Entrei às pressas naquele lounge bar por dois motivos. Um deles, o consciente, é de que minha natureza fisiológica estava me impelindo para as dependências sanitárias do recinto. Precisava dar cabo de violenta constipação que me pegara, para atormentar, durante caminhada por um dos
arrondissements de la chaud ville qui est un trou.
Me arrepiei um pouco quando aquilo terminou e foi embora com a descarga d’água. Enquanto me lavava, antes de sair do banheiro, diante de estressante reflexo, a luz grudada no teto começou a piscar,
piscar, e piscar, convidando-me para entrar em seu ritmo cósmico. Aquilo se assemelhava a severa descarga elétrica no SNC, bastante interessada em agraciar-me com
Le Haut-mal. Porém, fui salvo do dançante ataque epilético. Não convulsionei nem espumei ou entrei em transe, apenas esqueci. Olvidei parcas cobiças, emoções, motivos, argumentos...
Então simplesmente me sentei à mesa e decidir comer. Abri o cardápio, mais para usá-lo como máscara de afastamento sadio. Entretanto, por conta da ação seguinte, deixei a segurança da distância de lado e estreitei-me ao real, filtrando-o com meu olhar por sobre este menu-muro do preconceito e da sem-vergonhice. Pois de repente, assim nada mais que simbolicamente, assim como um trem atrasado, um carro qualquer com um engraçado sujeito grisalho de bigode engraxado atrás do volante passou zunindo do outro lado da rua do restaurante. Driblando, à sua forma irracional, o trânsito um tanto congestionado, hã, como as ampulhetas. Era o sósia de ninguém menos que Loro, personagem central do
Quartzo das Letras. Em seguida, grudado a isso como o intervalo ao jornal e você à sua amante, aquele tão estimado objeto retangular passou a tremer dentro do bolso, num compartimento à altura do fêmur. Demorei quatro toques, quatro chamadas, quatro pulsos, quatro seqüências de tremidas, enfim, para me atinar à interferência que acontecia. Apertei o botão verde.
– Aqui é da Polícia Federal, gostaria de falar com o senhor Sokezato-san – coincidência ou não sei ou pouco interessa, era Loro, o original, me passando trote.
– Beduíno!!* – devolvi, reconhecendo sua voz, e expliquei-lhe que acabara de “vê-lo” em louco trânsito.
– Rapaz!! Não era eu, mas já vi tudo. Isso vai dar em
algo. Quando começa a escrever? Ah, espera até eu passar a minha parte do texto.
–
Algocreverartext?
Comoquando?
– Poder ser agora. Estava fazendo entrevista com dupla sertaneja. Eram dois gordos, anteriormente dois amigos magros dos tempos do colégio de padre. Ligeiramente introspectivos e ligeiramente excluídos, entende? – a pausa para eu responder não deu em nada – Bem, eu sei que você entende, mas e seus futuros leitores? – sorri, pois sem dúvida, Loro
transvia as cousas – Hoje em dia, são
demasiadamente sorridentes, desinibidos, apegados às rimas etc. Espera. Vai, põe isso em negrito, Foche.
– Isso o quê?
– Demasiadamente.
– Está feito – não o questionei a respeito.
– Prosseguindo... Ei, depois te ligo. Começou uma pancadaria aqui na redação. Vou lá assistir de perto. Até.
Sem tempo para demoradas meditações a cerca do caso intruso, abordaram-me, felizmente antes mesmo de me projetar para fora do corpo.
– Qual será seu pedido, Sr. Foche?
–
Poco Loco Roll’s Hot & Spicy Tortilla acompanhado de sopa de milho com frango desfiado – respondi, sem hesitar.
Este que anotara minha extravagância era
Union Jack. O garçom que costumava me atender sempre que sentava àquela mesa. Vejamos a época de nossa apresentação:
– Como é o seu nome?
–
Union Jack.
– Sério? A bandeira britânica?
– Sim. Meus pais eram historiadores. A idade média e a formação do continente europeu são períodos que os encantam, assim como eu... Quando nasci.
