sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

ex animo dicere CXXVII



"Lord, I want to thank you for this film. I want to thank you for the shoot. Everything went so well. I want to thank you for all the happiness involved. We all made this film in honour of you. Let me pray for every single person who watches this film, may they be willing to encounter you in a new way, may they gain a new vision of you. I want to thank you, Lord, for everyone being so deeply impressed, and let me thank you for them having found out that you love them and that you have a plan for their life. In the name of Jesus. Amen."

"Lord, I dedicate this project to your cross, the cross of victory. I profess in the name of all the people who are chosen to fulfill your plan. I profess that you, Jesus Christ, you are our Lord and our living God; that you are the master of this film, the master of Austria. I profess that you want to do something completely new with this film, something that no one can foresee or predict, Lord, you can do it."

"Lord, take this film to our hearts, enlighten us so that we realise what we are meant to show. This film will present you, almighty God, saviour and Lord. Talk through us, guide and direct us and move the hearts of the audience."

* imagens: screen gods.

É com essas três preces filmadas em voz alta que Ulrich Seidl começa este documentário intimista, ora doméstico, mas em geral ambientado em templos permeados por um estéril marasmo de sacristia; é assim que começamos a ouvir o coração, o louvor (às vezes como é, às vezes apenas bizarro) e as conversas (monólogos, em verdade) entre grandes amigos. Entre um fiel e o filho do homem: Jesus, you know. O que não me espanta é constatar que, por outro lado, há a parcela significativa de cristãos que não querem viver como Cristo, isto é, financeiramente humilhados, na busca. Amiguinhos, Deus só nos escutará quando nossas semelhanças voltarem, isto é, quando dominarmos a habilidade de produzir acidentes arbitrários.


Alors, alleluia, Jesus!

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XLV


Mais non! C’est la faute à Fidel!

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XLIV

::::: chicken poets :::::

Na saída do estacionamento parei ao lado do carro dessa mulher. Abaixei o vidro e, fervorosamente cego, cutuquei seus olhos de isopor e afirmei:
– Sou poeta.
– ...
– Escolha uma poesia de qualquer autor que goste e eu a recitarei.
– Chanson de la plus haute tour, de Rimbaud – previsivelmente respondeu, em límpido francês glacial, não comestível.
– Ah, deixa pra lá.
Engatei ré e voltei. Esperaria outra mulher, mais fácil, mais burra; cujo corpo eu pudesse experimentar em falso silêncio. Afinal, as palavras são reis sem poderes efetivos tentando acertar rainhas com rachaduras invisíveis.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XLIII

::::: os flintstones :::::

As cigarras não mais farão as garotinhas gritarem de medo. Aquela, em especial, não vai mais me arranhar quando eu for embora fingindo ser MacGyver. Ninguém vai quebrar o braço em volta da piscina, ninguém vai apostar corrida para copiar a matéria, ninguém vai jogar queimada e ninguém cantará hinos infantis alinhados em filas militares. Aquelas crianças também não encherão de ar as embalagens descartáveis do achocolatado do lanche para pisarem em cima e estourarem o mundo em risos banguelas. De amanhã em diante, a moda não será eterna: o Jardim Escola Bambam & Pedrita fechou. A neblina que resta fede.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XLII

::::: logorama :::::

– ¿Qué te passa, El Loco? – gargalhando, desferiu um perturbante soco no balcão – Vou chamar os comercias! – anunciou o pescador grisalho, chefe do restaurante e dono do barco que ficara a deriva por falta de combustível, antes de rugir como o leão da MGM; depois disso, passei dez dias comendo pastéis dos mais variados sabores em sua insanável presença, e passeei para tão longe que esqueci de que sangue seu nome era feito.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XLI

::::: sonho de moça :::::

Essa garota pequena de cachos igualmente miúdos andava de um jeito engraçado. Numa espécie de ritual contínuo, virava o pescoço para fazer o cabelo dançar. Esquerda e direita, e avante. Depois sorria serena. Depois se repetia, se sentava. Assim, ressoando, no aconchego de um suco, percebi que seus óculos de cor rosa me refletiram enquanto fiquei naquela mesa fingindo não vê-la. O rádio foi ligado. A Voz do Brasil me lembrava Woody Allen, o divertido hipocondríaco. A “morena simpática” da outra mesa fingia reclamar quanto a fumaça da churrasqueira, mas por dentro sorria já que os cachos da pequena também ficariam fedidos e a atenção agora era dela. Outras pessoas, outras culturas, outras referências de grunhidos, outras misérias avançadas. Mas São Google, em quais megahertzs andará Toni Braxton?

