quarta-feira, 10 de março de 2010

a patetice, isto é, a amizade XX

::::: rogê millá girls :::::

(Costumamos dizer tantas coisas que desconhecemos. Você percebe como? Muito bem, você. Esse texto está repleto delas. Uma enciclopédia de coisas para falar sem ninguém para ouvir, você.)

O que é uma cidade? Eu tenho direito de não acordar? Quantos litros & tipos de água já bebi? Qual a melodia da flauta do mendigo debaixo do viaduto? Na estrada, quem é maior: uma mosca, uma pedra ou um caminhão? Quanto custa uma próstata no mercado negro? Poderia presentear as mulheres com. Ao menos para confortar Fran, que perdeu o carro numa enxurrada. Isso mesmo. Quantos engarrafamentos já pegou? Quem inventou a rede de pescar? Mas antes, bem antes, quando alagaram o motel. No tempo em que Picles e Mamífero estavam namorando. Anna M. era o padre. Edineide era o juiz. Samantha era o demônio. E eu descobria o gosto da bebida, da comida. A textura de mais bebida. O cheiro do beijo, do suor. O retrogosto do cuzinho. O gosto do sangue, do ferro enferrujado. O aroma imaginário do café. E o odor das casas de carne? O barulho dos pompons das líderes de torcida. O barulho das sandálias baratas no asfalto ruim. O barulho do pisca alerta ligado. E se repete. E eu descobria. Il y a beaucoup de quelque chose. O barulho dos pássaros no rádio, assim que a freqüência anoitece. As sensações que você quer manter. A visão do redemoinho saindo de dentro da cabeça – ainda fechada. Quase todo o vórtice mental, quase toda a falta de informação antes de encontrar Rogê Millá assim que o sol esmorece. Mas antes, bem antes, darling said sir, you hurt my eyes, as garotas de sua rua aparecem nos rodapés dos aros dos meus óculos. Maléficas sereias pestilentas, náufragas aguardando resgate que virá de um confiável monge incapaz de encontrar o caminho da irmandade.
– Poderiam me fazer um favor? – fingi-lhes estar ali pela virginal vez, porque eu, em órbita, sabia quem elas eram, e saber isso não era nada bom.
– Aonde você quer ir? – disse uma, em nome de todas, de todas bastante solícitas, sorrindo obrigados e tambéns e sins e “nós estamos aqui para isso, estranho” – Diga-nos, por favor. Onde?
– Direto ao teu coração. Qual o caminho mais rápido?
[...]
Depois disso foi como se eu ficasse invisível aos olhos convencionais.
Exceto para você – que, sin embargo,
é como eu, só que melhor.

a patetice, isto é, a amizade XIX

::::: confraternização universal :::::

