sexta-feira, 27 de março de 2009

ex animo dicere VI


Me peguei pensando no jornalista que durante a República de Weimar, em Berlim, Cidade de Pedras, estacionou num frame e ficou a observar "the place between her breasts when she leaned down to kiss the children".
Alors, passez le mot!


* imagem: Tamara Jiménez - Rock Island Line.

segunda-feira, 16 de março de 2009

hector, o mágico III

::::: circunstâncias adversas de uma festa infantil :::::

Detrás da cortina aveludada metodicamente vermelha eu espiava as crianças sentadas esboçando seus imensos sorrisos mágicos e trajando suas roupas sujas de bolo. Os meninos, curiosos, vestiam-se de super-heróis e as meninas, inocentes, fantasiavam-se ou de princesas ou de bonecas. Apesar da informação visual, não sabia o que os jovens esperavam de mim. Para mim, o encanto já estava presente, acessível, em suas figuras. Bem, o que quer que eu fosse apresentar teria de ser executado com primazia. Foi aí que ouvi uma mãe explicar ao filho que o mágico, quando menos se esperasse, apareceria, voando. Aquela enrugada senhora tecera, por mim, pensamentos prestidigitadores. Desci as escadas no fundo do palco e fiquei diante da coluna estriada que havia por ali. Estrutura valiosa, calculei, por baixo, sem muita noção do mercado. Agarrei-me ao fuste e, levitando – isto é, escalando-o a duras penas, pernas trançadas qual rã em caule, abusando de minha força interior –, cheguei ao mitológico capitel em forma de Minotauro. Conseguia, do alto, ver a multidão de convidados Liliputianos vagando pelos labirintos de seus universos fictícios.
– Atenção, crianças! Eis o grande momento de suas vidas! Não se atrevam a piscar!
Efetuei tripla pirueta no ar. Ao invés do esperado pouso macio, eu tombei, zonzo e torto, em cima de uma mesa de mármore Travertino Romano. (Herança pós-guerra da família, pelo que posteriormente soube através do garçom que me ajudou a ir embora). Sem perder tempo, o bobo da corte, um anão circense chamado Nilo Grilo, ficou me cirandando, qual insistente pesadelo, aos pulos, cambalhotas e acrobacias desengonçados. De fato, como profissional ele não tinha nada de sagaz ou surpreendente. Apenas era aquele sujeito nulo, muito saltitante. Por algum mero desígnio de indicação, possivelmente de ordem nepotista, aquilo parecia agradar determinada faixa etária. Não por acaso, eram a prole de pais envolvidos com a tal política. Gente do cambalacho, mestres do falatório banal, dos gestos de mãos. Quando consegui levantar, começaram a devassa, instauraram a CPI.
– Afinal, o que é mágica, Hector? – perguntou, em tom de crítica parlamentar, um rotundo pai-senador cambaleante das pernas.
– Mágica é a maneira que você usa os argumentos necessários para justificar seus mais profundos pensamentos falsos e pavorosos para que eles eclodam naturalmente e os demais lhe dêem atenção – aleguei – ou, no caso de Vossa Excelência, não.
Ouviu-se pequeno “Oh!” de espanto, seguido de curta vaia para efeito de boicote.
– Isso é engodo, caturro! Cai fora! Quem foi que te contratou? – persistiu o mesmo senhor, nitidamente embriagado, querendo, além da conta, ser airoso.
– Krazex Porcum! – dizendo a palavra secreta, fiz desaparecer um atrevido do rebanho – Alguma dúvida, pessoal?
Solitário, um garotinho de óculos começou a bater molengas palmas.
– Obrigado, obrigado! Enfim o reconhecimento.
– Pare, meu filho. Não se deve aplaudir assim. Desculpe, senhor da cartola, a criança tem sérios problemas mentais.

ex animo dicere III, IV, V


"Bebida para todos!", disse o louco tzigano da Transylvania, pagando pela felicidade geral da festa, ad infinitum.

* imagem: still da película.

E estando meu dínamo cerebral em terreno de respeito, i.e. alcoólico, não vejo como não mencionar a transmutação, a última ceia e demais alegorias – à lá Hector, o mágico –, em lego. Don't be afraid, kids.