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XL

::::: arachnophobia :::::

Parei diante do portão da casa dessa garota. Tentei a campainha. Não estava funcionando. Pensando se apertava a do vizinho ou gritava seu apelido, olhei para a lua e esta parecia estar à mesma distância que aquele gato em frente ao portão da casa do outro lado da rua. Uma corrente de ar me fez apertar o outro botão. Nada, também. Voltei pro gato. Ele se coçava devagar. Um caminhão passou e empurrou o gato para longe – porque acabei por notar que este era de papel.
Invariavelmente a garota demorou, mas apareceu. Subimos à alcova celeste e nos deitamos lado a lado como satélites. Com apenas um olho aberto e o outro afundado no lençol, julguei que a assistia de dentro de uma gruta formada pelos ossos da minha órbita. Ela parecia Deus me olhando pelo buraco da fechadura. De repente tomei um susto com a aranha em cima do travesseiro. Foi então que por instinto, flutuando no halo que a envolvia, peguei papel e caneta para escrever o texto.

:::: o compasso cru ::::

Às vezes pode parecer que não, mas sim, é verdade. Já tive menos idade. E em algum momento dessa imaturidade peguei uma aranha para criar. Ou quase isso. Era feriado, ou domingo – lembro-me apenas que era um desses dias doentes de dar pena –, quando a escutei bater à porta. “Tenho um segredo”, disse, claramente, em tom de peçonha, “Matei um homem. Preciso de abrigo por algum tempo”. Perguntei sobre sua família, pois o mais indicado seria procurá-los naquele momento. “Meu pai morreu eletrocutado. Caiu da escada quando dava manutenção no transformador do estádio de futebol. Na queda, segurou-se nos fios de alta tensão para não se espatifar no chão. Ele só esqueceu que estava sem luvas. Minha mãe, a artrópode? Nunca conheci. Enfim”, a aranha ponderou sobre o que diria para completar o pensamento enquanto um grilo passou por perto, e ela o acompanhou com os olhos, mexendo sua presa pra frente e para trás, em dúvida, questão de sobrevivência, questão de fome, “Enfim, querido, não conheço ninguém a não ser você.”
Assim foi que caí na armadilha dos mil olhos da aranha.
Começamos nossa vie à deux. Quando eu chegava em casa, ela corria para seu cantinho favorito do quarto. Toda meiga, e acanhada, balançando na teia. Era interessante ficar a observá-la tecendo. Depois de cansada, me abraçava. Essa era a deixa para alimentá-la com insetos de boa qualidade – os quais eu conseguia mediante negociação injusta com as crianças ranzinzas do bairro. Ao terminar a refeição, deitávamos no sofá e, entrelaçados, conversávamos horas a fio. Não raro, como recompensa por me fazer companhia nas noites insones, trazia-lhe da rua pequenos roedores para se deliciar. Nessa cadência suave, o tempo, indolente, sumia. Por conta do trabalho, costumava passar o dia todo fora de casa. Mas, em minha ausência, sempre lhe deixava algo comestível. A meu ver, era nesse quesito que nossa existência se resumia e se assemelhava. Com muito custo aprendi que não era suficiente; que tinha de dar cada vez mais, cada vez uma coisa nova; que tinha de me esforçar para a convivência agradavelmente seguir adiante. Certa noite, ligeiramente mais absurda que o padrão, cheguei mais embriagado que qualquer homem moderno acredite ser obrigatório. Não consegui, portanto, alimentá-la nem lhe chamar para conversar comigo. Afinal, desmaiei. Durante a madrugada acordei com uma coceira no nariz. Então, simplesmente soube que a aranha havia entrado em mim.
A partir dali, nossas sensações e pensamentos se misturaram. Eu era ela e ela também era eu. Coisa mais estranha. Através dos olhos dela, eu me via por dentro. E acredito que ela trocava informações com algo perdido dentro de mim enquanto vagava pelo meu corpo – embora fisicamente eu não a tivesse penetrado. Assim ficamos por anos. Conhecendo-nos e tornando-nos íntimos dessa maneira. Equivocada, forçada. Dois seres vivendo uma única vida. Apertada. Tecendo a linha de nosso tempo; a armação de um guarda-vento. Apesar de a coceira incomodar nas noites em que bebia conhaque e comia ovos de codorna, aqueles foram os anos mais tranqüilos de minha existência, ou seja, o mesmo vale para ela, pois quando falo do sangue, falo de tudo. Não era preciso me explicar, me fazer entender. Ela carecia de queixas, não precisava pedir. Nem falar. Tudo acontecia em silêncio, internamente. Em pacífico consentimento.
Entretanto – e eu não acredito nisso –, algumas coisas precisam mudar. Numa manhã de domingo, ou feriado santo – nunca distingui a diferença entre esses dias e um triste velório – acordei com a notória coceira no nariz. Em seguida, a aranha estava sentada em meu peito, fitando-me com seus vários olhos, sem exceção dos olhos camuflados nas costas cansadas da vida embaixo de pedras, cadeiras, rins, através do duodeno; tiquetaqueando suas várias pernas; ela havia nascido, portando um meio-sorriso de paixão. A coloquei no carro e, imediatamente, antes que eu cuspisse mais aranhas, fomos nos casar no cartório mais próximo. “Duas traças libidinosas fugiram do paraíso”, esclareceu-nos o padrinho, sublinhando nossos votos de velhos habitantes dum novíssimo testamento inundado.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXXIX

