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personas non gratas :::::
Atrelei o bezerro perto do portão principal do centro comercial e adentrei o saguão batendo os pés para tirar a poeira da garganta. Naquele instante acontecia uma apresentação teatral.
Dota, um furioso ator, falava para uma platéia apática quando rasgou as roupas qual réptil saindo do ovo. Nem
Dalí o fizera tão bem. Fiquei escutando um pouco. O discurso proferido e amplificado com a ajuda de um microfone em forma de revólver, com o cano voltado para si – de modo que parecia pronto para matar o próprio discursista –, era cansativo, apesar da exatidão e de certa lógica ordinária, mas dispensável. Tratava, a grosso modo, da loucura presente no mundo, ou seja, um reflexo de nossa própria loucura. Olhando ao redor, e excetuando-o, nem sinal da loucura que ele retratara, vanglorioso. Ou então os conceitos eram outros. Pois bem, acontece que reconheci um rosto amigo em meio à multidão. O segui, desbravando o inerte formigueiro de pequenos seres à procura de açúcares que lhes fizessem bem, a curto prazo. Cheguei ao balcão da empresa onde ele aguardava ser atendido e bati minha garrafa de cerveja com meticulosa força. Bradei:
– É aqui a
barterapia, King Kong? – e ele abraçou-me, sem embaraço, sorrindo com todas as suas bocas dentadas – Cadê as
rockstars, então? – prossegui o escárnio.
Macaco pareceu não gostar da segunda parte da troça. Fez longo movimento com a cabeça para tentar indicar uma situação que só depois de muito labor etílico revelaria. Essa oscilação no camarada da linhagem dos primatas era a deixa para eu ensaiar meu aprofundamento no campo alagadiço de seus recentes problemas. Tratei de incitá-lo a remover-se do atual ambiente.
–
Shame on you, liar! – queixou-se à moça que o fizera esperar em vão.
O pessoal atrás do balcão ficou embaraçado, mantendo a postura ereta e incertos sorrisos tortos brotando nos lábios, mas mantiveram a gelada postura do “manual de boas práticas” da empresa, ainda que estivessem com os juízos prejudicados. Em nossa maluquice, pusemo-nos a gargalhar copiosamente. Os demais clientes do estabelecimento passaram a nos encarar com olhos carnívoros.
– Vamos direto ao lúpulo, Anãozinho.
Só se for agora.
Eu usava calças desbotadas e sandálias gastas; anotava inesquecíveis frases soltas e desenhava formas geométricas distorcidas no rodapé de um talão de cheques quando, durante o pisca-pisca de tantos olhos famintos, ninguém me analisava. Ele, rude, magro-careca, incisivo queixo firme, braços longos, anéis nos dedos finos e fumaça vazando pelos poros do rosto, simplesmente estava com desejo premente de fazer
algo. Para longe da gente, velhos comparsas, sentirmo-nos ofendidos com a curiosidade alheia. Não cabíamos mais ali, fim da estação: azedamos. Em seguida, para não perdermos tempo em vadiagem frustrante, fomos escapando da balbúrdia daquelas retinas dardejantes. Educadamente, sem empurrar. No mais sigiloso anonimato. Entre um devaneio que escapava e outro que ameaçava voltar.
Adiante, num local mais arejado que o de costume, Macaco me contou, em poucas palavras desencontradas, que havia concluído seu curso de
sushi-man. Mostrou os
hashis dourados e a bandana branca com a esfera vermelha da terra distante. Entretanto, de imediato percebi que não pretendia se deter nesse assunto tampouco no problema que notei inicialmente, pois deu uma guinada de comportamento e fisionomia ao me tomar pelas mãos exibindo olhos injetados e dentes rangentes sem dizer palavra sequer. Só ficou ali, me mostrando o rosto transformado. Aquilo muito me interessava. Ofereceu-me, então, sua caixinha de rapé para cheirarmos tabaco de boa qualidade. Paramos no canto de outro saguão do edifício para fazer a cerimônia do pó. Cerramos os punhos, mantendo-os na posição vertical. Depositamos ali, na cavidade formada entre os dedos, nossa porção do fumo importado. Fizemos o sinal da cruz. Trancamos uma das narinas e, em pleno vôo, mergulhamos.