* imagens: the brick testament

Bem como, para os devidos fins, é preciso coroar este triplo dicere com mais do néctar tzigano:
"When god came down to earth He couldn't deal with the gypsies and took the next flight back", máxima dita por um poético combatente lobotomizado do Tempo dos Ciganos.
Alors, passez le sacré (sic) mot!

* imagem: still da película.

a patetice, isto é, a amizade II

::::: personas non gratas :::::

Atrelei o bezerro perto do portão principal do centro comercial e adentrei o saguão batendo os pés para tirar a poeira da garganta. Naquele instante acontecia uma apresentação teatral. Dota, um furioso ator, falava para uma platéia apática quando rasgou as roupas qual réptil saindo do ovo. Nem Dalí o fizera tão bem. Fiquei escutando um pouco. O discurso proferido e amplificado com a ajuda de um microfone em forma de revólver, com o cano voltado para si – de modo que parecia pronto para matar o próprio discursista –, era cansativo, apesar da exatidão e de certa lógica ordinária, mas dispensável. Tratava, a grosso modo, da loucura presente no mundo, ou seja, um reflexo de nossa própria loucura. Olhando ao redor, e excetuando-o, nem sinal da loucura que ele retratara, vanglorioso. Ou então os conceitos eram outros. Pois bem, acontece que reconheci um rosto amigo em meio à multidão. O segui, desbravando o inerte formigueiro de pequenos seres à procura de açúcares que lhes fizessem bem, a curto prazo. Cheguei ao balcão da empresa onde ele aguardava ser atendido e bati minha garrafa de cerveja com meticulosa força. Bradei:
– É aqui a barterapia, King Kong? – e ele abraçou-me, sem embaraço, sorrindo com todas as suas bocas dentadas – Cadê as rockstars, então? – prossegui o escárnio.
Macaco pareceu não gostar da segunda parte da troça. Fez longo movimento com a cabeça para tentar indicar uma situação que só depois de muito labor etílico revelaria. Essa oscilação no camarada da linhagem dos primatas era a deixa para eu ensaiar meu aprofundamento no campo alagadiço de seus recentes problemas. Tratei de incitá-lo a remover-se do atual ambiente.
– Shame on you, liar! – queixou-se à moça que o fizera esperar em vão.
O pessoal atrás do balcão ficou embaraçado, mantendo a postura ereta e incertos sorrisos tortos brotando nos lábios, mas mantiveram a gelada postura do “manual de boas práticas” da empresa, ainda que estivessem com os juízos prejudicados. Em nossa maluquice, pusemo-nos a gargalhar copiosamente. Os demais clientes do estabelecimento passaram a nos encarar com olhos carnívoros.
– Vamos direto ao lúpulo, Anãozinho.
Só se for agora.
Eu usava calças desbotadas e sandálias gastas; anotava inesquecíveis frases soltas e desenhava formas geométricas distorcidas no rodapé de um talão de cheques quando, durante o pisca-pisca de tantos olhos famintos, ninguém me analisava. Ele, rude, magro-careca, incisivo queixo firme, braços longos, anéis nos dedos finos e fumaça vazando pelos poros do rosto, simplesmente estava com desejo premente de fazer algo. Para longe da gente, velhos comparsas, sentirmo-nos ofendidos com a curiosidade alheia. Não cabíamos mais ali, fim da estação: azedamos. Em seguida, para não perdermos tempo em vadiagem frustrante, fomos escapando da balbúrdia daquelas retinas dardejantes. Educadamente, sem empurrar. No mais sigiloso anonimato. Entre um devaneio que escapava e outro que ameaçava voltar.
