terça-feira, 28 de abril de 2009

hector, o mágico IX

::::: circunstâncias adversas de uma segunda-feira chuvosa (ou de um dia de fúria) :::::

Para os escravos, a segunda-feira, por si só, já é um dia triste. Isso se deve ao simples fato de preceder o ócio dominical. Justo nesse dia ainda me acontece de ser ensopado com cartola, capa, cajado, graças às intempéries da natureza. Fiquei furioso como um adulto. Rapidamente, entretanto, oscilei entre esse sentimento e o oposto, a calma temperada de sabedoria infantil. Ergui, então, o cajado de ágata (louvado seja Thomas Jabril II!) e fiz surgir um trovão. Brinquei com ele um pouco para assustar as pessoas. Jogava de uma mão a outra. Upa, upa, pra lá e pra cá. Então o engoli. Logo depois fiz uma dezena de trovões e saí a saltitar, imitando Nilo, aquele asno sem tamanho.
– Você é ridículo!
– Você é ridículo!
– Você é ridículo!
Lá me fui, além-esquinas, dizendo boas parvoíces repetitivas, mirando com a ágata e lançando um trovão em cada pessoa que encontrava carregando guarda-chuva. Elas levavam choques leves. Ficavam paralisadas por trinta segundos e voltavam ao normal, ligeiramente chamuscadas, corações disparados, pernas trêmulas: retornavam às vidas chuvosas onde aquele utensílio era escudo indispensável. Deslizei por avenidas nesse festivo clima amaldiçoado. E se não estivesse com a pedra energizada molhada, faria desaparecer algumas daquelas pessoas, qual René Clair em seu Entreato Dadá. Para variar, comecei a disparar contra qualquer aglomeração ou coisa que visse ao meu redor, em filas, em circos, em congressos, em janelas, em alfaiatarias...
– Você é ridículo!
– Você é ridículo!
– Você é ridículo!
– Você é ridículo!
– Vocês todos são ridículos! – e fuzilei uma fileira de computadores aidéticos.
Segui assim, catalogando meu menosprezo, concedendo a verdadeira alcunha para: homem, mulher, estátua, poste, criança, cão, portão, lata, flor, paletó, espelho... Até meu repetitivo repertório verbal transformar-se num mantra entoado ad infernum dormimus.
– Você é ridículo!
Eis que de tanto falar minha saliva secou. Tive, portanto, de beber água da chuva para continuar dizendo àquele lodaçal a frase preferida de Nilo Grilo e que por cativantes momentos deu-me incomparável prazer em parafrasear.
– Você todos são...

hector, o mágico VIII

::::: circunstâncias adversas de um sonho de picadeiro :::::