::::: the coca-cola kid :::::

Arranque teus olhos de peixe e deposite no aquário. Adicione sal a gosto. Em pouco tempo as escamas crescerão. Imagem não é nada. Oceano é tudo. Cegue-se, então, e chora-me uma fórmula seivosa para fazer espumas que eu possa engarrafar e vender.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXXVIII


– Vamos quebrar uma?
Com jamais vista agilidade de raciocínio viciado, concordei. Contornei, estacionei o carro e descemos para comprar algumas latas. Quebramos os lacres, jogamos salivas usadas na lata do lixo, urinamos em azulejos brancos e quando cansamos os corpos retornamos ao conforto do asfalto.
Numa rotatória sem sinaleiro, paramos. Um táxi bateu na traseira. Verificamos nosso estado. Não quebramos nada. Descemos para procurar o sujeito educado, mas não o vimos. O vidro dianteiro não estava avariado, não havia sangue, e de fora não se notava pessoa alguma no carro. Jimbo foi lá espiar pela janela. Quase caiu com a cena. Me chamou e também quase chorei. O motorista havia dormido, estava bem, apenas desmaiado, pois com o impacto fora arremessado como um hot wheels para o espaço onde o passageiro repousa as pernas. Parecia um boneco inflável, só que sem ar. La beauté est dans la rue, n’est-ce pas?

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXXVII

::::: apocalypse now :::::

O vencedor da loteria não havia se pronunciado publicamente tampouco reclamado o prêmio. Para mim bastava saber que o novo milionário não era meu pai, uma vez que acreditava em sua recente confissão de quase-sorte – acertou apenas quatro números. Mas qual não foi minha dor de barriga quando um helicóptero sobrevoou o quintal de casa e jogou uma escada. Naturalmente, achei que era para eu subir. Foi quando ouvi uma voz do alto:
– Traz o teu prato!
Esse amigo sim teve sorte. Acertou sozinho e ganhou um monte de notas. Algumas nunca mais perderam a forma de canudo.
– Porque ninguém samba no meu prato!
Felizmente ele me estimava já que eu nunca fora pedir um prato de comida em sua casa.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXXVI

::::: mondo cane :::::

