sábado, 30 de maio de 2009

a patetice, isto é, a amizade IV

::::: trippy terrorless tale show :::::

Bateram à porta.
– Nada melhor do que dormir uma noite em um mês, hã?
Era Fran. Havia saído ontem durante a festa de inauguração e só retornara agora, enquanto o resto da casa roncava como uma orquestra mal ensaiada. Trazia pequeno globo de neve ligeiramente bizarro numa das mãos.
– Fique com isto. Custou uma nota, e é para o Clube. Trará bons auspícios, assim espero. Na realidade procurava por outro, talvez um que fosse a representação da favela em meio ao tiroteio com areia e munição voando ao invés de gelo, mas...
Eu mandriava antes dele chegar. Deitado de roupão, vendo as coisas de cabeça para baixo. Sentindo-me, há muito tempo, um inseto grudado na parede. Porém, já que ele estava de volta, era preciso acordar a mim mesmo. Agradeci-o, também me agraciando, com uma enorme xícara de café fumegante. As pupilas dilataram rapidamente. Ficamos a pino antes do sol, de fato, nascer.
– Quando eu for beber álcool hoje, daqui a pouco, vou oferecer um trago para o santo, e o santo é você, Fran – disse-lhe.
– Legal – comentou com impaciência, e acendeu um cigarro.
– O que tem nessa sacola?
– Sushis.
– Zushi? Banzai! Passa pra cá, estou com fome. Não jantei.
– Não, isso não serve pra isso. Mais tarde me entenderá – acabando de fumar aquele, ele guardou a guimba no bolso para usar no caso de o nariz sangrar, puxou outro cigarro do maço e pôs fogo – O barco está lá fora. Partimos ou não?
A carona com o barco Pelicano era essencial se quiséssemos chegar ao show de sua irmã. Fran conseguira somente dois ingressos, os nossos, é evidente. Além do que, o grupo na casa estava tão cansado que provavelmente acordariam dali vinte e quatro horas achando que não tinham dormido míseras seis horas e, portanto, sem opções razoáveis, retornariam para o aconchegante mundo turvo dos berços enfeitados com móbiles e oferendas para Iemanjá. Assim sendo, de mansinho, pé ante pé, sem bater as portas com muita força, escapamos do Clube. Logo na esquina estava o píer. No mesmo lugar onde ontem não estava. Embarcamos ao comando do capitão Carmélio, o supremo dos mares. Seguimos viagem embalados por canção éterea, causadora de sensações melífluas e memórias oníricas.