– Hoje em dia só me divirto com rapé – confessou-me, agora mais sereno, logo após espirrarmos algumas vezes – Venha aqui, rápido. Sinta a palpitação de felicidade que invade meu coração...
Aproximei-me e coloquei a mão no lado esquerdo de seu peito: parecia um tambor, um motor, um leão rugia dentro da jaula, a artilharia estava em guerra e os cavalos trotavam sobre cadáveres sorridentes.
– Por Dioi! – exclamei, cheio de devoção.
Feito isso, algo em nós de fato mudou e a guinada, não planejada, mas certeira, se viabilizou. Depois da solene inalação nossos braços tomaram a simbólica forma de asas de morcegos com naturalidade duvidosa. Gesticulávamos mais. Falávamos mais. Queríamos mais. Passamos, portanto, a cobiçar uma garrafa de cerveja sem fim e que mantivesse constantemente os prazeres do primeiro gole: gelado, companheiro e instigante. Na falta de um prestimoso gênio da lâmpada que nos concedesse venturoso pedido, recorremos ao restaurante da esquina seguinte. Explicamos a situação. Deram de ombros. Chamaram outros funcionários. Com mais agitação, explicamos novamente. Ficaram calados. Aspiramos mais rapé. Babávamos. Era impossível nos entenderem. Começaram a descer três garrafas por vez. Então, depois de alguns cálculos envolvendo os vasilhames, um mugido atravessou meu cérebro.
– Preciso voltar, Macaco. A embocadura deve estar machucando o animal.
– Ao lúpulo, Anãozinho, ao lúpulo! É isso aqui que tira o pó da garganta.
(Antigamente eu almejei descobrir quais músicas embalavam seus pensamentos, que ritmo era aquele que, com os dedos, Macaco batucava sobre as coxas, e eu o ansiava porque minha intenção era a de tentar compreender o mínimo sobre Macaco, entretanto, depois de anos de demonstrações gerais de humor cambiante regada à contínua corrupção psicológica, contentei-me em saber quais músicas manifestavam-se na
minha cabeça e entender como elas interferiam em meu comportamento também incerto, já que nas dos demais – mesmo os mais próximos – os
ritmos eram impossíveis de se perscrutar).
Bebendo, caminhando sem sair do lugar e me carregando rumo às luas secretas de seu planeta particular, lambendo os beiços, batendo palma e chutando cães e gatos, meu acompanhante pôs-se a falar de sua ex-ex-mulher. (E acredito que o tenha feito não para soar melancólico, mas apenas para ser engraçado). Ela tinha a adorável mania de enfiar no vaso sanitário e no ralo – depois de enchê-los com a própria urina e excrementos similares –, as escovas de dente dos amigos que o casal visitava regularmente. Dava-lhe o maior tesão ser estúpida sem motivo, as escondidas, na casa de outrem. Por outro lado, não foi esse o real motivo da separação dos dois. O rompimento deu-se por conta de a mulher o ter dopado com depressores do sistema nervoso central durante a final do campeonato brasileiro de futebol. Meu amigo não assistiu ao jogo e, conseqüentemente, teve os demais fatos da noite apagados da memória. Macaco considerou imperdoável tal atitude. Digna de surra, que apenas cogitou, contudo. Entendi, no ensejo, que o filhote de símio, assim como eu e tal qual milhares de humanos, queria esquecê-la a partir do expurgamento forçado das emoções. Então comecei a repensar as palavras do saltimbanco. A loucura do mundo. Em nós. Os reflexos. E aquela coisa toda já dita em algum texto apócrifo. De acordo com minha psique, porém, eu precisava de mais rapé para dar seguimento ao mote. Ajudaria a pensar melhor, talvez, intuí. No entanto, sem conseguir me controlar, disse-lhe outra coisa. Sentença não menos verdadeira do que a imaginada, é evidente.