Depois de vagar por diversas dimensões, desgovernado como um pião anômalo, rumo ao leste, sempre leste, cada vez mais próximo dela, toda direção é leste, leste até encontrar a terra natal, esse chão aqui: eu magnanimamente retornei. Sem perder tempo, parti no encalço do “bastardinho”, como bem salientou Sônia. Dago Patroclus, o chamavam. Cão danado, eu o batizo! Ao encontrá-lo, esperamos finalizar sua apresentação pública. Após o término, reunimo-nos com a Comissão Executiva do Código da Prestidigitação e marcamos o duelo. Era eu contra aquele ítalo-grego velho! Porém, é preciso registrar: notei que o cansaço da viagem entrecortada tornara-se um indigesto problema. Não permitia que os treinos para o combate rendessem, a fadiga. De certa forma, digna acima de tudo, eu me arrastava com honradez. E foi nesse clima meio macambúzio, meio tenso, que recebi a ligação de Kravchenko.
– Hector? É Nikolai. Sei de tudo que passou e o que está passando. A bola de cristal da cigana fez-me as previsões. Há-há-há! Oras, deixe disso e venha para meu circo, человек. Aqui terás espaço para praticar seus dotes extraordinários. A única exigência minha é que faça uma apresentação por semana, e serás recompensado por. Que me diz? Em dólar, evidentemente! Temos um acordo, então?
Apanhei Sônia Stricteternum e fomos ao circo do russo, instalado dentro de um grande parque de diversões em funcionamento mas que parecia abandonado. Meu antiguíssimo sonho de trabalhar em um circo não passava nem perto do pesadelo da realidade que se mostrava. Já nas dependências, quero dizer, debaixo do teto de lonas coloridas, descobri que Nilo Grilo, outro rival, de inferior envergadura porém, também havia sido contratado. Vendo-me ali, não deixou de destilar suas toxinas saltimancas.
– Você é ridículo! Você é ridículo!
Mas aparentemente meu organismo já criara anticorpos para. Seguimos, de mãos dadas, eu e ela, intrépidos. Fomos ao centro do picadeiro. Dali, o domador de leões nos levou ao escritório, num trailer nos fundos. Entramos sem anunciar e flagramos Kravchenko falando ao telefone com Patroclus.
– Combinado, Dago. Levarei a equipe para filmar a luta. Há-há-há! Não se preocupe, tudo está indo conforme combinado. Será um prazer, meu хорошо негодяй.
Lentamente o russo colocou o fone no gancho. Em seguida me encarou com ardil em meio à cortina de fumaça de seu charuto. Não tenho certeza se encenava a conversa ou se realmente falava com meu adversário. Fato é que não gostei nada da artimanha noir.
– Eis-me! – bati o cajado no chão.
– Nota-se...
– Hector terá de fazer um show por semana. Do que se trata? – atacou Sônia.
– Ah! – e, à sua maneira irritante, gargalhou copiosamente – Não é nada de extraordinário. Venham comigo que lhes conto enquanto caminhamos.
Kravchenko levantou-se, abotoou seu uniforme camuflado e pôs a boina de ex-militar condecorado. Na certa dissera aquilo para nos ludibriar, porque não abriu a boca enquanto andávamos. Os lábios ele até que mexiam, apenas para, de modo exagerado, lubrificá-los com a língua púrpura. No trajeto um trapezista e um elefante se juntaram a nós. Teci pensamentos carnívoros diante do quadro que passamos a formar. Estaríamos em desvantagem se tivéssemos de lutar. Éramos eu e Sônia contra o russo e sua corja. Ah, se ao menos estivesse com minha M7000 Gold... Nada de pânico! Eu trouxera boas cartas nas mangas. Ademais, era estranhíssimo o gingado do elefante. Parecia o de uma centopéia humana, seu gingado. Sônia, astuta, também percebera. Deu-me uma cotovelada de advertência para chamar a atenção. A coisa toda estava cheirando a encrenca. Das quentes. Contudo, de mãos dadas com Sônia eu me sentia grande e forte, pronto para defendê-la. Em dado momento, atravessamos o nitidamente abandonado salão dos espelhos. Adentrávamos, como bem quistos convidados, o covil do inimigo.