– Olha, o oceano está pegando fogo – comentou Fran, da proa, apontando para o pouco vigoroso nascer do sol refletido no espelho da água do mar, entretanto, dois dias depois deste sereno balouçar, ele me comunicou que um mês antes tomara conhecimento de poema lesbiano algo parecido com tal observação.
A viagem de barco era deveras breve. Para se atravessar de um lado ao outro das ilhas era preciso apenas meia dúzia de curtos minutos. Quase não dava para a dose da canção fazer efeito. No píer do porto de desembarque, despedimos de Carmélio e enveredamos pelo caminho mais bonito, mais longo e que aparentava ser capaz de nos enganar sem no magoar.
De praxe, como desejado, fomos prolixamente ludibriados. O caminho logo mostrou seu pior lado. Fomos acossados por morcegos, lobos, cobras e estórias fantasiosas. O tempo todo Fran manteve-se firme, como alguém sem decência que sabe o final do livro. Era de se estranhar, seu comportamento. Afinal, saber o final da estória pode ser tão chato quanto escrever uma. Por outro lado – onde se destaca mais um ponto de vista meu –, o tempo inteiro notava inconveniente luz incidindo no rosto.
– Que porra de luz é essa que tenta nos cegar?
– Ah, você percebeu? Fique tranqüilo, é minha irmã. Vem, pula que eu te seguro. Cuidado aí, não vá pisar nessa pedra que ela morde. Minha irmã está no alto da torre fazendo sinal para nos guiar.
– Vou te trucidar – rebentou a pedra, ficando linhas para trás.
– Eu não disse? Já conheço os pseudo-labirintos dessa estória.
Em dado momento, tivemos de nos pendurar em cipós qual personagem de jogo eletrônico. Nisso não precisei de ajuda. Atari era o console que me dominou em tenra idade. Todavia, não contava com pássaros negros tentando nos derrubar. Fran, em sua infinita bondade, atirava-lhes os sushis, sushis de pimenta, logo descobri. Sem perceber as bombas que eram distribuídas, os pássaros bicavam o arroz enrolado na alga marinha. Com isso, ingeriam cavalares doses de pimenta poivre vert. Um a um, pavimentando nossa [sic] highway, foram caindo como folhas outonais.
Depois disso, soltando os cipós e as farsas imaginativas, chegamos exatamente à porta do castelo. He-he, os ingressos de Fran não eram quaisquer ingressos.
– Konichiwa, bitches: free access! – esnobou geral.
Apropriadamente, entramos pelos fundos. Lá estava Castzilla, no camarim, sendo aborrecida e cortejada por um babaca falastrão de tatuagens filosóficas nos antebraços.
– Mulheres são ardilosas. Te beijam insistentemente, mas antes, depois e às vezes durante, te esquadrinham à procura de problemas, nuvens negras – chegamos ao lado dos dois, cumprimentando-os: a ela com mais intimidade, relegando-o ao educado aceno de mão à distância – Francamente! Quem aqui nunca pensou em se casar no lugar do grande amigo acreditando piamente que você sim era capaz de fazer aquela fêmea feliz e vice-versa, mas que por mais uma injustiça do destino alguém passara-lhe a frente (felizmente um amigo!) e agora que você sentia o que sente por ela não podia perder tempo nem deixá-la escapar já que o sentimento era recíproco, não é mesmo? – até onde sabíamos, Cast não estava de casamento marcado, então, afunilando seu discurso e dirigindo suas palavras a quem realmente lhe interessava, o sujeito manifestou-se de acordo com os princípios do falo – Agora que notei. A textura de minha roupa de cama é a mesma do teu vestido. Que tal se você fosse deitar na minha cama para eu ver se a gente combina em algo mais além do bom gosto, baby?
– Francamente! Não fode, cara – retrucou Castzilla, P.J. do agreste, assinante número 34879 do Le Monde Diplomatique, residente em endereço que não me recordo porque a edição do jornal que surrupiei foi rasgada para servir de proteção contra o impacto nas garrafas de vinho que importei da região sans appellation contrôlée cuja localização no mapa-múndi também não sei informar mas assim como sua casa sei que não se trata da Europa apesar de dizerem o contrário; em suma, foi o que ela disse, tomando Fran e eu pelas mãos.
Noutro ambiente, mas ainda nos arredores dos camarins, nos serviram uns drinks e com eles pudemos nos misturar aos outros indivíduos batizados, com base em tratados internacionais que ignoro, de Very Important Persons. Benzi-me e deitei uma porção do líquido no chão. Para o santo. Fran sorriu. Cast acompanhou porque quis. Então demos longuíssimas risadas e fizemos piadas más e suposições absurdas sobre os demais presentes – hip hoperas, açougueiros e nús em geral – e – em menor escala – o galã. Cogitamos o fato de o falastrão ser apenas o que eles chamam de emo, um emo retirante que debandara da Linha Jacuí (aquele lugar que não está lá abaixo de Victor Graeff) e aterrissara neste Zoo tentando se tornar fotógrafo, mas o máximo que conseguira fora boas estórias magoadas. Com sorte e alguns copos, a hipótese se confirmou através da informante de Cast, uma maquiadora que se passava por Carolina Dieckmann nas horas vagas ou em private parties de travestis abastados.
– Em resumo, o cara não passa de uma bactéria – salivou a maquiadora – Acidentalmente evacuou seu planeta Y não-catalogado se instalando num asteróide que vagou por milênios até cair aos nossos pés sofrendo dessas metamorfoses desastrosas – assim suponho ter-nos dito, talvez por experiência na própria carne.
Bom, gastamos algum tempo ali. Supostamente pensando mas automaticamente falando o que nos ocorria. Assim, na minha moderada discrição, percebi que Castzilla estava bebendo bem, bem demais. Não resisti e fiz a pergunta idiota.
– Dio santo, maledetta! Por que está bebendo tanto?
– Ah, Foche, a bebida ajuda a viver.
– Parece minha avó falando.
– Por quê? Ela é sempre tão honesta que tem dores de coluna?
– Creio que sim, mas por outros motivos.
Abaixei para amarrar o cadarço. Algo me mordeu no calcanhar quando tentei reatar os laços. Tirei o tênis e, sem pressa, uma aranha saiu. Saltitou e perdeu-se no meio da agitação do povo post-cool. Aproveitei a posição para procurar por novas galáxias. Mirei Cast – e suas longas pernas – do ângulo inferior.
– Você é muito fotogênica.
– Por supuesto, a genética trabalha ao meu favor.
– Ao nosso... – momentos de concórdia entre eles eram raros, uma vez que o signo dela é o inferno astral do irmão bem como a recíproca também soa verdadeira.
– Sim, ao de vocês, entendi.
Surgiu um roadie (neo-roadie, diria Fran em uma post-joke interna) descabelado, óculos quadrados, vestindo trapos, gritando pela estrela da noite e carregando um acordeão. Encontrando-a conosco, passou-lhe as coordenadas. Castzilla pegou espelho de retocar maquiagem dentro da bolsa. Afastando-se por um corredor, sumindo rumo ao palco, ela brincou de fazer reflexos em nossos rostos. Eu e Fran ficamos para assistir do backstage.
Seu show consistia em diversos estilos e ritmos musicais construídos a partir de sons sampleados da natureza e pontuados por ocasionais vocais distorcidos. Não descobri qual era a função do acordeão na apresentação além de esconder dentro do fole dinero y otras cositas más. Bem, tudo corria muito bem. Nenhuma similaridade com new age. As cinco primeiras composições foram realmente criativas e cativantes. Mas depois disso a coisa descarrilou. Divine cover, ou quem sabe o próprio Glenn Milstead reencarnado, apareceu para aterrorizar o espetáculo.
– Ok, agora começa o espetáculo musical de mal gosto. Bem, digamos que só esperávamos por essas canções – confessou Fran, sem me convencer – Está ficando cedo, vamos embora enquanto ainda podemos, Foche.
– Tarde. Está ficando tarde, você quer dizer.
– Não, está cedo mesmo. Veja as horas.
– Não tenho como.
– Escuta, e se todo mundo fosse de uma cor?
– Ah, seria muito chato, cara.
Apesar de ser um fast-rewind com chuviscos e fantasmas da transcomunicação instrumental, a volta é sempre mais rápida. Fizemos o percurso inverso, enfrentando as mesmas adversidades. Com as pupilas não menores, apenas acostumadas ao escuro. Calada da noite no píer: estivadores descarregavam pescado ilegal do navio dos paladinos do Greenpeace e enfiavam tudo nos porões do Pelicano. Quarto de hora depois, o calado alcançava o nível máximo: quilha e linha de flutuação eram quase siamesas.
– Legal – comentou com impaciência, e acendeu um cigarro.
– Tive um déjà-vu, Fran.
– E eu gostaria de ter visto ao menos oitenta e cinco por cento dos pores-do-sol que já aconteceram ao longo de minha vida. Acho que isso faria de mim uma pessoa diferente.
– O sol não está se pondo. Deve estar raiando. Enfim. Ouvi algo na TV sobre um rio que pega fogo.
– Como o mar?
– Sim, mas lá na minha terra.
– Só não vá dizer que um dia lá teve mar – falando desse modo, "contrariando lendas", uma ruga em forma de cruz surgiu no meio das sobrancelhas de Fran; uau, imaginei, em big close isso saltando no monitor ficaria lindo – O quê?
– Nada, Fran. Quero dizer, ali estão nossas sombras.
Por um período indefinido, assistimo-as nos acompanhar pelo mar. Desestruturadas pelo movimento das marés, elas persistiam em nos seguir. Custe o que custar não podiam se desgrudar dos respectivos corpos. Para isso, nadavam-nos, engoliam caravelas e camarões brilhantes que cruzavam seu caminho e esticavam seus cordões umbilicais até onde a luz tornava-se escuridão e, enquanto meras sombras, nós beirávamos o limite da vida e da morte.
– É, em big close também ficariam lindas. Saltando aos olhos.
Certo, entendi o aviso do cérebro. Promenti a mim mesmo que a partir dali policiaria meus pensamentos e minhas falas. I.e., por Fran repetir quase que exatamente meus pensamentos, o ideal seria eu duvidar de minhas faculdades mentais. Mas um fenômeno jamais presenciado pelos sequazes do Greenpeace ou por aqueles milhares de indivíduos que desconhecem as tramas das estórias interrompeu aquelas auto-investigações. Com agudíssimo ruído, Carmélio ligou as caixas acústicas e, segurando o microfone, pôs-se a cantar rezas para Iemanjá & Cia Ltda. Quase instantaneamente peixes fosforescentes começaram a pular a bordo. Amontoando-se no convés como um cemitério de fogos-fátuos. Pareceu-me que as palavras oriundas de suas entranhas eram elementares como o verdadeiro fogo, pois iluminavam o ambiente e atraiam os peixes como se nos beneficiássemos de inconcebível promombó.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

