel – e apertamos as mãos.
– Muito bem. Agora pega essa latinha e brinca com ela enquanto me ouve. Hã – Noel sempre coçava a cabeça quando raciocinava – Ah, o livro?! Não, nem pensar. Dava não.
Troppo inadequado. Tinha um título demasiadamente obsceno. Porém, antes que eu inventasse artifícios mirabolantes, a situação melhorou: “Ei, o que você está escrevendo aí?” “O quê?”, rebati, quando na verdade ela não dissera absolutamente nada. “O quê?”, ela devolveu-me, em eco involuntário. Depois da proveitosa inconveniência, engatamos conversa sobre outra coisa mais idiota do que minha imaginação auditiva – ouvido tuberculoso, eu diria, para não perder o costume de pensar algo sobre outrem e não revelar-lhe – Algo bastante vago e sem futuro. Via-se o fim do diálogo em cada frase solta, Foche. Ó, Deus! Vinte aninhos... – fez movimento com as mãos, contornando corpo invisível, escrito em Braille – E eu só querendo ter um caso com ela pra narrar o enredo numa próxima roda de samba com bar. Cara, eu tinha promessas pra ela. “Por que você não pode me amar, Samantha? Garanto fortes emoções na maioria dos capítulos, muitos momentos felizes para emoldurar na retrospectiva e um final abrupto para funcionar do modo mais indolor possível”.
Meu grau de interesse em conhecer tal beldade extrapolara o possível de ser mascarado, ao passo que também era balanceado pelo nível de satisfação em saber que Noel jamais a possuiria.
– Certo, Noel. Faremos o seguinte. Ao invés de telefonar pro Astrogildo, o chaveiro, vamos buscá-lo. No caminho passamos pelo trabalho da Samantha e você nos apresenta com as devidas mesuras.
Aproximando seu rosto ao meu, intuo que ele vasculhava alguma maldade em minhas intenções. Incapaz de encontrar o que não estava lá, o
palíndromo expliciti de Leon aceitou. Suas feições de desenho animado não eram apenas decorativas e contagiantes e coloridas. Reah! O sujeito era de fato inocente como o
Mickey Mouse.

[Minutos depois...]
Diante da vitrine ele acenou para Samantha, que do alto de dois degraus portáteis, arrumando a peruca do manequim, acenou de volta.
– Que tal? – indagou Noel.
Eu fazia minha função de amigo, mudo. Balançava a cabeça em concordância, “sim, sim, agora te compreendo, homem”, quando a moça teve a bondosa necessidade incontrolável de enfiar a mão na própria bunda e puxar a calcinha que, suponho, a incomodava. Não pude resistir e, milagrosamente, do lado de cá do vidro, imaginei o barulho do elástico em contato com as nádegas. Pensei com furor: que gostosa da porra! Cabelos extremamente finos, tintura negra e raízes loiras. Detalhe no lado esquerdo, onde ela os põe atrás da orelha – e que orelhinha lindinha, Noel. Dedos puros como o mar, sem tintura ou adornos: ideais para marulharem em meu corpo. Espádua resplandecente à mostra, realçando os ossos saborosos e nuances do corpo. Rosto imaculado, com sorriso que é uma arma letal, e olhos da cor do abraço imenso que você nunca recebeu. Transbordava inocência, a pequena, o que salientava uma possível origem de família humilde. Arrisco até que era virgem, essa camponesa de beleza ancestral como vemos em velhos filmes, em tempos enterrados, em sonhos não concretizados. Mas é uma beleza fugaz que, sem o Foche ao seu lado, não será colhida, apodrecendo, portanto, nas mãos de qualquer “diretor”.
Porca miseria! Evidentemente, embasbacado com seus atributos, também me apaixonei por aquele suave anjo. Vendo-me fitá-la com o coração, Samantha lançou olhar como o gato que está diante do seu dono. Nem bem a conheci e uma cumplicidade solitária nascia entre nós? Passei a língua nos dentes da arcada superior. Eles estavam ultra-sensíveis. Eu
precisava morder
aquela nuca.
– Que tal? – repetiu.
– É, cara, ela é um bom partido – respondi, e aproveitando que Samantha precisava massacrá-lo para estar livre às minhas investidas, sugeri – Por que você não vai falar com ela? Esquece, nem precisa nos apresentar – acrescentei, tentando aplicar a famigerada psicologia reversa
waltdisneiana.
–
Esperaí. Não é fácil assim, cara. E se ela me achar gordo demais?