O ex-marido da vizinha de meus pais criava leões. Sujeito era coronel famoso pela insanidade; matava pra ver o tombo, como dizem. Divorciaram-se. Ela seguiu carreira na escola de tiro e com o treinamento de cães, que assumiram as jaulas dos leões fazendo tanto barulho quanto. Penso que a comunidade deveria fazer um bingo. Arrecadando dinheiro pra viagem sem volta desses pulguentos.
Possíveis destinos:
1) Tribo da Nova Guiné onde os cães comem carne de porco no colo dos chefes.
2) Cemitério canino em Los Angeles.
3) Restaurantes em Taipei onde os cães mais apetitosos são escolhidos na jaula.
Escolham.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

ex animo dicere CXXVI



As últimas notícias lá da terra onde George Orwell se "inspirou" para o primeiro romance parecem boas. Liberaram Aung San Suu Kyi. Automaticamente lembrei do divertido Guy Delisle. Pesquei seus três livros e ri um pouco.



* imagens: SCX-4300, mas na Zarabatana Books tem tudo.


Alors, passez la bande dessinée.

rt tudo sobre meu primeiro amor & cidade desencantada

http://agoraquando.blogspot.com/2010/11/tudo-sobre-meu-primeiro-amor.html
&

carne

As instalações pútridas do curtume ficavam em sítio afastado da cidade. Um lugar ermo, de fato, de dar asco. E, obviamente, assim o era para fins eufêmicos de existência, para dissimular o fogo-fátuo, o gosto e os vaga-lumes ciceroneando a inerente morte. Meu trabalho era executar o que nenhum outro motorista se atrevia ou se via inclinado a fazer, apesar da pressão moderada: levar ao curtume os restos de carne com peles e ossos para a curtição do couro dos animais. Não me pagavam muito pelo serviço extra. A empresa detinha as artimanhas, o espólio da natureza, em suma, as rédeas dos meus cavalos a diesel – estes farejadores de incenso do apodrecimento que impregnava minhas roupas como sutil lembrança para selar a relação de amizade e respeito mútuo com os conterrâneos, com as marcantes fisionomias das cabeças de gado sem corpo. Peguei a estrada só pensando em voltar para casa. Voltar, tomar banho e ficar sentado sem camiseta, bebendo cerveja. Arrotando sobre a grama molhada do quintal. Prostrado, a encarar o horizonte até sentir um olho lacrimejar. Mas as cruzes, do lado direito da pista, as vantajosamente enferrujadas nos buracos – os crivos feitos à bala –, isto é, as placas informativas com os dizeres quase apagados, me preveniam a respeito do que eu poderia encontrar adiante, sempre adiante. À frente, cavalaria! “Para quem vai sem se virar para trás, é assim que tem de ser”, em minhas reminiscências alertavam-me os outros motoristas, que eu ignorava. As placas tinham o péssimo costume de resumir aquele extenso território entre o ponto de partida e o de destino como se resumissem a vida com as palavras “não faça isso”.
Meu corpo chacoalhava dentro do caminhão. O rádio já não sintonizava nada. O volante, envolto com as mãos, parecia querer saltar ali mesmo e procurar um tronco oco para se esconder. Quantos buracos tinham aquela rodovia, não dava para calcular, mas ter um rádio fora do ar é tão deprimente quanto ter um mar e não saber nadar. Atento ao dial e desatento à estrada me assustei com a súbita aparição de uma vaca no caminho. Rapidamente gravei seu rosto, e tratei de girar bruscamente o volante para escapar do acidente. A deteriorada carroceria do caminhão não resistiu: partiu-se com a manobra. Toda a carga ficou esparramada, toda a post-mortem nudez exposta. A rodovia tornou-se uma trincheira, um belo exemplo da trincheira dos vencedores da batalha. O asfalto, coberto com a carga, começou a emanar a característica névoa verde bruxuleante dos corpos em decomposição. O caminhão, preso em uma vala do acostamento, pedia para ser sacrificado qual eqüino adoecido. Ah, era terrível! Parecia uma guerra em jogo de tabuleiro. Quase via os fantasmas galopantes, os peões jogando dados, os suínos e bovinos avantajados atravessando a BR, eu ficando rodadas sem jogar. Onde a vaca fora se meter, eu não tinha a mais vaga noção. Apenas garanto que foi fácil descobrir que não estava mais lá quando desci e constatei a real confusão em que me metera. Nenhum posto num raio de trinta quilômetros para trás. Para frente, mais ou menos a dezoito quilômetros, estava o curtume. Nenhum veículo transitou durante dois quartos de hora que esperei. Deitei dentro do baú do caminhão e cochilei, mandando pro inferno meus compromissos e dores de cabeça que se seguiriam quando a firma descobrisse aquilo. Acordei com um bando de gente saqueando a carga esparramada. De onde vieram esses ratos, só perguntando para saber.
– Ei, vocês! Parem já com isso. De onde vocês são?