ex animo dicere XVII*, XVIII

* Acompanhava David Foenkinos nos primeiros momentos d'O potencial erótico de minha mulher quando me deparei com um complemento para o post anterior:

"Hector tinha treze anos quando descobriu a futura mulher do irmão, e sonhou por um instante que ela se encarregaria de sua educação sexual. Esquecera-se de que nossas vidas tinham se tornado romances do século XX; em outras palavras, a época dos desvirginamentos épicos do século XIX tinham se encerrado".

Adiante!
Sejamos prazerosamente cínicos neste décimo oitavo "dizer com sinceridade" e mencionemos outras duas passagens, agora húngaras. Na primeira que na verdade não vem a ser a segunda nem outra coisa, Ferenc Molnár discorre sua prosa sobre O poste de vapor.

"Certa manhã em que fui obrigado a ficar no hotel porque durante a noite nevara tanto que não havia dinheiro no mundo que fizesse um trenó chamado por telefone vir da cidade para nos levar ao centro, eu acabava de ligar a pequena estufa de ferro quando ele entrou.
- Você escreve histórias no jornal?
- Também.
- Pois eu vou lhe contar a história do meu sobretudo de hussardo, e depois, se quiser, pode escrevê-la. Mas não revele o meu nome, ou eu mato você."

Em seguida evoco Gyula Krúdy, apressado e preciso na pena roxa, para me guiar ao lado d'O companheiro de viagem de trem.

"(... Viajávamos à luz da lua, as árvores, como saias enfileiradas, nos acompanhavam, as raposas invisíveis que, como num enigma, desapareciam para sempre ante o olhar dos caçadores, latiam nos campos claros, os gansos selvagens alçavam vôo, içando um tom prateado na distância, podia-se imaginar que na estrada cinzenta junto aos trilhos caminhavam pessoas infelizes à sombra de copas que se moviam no ritmo de um coração lento, apareciam casebres brancos como cães deitados, um pavio ardia detrás de uma janela com recorte em folha, talvez acabassem de matar alguém ou um velho camponês agonizante balbuciasse as últimas palavras; como a tristeza, a chuva nos alcançou, e da noite escura lançava lágrimas sobre a janela impiedosa; "onde estarão aqueles que amo?", pensei tiritante, como se nunca mais fosse ouvir a fala agradável das bocas queridas, mas apenas as palavras tristes de meu companheiro de viagem, que zumbiam em torno de minha cabeça como se a morte lesse a Bíblia.)"