– É logo ali – disse alguém, contendo o riso algo tirano.
Por entre as teias de aranha do vetusto salão, os reflexos fugazes dos corpos e dos mil olhos corroboravam minhas suspeitas. Eles tramavam algo. Por tal atitude, senti-me uma presa especial. Ora, a trupe premeditara aquilo tudo exclusivamente para mim. Que lisonjeadores! Pena que teria de estragar seus saborosos planos aracnóides com meu incontestável poder.
– на последнем chegamos! – exclamou o cossaco, misturando os idiomas – Veja aquela caixa suspensa, Hector – e apontou para a gaiola no alto – Você ficará ali dentro, embrulhado numa camisa de força com correntes e cadeados te prendendo. Seu número será tentar escapar dali no tempo estipulado. Se falhar, cairá no tanque cheio de ácido. Cof, cof, cof... – aqui ele desandou a tossir, provavelmente a fumaça entrara pelo buraco errado – Mas isso não acontecerá, почетно волшебник. Não queremos estragar o espetáculo, não é mesmo? Não é mesmo? – repetiu, levantando as sobrancelhas – Há-há-há!
– Há-há-há! – estranhei quando escutei sua risada ecoar.
– Há-há-há!
– Há-há-há! – nada mais era que o eco de seus fiéis escudeiros imitantes.
Sem demonstrar exasperação, respirei profundamente. Usar essa técnica mantinha-me calmo. Fui inspecionar o equipamento. Nem comecei a averiguar e já decretei a completa precariedade do mecanismo. Nem Houdini (se inserido nesse status de "recheio") sairia daquele emaranhado de elos de aço. Sem dúvidas, era uma armadilha. Das ultrajantes. Feita para pegar ratos encurralados a céu aberto. Infelizmente eu não era um roed... Ah, aos diabos! Técnica que nada! Vocês sabem do que eu sou feito, sabem o que eu penso. Ma-mas não sabem do que eu sou capaz, certo?
– Ou você faz o que eu mando ou também tiro minhas cartas da manga, Hector.
Assim, posto seus termos com limpidez, o russo fez sinal e seus capatazes nos cercaram. Nada de pânico! Era a cerimoniosa declaração de guerra. Cerimoniosa e admirável, pois de repente o elefante abriu-se ao meio. Puxaram um zíper e de dentro da fantasia germinou uma tropa de anões, menores que Nilo Grilo, e, no entanto, com labaredas nos olhos que nenhum Golias seria capaz de vestir.
– Isto não é um circo. É um gulag! – disse-lhes, tirando a cartola, preparando-me, de pensamentos pelotiqueiros tecidos, armado para a fantasia – Tomem isso: Krazex nonsense!
Minhas cartas provaram não ser tão boas como imaginava. Errei a mágica. Ao invés de bigornas de exatos cinco quilos cada caírem sobre suas cabeças, tirei uma écharpe de raposa da cartola. Imediatamente, com ou sem razão, o pescoço endureceu. (A raposa enrolou-se ali também). Precisava de uma massagem para aliviar a tensão. Não tardei a clamar por socorro. Sim, ainda tinha o curinga.
– Te quiero, Sônia. Ayúdame!
Pincelando no ar sua vareta, Sônia criou descomunal nuvem de abelhas que despejaram pólen estupefaciente e picaram somente os de coração negro. Com as contrações de dor dos “bichos de estimação” do circo estávamos momentaneamente salvos. Sem tempo de agradecer ou comemorar com Sônia, procurei por salvação definitiva. E encontrei. Nos enfiamos, abraçados, para dentro do bojudo cano dalgum espetáculo. Ela simulou uma pistola com as duas mãos e eu assoprei a ponta dos dedos. Com isso, acendemos o pavio.