Adiante, num local mais arejado que o de costume, Macaco me contou, em poucas palavras desencontradas, que havia concluído seu curso de sushi-man. Mostrou os hashis dourados e a bandana branca com a esfera vermelha da terra distante. Entretanto, de imediato percebi que não pretendia se deter nesse assunto tampouco no problema que notei inicialmente, pois deu uma guinada de comportamento e fisionomia ao me tomar pelas mãos exibindo olhos injetados e dentes rangentes sem dizer palavra sequer. Só ficou ali, me mostrando o rosto transformado. Aquilo muito me interessava. Ofereceu-me, então, sua caixinha de rapé para cheirarmos tabaco de boa qualidade. Paramos no canto de outro saguão do edifício para fazer a cerimônia do pó. Cerramos os punhos, mantendo-os na posição vertical. Depositamos ali, na cavidade formada entre os dedos, nossa porção do fumo importado. Fizemos o sinal da cruz. Trancamos uma das narinas e, em pleno vôo, mergulhamos.
– Hoje em dia só me divirto com rapé – confessou-me, agora mais sereno, logo após espirrarmos algumas vezes – Venha aqui, rápido. Sinta a palpitação de felicidade que invade meu coração...
Aproximei-me e coloquei a mão no lado esquerdo de seu peito: parecia um tambor, um motor, um leão rugia dentro da jaula, a artilharia estava em guerra e os cavalos trotavam sobre cadáveres sorridentes.
– Por Dioi! – exclamei, cheio de devoção.
Feito isso, algo em nós de fato mudou e a guinada, não planejada, mas certeira, se viabilizou. Depois da solene inalação nossos braços tomaram a simbólica forma de asas de morcegos com naturalidade duvidosa. Gesticulávamos mais. Falávamos mais. Queríamos mais. Passamos, portanto, a cobiçar uma garrafa de cerveja sem fim e que mantivesse constantemente os prazeres do primeiro gole: gelado, companheiro e instigante. Na falta de um prestimoso gênio da lâmpada que nos concedesse venturoso pedido, recorremos ao restaurante da esquina seguinte. Explicamos a situação. Deram de ombros. Chamaram outros funcionários. Com mais agitação, explicamos novamente. Ficaram calados. Aspiramos mais rapé. Babávamos. Era impossível nos entenderem. Começaram a descer três garrafas por vez. Então, depois de alguns cálculos envolvendo os vasilhames, um mugido atravessou meu cérebro.
– Preciso voltar, Macaco. A embocadura deve estar machucando o animal.
– Ao lúpulo, Anãozinho, ao lúpulo! É isso aqui que tira o pó da garganta.
(Antigamente eu almejei descobrir quais músicas embalavam seus pensamentos, que ritmo era aquele que, com os dedos, Macaco batucava sobre as coxas, e eu o ansiava porque minha intenção era a de tentar compreender o mínimo sobre Macaco, entretanto, depois de anos de demonstrações gerais de humor cambiante regada à contínua corrupção psicológica, contentei-me em saber quais músicas manifestavam-se na minha cabeça e entender como elas interferiam em meu comportamento também incerto, já que nas dos demais – mesmo os mais próximos – os ritmos eram impossíveis de se perscrutar).
Bebendo, caminhando sem sair do lugar e me carregando rumo às luas secretas de seu planeta particular, lambendo os beiços, batendo palma e chutando cães e gatos, meu acompanhante pôs-se a falar de sua ex-ex-mulher. (E acredito que o tenha feito não para soar melancólico, mas apenas para ser engraçado). Ela tinha a adorável mania de enfiar no vaso sanitário e no ralo – depois de enchê-los com a própria urina e excrementos similares –, as escovas de dente dos amigos que o casal visitava regularmente. Dava-lhe o maior tesão ser estúpida sem motivo, as escondidas, na casa de outrem. Por outro lado, não foi esse o real motivo da separação dos dois. O rompimento deu-se por conta de a mulher o ter dopado com depressores do sistema nervoso central durante a final do campeonato brasileiro de futebol. Meu amigo não assistiu ao jogo e, conseqüentemente, teve os demais fatos da noite apagados da memória. Macaco considerou imperdoável tal atitude. Digna de surra, que apenas cogitou, contudo. Entendi, no ensejo, que o filhote de símio, assim como eu e tal qual milhares de humanos, queria esquecê-la a partir do expurgamento forçado das emoções. Então comecei a repensar as palavras do saltimbanco. A loucura do mundo. Em nós. Os reflexos. E aquela coisa toda já dita em algum texto apócrifo. De acordo com minha psique, porém, eu precisava de mais rapé para dar seguimento ao mote. Ajudaria a pensar melhor, talvez, intuí. No entanto, sem conseguir me controlar, disse-lhe outra coisa. Sentença não menos verdadeira do que a imaginada, é evidente.