ALORS, PASSEZ LE CRI
!!!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

ex animo dicere XV, XVI

Isso teve início com fogos de artifício, com loucura, com cegueira, com rostos em chamas e garrafadas e delitos, com um filme, com Les Amants du Pont-Neuf. Isso me remete, invariavelmente, a saborosa (busca por algo mais de) Juliette Binoche. E a rede sempre dá o que eu quero. Ai, que dó de quem não sabe farejar. Não obstante, ai que vontade de me transformar em um Nora inu.






Assim, fiquei aqui imaginando meus hipotéticos filhos. Em especial, sobre a descoberta do corpo e da sexualidade dos pequenos. Eis que entra em cena a eterna e consagrada Playboy. Pontapé (ou mãozada?) inicial de muitos onanistas. Claro que depois de pouco tempo a maioria abandona essa revista e parte para algo mais, hã, naturalmente hardcore, sueco, oriental etc. Se possível, algo mais próximo do real, mais devasso. Mas, excetuando aos corações dos colecionadores que colaboram com o cofrinho de Hefner, me pergunto a quem isso ajuda. Afinal, o que é que os moleques vão fazer com uma revista de mulher pelada desse tipo? Bom, pelo menos a imaginação dos garotos melhorará. Podem até se tornar artistas!

Por outro lado – talvez mais um agravante para o apefeiçoamento da imaginação – posso ficar tranqüilo quanto a integridade física e psicológica dos bambinos quando eles se interessarem pelas descobertas dos efeitos das drogas. Já que o iPhone me ajudará a criá-los com ilusão.



Alors, passez le mot!



* imagem 1: still da película.
* outras imagens: banco de dados d'algum ser que merece o paraíso por escanear tal edição.

ex animo dicere XIV


"Quantas folhas um bicho-de-seda tem de comer para fazer um vestido com as cores do passado?", cantava, aos prantos, a camponesa vietnamita na colheita das flores de lótus durante as Três Estações.
Alors, passez le mot!


* imagem: still da película.

a patetice, isto é, a amizade III

::::: a casa móvel, o lar fixo :::::