E assim, revivendo a imanência da experiência, me sobreveio o segundo motivo, a inconsciência. Um
freestyle em cima de Manuel Bandeira. A eficiência. Dos garçons... Quero dizer, conheço os garçons dali. Sou
habitué! Exatamente. Tudo começou porque eu estava sozinho. Saí para caminhar. Desde o princípio a intenção era aquele lugar. “
Ali sou amigo dos garçons. Ali todos me conhecem. Ali tenho a cerveja que quiser, na temperatura que escolher. Fui-me embora para o bar.” Pensando nessas coisas tradicionais, de referência. E atingindo esse timbre com o pincel, noutros tempos químico-verbais, o ciúme me atacou com suas garras postiças. Acontece que
Union Jack dispunha de aborrecimento suficiente lhe esperando noutras mesas, então teria de me deixar sozinho se também quisesse atendê-los. O ritmo da música que julgava conhecer cambiou. Me senti um estrangeiro, excluído. É, Manuel, as glórias de
Pasárgada são exclusividades sua.
Tenho certeza que mencionei a eficiência, acima das dúvidas. Pois bem. Aí está ela, em sombras. Depositaram os pratos à minha frente. Comecei a comer. E – Deus me salve da sinceridade cirúrgica – a chorar. Mastigava aquelas
Spicy Tortillas enroladas depois de lubrificá-las no
Guacamole, sorvia colheradas de sopa, e derramava as pejorativas lagriminhas. Enchi outra colher e a trouxe para perto da boca. Não engoli. Fiquei analisando o conteúdo escorrer em cima de mim. Chorava não por causa de pensamentos sobre milhares de animais mortos por bel prazer para servir de alimento a quem não precisa ou muito menos sobre crianças passando fome em centenas de pontos do globo. Apenas chorei por ser
eu mesmo naquele momento de “conforto egoísta”. Ocorreu-me, como com freqüência ocorre, que um copo de conhaque seria bom para. Geralmente não é, convenhamos, mas dá a impressão de. Ademais, a melodia (reformulada centenas de vezes, diretamente nos genes, e que agora mais parecia um ornitorrinco de proveta em D#) me autorizava a “
drink my souvenirs and go my way”, mas só de caturrice taurina eu achei que deveria comê-los e ficar ali. Mesmo que por outro lado – onde baixamos a guarda e a nudez atrapalha –, eu devesse admitir que “iria tocar
essa música para meus filhos, algum dia”.
Ao fim daquele frêmito (porventura, sem semelhança ao inaugural), isto é, da entrada do líquido achocolatado deslizando para dentro das tripas e misturando-se aos bolos alimentares já armazenados ali, e sem perceber estranha movimentação atrás de mim, comecei a brincar com um palito na boca, retirando piche dentre os dentes. Nessa brincadeira, uma bunda bateu em minha cabeça e o palito fincou na língua. Levantei bruscamente, olhos semicerrados, dolorido, rosnando rispidamente para U.J..
– Desculpe, mas meu nome não é
Union Jack – desabafou.
– Pro inferno que não é!! – vociferei, depois de me livrar do palito.
Outra vez, e creio que devido a tanta ação em tão curto espaço de tempo, aquelas cerca de 100g de tecnologia móvel vibraram. No visor lia-se:
Chérie.
–
Mon cher? Está me ouvindo? – eu estava, mas não quis responder: estávamos reciprocamente magoados – Espero que esteja, e que também queira. Preciso te contar. Hoje sonhei com mais uma espécie de filme. Era o de uma garotinha de menos de dez anos que queria se passar por uma mulher de vinte e poucos. Tinha uma cena onde ela levava o amiguinho de sala para o banheiro. Faziam sexo lá dentro – percebi sua respiração acelerar, e, por conta disso, pareceu-me que falava de si – Ela por cima. Quando bateram à porta perguntando o que estava acontecendo, ela gemeu a resposta, em meio ao esguichar de sangue da vagina: “Você nem acredita. Entra”.
– Isso é Woody Allen?
– O diabo?
– Woody Allen – repeti, como uma professorinha na hora do ditado.
– Ah, eu tinha entendido errado. Não, não é o judeu nerótico de
NY. Isso que contei foi o meu sonho.
Fiz uma pausa para pensar o comentário.
– Legal. Não raro sonho com roteiros completos, inclusive trilha sonora e atuações memoráveis. O problema é que esqueço quase tudo quando levanto. Bom, já ouvi falar de pessoas que sonharam estar na pele do Mário Bros., voando com a peninha para pegar cogumelos e moedas douradas, mas nada, absolutamente nada como o que acaba de me contar.