– Kihhhn! – gritamos, em singela homenagem a Toriyama.
Rasgamos a lona do circo rumo ao espaço. Fomos lançados pelo canhão tal qual um homem-bala deve ser. Soltos no céu, em queda, Sônia sacou a vassoura voadora. Passeamos um pouco antes de chegar em casa tranqüila e romanticamente.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

ex animo dicere XIII


"O crime é o maior entretenimento do mundo!", e encontrei os anfitriões da festa em Multiple Personality Detective Psycho.
Alors, passez le mot!
Encore et encore...


* imagens: digitalizadas por otakus komattachan binários.

ex animo dicere XI, XII

(Vera à mesa).








(Vera enterrando o cachorro no meio da madrugada).

"Como sabia que eu estava aqui?", quis ela saber, enquanto Pavel (ou a Euforia?) ainda não havia lhe dominado.





(Vera assoviando antes de naufragar).








[...]

"Veja, as ovelhas de meu pai!", apontou-me o filho, exímio acordeonistas e inimigo do próprio pai, em seu fúnebre retorno à casa da infância, ao Prado da Lamentação.
Alors, passez le double mot!


* imagens: stills das películas.

ex animo dicere X















Ou
all your base are belong to...













Hmm. Não, melhor não.
It are belong to:



Jusqu'au fin, ok?
Alors, passez la connerie!


* imagem 1 (editada): aposto que é Barbara Kruger ou uma fiel escudeira prozaquiana.
* imagem 2: Bill Watterson - Calvin e Haroldo.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

ex animo dicere IX


"It has been a period when cunt was in the air", confidenciou-me Henry Miller durante seus Quiet days in Clichy.
Solveo ergo sum. (Rompo logo sou: o gosto da violação).
Alors, passez le mot!