Pt. I

Tudo começou... Ou melhor, quem é que pode dizer quando algo finalmente começa? Possivelmente o que faço não passa de uma maneira vulgar de encartuchar memórias plúmbeas. Pesadas e sem vida. Mas se temos de falar a respeito, é melhor que seja agora. Embora soe estranho se dito assim, meu pálido palpite é que tudo tenha começado quando eu, Gaúcho e Turista nos vimos no movimentado velório e subseqüente enterro de Deus. Não nos encontrávamos pessoalmente desde que ambos deixaram o bairro onde, ao lado de outros membros da trupe alada, presenciamos o nascimento, o aprendizado, a ascensão, a coroação e a glória perene deste ser mítico: Dioi. Divindade incontestável que no ensejo jazia – pedindo clemência, pálido, mãos atadas apoiadas no peito seco, narinas obstruídas por tufos de algodão, vestes alinhadas, as coroas de ofuscantes flores brancas em volta –, que agora finalmente descansava no caixão negro, um lar fixo próximo e cada vez mais distante de seus nem tão fiéis companheiros. A partir da desditosa data, tudo mudaria. Ninguém sairia incólume, tenho certeza. Mesmo o fluxo da cidade, as ondas do mar, a circulação do sangue dos morcegos, os escambos, as coisas elementares, as horas... Sim, insisto, outrossim, as horas. Nada mais reverente do que a curvatura do tempo na presença de Dioi! Ao invés de escorrerem como de hábito, as notas do eixo temporal passariam a flutuar, sonolentas, resignadas, minuto a minuto, centímetro a centímetro, agarrando-se aos corpos dos vivos, suspiro a suspiro, diante da triste situação de morte.
Por outro lado, há a possibilidade de minha intuição estar me traindo, e que tudo tenha começado há muito mais tempo. Antes, bem antes da hipotética data de sua concepção. Se assim for, vos confesso que a morte de Deus era apenas o prelúdio de um grande recomeço; era a volta dos clássicos tempos dourados. Aquele, portanto, só podia ser um evento abençoado pelo cosmos, já que nos reunia outra vez.
De qualquer maneira, o referido afastamento voluntário dos dois talvez colaborasse e reforçasse o clima silencioso e fúnebre da ocasião. Gaúcho se atrasara para o velório, chegando no derradeiro momento, pela manhã, desconversando, sem revelar seus motivos. Junto aos demais, eu e Turista agoniávamos devido ao longo período de vigília. Na hora do último adeus, enquanto os coveiros içavam o caixão na acolhedora vala, seus parentes, desacreditados e desesperados, dispararam tiros de canhão. Comovido com a demonstração de afeto aflitivo, o Turista emprestou El Trompete Blanco de Ivanildo, um dos primos de Deus, e solou por cinco ininterruptos minutos elegíacos. Somente então, sublimados, embora não completamente racionais, sentimos na alma a gravidade da perda. E ela era irreparável para nós. Nem a castração de Caco ou a prisão de Suze, Caubói e Biga, tampouco a morte de Tutu, os excessos alcoólicos dos três mosqueteiros da guarita (Juanito, Tidi e Zinho) ou os delírios cocainômanos de Goga, nos abalara tanto. O doloroso adeus a Dioi era definitivo, irrevogável. Por conta disso, desabamos em choro convulsivo, agitado, infernal. Pranto este que inclusive os mortos, nos breves intervalos das explosões dos canhões, enquanto a fumaça da pólvora desaparecia no ar e as lágrimas escorriam para regar a terra sepulcral, podiam ouvir o soluçar.
E assistindo as pás soterrando o ataúde, misturando terra às coroas e aos botões de flores, tentei manter os pensamentos ruins afastados de mim. Foi assim que ouvi a onipresente voz fina de Deus cantando a paródia de uma canção popular.
“Do you love love love? Do you love baseado?”
Entrecortando o refrão, afloraram trechos de vários momentos célebres da vida de Dioi. Dentre provérbios e orações, distingui uma anedótica confidência onírica que certa vez fizera a seu primo, Boi.
“Velho, sonhei com você está noite. Nós estávamos tocando numa banda. Daí surgiu um cara e transformou você num violino. Comecei a passar a vara em você e você gritava duro, mas gritava duro mesmo”.
A essa altura dos fatos, tive a impressão de que sua risada frenética ecoara sobre as cabeças dos presentes. Quanto a mim, esboçando um sorriso quase humano, saindo do exagerado embevecimento, não notei se todos compartilharam do momento sobrenatural.
Ao término da vigília e da cerimônia de sepultamento, quase vinte e quatro horas após minha chegada, tornei a me retrair. Queria ficar sozinho e refletir sobre quais caminhos tomaria daquele momento em diante. Quem me nortearia? Quem eu deveria venerar? A imagem de quem eu propagaria em rodas de conversas suspeitas e escritos prementes que nasciam no alvor do dia noturno? Parte do cortejo deixara a funerária. Outra parte formava a fila dos cumprimentos. Nisso juntei-me às pessoas que aguardavam para falar com a família do Deus morto. Expressei meus pêsames apertando com intenso carinho a mão da viúva e do filho único, o príncipe herdeiro do carma do pai. Em seguida, alguns conhecidos convidaram-me para algo (Um trago? Um delito? Um protesto? Uma ONG? Uma orgia? Que merda de diferença faria?), mas não ouvi. Sinceramente. Fui notar que estavam ao meu lado quando já me davam as costas e partiam. Aos diabos! Só conseguia pensar em Dioi... Dioi, o Santo Dioi! Pensava em como ele, em vida, tivera sofrimento e bonança nas medidas exatas. Imaginava os lugares onde esteve, com quem esteve, o que fez e como procedeu em determinadas ocasiões. Imaginava as sete clínicas de reabilitação, os três presídios, o manicômio, os furtos, uma família que sempre o ajudava, o estupro, a esposa, um filho e incontáveis detenções por uso e porte de entorpecentes, dentre outras ilegalidades, que Dioi enfrentara com ânimo invejável. Eu só conseguia pensar em Dioi, e em como apesar de toda sua trajetória ele conseguia manter o frescor no sorriso insano de sempre. Refletindo profundamente sobre Deus, senti conforto ao concluir que dentre tantos homens no bairro, o Russo me escolhera para ser um dos escrivões de seus lendários feitos. E sei também que toda a trupe lhe era grata. Até o fim. Grata por ter sido Dioi, nosso vizinho, o inventor da voz fina que não cansávamos de usar e propagar.
Foram Gaúcho e Turista que me retiraram do estado absorto de saudosismo. Vieram a mim, voltando do banheiro. Percebi que haviam consideravelmente emagrecido, mas, diante de meu estado inverso – quero dizer que engodara como um marrão, criado com zelo, para o abate –, calei-me. Deixei que falassem à vontade. Convenceram-me de que deveríamos presentear o filho de Deus. Sabíamos que os familiares ainda demorariam a deixar o templo das cerimônias, pois ainda era extensa a fila de pessoas aguardando para lhes cumprimentar e expressar as máximas condolências. Sendo assim, corremos – trespassados por um filete de alegria – para comprar os regalos.
– Perceberam? Ele parecia respirar dentro do ataúde... – manifestei-me, em meio à falta de ar dos pulmões despreparados, ao passo que eles nada falaram sobre e aceleraram o trote.
Voltamos em menos de quinze minutos. Presenteamos o pequeno príncipe órfão para que ele nunca esquecesse dos feitos de seu pai. Alguns, ao menos. Eu o presenteei com um prato de comida e expliquei-lhe em detalhes sobre o posicionamento que seu pai costumava ter. Fiz o garoto repetir, com aquela voz, para demonstrar algum respeito pelo progenitor: “Nunca fui pedir um prato de comida na tua casa!”. Gaúcho ofereceu um porta-retratos emoldurando famosa fotografia de Dioi com o impávido semblante jovial e as ventas em chamas, de braços abertos, esperando seu primo Macaco descer do avião londrino. Turista deixou para o garoto seu gravador de áudio contendo longas conversas com o ser iluminado, e, por isso, inconseqüente. O menino logo quis pôr o aparelho para funcionar e escutar do que se tratava.