– Bicho, tenho de tocar em alva pele feminina para conseguir dormir... – falei-lhe em um tom inumano, como fala um rio quando respira – Sentir! – limpei o nariz que escorria e coçava – Sei que algumas mulheres são charmosamente intransigentes. Ainda assim, são todas tão belas com seus defeitos continentais... – confidenciei, relembrando experiências próprias – Nos primórdios da convivência a dois, qualquer uma possui potencial erótico de se tornar meu mais novo intenso amor eterno.
– Escuta, escuta só – achei que o barulho emitido para o qual este
drogué habitué me chamava atenção fosse seu coração esmurrando a caixa torácica, mas não era – Vem comigo que vou te levar num lugar legal.
Eu não queria ir “num lugar legal”. Queria tabaco.
– Me dá um pouco de rapé pra eu levar pro bezerro.
– Não, ele não precisa.
– Então me dá um pouco pra eu esfregar na gengiva.
– Não, você também não precisa, ainda – alegou-me eufórico, ensaiou conter-se e, antes de continuar, bateu as asas de hematófago cego – Porra! Vem comigo, Anãozinho. O descumprimento dessa lei expressa verbalmente implicará em severas punições... – ergueu a camiseta e expôs seu inseparável estilingue.
Cedi. Saímos dali. Atravessamos duas avenidas. Tomamos a ladeira indicada pelo meu amigo. Ele na dianteira, arrastando os pés. Conversávamos sobre nada em específico. Os pensamentos vagando, ricocheteando, perdidos, sem destinatário. Simples demonstrações de sinapses mal feitas. Os dois, apenas seguindo o caminho íngreme. Quando de repente Macaco cantou “
All my friends were vampires”, emendei com “
In the devil town”. E o fiz naturalmente, como se sempre estivéssemos com o subconsciente conectado. De modo que isto traduz a idéia de que as coisas se resolvem por si, sem pressões; de que não é preciso agonia para alcançá-las. Avançamos mais. Chegamos à praça do alto do morro. Era bem ventilado lá. Várias bandeiras, representando os municípios do extenso Estado do Mato, farfalhavam como roupas estendidas no varal. Já a bandeira do Brasil, esta estava perfeitamente rasgada. “Isto é contra a lei”, certa vez alguém me alertou. Naquele momento não importava, e, acima de tudo, não fazia sentido. O barulho dos tecidos tremulando era agradável. Havia tranqüilidade suficiente no ambiente para se descobrir segredos indesejados.
– Droga, meu sapato furou – lamentou-se, aparentemente ignorando o mundo inteiro – Mas e aí, gostou daqui, não é?
Gostei.
– Dioi quem me apresentou. Saudades dele... – notei Macaco engolindo a saliva áspera – Ok, meu velho, para me desculpar da grosseria de antes, tenho outra surpresa da natureza mundana. Quer ver abelhas gigantes?
Quero.
– Espera. Contagem regressiva.
5, 4, 3, 2, 1.
– Olha as motos saindo quando o semáforo abre.
Olhei.
Ligeiramente alheio ao monólogo, surdo perante a música, mas já ensaiando esquecer a pequena rusga, retruquei-lhe com meu espanto:
– É, e a maioria usa camisetas que trazem a logomarca de preservativos.
Entreolhamo-nos, boquiabertos, desconfiados. O ronco dos motores desaparecia em meio a alteração de freqüência do Efeito Doppler. Erguemos as duas mãos para o alto. Delas mantivemos em riste os dedos do meio esperando o semáforo fechar e a tranqüilidade de um minúsculo e degradado mundo só nosso voltar.