* imagem: still da película.

hector, o mágico VII

::::: circunstâncias adversas do VII congresso do admirável sindicato dos mágicos anônimos :::::

O primeiro congresso de mágicos do qual participei aconteceu quando eu ainda era um reles principiante no ramo. Acabara de concluir o curso de práticas avançadas do ASMA e já acreditava ser um ás do ilusionismo. Quanta inocência! Sabia fazer aparecer ovos. Mas e quem aqui não o faz? Por exemplo, nesta sétima edição do congresso ainda há quem suba no palco para tirar ovos de codorna ou ovos de páscoa detrás da orelha da bela jovem voluntária de maiô cavado. Tenham dó deste discípulo de T. J. II! Precisamos aprender algo grande, que cause furor. O público quer novidades, quer sair do espetáculo com outra idéia sobre a vida. Em suma, quer ser mudado, na essência. Devemos atendê-los nem que seja através da kátharsis! O mercado exige, o tempo urge, as almas ferem-se. Todavia, mágicacos como estes da platéia estão velhos demais para aprenderem truques novos. Recuso-me a não alcançar o paroxismo da ilusão! Serei o melhor, preciso ser. Se calhar, farei aquela viagem ao desconhecido e aprenderei a técnica doppelgänger da qual ouvi falar através de meu mestre.
– Agora com vocês um show com MC Escher! – anunciou o anfitrião.
Esse profissional, Mestre de Cerimônias Escher, eu não conhecia. De qual toca saíra? Pois apanhou o microfone e mandou umas rimas mágicas, precisas, polimétricas, de perspectivas aguçadas, desconcertantes. Combinando tais qualidades com violentas bases de “furadeira e baixo”, arrancou profundos uivos do público. Já não importava de onde vinha, em qual escola se graduara ou quem era seu mestre. Ele era dos bons, sem chance para Roberto Carlos ou Julio Iglesias. Escher nos fez esquecer a inaptidão do coitado dos ovos que saiu do palco sem nem um retardo aclamar ou vaiar. Deu-se, ora vejam, que aquilo veio a funcionar como um coffee break com música ao vivo. Alguns companheiros de vareta materializaram salgadinhos de camarão e presunto e bolas de queijo dentro dos bolsos dos presentes. O congresso estava começando a melhorar. O nível crescia.
Logo depois do MC veio aquilo que foi o divisor de águas em minha vida.
– O ASMA orgulhosamente apresenta sua mais nova revelação: Sônia Stricteternum!
Achei que o efeito imediato de sua aparição tivesse reverberado somente dentro mim, mas aí olhei em volta: o público, inteiramente masculino, estava boquiaberto. E ela não havia feito uma magia sequer. É bem verdade que não existem muitas mulheres interessadas nessa profissão de deslumbramento puro. Pelo visto as coisas estavam mudando, para a sorte do povo. Quando ela sacou sua arma, quero dizer, uma Fabulous M7000 Gold, quase chorei. Lembrei que ainda não recuperara a minha. A polícia é demasiado lenta em qualquer esfera do pensamento, real ou transreal. Então as luzes se enfraqueceram. Começou seu ato. Esqueci minhas mazelas. Num movimento circular, como se riscasse o ar com a vara, Sônia fez um arco-íris de sete cores. De cada cor surgiu um gato – seus pêlos respeitavam a cor de onde nasceram – saltando sobre cadeiras enfileiradas no palco. Três de seu lado esquerdo, três à direita e uma ao centro. Em seguida, abriu os braços e um vento adentrou o teatro lacrado pelas pesadas portas de isolamento acústico. Além de derrubar nossas cartolas, a lufada empurrou todas as cadeiras para o mesmo ponto, o centro do palco. Mesclando-se, as sete transformaram-se num imenso totem ronronante. Sônia curvou-se para os aplausos. Ergueu-se, resplandecente, confiante de sua faculdade espetacular, e deu dois saltos para trás. No terceiro, voou até o topo do totem. Ao tocá-lo com os pés, este começou a diminuir, recolhendo-se como uma antena, e ganhou o tamanho de um lápis; trazendo-a, por fim, a altura do palco. Curvou-se novamente, não para os aplausos, mas para pegar a única cópia do totem em miniatura e multiplicá-la. Com outro movimento da vareta, enviou os souvenirs aos bolsos de nossos casacos. Que final majestoso! Essa mulher dispunha de muita classe, além de excessiva habilidade. Nem David Copperfield faria melhor. O Museu e Biblioteca Internacionais das Artes de Conjuração jamais seriam capazes de desvendar os segredos de tamanha façanha. Os brados de reconhecimento foram tão intensos que a estrutura do teatro parecia tremer. Meus olhos chegaram a lacrimejar. Quando cessaram, não me fiz de rogado, não me contive. Levantei a voz. Ali estava o que eu queria. O paroxismo da ilusão: o amor.
– Te quiero, Sônia Stricteternum!
Ela sorriu para mim, encorajando-me a ser rompante. Era a faísca de que precisava. Avancei, cego de amor, louco de vontade. Porém, antes mesmo de sair da fileira de cadeiras, dedicaram-me um feitiço. Dos ruins! Dos brabos! Fui despachado diretamente para as mãos dos dois homens fardados. O fizeram assim mesmo, pelas costas, num átimo insolente que não respeita o sentimento recíproco entre duas pessoas! E todos sabem – quem não, agora saberá: está escrito –, tudo de ruim que um mágico faz lhe volta em dobro. Curioso é que os sujeitos uniformizados praticamente me consideravam da “família” devido a freqüência de nossos encontros. Enfim, lá estava eu, outra vez, enjaulado. Com o agravante de ter o coração partido e a obrigação de pagar uma fiança de 500 pratas se quisesse ganhar liberdade. Teci pensamentos mendicantes. Na certa, alguém lá do ASMA me emprestaria a quantia.
– Conheço meus direitos, senhores.
Liguei para a coordenação do VII Congresso do Admirável Sindicato dos Mágicos Anônimos. Solicitei que pusessem o responsável pela canalhice na linha. Para meu assombro, Sônia pegou o telefone.
– Hélas, pauvre de toi, mon magicien... – suspirou, contendo a emoção, a dor de não me ter por perto – Oh, mon cher Hector! – aquele sotaque, os erres arrastados, aquelas palavras, ó, aquelas doces palavras dirigidas a mim valiam mais que mil truques novos, mais que multidões me aplaudindo de pé; aquelas palavras enchiam meu coração de reconfortantes rouxinóis da cor do arco-íris, aquelas palavras eram mágicas, eram nada mais que ilusões – Não se preocupe. Quebrarei o encanto para trazê-lo de volta.
– Agradeço, Sônia, de coração entregue – eu tinha de ir além, tinha de demonstrar valentia – Mas minha honra precisa ser restituída. Diga-me quem foi o exibicionista fajuto. Qual o nome do responsável por afrontar-me? Quero propor-lhe um duelo.
– Calmez-vous, Hector. Não é hora para isso. Primeiro volte, eu me ocuparei de ti. Depois caçamos o bastardinho. Desde já garanto que o Código da Prestidigitação estará a seu favor. Agora – e, ora ora, enviou-me um beijo! –, trate de se preparar para viajar.
– Te quiero, Sôni...
Pronto, fui parar no convés de um navio enquanto ele atravessava uma das eclusas do Canal do Panamá.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