– Bicho, tenho de tocar em alva pele feminina para conseguir dormir... – falei-lhe em um tom inumano, como fala um rio quando respira – Sentir! – limpei o nariz que escorria e coçava – Sei que algumas mulheres são charmosamente intransigentes. Ainda assim, são todas tão belas com seus defeitos continentais... – confidenciei, relembrando experiências próprias – Nos primórdios da convivência a dois, qualquer uma possui potencial erótico de se tornar meu mais novo intenso amor eterno.
– Escuta, escuta só – achei que o barulho emitido para o qual este drogué habitué me chamava atenção fosse seu coração esmurrando a caixa torácica, mas não era – Vem comigo que vou te levar num lugar legal.
Eu não queria ir “num lugar legal”. Queria tabaco.
– Me dá um pouco de rapé pra eu levar pro bezerro.
– Não, ele não precisa.
– Então me dá um pouco pra eu esfregar na gengiva.
– Não, você também não precisa, ainda – alegou-me eufórico, ensaiou conter-se e, antes de continuar, bateu as asas de hematófago cego – Porra! Vem comigo, Anãozinho. O descumprimento dessa lei expressa verbalmente implicará em severas punições... – ergueu a camiseta e expôs seu inseparável estilingue.
Cedi. Saímos dali. Atravessamos duas avenidas. Tomamos a ladeira indicada pelo meu amigo. Ele na dianteira, arrastando os pés. Conversávamos sobre nada em específico. Os pensamentos vagando, ricocheteando, perdidos, sem destinatário. Simples demonstrações de sinapses mal feitas. Os dois, apenas seguindo o caminho íngreme. Quando de repente Macaco cantou “All my friends were vampires”, emendei com “In the devil town”. E o fiz naturalmente, como se sempre estivéssemos com o subconsciente conectado. De modo que isto traduz a idéia de que as coisas se resolvem por si, sem pressões; de que não é preciso agonia para alcançá-las. Avançamos mais. Chegamos à praça do alto do morro. Era bem ventilado lá. Várias bandeiras, representando os municípios do extenso Estado do Mato, farfalhavam como roupas estendidas no varal. Já a bandeira do Brasil, esta estava perfeitamente rasgada. “Isto é contra a lei”, certa vez alguém me alertou. Naquele momento não importava, e, acima de tudo, não fazia sentido. O barulho dos tecidos tremulando era agradável. Havia tranqüilidade suficiente no ambiente para se descobrir segredos indesejados.
– Droga, meu sapato furou – lamentou-se, aparentemente ignorando o mundo inteiro – Mas e aí, gostou daqui, não é?
Gostei.
– Dioi quem me apresentou. Saudades dele... – notei Macaco engolindo a saliva áspera – Ok, meu velho, para me desculpar da grosseria de antes, tenho outra surpresa da natureza mundana. Quer ver abelhas gigantes?
Quero.
– Espera. Contagem regressiva.
5, 4, 3, 2, 1.
– Olha as motos saindo quando o semáforo abre.
Olhei.
Ligeiramente alheio ao monólogo, surdo perante a música, mas já ensaiando esquecer a pequena rusga, retruquei-lhe com meu espanto:
– É, e a maioria usa camisetas que trazem a logomarca de preservativos.
Entreolhamo-nos, boquiabertos, desconfiados. O ronco dos motores desaparecia em meio a alteração de freqüência do Efeito Doppler. Erguemos as duas mãos para o alto. Delas mantivemos em riste os dedos do meio esperando o semáforo fechar e a tranqüilidade de um minúsculo e degradado mundo só nosso voltar.