– Tudo bem, baby blue – disse o marido, usando a famigerada cueca umedecida de suor por baixo do short de futebol, de dormir e de tomar banho de rio, antes de abrir o portão de casa, às duas da manhã, para levar o lixo da cozinha e do banheiro a um passeio –, não como carne morta mesmo. Então... – e segurou a risadinha provocadora que escapava pelo canto da boca em que o gosto de pasta de dente se misturava ao das cáries da madrugada.
O cálculo era esse pois a premissa vinha da matemática da mulher. Carnívorocrata binária derivada de números imaginários, já estava cansada do velho enunciado domiciliar, de escrever no ar sempre a mesma equação, em outras grandezas mais puras, daquele sujeito adicionando ao contrário, multiplicando o complexo, o negativo, trabalhando na catequização alimentar dela. Propositalmente ela esquecera de resolver o problema, de fazer o serviço, de usar a calculadora, de digitar =, de dividir-se para sobreviver, no exato dia em que os caminhões coletores passariam para resolver sua babilônica raiz quadrada de restos.
O marido botou os pés para fora, suspirando gostoso, sentindo-se rico, como se de dentro para fora tivesse se passado um réveillon, e ele começasse vida nova noutro plano, ou no Caribe, por exemplo.
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– Quer dizer que esse é o céu do Caribe? – indagou-se, olhando para o todo rabiscado quadro negro do programador acima de seu nariz.
Virou, em seguida, seus olhos para a esquerda. Os números se reorganizaram. O expediente reiniciara. A saliva desceu. Ele sabia quem poderia calcular a velocidade disso, mas preferiu manter o foco na tarefa da mulher. Viu o caminhão se arrastando lesmamente duas quadras à frente. Pôs à prova sua teoria de que por comer o que comia correria como uma pluma verde. A contraproposta do desafio (esclarecida só na manhã do dia seguinte, quando sua fama corria mais que suas pernas) foi a de que o marido não se lembrava dos pares de anos em que trabalhara fielmente na produção de fumaça através da crucificação dos pulmões. Simplificando, assumiu honestamente que não seria capaz de alcançar o veículo incensário caso não corresse muito. Porém, percebeu isso quando se esforçava até o limite de suas funções aritméticas, e seu pensamento rapidamente delineou que “pelo menos na força muscular eu sou capaz”. Esticou-se, portanto, enquanto preparava o arremesso da sacola, efetuando inclinação do tronco para o lado direito. Preparado, concedeu impulso com os pés. Lançou. Os números bagunçaram. Deveríamos chamar um especialista? Anulemos a questão. Prestem atenção que agora observaremos o lançamento de outra maneira, analisando o exercício por outro prisma. Algo menos viciado. Em sua lerdeza absoluta de pensamento herbívoro, e isso é redundante dizer, o marido também esqueceu de que por estar em recesso alimentar com sua esposa, aquele braço, o direito, o bom, o caridoso, o queridão, vinha sendo muito requisitado em covarde atividade no banheiro – da empresa, em geral. Resultado, ou subtotal, ainda que livre de marcação ou de progressões geométricas, o saco se espatifou a rigoroso um metro do caminhão.
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Na região afetada pelo erro logarítmico estavam dois lixeiros vestidos com macacões laranja. Utilizando o celular, um filmava o outro, e esse, objeto de escrutínio em close-up, se negava a compartilhar a bandeja de papelão com esfihas encontradas na lixeira do coronel da Cohab.
– Me desculpem, eu... – disse o notável marido, tentando esconder as mãos nos bolsos que o short não dispunha, sem saber que diabos fazer com os números do próprio lixo.
Os olhos dos dois brilharam no escuro. Tal qual lobos que não querem dividir a caça e sentem a presença de outro predador. Mas ao notar que na escala de obediência natural o marido era uma lagartixa, o ignoraram e intensificaram a disputa pela comida desperdiçada de cada dia. Virando-se para voltar ao aconchego de seu covil, o arrimo da família foi tomado por uma chispa de sabe-se lá que classe de cidadania, de humanidade, pois bem, o distinto cavalheiro resolve juntar a própria cagada. Como, obviamente, tratamos aqui de uma tragédia universal, ele escorregou numa inofensiva alface sem cor e veio a tombar por terra. Isto é, total final, o companheiro se besunta, por completo, em restos de comida e coliformes fecais. Alternativa E, resposta correta.
– É isso mesmo... – manifesta-se a esposa – De gentileza em gentileza o mundo vai pro pau!
A rua inteira acorda para vê-lo praguejar. Atinados às vertentes estéticas e ao jornalismo do entretenimento, os lixeiros o filmaram. O mundo inteiro riria do fato na manhã seguinte em diante. E assim, mais um cidadão descobre o que acontece aos homens de caráter mediano, de sangue quente, de cu incansável e militante.

terça-feira, 9 de março de 2010

ex animo dicere LXXV, LXXVI, LXXVII

Como diz o ditado: mais vale uma junkie's promise na cabeça do que uma verdade cinza dentro do nariz. Por isso volto uma vez mais com as trindades de ouro das minhas prateleiras. Para o primeiro caso, a obra-prima, destaco Berlin - City of Stones, Book 01 (2004, Drawn and Quarterly). Já esteve aqui antes, mas vale ressaltar que com a densidade dos extensos livros de romance, este quadrinho histórico descreve (com primoroso senso de humanidade, cultura, política e economia) a vida em Berlim durante o declínio da República de Weimar. O projeto de Jason Lutes é ambicioso. Oito livros estão previstos. Apenas dois foram lançados. Não coloquei minhas mãos limpas no segundo, mas quanto ao primeiro posso garantir que a Wikipedia fez um bom serviço de síntese:

"It starts with Marthe Müller, an art student, arriving in Berlin. One story arc details the start of her life in Berlin, focusing on her relationship to journalist Kurt Severing. A second story line describes a working class family which breaks up due to differing political views, the mother eventually joining the communists with their daughters, while the father takes their son to the Nazis. The book ends with the massacre of 1 May 1929, the International Workers Day (known in German as Blutmai)".