A viúva – triste como uma écharpe de raposa – nos agradeceu, emocionada com o ato surpresa. No entanto, creio que o garoto não compreendeu perfeitamente nossa devoção e o significado das lembranças, porém, sabíamos que não tardaria a chegada da vibrante noite carmesim em que o jovem assimilaria aquela profusão de ensinamentos. Nesse momento ele sentiria nossas mãos lhe agraciando, ficando-nos infernalmente grato pelos souvenires.
Domamos nossa impaciência no saguão da agência funerária ao determo-nos para tomar um café ou coisa parecida. Fitamo-nos com seriedade. Os olhos dardejantes passando de um rosto ao outro, do minúsculo copo entre os dedos às memórias algo douradas que carregávamos. Então, tudo novamente, sempre esquecendo algo e lembrando outra coisa a cada volta. Acompanhei o pomo de adão dos dois enquanto bebiam o estimulante torrado e quente. Narizes afundados nas xícaras. Mas o ritual do café ou coisa que o valha foi interrompido por forças urgentes. Consentimos com a cabeça, mudos como a lua daquele dia de luto fechado. Trejeitos desse tipo tinham significados concisos. Sabíamos que deveríamos nos encontrar na taverna do Biga – o Rancho de Taquara, no coração do querido Cerrados –, se nós quiséssemos derreter a morte com velas de amor fraternal.
Olhei para o pulso, onde se encontravam os ponteiros do relógio. Batiam 13:13. Era hora dos morcegos baterem asas.