quarta-feira, 4 de março de 2009

ex animo dicere II


"Amado seja aquele que se senta", disse o taxista enquanto pensava nas Canções do Segundo Andar de seu calado irmão poeta.
Alors, passez le mot!


* imagem: still da película.

a patetice, isto é, a amizade I

::::: não faço favores ::::::

Fico irritado quando, após irregular intervalo de tempo, religo para alguém e o telefone continua a dar sinal de ocupado. Sinto vontade de engolir o telefone. É injusto, sejamos justos com quem merece bonança, porque quem deveria sofrer com tamanha raiva declarada é o cidadão que preciso falar. Por outro lado, fazê-lo engolir o telefone seria terrivelmente cansativo. Esperar quem está atrasado a um encontro qualquer ou consolar um bezerro que chora de saudade da amplitude do pasto e do confinamento no curral não me irritaria tanto. Em tais situações, não menos que em outras de igual abstração, tenho espaço para pensar aleatoriamente e sem obrigação. Meus sapatos me apertam, pensei, então.
A camionete que dirigia estava parada do outro lado da BR. O bezerro amarrado na carroceria mugia – mugido que se fossemos traduzir corretamente, diria que eram insultos à vaca que o pusera no mundo para morrer com tamanha obediência e elegância. Comprei umas cinco fichas telefônicas porque a bateria do celular descarregara. No orelhão, enquanto bebia suco de maçã de caixinha, eu insistia na tentativa de falar com renomado amigo: Caubói, homem bom de laço, campeão de montaria, uma ninhada de filhos para criar. Tinha certeza de que o dito cujo era capaz de honrar a amizade de longa data e me fornecer dicas para chegar à fazenda. Pelo que escutei das bocas pequenas, haveria pândega no lugar. Utilizariam o bezerro na prova de laço. Permitiriam às crianças montarem e marcarem com ferro quente o corpo do quadrúpede. Então o matariam e assariam para a multidão presente encher as crateras sem fim que tinham no lugar de estômagos humanos. De algumas partes, os chamados cortes nobres, fariam, utilizando caras especiarias, um guisado do vitelo de menos de um ano – aquele mesmo, firme e pacato na carroceria. No que me diz respeito, ficar de pé era ruim. Meus sapatos ainda me apertavam.
Disquei os códigos chave.
– Alô, o Caubói pode falar comigo?
Ouço meu amigo gritando do outro lado. A mãe dele é quem atende, entretanto.
– Ih, acho que não. O homem tá bêbado que só vendo. Quem fala aí?
Quem fala aí? Quem fala aí? Diabos. A frase ricocheteou no crânio fazendo-me perder a ordem dos verbos, substantivos, preposições e artigos para, por fim, desabotoar dois botões da camisa que perturbava a circulação sangüínea.
– Eita diacho. Desembucha, homem!
– Ah! Oi... Alô? Desculpa. Sou amigo dele, lá do bairro. Da Várzea. A senhora não se lembra de mim? Estive em sua casa ontem para apanhar o bezerro. Caubói pediu que fizesse o favor de transportá-lo. Falou para trazê-lo até a fazenda. Mas não encontro o bendito lugar. Peça para ele me atender. Alguém tem de explicar como se chega aí.
– Esperaí, moço.
Para onde mais eu poderia ir só ela mesma poderia responder. O bezerro estava quieto. Eu batia um pé, marcando o tempo. Coloquei mais ficha no telefone. O tilintar delas caindo me agrada. Segundos mais tarde consigo distinguir, dentre o alvoroço na linha, a voz do Caubói exprimindo seus mais sórdidos sentimentos em relação a mim, que desde sempre o tive em alta conta, eu que o idolatrava nos rodeios e me humilharia em qualquer confronto para ajudá-lo a não se ferir. Por conseguinte, continuei a colocar fichas e apreciar o barulho, toda a sinfonia de ruídos, sem me desanimar com a crise de nosso relacionamento. Daí as fichas acabaram. Não dava para ir buscar outras. O sapato passou a machucar mais. A pressão alta fazia meu pescoço latejar como se quatro mãos o apertassem. Comecei a arrancar os botões da camisa e usá-los no lugar das fichas. O bezerro se deitou. Parei de mexer o pé. O sangue circulava regularmente. Dei uma melhorada.
– Olha moço, ele não quer falar com você.
Insisto em não desanimar com o amigo. Brinco com as “fichas” restantes na mão. Alimento a fome do aparelho. Fecho os olhos. Vejo o que tenho dentro.