ex animo dicere VIII


"Quem sou eu? Eu sou minha história", afirmou o kamikaze alemão No decurso do tempo assim que naufragou o próprio fusca.
Alors, passez le mot!


*
imagem: still da película.

hector, o mágico VI

::::: circunstâncias adversas de uma loja em promoção :::::

A terceira pessoa sentada em um sofá para cinco era eu, Hector. Deixei-me cair ali para descansar após ter abusado da pirofagia em meu número. Acabara de terminar a apresentação que inaugurara aquela loja e dava início a grande promoção em andamento. Insuficientemente concentrado em mim, peguei-me a sondar conversa alheia.
– Sabe, preciso te dizer algo. Você é linda. Prefiro você. Amo-te! Não quero mais saber dela.
– Acho que eu entendi.
– Ótimo. O que você pensa disso?
– Nada, em absoluto.
Por curiosidade dei total atenção aos dois, virando-me. Que era aquela rusga? Pertenceria à pungente categoria “o cotidiano infiel de um casal” ou era apenas minha audição a traidora do momento? Em seguida, antes que me decidisse entre as possibilidades dum mundo claro e outro escuro, a moça levantou-se e partiu em direção a longa fileira de portas. Agucei a audição.
– Espera! Onde você está indo? Ah, já sei. Agora eu entendi. Por mim tudo bem. Vai, entra no provador. Conta logo tudo para tua irmã... – descruzando as pernas, exasperado... – E desaparece! Porque se eu te encontrar outra vez... – ele veio a ficar mais próximo de meu campo de visão e inevitavelmente ficamos frente a frente – Viu só?
– Vi sim, com meu terceiro olho.
– Por certo que viu, senhor. Agora só falta acrescentar que isso aqui é uma grande merda! – exclamou, abrindo os braços para talvez mensurar aqueles dois mundos inseparáveis.
– O que exatamente? – inquiri, para não permanecer equivocado.
– Esperar essas mulheres que experimentam dezenas de peças e saem sem comprar uma calcinha sequer.
Há muito não pensava sobre o sexo oposto. Tampouco sobre mim e as profundas relações com o mundo exterior. Não da forma como deduzo que o rapaz pensava.
– Ah, isso é um exagero, meu caro. Será que de fato você precisa de uma mulher?
– Não seja inocente, senhor. Seria triste demais viver sem.
– E viver com é...
– Viver com... – pensou – É isso. Um pé de guerra. Um eterno jogo de ganhar e perder. De entrar e sair.



– Vá lá, eterno não! – contrariei, evitando comentar seu gesto de mão.
– Certo, eterno não. Falei para forçar a expressão.
– Confesso-te que não tenho raciocinado muito sobre esses pormenores essenciais, meu bom homem, mas se tem uma coisa que eu sei é a utilidade das fêmeas. É isso que vou te mostrar. Receba meu presente!
Estalei os dedos. Nada aconteceu. Que problema!
– Oi?! – ele soluçou.
Errei a mágica. Meu pescoço endureceu devido à tensão da vergonha. Cobri o rosto com as mãos porque a cabeça doía. Estalei novamente.
– Krazex Semper Femina!
Criei a fantasia. As paredes dos provadores sumiram. Ou melhor, tornaram-se transparentes. Víamos todas as mulheres nuas se trocando normalmente. Uma longa fila delas. A mágica era das boas: as ovelhinhas sem lã não notavam diferença alguma, obviamente.
– Interessante, muito interessante. Aliás, você é o senhor...
– Hector, o mágico. Muito prazer! – apertamos as mãos, e pelo modo frouxo que o fez notei, de imediato, que se tratava dum sujeito impotente, mas, terríveis encantamentos me partam!, eu poderia estar enganado mesmo estando certo, não? – Mande lembranças à família. Leve aqui um pôster. Autografado? Incômodo algum. A mágica é universal. Tem filhos? Não? Tudo bem. Ah, não diga que perdeu minha perfomance há pouco?
– Não cheguei na hora certa, senhor Hector – e curvou-se para me cochichar o seguinte – A propósito, permita-me dizer: o senhor não acha isso demasiado machista? Veja bem. São pobres moças desprotegidas...
E eu achando que o sujeito estava gostando do show particular. É, não me enganei na previsão desprendida pelo aperto de mão. Pensando bem... Tsc, também pudera! Perto do espetáculo de inauguração aquilo era amadorismo destinado ao público do horário nobre. Estou convicto: as invenções da publicidade são muito mais exigentes e convenientes que qualquer gênero de imaginação dum homem livre.
– Na verdade sim, eu acho. Isso é um horror! E quer saber mais? Adoro ficar aqui sentado, desfrutando da enxaqueca, esperando qualquer vedete sair do provador.
– Nua ou vestida?
– Pe-lu-da!
Ao meu mágico comando sadista, todas aquelas beldades, até mesmo as acima do peso ou as de idade avançada ou ainda as de baixa estatura, cobriram-se, dos pés à cabeça, de grossos pêlos oleosos. Tornaram-se lisas como sereias ensaboadas.
– Agora sim! – aprovou, sorrindo bizarramente, conforme abria o zíper para pescar, no mar da ponta de estoque, uma cona sedutora.