Mas ninguém dizia nada. Continuavam carregando sacos com aqueles restos.
– Como é o teu nome? – perguntei, puxando um sujeito pelo braço.
Ele me fitou, imóvel e impenetrável, sereno como uma coruja com insônia.
– Nós não temos nomes. Viemos de lugar algum.
Em seguida ele assoviou. Os demais se preparam para ir embora. Embrenharam no mato de um dos lados da pista. Amaldiçoando livremente os mais variados santos fui ter com eles no intuito de que me ajudassem.
– Cale-se, tolo! – gritou-me alguém, em censura, nitidamente exasperado com minhas maledicências – Podes vir conosco se quiseres, mas terás de tornar-te outra pessoa. Terás de esquecerdes vosso passado abjeto e adaptar-te a nossos costumes elevados.
– Do que você está falando, cara? Que papo frouxo é esse?
– Se tu vieres não mais voltarás.
– Por quê?
– Porque tu verás a mais bela aurora e te esquecerás do resto.
Obviamente não acreditei em nada daquilo, mas continuei com eles, aflito. Primeiro o caminhão e agora aquilo. Tratei de seguir com eles mata adentro. A vegetação cada vez mais se fechava, ameaçando os intrusos. Em dado ponto abriu-se bruscamente. Surgia, então, uma enorme clareira de onde olhávamos um céu de verdade. A partir dali o caminho ficou leve, de fácil tráfego, perfumado por flores naturalmente semeadas ao longo do trajeto. Senti que automaticamente me desprendia do passado, da vida inútil e sem objetivos que levara até então. Invadiu-me um bem-estar sem tamanho. Meus passos pareciam mais sinceros, mais seguros, mais barrosos. Procurei os rostos dos meus guias e eles todos sorriam placidamente. Então começaram a cantar. Ora as mulheres, ora os homens. Cada um com sua parte, se encarregando de sua deixa com responsabilidade. Arrisquei imitá-los. Não se queixaram. Quando paramos de caminhar, estávamos diante de uma gruta. Após o firme movimento de cabeça de um homem, os outros foram entrando. A princípio tive receio. Virei para trás e percebi que seria incapaz de retornar sozinho. Creio que um sentimento de complementaridade estava em trâmite. Afundei na escuridão. Impossibilitado de enxergar a palma de minha mão diante do meu nariz, guiei-me pelas vozes. Não sei explicar como ninguém tropeçava. Gradualmente uma luz veio surgindo, crescendo, explodindo nas retinas. “Pronto, atravessamos um formigueiro”, pensei. Depois disso nunca mais fiquei aflito.
Quando meus olhos se acostumaram novamente com a claridade, me deparei com algo deveras encantador. Um vilarejo. Algumas casinhas asseadas, um modesto templo e, mais ao norte, o maior salão do lugar. Tinha uma placa na frente deste avisando que ali funcionava a escola e o posto médico. Vasculhando com os olhos, encontrei também uma linda plantação de frutas e legumes. Ouvia-se o movimento das águas de algum córrego próximo. Era uma vila. Sem dúvida fascinante. Um povoado que não existia no mapa e não tinha nome. Há quanto tempo estariam vivendo assim pouco importava, desde que funcionasse. Para meu espanto, vi algumas crianças se divertindo com a vaca que me tirara da estrada e me colocara entre aquele peculiar grupo. As segui. Sobre uma pilha de feno, amamentavam um bezerro negro como a fuligem. Um cara se aproximou de mim.
– Por que vocês saquearam essa carne estragada? Vocês estão tão bem com a plantação e os animais daqui.
– É que às vezes precisamos do couro da carne.
– E quanto a mim? Existe algum motivo para terem permitido que eu viesse?
– Venha comigo – o homem calma e gentilmente me tomou pela mão.
Demos a volta por uma trilha estreita e, subindo umas pedras, ficamos no alto. Borboletas imensas voavam ao nosso redor. Lá embaixo eu via as suaves flores do caminho que cruzamos. Bem distante, em meio a desordem de diminutos pontos, o caminhão danificado e os restos da carga esparramada. Tudo o que esses elementos representavam perdiam-se lá. Em algum passado. Nada daquilo me fazia falta, não eram itens necessários e tampouco sustentavam coisas indispensáveis. Ele me estendeu uma cabaça dizendo para beber aquele líquido marrom. Minutos depois, deu-me pedaços de couro para me proteger. Depois desmaiei. Em fantasias caleidoscópicas. Quando o alvorecer se aproximou, me acordou. Eu estava incrivelmente lúcido. O ar de onde me encontrava era puro. Com sua paleta de cor ígnea sem vigor, a ascensão se aproximava na velocidade da correnteza de um córrego. A grama verde molhada crescia dentro do meu ventre de carne. Falei, de olhos semi-cerrados, cutucando-lhe com o cotovelo, prazerosamente exalando terra do fundo de meu peito.
– É tão bom respirar.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