– Tá m’escutando?
– Como faço agora, dona? – insisto.
– O que cê disse? Não tô te ouvindo direito. Tá com interferência.
– COMO CHEGO AÍ? – explodi.
– Ôxe! Calma, cabra. Eu te ensino, ué. Onde cê tá?
– No posto telefônico.
– É fácil. Pra chegar aqui, e ainda aproveitar a festa, você vem pela BR, sentido capital, até o KM 62. No acostamento do teu lado direito tem três porteiras. Daí cê... – e a matriarca explicou nos mínimos detalhes, para meu total desassossego.
Acelerei até as tais porteiras. Escolhi uma. Entrei. Chegamos, eu e o bezerro encomendado, a uma clareira. Avistei uma parede em ruínas por onde trepadeiras cresciam, preguiçosas. Faziam aquilo para se divertirem, imaginei. Fazem isso para me deixar com fome, pensaria meu acompanhante. Escutei suas risadas, assim, de repente. Das plantas e do vitelo. E não havia viv’alma de cabelos desgrenhados, epilépticos do álcool. Não havia sequer vestígios de festa. Subitamente meu sapato parou de apertar. A pressão baixou. Resolvi descer o passivo bezerro da carroceria.
– Tens medo de morrer, ginete? – interpelou-me, quando livre.
Falei que não.
– Morri há três semanas atrás... – respondi-lhe, olhando fixamente para seus olhos de lantejoula – Morri quando...
– Não fale! – interrompeu-me, bramindo.
Voltei à camionete. Atrás do banco encontrei fivela e chapéu, os quais tratei de usar. Aproximei-me do bezerro e beijei-lhe a boca. Se fossemos íntimos, talvez permitisse que eu o montasse adequadamente. Funcionou. Afeiçoamo-nos, um ao outro, reciprocamente. Optamos por desaparecer na pradaria infinita, em diamantino galope, deixando rastro de silêncio ambíguo.

hector, o mágico II

::::: circunstâncias adversas de uma fila de banco :::::

Quando, por algum distinto milagre sepulcral, chegou minha vez de ser atendido, cheguei bem perto do rosto enrugado do funcionário do caixa e gritei, gritei com força, baforando como treminhão carregado subindo serra em marcha reduzida.
– Eu tenho halitose?
Parece feitiçaria, mas esperar horas na fila me transformou. Teci pensamentos prestidigitadores. Tudo porque metade dos clientes, cito os analfabetos digitais inúteis como um quadro atrás da porta, poderiam estar utilizando ou o computador pessoal ou o caixa-eletrônico para resolverem suas pendências. Dobrando, assim, a velocidade de andamento da infame linha reta de gente desgraçada que tem de obrigatoriamente estar ali; diminuindo (de acordo com fontes seguras do ASMA, Admirável Sindicato dos Mágicos Anônimos) em vinte por cento o número de enfartados por causa da cruel espera em filas e que, segundo as mesmas pesquisas, deram entrada nos hospitais recentemente. Entrada pela porta de emergência. Saída triunfal de rabecão. Por outro lado – e serei franco como um cassetete autoritário –, dois terços da outra metade, isso mesmo!, correspondem a parcela de sádicos que adoram uma fila e não perdem a oportunidade de filiar-se a uma só para terem a atenção (forçada, vale lembrar) de alguém, a frente ou atrás, a quem lamuriam sobre as mazelas do nascimento, da vida, da morte e do que mais ocorrer de indigno no intervalo desses fatos marcantes, marcantes para os dois terços e irrelevante para o número restante. No fim, aquele um terço abrange as pessoas normais, tão suscetíveis a transformações como eu ou os bichos-de-seda. Sendo assim, diante do silêncio abissal da agência, tomei a liberdade de responder minha própria pergunta.
– Não, eu não tenho halitose! E digo mais. Farei uma mágica que dará cabo ao aborrecimento de todos nós, cidadãos molestados pelas filas. Criarei um clima de festa, de confraternização e de pura alegria aqui nesta agência.
Pulei sobre o guichê número três e, rodopiando num só pé, tirei a cartola da cabeça com movimento inspirado em Chaplin, o vagabundo pantomímico. Atirei no chão uma bombinha especial que fez subir fumaça azul e amarela. Enfiei a mão no bolso e distribuí caramelos, narizes de palhaço e cartas de baralho para a platéia. Pronto, estava aberto o espetáculo.
– Respeitável público, para mostrar-lhes a grandiosidade de minhas mágicas, tirarei agora um lindo coelho da cartola.
Meti a mão na cartola e segurei o peludo pelas orelhas. Estavam bem quentes. Minha mão doía, isto é, ardia, mas não reclamei. Agüentei firme. A cartola exalava uma fumaça estranha. O roedor entalou logo em seguida. Irrompeu em agudos gemidos. Na premência, recrutei uma jovem ajudante no público. Juntos, conseguimos retirar o coelho da cartola. O ergui, contente, e me curvei, reverente, esperando receber a ovação das palmas dos clientes.
– Vejam! O bicho está ardendo em chamas! – denunciou algum mal-caráter sem instrução e incapaz de descobrir a diferença entre o dia e a noite, tampouco reconhecer o talento de artistas profissionais.
– Acalmem-se, meus caros... – disse-lhes, tentando, em vão, conter as adversidades da circunstância.
O alarme do banco soou. Um bebê pôs-se a chorar. As luzes principais foram substituídas pelas de emergência. A platéia, em geral, agitou-se. Destacando-se da massa uniforme, um sujeito robusto, segurando o malote de sua firma debaixo do braço, avançou em câmera lenta e pegou o extintor de pó químico. Rompeu o lacre com os dentes e pôs o negócio para funcionar. Dirigiu o jato branco no coelho. Depois, passou a derramar a coisa em mim. De imediato, aquilo que me entrou pelas vias respiratórias causou danos. Comecei a lacrimejar, tossindo feito cão tuberculoso. Dois homens fardados, velhos conhecidos, apareceram para restabelecer a ordem provinciana do recinto. Retiraram-me do palco, imobilizando as valiosas mãos nas costas e confiscando meus utensílios de fabricar o extraordinário. Os dois começaram a me arrastar para fora do banco. Daí todo mundo ficou em silêncio, me assistindo. O peculiar barulho do solado dos borzeguins dos oficias, em atrito com o chão polido, atravessando o salão, despertou-me idéias para uma próxima apresentação. Só que de tanto respirar o pó químico do extintor, minha vista foi escurecendo gradativamente. Tentei recapitular a idéia que tivera para o novo espetáculo, mas antes de me dar conta, a consciência se esvaia, em bocejos macios. Desmaiei ouvindo a ruidosa salva de palmas dos cidadãos presentes.
Dias mais tarde, cansado de minhas piadas, o carcereiro confessou que os aplausos eram para a equipe de salvamento que, com sucesso, reanimara o coelho queimado.