hector, o mágico V

::::: circunstâncias adversas de um entardecer na praça :::::

Em meus dias de folga costumo treinar mágica com pombos sem abrigo. Para tal, visito a grande praça do centro (que apesar da localização privilegiada, é pouco freqüentada) e, perto do busto de bronze em homenagem ao fundador da cidade, exerço as atividades necessárias para manter a boa forma de meus poderes sobrenaturais. Durante toda minha carreira o fiz, assim, ali. Naquele lugar público podia executar tranqüilamente as magias, sem ser interrompido por terceiros.
Certa vez, porém – enquanto arrancava pombos das mangas de meu paletó e os fazia voar em círculos até um estalar de dedos sentenciá-los ao temporário confinamento de minha cartola –, um garoto de cerca de dez anos acompanhado de uma menina de pelo menos a metade de sua idade me observavam atentamente, de pé, no banco da praça onde eu deixara minha maleta de pertences. Interrompi o exercício, deixando as aves soltas, a brincar. Sorri para aquelas crianças no intuito de ganhar confiança. Nesse instante, para meu absoluto espanto, os dois começaram a arremessar pedras na direção dos pombos. Foi terrível. Era demasiado fácil acertá-los. Estavam desprevenidos e reunidos, aos montes. Derrubaram pelo menos quatro, em pleno vôo. Não esboçaram qualquer alegria ou tristeza quando viram as aves abatidas em agonia mortal. Diante do estado desfavorável das coisas, tentei salvar o que ainda não havia sido perdido.
– Não toquem em minha maleta, crianças!
O astuto menino captou a mensagem embutida em minha fala. Para tramar imoralidades, turvou o semblante. Abriu a maleta displicentemente deixada aos seus pés e pescou dali o primeiro objeto que seus lúdicos dedos tatearam. Era minha Toda-Poderosa vareta modelo Fabulous M7000 Gold – a Ferrari das varas mágicas que com muito esforço ganhei no último congresso anual do ASMA; uma espetacular versão compacta do modelo M3000 Brontosaur. Vê-lo erguê-la gelou-me o coração encantado.
– Afaste-se de nós, mágico! – ordenou o garoto brandindo a vareta: daquela maneira o pequeno parecia um fantasma corajoso, um Robin Hood do inferno.
Minha tênue tranqüilidade vinha do fato de ele não saber as palavras certas. De qualquer maneira, por motivos de segurança, deixei-os seguirem, afastando-me gradativamente, pois contra aquilo eu não era capaz. Ele e ela correram para recolher os pombos assassinados. Agacharam-se como animais selvagens, arrancando as penas da caça com voracidade. Em seguida aplicaram felinas mordidas na carne crua.
– Quero beber vinho, mágico! – com a boca cheia, cuspindo pedaçinhos de ossos, demandou a garotinha.
– Estamos famintos, mágico. Não vê? Não vê? Há-há-há.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

ex animo dicere VII

Bom dia, escravos!
:D















* imagens: das viagens solitárias aos recônditos cyber-garimpos.

hector, o mágico IV

::::: circunstâncias adversas de um feriado nacional :::::