Pt. II

Ainda que reprovasse a onomatopéia (fou fou fou) de vôo que balbuciávamos, Biga ficou feliz em rever todos nós. Desde que havia cumprido sua pena e sido posto em liberdade, não o visitávamos. Ele sabia muito sobre o falecido, e quiçá emocionado pelas circunstâncias, coroou-nos com três doses de cachaça que desapareceram num segundo que não existiu nem voltará atrás.
– Biga! – chamei-lhe – Dessa vez, já sabe o que fazer. Traga três copázios de cerveja. Eles costumam durar um pouco mais.
Outra vez, viramos. Contrariando as expectativas. Fundo seco. Para aplacar o desespero.
– Ah! – exclamamos, os três, um tanto lubrificados, na volúpia do refrescamento.
– Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar arrotando melhor – disse Biga antes de ir ocupar-se de seus negócios com outrem.
– Como diz o ditado – rememorou Gaúcho – quem tem uma caixa de cerveja não tem nada.
O que mais me espanta é que mesmo após milhares de acontecimentos excessivamente confusos e perturbados verificados em nossas incivis vidas, nós três ainda lembrássemos do bolão. Foi uma espécie de aposta coletiva que fizemos entre a trupe. Quem acertasse a data (ou chegasse mais próximo) da morte de Dioi levaria o dinheiro envolvido. Não passava de uma ninharia, evidentemente. Ninguém se dera bem com isso, entretanto. Ninguém supunha que o mito prolongasse – e muito – sua meteórica passagem por este mundo.
– Bá, piazada – pontuou Gaúcho, se levantando para apanhar uma bola de sinuca que rolara até seus pés e arremessá-la com exagerada força para os colonos que estavam à mesa segurando os tacos, esperando para prosseguir a partida –, que loucura foi esse bolão, hein? Somos uns Dráculas famintos mesmo. Reah.
– Rá-rá-rá-rá – fez Turista, dando sua risada mais sonolenta.
– Biga, traga outra rodada! – gritei, babando em mim mesmo – Sim, Gaúcho, mas na época precisávamos fazê-lo – virei para o Turista, engatilhando outro assunto – Porra, muito estranho isso, cara. Quer dizer que tu tem de beber cachaça antiofídica para não ficar maluco?
– Éan – respondeu Turista – Quer dizer, quase isso. Começo a tremer e suar. Depois a garganta seca, o coração dispara e surge uma febre terrível. Dá uma olhada na cicatriz que as presas da cobra me deixaram – ele ergueu a camisa e nos mostrou dois consideravelmente largos pontos negros próximos às costelas.
– São Sinfrônio! – exclamei, quase derrubando o copo.
– Durante a turnê pela Bolívia, a banda acabou estendendo a permanência mais do que o previsto. Num final de semana qualquer, desci ao rio com Chuy, o goleiro. Foi lá que aconteceu a desgraça.
Então ele pediu a dose de pinga na qual diluiria seu remédio. Biga, o taberneiro, a trouxe. Fiquei assistindo para aprender. Turista tratou de misturar àquilo o conteúdo de um frasco de soro antiofídico. O cheiro da bebida era bizarro, proibido. De acordo com um bugre que lhe ensinara a receita, o odor tinha de ser ruim o suficiente para afastar os maus espíritos rastejantes. Ofereceu-me um pouco. Sem demora, aceitei. O gole caiu como uma granada na minha caverna estomacal.
– La draga muy fuerte! – exclamei, com o rosto avermelhado.
– La draga muy fuerte! – repetiu Turista, acostumado.
– La draga muy fuerte! – concluiu Gaúcho, tirando sarro.
Levantei-me para dar alguns passos nas dependências do Rancho. A intenção era deambular para acelerar a circulação sangüínea e desvencilhar-me de uma vez da sensação pouco familiar provocada pela infusão. Através de uma abertura no portão de entrada, encontrei um caminhão com uma casa pré-fabricada na carroceria. Meio chocado com a visão, retornei à mesa.
– Ei, vocês viram aquilo em cima do caminhão? – e, se alguém seguisse na direção apontada pelo meu dedo, encontraria aquilo que lhes falava.
Turista não respondeu, ocupava-se com anotações num caderno de bolso. Sem muita empolgação se comparado a mim, Gaúcho explicou que a casa, bem como o caminhão, lhe pertenciam. Havia algo mais por trás daquilo. O plano era pegar a estrada e procurar um lugar para literalmente plantar a casa.
– Onde diabos você aprendeu a fazer esse tipo de serviço, Gaúcho? – indagou Turista, sem tirar a ponta da caneta da folha do bloquinho.
– No sul, oras. Onde mais seria? É só lá que as coisas funcionam.
– Deixando esses exageros de lado – comecei – Diga-nos mais. Aonde pensa em levar a casa?
– Meu plano é descer, descer cada vez mais, descer e continuar descendo. Atravessar a fronteira. Percorrer El Soberbio, Dos de Mayo, Oberá, Aristobulo del Valle...
– Se descer tanto, chegará a Tierra del Fuego – intrometeu-se Biga, que logo percebeu o despropósito – Hã, desculpem. Se precisarem de mim, é só chamar.
– Como eu dizia: descer. Quando encontrarmos o local perfeito, descarregamos e nos instalamos.
– Quem vai com você?
– Espero encontrar todo mundo lá. Mas por enquanto, vocês dois.
Turista aquiesceu, levantando as sobrancelhas e sorrindo como um gato. O negócio era sério. Porém, me pegaram desprevenido. A sombra fúnebre ainda pairava na minha cabeça. Eu precisava mudar. Além do que, tenho certa necessidade de planejamento próprio. Minha sistematização é outra; meus transtornos são perfeccionistas. Lançar-se em aventuras insensatas não era de meu feitio. De modo que muitas possibilidades não imaginadas me afetam quando surgem de súbito. Senti a bexiga latejar. Eu precisava mesmo mudar. Nada do que eu aprendi até hoje foi inútil.
– Preciso ir ao banheiro – e levantei-me.
– Eu vou com você.
Abri o zíper e perguntei para Turista, que estava ao meu lado no mictório.
– Gaúcho se converteu para alguma religião?
– Capaz. Esse é eternamente louco. Até depois de morto.
– Sei. Deve ser por conta de seus princípios de Hezbollah. Regra número 1: Keep going.
Enquanto lavava as mãos e me preparava para puxar umas quatro folhas de papel toalha para, em seguida, secá-las, percebi que no cesto de lixo do banheiro havia ratos roendo cuecas ensangüentadas. Sem entender os motivos da conexão neural, atentei-me para o fato de que gostávamos de ficar bêbados e rodar sessenta quilômetros até outra cidade só para comer algo e voltar. Meio atordoado, voltei à mesa pela segunda e última vez.
– Estou pronto. Vamos sair daqui.
O tanque estava quase cheio, os pneus calibrados, o vidro da frente empoeirado e o óleo em bom nível. Partimos imediatamente, portanto. E devido insistência, Turista foi dirigindo. Pouco mais de meia-hora depois, ao invés de já termos saído dos limites da cidade, estávamos presos num engarrafamento incomum para o momento. Eu estava deveras excitado com as possibilidades da viagem. Pensava nisso e naquilo mais, quando, de repente, o fora da lei no volante começou a passar mal. Palrava com ódio, em outras línguas, gesticulando com fantasmas. Falávamos para virar a esquerda e lá íamos nós para a direita. Ele precisava de sua infusão com urgência. Encontramos uma vaga e fizemos parada obrigatória na Pastelaria Lhufas, situada num prédio underground famoso onde, segundo as lendas, um escritor fracassado suicidara-se. Descemos correndo do caminhão. Direto para o balcão. Eu mesmo preparei a cachaça antiofídica de Turista. Ele a engoliu virando os olhos, trêmulo como as águas de uma corredeira.
– Agora é só esperar um pouco. Daqui a pouco estou pronto para seguir. Deixem-me cochilar por alguns minutos.
– E agora, Gaúcho?
– Peça umas garrafas para eu conseguir te contar umas coisas. Reah.
Rapidamente fui buscar. Regressando, vi que Turista, algo sonâmbulo, embotado, penteava o cabelo com uma faca.
– Hmm, isso é legal. Faz cócegas.
Desceu a lâmina e coçou, coçou bastante as costas. Pelo barulho da fricção, parecia que rasgaria a pele. Mas pelo modo como o sujeito regozijava-se, deixei-o se satisfazer. Nem se quisesse eu poderia me intrometer. Corria o risco de cortar a ponta da língua no canino superior caso falasse besteira, antes de Gaúcho.
– Bá, deixa eu contar o que aconteceu hoje. Precisava faltar ao trabalho. Então disse que estava mal do estômago. Para dar cobertura completa a fraude, tinha de conseguir uma requisição hospitalar. Em outras palavras, o atestado médico. O médico que me atendeu foi educado, rápido, e no fim disse que eu estava muito bem. Mas para minha surpresa, ele não me liberou. Receitou, por garantia, que eu fosse a enfermaria e ministrassem-me dois litros de soro fisiológico. Demorou demais isso. Às vezes eu regulava o equipo para gotejar mais rápido, como uma cachoeira. As enfermeiras logo percebiam, censurando-me. Bom, esse foi o motivo do atraso. Mas agora estou hidratadinho, documentado, morto de alegria. Delirium tremens? Nunca ouvi falar. Reah.
– Por que simplesmente não disse ao seu patrão que um amigo havia morrido e tinha de ir ao velório? – questionei, meditativo, alisando a pança.
– Ah, prefiro promentir. Como diz o ditado, não há nada como uma cabeça de cinco – suspirou o sulista, citando palavras de Dioi.
Caímos na risada. Paramos logo em seguida com receio de acordar Turista. Retomamos as gargalhadas logo depois, pois notamos que o expatriado boliviano estava tão grogue quanto o Sérgio Malandro. Inflamado por idéias quentes, Gaúcho correu ao balcão e apanhou fichas para a jukebox. Colocou Billy Idol para tocar enquanto sacava seu isqueiro e ateava fogo na máquina. Dançando, em giros e piruetas, voltou à mesa e pegou Turista pelo pescoço.
– Andriolli, tu sabe que tu é meu brother! – noutra mão, brandia um garfo torto – Acorda, bicho. Eu e você, aqui nesse mundo. Vai lá fora e liga o som do caminhão. Reah.
Apesar da agitação, Turista não abrira os olhos. Mas ao eclodir um assombroso estrondo do lado de fora, ele se levantou, apressado.
– Que barulho foi esse?
– O eco da morte – avisei.
Saímos do Lhufas para ver o que acontecia. O caminhão e a casa haviam desaparecido.
– Mas que porra! Esqueci de avisar – lamentou-se Gaúcho, assumindo o erro – O freio de mão do caminhão estava estragado.
– Nice job, Xirú.
Andamos até o meio da rua e forçando a visão vimos que o veículo descera algumas quadras e capotara. A casa também estava lá, caída no meio da rua, no cruzamento com a Rua da Paz, onde o cara dos malabares ganhava seus trocados. Escorregamos até lá. Abrimos a porta da frente e conhecemos nosso próprio ser interior. Tão-somente descaminhados.
– Lar é onde nós nos sentimos bem. E eu me sinto bem em todos os lugares onde estive – reconheceu Turista, com sua experiência de trotamundos – Que toquem o tango mais assassino para nós vivermos bem.