terça-feira, 3 de março de 2009

hector, o mágico I

::::: circunstâncias adversas de um b.o. :::::

De madrugada, ao atinar para o delito sofrido, me dirigi tranqüilamente à delegacia. Não houve espera. Fui logo atendido. Durante a confecção do boletim de ocorrência, a escrivã, antes mesmo de solicitar a descrição dos fatos sinistros, perguntou minha atual ocupação. Após dois minutos de reflexão, lhe digo que sou mágico. Dos bons. Com registro no sindicato. Forneço a seqüência de números, pois a memorizei.
– Ah, é? No duro?
– Juro pela minha cartola roubada.
Sem rodeios, pediram para eu fazer algo que comprovasse a declaração.
– As circunstâncias são essas: num minuto se é inocente, noutro, culpado.
– Entendi... – respondi, sem entender nada, ao investigador de plantão.
Meus olhos pousam sobre um frasco sobre a mesa. O pego. Faço desaparecer todas as pílulas de uma só vez. E o fiz sem mastigar, apenas engolindo-as a seco. Muito estudo para se fazer uma mágica tão boa.
– Viram?
Dois homens fardados entraram na sala derramando hostilidade pelas portas dos olhos. Algemaram-me enquanto eu vomitava pela delegacia.
– Viram? Eu disse que era mágico. Foram vocês quem pediram uma prova. Agora me soltem que faço essa sujeira desaparecer.
Mas eles eram irredutíveis em suas posturas desconexas. Por conseguinte, fui tolhido da honra e da intimidade, em poucas palavras, da liberdade resumida. Não me soltaram até o dia em que os problemas inerentes à linguagem e, portanto, às relações humanas, desapareceram. Não paguei fiança para sair. Não houve burocracia. Também não sei quanto tempo fiquei trancado. Estranhas circunstâncias transreais. Parece que fui logo liberado. De vestes amarrotadas. Em compensação, tive de assinar um documento alegando meu comprometimento em parar de comer cactos.

ex animo dicere I

"... Como se começa – perguntam os curiosos... De tantas maneiras – sob variadas tiranias ou ciladas do destino! Este S... e M... – por exemplo – começou para morrer – e há vinte e três anos que se convulsiona nesta satânica agonia...", disse, com todos os adornos da belle époque, um repórter lisboeta em suas memórias.
God is an astronaut, isn't He?
Alors, passez le mot!


* imagem: Cláudio Tozzi - 1969 - Astronautas.