Estranho como após fechar contrato com grande estúdio de cinema faz-se necessário um nome novo. Como um ritual para rebatizar, um renascimento. Isso é cabalisticamente demoníaco. Entretanto, não é o caso de Allan Stewart Königsberg. Nem o meu. No que me concerne, o dualismo – ou quase isso – era mesmo a força motriz do dia. Primeiro (e salvaguardando o mérito da supracitada dupla de princípios opostos) porque se eu ficasse tanto tempo no celular eu esqueceria onde estava, esqueceria que eu era você e então teria de fingir ser outra pessoa. Segundo que enquanto falava com ela no celular, lembrei que tinha uma pelada marcada para aquela tarde. Logo, agi como já agi anteriormente. Me apeguei ao escapismo. Avisei-lhe que tinha de desligar e saí fora dali, fazendo vista grossa para os verdes e alaranjados e amarelos e – por que não? – os azuis canos de atalho do Mario Bros., não deixando-me ser engolido pelos buracos sempre negros e barrentos da cidade, e marchei até o campo público de golfe onde disputávamos nossas partidas de futebol quase beatificador.

(Nessa movimentação, e somente então, enxerguei com meus olhos da percepção, pois eles se abriram para o que se escondia atrás do piscar incessante das lâmpadas. Ora, eles são como as matérias invisíveis que compõe os universos e que não estão aí até que um físico – por que não, daqui anos de profundo estudo e total acaso, o próprio Vovô? – as capte visualmente no microscópio e as batize para que, uma vez inventadas, os outros também tenham o
poder de vê-las. Digo dessa maneira confiante porque dois terços das lâmpadas acessas nesse trajeto escureceram por algum tempo, e isso somente se deu enquanto eu pensava a cerca de suas meras existências como forma binária de sim e não, zero e um.)
Vovô e Rabisco tocavam bola no gramado. As traves estavam posicionadas. Achei que ninguém havia comparecido. Muito menos as agradáveis garotas que participavam das partidas mistas.
– Já vieram e já foram – avisou Vovô – Até
Turista e
Maniac compareceram. Trouxeram o tabuleiro de botão. Assim, quem ficava de próximo podia fazer o aquecimento.
– Como estamos em três, vamos jogar gol a gol – sugeriu Rabisco, para completar a sátira logo em seguida – Esse jogo babaca que nasceu nas quadras dos prédios dos garotos de classe média alta, onde maricas jogam para evitar contato físico, jogam porque só moram maricas nesses prédios, e eles não querem saber de outra coisa que não seja os
laptops que ganharam de natal – deu uma pausa para assoar as narinas obstruídas – Ah, e eles são
vintage. É assim que se diz?
Vintage, então! Gostam de jogar usando camisas acolchoada no peito e no cotovelo, modelo antigo, encontrado no brechó esportivo da Travessa dos Ateliês, em
Vallegrand.
– Calmaí, Rascunho – interrompeu Vovô, físico apaziguador e ciclista noctâmbulo, e eu pensei: “o nome dele não é Rabisco?” – Corta o original e vamos jogar futebol, cara. Ninguém aqui faz parte dessa gangue.
Rabisco, ou Rascunho, deslocava seu corpo de um ponto ao outro, sem linearidade ou objetivo. Procurava uma posição em campo. A lâmpada do estádio improvisado começou a piscar,
piscar, e piscar, como se fosse queimar, como se fosse um vaga-lume capaz de me matar. Quando ela por fim se apagou, notei nossos sorrisos sem fé, cansados. De quem ri de tanto chorar.
Et « un coup de dés jamais n’abolira le hasard », n’est-ce pas Loro?
I
II
III
* imagem: J. Bennett Fitts - Golf - Verdugo Hills.
** Outrora adquirimos o hábito de nos chamar pelos nomes das avenidas e ruas da cidade. Mais tarde mantivemos apenas o cerne do preceito: basicamente qualquer alcunha, que não a “verdadeira”. Mamífero (Av. Miguel Sutil) e Dota (Av. Isaac Póvoas) e Rodroga (Av. Fernando Corrêa) e Maniac (Av. Filinto Müller) e Ser Humano (Av. Barão de Melgaço) sabem mais dessas invenções do amanhecer...