ex animo dicere CXXV

"Descendo de volta à planície, seguiu uns salgueiros que margeavam uma ribeira. Voando muito baixo, passavam grous, de quando em quando, por cima de sua cabeça. Julien derrubava-os com o chicote, e nenhum lhe escapou. No entanto, o ar, mais tépido, tinha derretido a geada; flutuavam largos vapores e o sol mostrou-se. Viu reluzir lá ao longe um lago gelado, que parecia de chumbo. No meio estava um animal que Julien não conhecia, um castor de focinho preto. Apesar da distância, uma flecha abateu-o; e ele teve pena de não poder levar a pele. Depois, avançou por uma avenida de grandes árvores, que formavam com os cimos um arco triunfal, à entrada de uma floresta. Do bosque saltou um cabrito, numa encruzilhada apareceu um ganso, um texugo saiu de um buraco sobre a relva, um pavão armou a cauda; e depois que a todos matou, outros cabritos se apresentaram, outros gansos, outros texugos, outros pavões, e melros, galos, doninhas, raposas, ouriços-cacheiros, linces, uma infinidade de animais, cada vez mais numerosos. Giravam em torno dele, trêmulos, com um olhar pleno de suavidade e súplicas. Mas Julien não se cansava de matar, ora retesando a balestra, ora desembainhando a espada, ora espetando com a faca de mato, e não pensava em nada, não se lembrava fosse do que fosse. Andava à caça num país qualquer, havia um tempo indeterminado, pelo simples fato de sua existência, e tudo se realizava com aquela facilidade que se verifica nos sonhos. Mas deteve-o um espetáculo extraordinário. Veados sem conta enchiam um vale em forma de circo; e apinhados, chegados uns aos outros, reciprocamente se aqueciam com o bafo que se via fumegar no nevoeiro. A esperança de uma tal carnificina sufocou-o de prazer durante alguns minutos. Depois desceu do cavalo, arregaçou as mangas e pôs-se a matar", narrou-me com pujança Gustave Flaubert em La légende de Saint Julien l'hospitalier, MDCCCCX.

Alors, l’Europe. Alors, l’Europe.

ex animo dicere CXXIV


* imagens: com um ímã ideológico, pesquei no aquário do teu umbigo.