Pt. III

Contamos um par de anos antes de notarmos que deveríamos sair de casa. E só saímos quando coisas morreram. Dentro de nós. Saímos porque o mar já estava próximo da casa. Queríamos venerá-lo. E todos nossos amigos, até os imaginários estavam presentes.
Dioi, Andriolli, Tutu, Caco, Macaco, Papa, Xuxa, Caubói, Boi, Bat, Beto Pilha, Garoto de Programa, Princesinha do Verão, Lolo, Tigrinho, Bugrinho, Mancueba, Dioiturga, Seven, McArthur, Bruno Bela Vista, Cinthia de Biase, Keyser_Soze, Russo, Cumum, Harry Potta, (Ó, me enganei. Pau no cu não entra aqui. Não há espaço ou cota para garotos mimados que correm atrás de irmãos com faca na mão. Risque o último nome e prossiga a leitura), Bote, Gordo, Lixeiro, Jota, Lady K, Goga, Castzilla, Fran, Tino, Guiga, Cami 220, Loro, Ferrari, Anna Mércia, Pedrinha, Pedrón, Liberalino, Charbas, Vilarvi, 1515, os Sagins, Ankito, Andarilho, Gus, Peste, Gauli, Biga, Juanito, Tidi, Zinho, Palito, Macumba, Notorius B.I.G., Formiga, Dona Cida, Boto Cor-de-rosa, Ditão, Daniscley, Caça-Fantasma, Nha-nhá, Alein Frenético, Dark, Homem-Cova, Homem do Subsolo, Homem do Viaduto, Bezerro, Vovô, Rabisco, Moreninho Forte, Monstro, Mamífero, Prota, Dota, Lead, Rodrugs, Gayoso, Maniac, Sol, Ig, Sick, Jonas, Thiago-Rogê Millá, Fernanda da Moto, Pipiu, Bicudo, Drácula, Branquinho da Mata Grande, Djoa, Suze...
Ei-los, os sujeitos merecedores de menção honrosa. Portanto, analisei cada um daqueles rostos importantes. Em volta da casa, eles nos aplaudiam. Jogavam areia para o alto, celebrando a união.
– Como vão as coisas na orla marítima? – perguntei ao vento que passava por entre nós e fazia-nos assumir formas reais.
Alguém se preparava para acender uma fogueira. Outro ensinava as gaivotas a voar. Trouxeram bebidas, e minhocas para alimentarmos as plantas carnívoras.
– Ah! – suspirou Turista, aliviado, afastando a letargia, aproximando o diletantismo protestante e exercendo sua arte por gosto, não por obrigação ou como um fim – Eu sempre passo nesse lugar quando não sei aonde vou.
Finalmente havia chegado o grande dia da fundação do Clube do Gerson.
– Vamos para dentro – sugeriu Gaúcho – Tenho Irish Coffee, seda e caneta. Dá para disputarmos o jogo da forca. Reah.
– Rá-rá-rá.
– "É mais fácil construir casas imaginárias do que amizades reais". *
Diante disso, Turista pegou sua viola e dedilhou-a enquanto Gaúcho, no mais cristalino castelhano esquecido, entoava apócrifas canções divertidas sobre lindas virgens em apuros. Eu não entrei na casa. Fiquei brincando com as gaivotas junto aos demais que também preferiam voar. Aos poucos, entretanto, cada um foi entrando no Clube. Lá parecia mais animado e seguro. Fiquei sozinho na praia, vagando, lambendo o sol, assistindo ondas gigantes que começavam a se aproximar. Deitei-me para acariciar as pegadas deixadas na areia pelos meus amigos. Então, ali me enterrei.