As ondas sonoras das marchas militares executadas pela fanfarra fuzilavam nossos corpos acostumados às nuanças menos patrióticas. Para mim, aquilo caracterizava crime de guerra. Em dia de feriado nacional deveriam tocar música clássica ao volume máximo; deveriam alegrar tudo com muita mágica. Das boas. Porém, para sorte dos correligionários e azar dos entusiastas como eu, o presidente faria um pronunciamento extraordinário – decisão que atenuava meu desagrado perante o repertório da banda e enaltecia a simpatia do povo por aquela carta de baralho marcado.
Escoltado por uma dúzia de agentes uniformizados – tão alinhados que ouso dizer que suas mamães os produziam toda manhã, e carregavam suas munições com talco ao invés de pólvora –, o Rei de Paus surgiu no palanque, acenando para a multidão. Foi ovacionado como qualquer mágico gostaria de ser. Oras, não entendo isso muito bem. Será que ele fazia maiores e melhores mágicas do que, hã, eu, por exemplo? Senti-me incomodado com tanto carinho destinado a outrem. Para mim, nada. Que a banda voltasse a tocar e deixassem todos surdos! Castrados, burros e sem imaginação! No entanto, algum tempo depois também me vi a aplaudir e dizer palavras de ordem, de incentivo a carta mais forte do baralho. Não consigo imaginar exatamente como se deu tal paradoxo em mim. Então o presidente nos silenciou com um rápido gesto de mão.
– Meus amigos e minhas amigas... Forçado pelas circunstâncias, eu renuncio! – declarou, o excelentíssimo senhor, assim que segurou o microfone da tribuna – Renuncio ao meu cargo! E vou além: cometerei suicídio em público para provar-lhes que as bárbaras acusações que venho sofrendo são infundadas! Mostrarei a sinceridade através de minhas entranhas! Pois aqui está um homem honrado! Sintam-se orgulhosos por terem votado em mim!
O presidente tomou o revólver dum segurança do erário. Engatilhou e segurou contra a têmpora. Ficou gemendo de medo, suando, os olhos profundamente apertados. O povo ficou em suspenso, processando as informações chocantes. O que fazer? O que fazer quando alguém sempre termina suas frases com pontos de exclamação, mas no dia D foge? Pois ficaram loucos! A massa disparou-se para todos os cantos, qual champanhe quente agitado que explode a rolha. Uma grande confusão aquilo foi. Notei que apesar de nem todos estarem de acordo, isto é, certamente havia uma cisão nas diretrizes, tais inclinações eram inverificáveis – tamanha era a desordem. O mundo não precisava de outro Yukio Mishima vernaculista ou Tatenokai que o valha. E já que estava ali, presenciando tenebroso fato histórico, não pude me conter. Teci corajosos pensamentos prestidigitadores para realizar algo de bom para o evento. Era um feriado, afinal. Ninguém além de mim poderia ajudar.
Avancei camuflado na multidão. Saltei o último cordão de isolamento. Investi contra os seguranças do presidente, o homem que nunca foi curinga. Alguns me reconheceram por conta de outros infortúnios que lhes causei. Bem, eu já encontrara pelo menos metade deles em circunstâncias de nível duvidoso inferior ao atual. Eles logo me cercaram. Abri minha capa para sacar meu cajado. Numa das extremidades do cajado há uma pedra ágata energizada por meu saudoso mestre, Thomas Jabril II, antes de sua morte.
– Krazex Intensus! – falei, tocando-a.
Criou-se imensa calda luminosa que atingiu os seguranças em cheio. Atordoados, eles se abaixaram, esfregando as retinas ofuscadas. Agradeci a gentileza, a mesura. Bati a ágata em meus sapatos e flutuei por sobre suas cabeças enquanto estas se transformavam em cabeças de porcos com chapéus de pirata e narizes de Pinóquio. Em cima do palanque, ao lado do presidente hesitante, utilizei o cajado outra vez para fazer o feitiço final...
Antes de a descontrolada multidão de intenções dúbias engolir o pai da nação embaralhada, ele – mais uma carta perdida no jogo político – finalmente decidiu-se: puxou o gatilho. Ao fazê-lo teve início uma colorida chuva de confettis. Todos os presentes ficaram sorrindo, cabeças inclinadas, encarando o sorriso maior que vinha do céu acompanhado de trombetas, violinos e arranjos eruditos. Virei-me para ir embora. O trabalho estava feito. Eu, satisfeito.
– Ei, ô da cartola! – alguém me abordou desagradavelmente, mas diante de minha recusa, insistiu – Ei! É, você mesmo. Gostei de você, meu caro. Quero contratá-lo para um grande espetáculo. Me chamo Nikolai Kravchenko, sou dono do circo Russo que está passando breve temporada nesta cidade. Como é seu nome?
Janota, não hesitei. Puxei minha longa capa de modo que ela cobrisse parte de meu rosto, evidenciando meus olhos afiados, profundos, misteriosos, e, concluindo pela primeira vez a apresentação que ensaiara durante anos, respondi.
– Hector, o mágico.