E são justamente esses momentos finais que vos apresento. Boa noite, Gudrun Braun, ó grande mãe da comuna.




Eis que surge, grudado no rabo da obra-prima, a engraçada e depravadinha seqüência da desenhista italiana Giovanna Casotto. Pedólatra de dar inveja a Glaucoma, neste livro (2006, Conrad, Coleção Eros) permeado de requintado erotismo, ela traz suas ilustrações para dez crônicas de deleitosos fetiches. Dentre elas separei o capítulo "Descanse em paz?"





Não precisa ser como eu, buono parlante di italiani, reah, para entender que ela tem razão: é sempre mais interessante desenhar mulheres, principalmente pelas poses, no caso di fumetti erotici. Além do mais, Casotto é uma bela desenhista safada. "Safada!", com disse, de boca cheia, Xico Sá. Na certa ela se fotografa, se olha no espelho e toma o próprio reflexo como exemplo de bela arte a ser reproduzida, de boa distribuição das formas, de excitantes idéias fantasiosas...

Concluindo com os similares: ocidente oriental. Bem, em poucas palavras. Taiyo Matsumoto (Blue Spring, 1993, lançado pela monstruosa Paperback) é um autista muito bom. Bastien Vives também.



Acima, leia da direita para esquerda.
Abaixo, vai de qualquer jeito.



K.S. (King Size): As garçonetes perguntam qual Coca o sujeito quer beber quando eles não estão familiarizados com:
P.S. (Post-Scriptum): Aí vai o trailer de Tekkon Kinkurîto. Beijo pra Muza que me trouxe Blue Spring da Zooropa. Outro beijo pra McArthur porque ele é o Preto e eu sou o Branco, iykwim.



Alors, c’est tout ou rien
...





* imagens: escaneadas sem autorização de bog, mas com terrível aval do sete saias.

iura in re aliena VII

dos roteiros.

ex animo dicere LXXIII, LXXIV


- A coisas não estão muito boas para você. Você fez o tudo o que pôde. Você falsificou documentos. Você matou. Estuprou mulheres. Você blasfemou Deus e todos os santos. E ainda é bicha. Simplificando, é hora de você ir por uns tempos. Você concorda?
- Talvez.

Acima, Decameron.
Abaixo, Salò ou os 120 dias de sodoma.

- Existem milhares de ocasiões em que não se deseja o ânus de uma mulher.
[...]
- Entretanto, tudo merece ser respeitado. [...] Mesmo as mais bizarras manias derivam de um básico princípio de refinamento.
[...]
- Não pense que suas lágrimas me comovem, elas só me dão mais tesão!
Alors, passez la main sur mon cou, Pasolini!



* imagens: still das "películas".

segunda-feira, 8 de março de 2010

ex animo dicere LXXII

"Era uma vez uns prédios. Eles eram muito altos e eles podiam andar. E então haviam uns vampiros. Um dos vampiros mordeu o maior dos prédios e as suas presas quebraram. Então o resto dos dentes caiu. E ele começou a chorar. E então, todos os outros vampiros disseram: Por que você está chorando? Não eram só dentes-de-leite? E ele disse: Não, eram meus dentes verdadeiros. E os vampiros perceberam que ele não poderia ser mais um vampiro. Então, eles o abandonaram. Fim", balbuciou Max, The Rumpus King daquela porção de terra Where The Wild Things Are.
Alors, passez la blague!



* imagem: Mamífero fazendo terapia ocupacional.

quod erat demonstrandum V

ex animo dicere LXXI


Alors, pull the glitter,
pull the trigger, cowboy!

vox dei erga omnes V

Quando JC voltar...
Vamos soltar fogos de artifício.
Alors, passez la double croix!

vox dei erga omnes IV

Quando Jesus voltar...
Ele vai ter muito o que explicar, mas mesmo assim eu vou emprestar uma camiseta pra ele.
Alors, passez la croix!