"À procura de cenas tropicais e aspectos emocionantes da vida primitiva, três mil turistas americanos chegam a Honolulu. Ansiosos por experiências românticas e imprevistas aventuras, seguirão a programação da Hawaiian Travels Organization que por apenas $4,000 organiza 10 dias de férias excitantes [...] A primeira página do longo programa da Hawaiian Travels diz que a cerimônia do desembarque será num charmoso local, numa atmosfera hawaiana, de acordo com os costumes românticos desta ilha do amor. Assim a direção da companhia pede as senhoras que não tenham ciúmes da atenção que as belas garotas hawaianas dispensam aos seus maridos. O fotógrafo da companhia fornece aos turistas provas fotográficas, mostrando sua chegada, de acordo como previsto no programa, com sorrisos e colares de flores dados pelas lindas garotas hawaianas com amável generosidade. O guia fornece ao turista dados fundamentais sobre os costumes deste paraíso tropical. Ele diz: 'Senhoras e senhores, o destino foi generoso permitindo que tivessem o privilégio de visitar esta ilha antes que fosse tarde demais. As belas mulheres que veem aqui são as últimas de uma espécie em extinção. É uma pena que não entendam nada desse doce idioma. Elas cantam: Bem-vindo, forte e belo homem branco. Bem-vinda, bela e sedutora mulher branca. Você me ensinará o segredo da elegância com que seduz os seus homens, e eu ensinarei o segredo da dança com que seduzo os meus. Vamos, venham aprender a Hula. Senhoras e senhores esta é a Hula. Acham a Hula difícil demais? Claro, senhoras e senhores, mas nada na vida é impossível, como dizia Abrahan Lincoln. Olhem esta dançarina. É a melhor da ilha. Mas quando era criança foi afetada pela poliomielite. Sabem o que desenvolveu seus membros paralisados? A Hula, senhoras e senhores. A Hula e sua determinação.' Eles ouviram, aplaudiram e se divertiram, exatamente como estava escrito no programa. E como o programa recomenda, agora vão aprender a Hula bem atentamente. Acreditam na Hula, e na felicidade de outras pessoas. Esta geração jovem, que já trabalhou duro, que agora, com os primeiros sintomas da artrite, acredita neste paraíso tropical que eles mesmos destruíram, e onde hoje a única dança indígena genuína é esta que estão assistindo", disse-me o cínico e feroz narrador deste Mundo Cão.


E allora, Dio cane?

ex animo dicere CXXIII

Aqui ao lado estão duas páginas ébrias que Hergé deu As Aventuras de Tintim - Tintim e os Pícaros, de 1977. Para 2011, quando está previsto o lançamento do filme The Secret of the Unicorn de Steven Spielberg, guardo algum sondável entusiasmo. Mas quanto ao filme de 2013 há o minúsculo receio da coisa toda começar a ser banalizada.


Alors
, acordei. Aqui-del-rei, cadê o Loch Lomond, grumete?

* imagens: mandei meu irmão redesenhar.



Post-Scriptum: um beijo azedo para todos os fãs retardados que fazem terríveis versões fake de trailers.

ex animo dicere CXXII

"Negrinho d'Água refletiu muito para fazer essa viagem [...], então encomendeu um barquinho de espumas a um cardume de piabas, moradoras das corredeiras do rio Paraguai. [...] Para sua escolta, convocou um cardume de dourados e outros peixes guerreiros, a fim de proteger a comitiva aquática. Mãe do Morro [...] saiu de Mimoso, no município de Santo Antônio do Leverger - MT. Sua partida foi anunciada por uma revoada de pássaros que escureceu o céu. Em seguida, duas araras azuis alçaram vôo e partiram como flechas, sinalizando o roteiro da viagem. [...] São Benedito apareceu em carne e osso na igreja do Bom Despacho, em Cuiabá, e rezou um terço junto com os loucos, excluídos e mutilados", disseram-me Durval de França, Cristina Campos e Ricardo Leite durante a Conferência no Cerrado.


* imagem: divulgação.