– É, você tem um volume aí, mas e se ela achar essa barriginha
sexy? – arrisquei.
Noel encolheu a barriga e ergueu as calças. Foi em frente. Decidido a agir como um elefante sendo chicoteado no picadeiro: rompante. “Que homem de coragem!”, pensei, cheio de escarninho. Ele empurrou a porta de vidro, fazendo repicarem os sinos pregados no alto. Samantha desceu cerimoniosamente sua escadinha. Lá dentro, trancados num universo próprio, malditas borboletas girando ao redor, os dois apertaram as mãos por uma eternidade. Em menos de sete minutos, o desafiante saiu.
– Estranho como a gente começa pequeno, indefeso, dormindo dentro de uma barriga, se alimentando por um cordãozinho e anos depois nos tornamos enormes, ariscos, famintos, e precisamos de seis travesseiros para dormir além de comermos da largura da boca.
– Você só dorme assim? – ora, quanto à comida não carecia questioná-lo: era um glutão nato versado na sétima arte da
petiscaria.
– Não. Minha ex-mulher.
– Por que a deixou?
– Não quero ser pai, não quero ser sugado ou por filhos ou pelas vagabundas. Não tenho família. Se existem, desconheço-os. Moro sozinho desde os dezesseis. Não quero ninguém conversando com minha lápide, pedra fria, flores de plástico, itens roubados. Não me importa o que dizem sobre morrer sozinho. Só não quero
viver sozinho
neste inferno.
– Onde chegamos barulhentos, quando crianças, e nos vamos silenciosos, como a própria morte... – tentei completar, sem sucesso – Ok, acho que entendi. Dor e prazer têm a mesma expressão. Me diz uma coisa, como foi lá dentro com a pequena?
– Ah, marcamos de sair hoje à noite. Obrigado pela força, vizinho. Te devo essa.
Me sentiria melhor se devesse um fígado regenerado. Maníaco sortudo. Deveria ter me adiantado e a convidado para tomar vinho em minha casa. Samantha deve gostar. Tem cara de quem se interessa por. Também tem cara de mulher fácil, assim, vista de perfil, ao fundo. Na próxima, quem sabe, consigo. Ganas não me faltam para mordiscar novas e alheias coxas, ventres, orelhas, nucas... Toma cuidado, Noel. Estamos todos soltos no mesmo pântano,
vizinho.
Pt. II
No futuro podemos repetir o primeiro parágrafo até certo ponto: onde eu pulo o muro. Dessa vez nada de mau cheiro. Há, ao invés, uma porção de caixões no quintal dele.
– O que é isso, Noel?
– Abra e veja.
– Eu não!
– Tá com medo de quê?
– Não é medo, é respeito pelos mortos.
– Ninguém tá morto aqui, vizinho.
Lentamente caminhei em direção da pilha mais baixa de caixões. Repousei a mão sobre o primeiro da pilha, e dobrei o pescoço para ver Noel. Insistiu, acenando apressadamente, para eu ir adiante. Abri um. Dois. Abri três, quatro, cinco e seis caixões. Todos se encontravam abarrotados de cervejas geladas! E não era qualquer marca: tratava-se de
pacotes (meia dúzia cada) da mexicana Tecate. Quem era o mágico capaz de transformar fúnebres esquifes em suntuosas caixas térmicas?
– Bem útil, não acha, Foche? Fui eu quem as adaptou.
Lacrimejei lúpulo.
Noel entrou e saiu correndo de sua casa. Pepita no seu encalço, latindo canções de contentamento. Não retornou só. Samantha veio equilibrando alguns itens numa bandeja. Como aperitivo, cachaça ouro curtida com caranguejo. Pizza cinco queijos e tempero de azeite e orégano para o almoço.
Balas de cacau e café de sobremesa. As cervejas eram, obviamente, para o tempo todo. Entre e durante uma coisa e outra. Oras, por um instante fiquei tão contente quanto a criança que sai do cinema imitando o que viu no
Grand Écran, na realidade, tão feliz quanto aquele que ganha presente inesperado de alguém que pouco conhece. Todavia, logo em seguida, escondi o rosto, o lúpulo que gotejava dos olhos, e remoí, quietinho, as más intenções do passado próximo. Noel não sabia. A ferida mesquinha fora feita por mim, em mim: o vizinho morto de cansaço que percebe deliciosa cama para dormir, mas falta-lhe companhia.
* imagem: antigo banner do yahoo que editei grotescamente quando encontrei num dvd de back up.