Alors
, "Um gavião branco lançou vôo no Morro da Luz com um rosário pendurado no pescoço."

iura in re aliena XVIII

do que se deve fazer.

iura in re aliena XVII

das capas que valem a pena (a.k.a. dos filmes que não valem a pena).



vox dei erga omnes XI

Quando Jesus Cristo voltar...
O levarei ao campo de batalha, mataremos as belas e ricas e virgens para transformar o mundo num lugar puro.
Alors, on attend juste notre saison au paradis.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

raiz quadrada de menos deus

Ele foi embora, e só voltou quando eu já tinha me decomposto. É claro, não fui bom banquete pros vermes: minhas certezas eram artesanais. Ele me deixou, e só voltou para buscar meus ossos. Colocou-os dentro da fronha, do embrulho da espera. Agora ele dorme, agora ele continua dormindo abraçado comigo, que sou seu travesseiro, que sou seu cemitério. Quando ele tem insônia, nós nos deitamos no gramado. Ele acaricia as falhas da minha coluna, brincando de tear, enquanto finjo que amarro seu cadarço, que sou seu sonífero, que risco a pupila do céu.






(feito com a letra dela.)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

ex animo dicere CXXI




"- I know how to play now. Who taught you?
- My father.
- You still have a dad at your age?
- Yes.
- My father left me before I was born. Where's your father?
- I've abandoned him.
"

Bem, depois ouvir esse diálogo, Buffalo Boy ficou bem interessante. Uma pequena odisséia para enterrar o pai que lembrou As I Lay Dying, de Faulkner. Inundações que remeteram a Northfork e Narradores de Javé (ao som de Charley Patton). Finalizando com uma bela estrutura de siclos e repetição da vida como em Primavera, verão, outono, inverno... e primavera. E o curioso é que esses três filmes são de 2003! "Zeitgeist", disse Padam. Se for, tivemos um ano de delay no Vietnã.


* imagens: "minha mãe que me deu" (com sotaque, tchê).


Alors, "unkle Kim, the water returned as always, nourishing the land, giving us fish, but rotting everything, men and buffaloes, the living and the dying".

domingo, 26 de setembro de 2010

rt noctambulismo idoso

terça-feira, 14 de setembro de 2010

rt wasabi

http://agoraquando.blogspot.com/2010/09/wasabi.html

rt russell's teapot

ex animo dicere CXX

Finalmente fui convencido de que Jean-Luc Godard é o mesmo que superlativo. Le Petit Soldat, 1963, o último que assisti na jornada, tem essa seqüência magnífica.


1:18
"A fotografia é a verdade e o cinema é a verdade, 24 vezes por segundo."
[...]
5:27
"- Os russos estão sempre estudando.
- Quê?
- Os russos estão sempre estudando. É estranho que queira ser atriz.
Ela acendeu um cigarro, e me perguntou porquê.
- Por quê?
- Todos os atores são idiotas. Desprezo-os. Na verdade, se lhes dizem que riam, riem. Se lhes dizem que chorem, choram. Se lhes dizem que andem de quatro patas, o fazem. Acho grotesco.
- Não vejo porquê.
- Não sei. Não são gente livre.
- Olhe.
- Que?
- Um ator."
Depois há a conversa sobre música clássica e a dança encantadora de Anna Karina e em seguida o "jeux d'enfants". Cerca de meia-hora depois:
"A tragédia, hoje em dia, é a política."
&
"- Verônica... Por que não diz algo?
- Não sei o que dizer.
- Diga mentiras, diga que não está triste por eu ir.
- Não estou triste por você ir. Não estou apaixonada. Não me encontrarei com você no Brasil. Não te beijarei ternamente.
Fiz as malas e fui a Zurique. Já não eram as luzes de Genebra, mas sim as de Rio de Janeiro. E me perguntava se era feliz de sentir-me livre ou livre de sentir-me feliz."

Entretanto, destaco as cenas de luta/violência em seis filmes:






Destaco e fico me perguntando se elas são patéticas porque foram pensadas para assim serem ou simplesmente assim saíram. Era proposital ou era Godard o tipo de sujeito que nunca brigou na vida? Ou ainda, seria culpa da velocidade da narrativa? Da proposta (de montagem) Nouvelle Vague? Não sei responder. Por outro lado, agradeço Muzulon por me arranjar cópias dos três filmes que me introduziram ao.

Melhor ainda é ficar com a bela onipresente Anna Karina em Le Pedit Soldat dizendo:

"Po-di sim!"
Qualquer coisa.


* imagens: screen shots da clandestinidade.


Alors, ta ligne de hanche, ma ligne de chance, quelle importance?