sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

ex animo dicere CXXVII



"Lord, I want to thank you for this film. I want to thank you for the shoot. Everything went so well. I want to thank you for all the happiness involved. We all made this film in honour of you. Let me pray for every single person who watches this film, may they be willing to encounter you in a new way, may they gain a new vision of you. I want to thank you, Lord, for everyone being so deeply impressed, and let me thank you for them having found out that you love them and that you have a plan for their life. In the name of Jesus. Amen."

"Lord, I dedicate this project to your cross, the cross of victory. I profess in the name of all the people who are chosen to fulfill your plan. I profess that you, Jesus Christ, you are our Lord and our living God; that you are the master of this film, the master of Austria. I profess that you want to do something completely new with this film, something that no one can foresee or predict, Lord, you can do it."

"Lord, take this film to our hearts, enlighten us so that we realise what we are meant to show. This film will present you, almighty God, saviour and Lord. Talk through us, guide and direct us and move the hearts of the audience."

* imagens: screen gods.

É com essas três preces filmadas em voz alta que Ulrich Seidl começa este documentário intimista, ora doméstico, mas em geral ambientado em templos permeados por um estéril marasmo de sacristia; é assim que começamos a ouvir o coração, o louvor (às vezes como é, às vezes apenas bizarro) e as conversas (monólogos, em verdade) entre grandes amigos. Entre um fiel e o filho do homem: Jesus, you know. O que não me espanta é constatar que, por outro lado, há a parcela significativa de cristãos que não querem viver como Cristo, isto é, financeiramente humilhados, na busca. Amiguinhos, Deus só nos escutará quando nossas semelhanças voltarem, isto é, quando dominarmos a habilidade de produzir acidentes arbitrários.


Alors, alleluia, Jesus!

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XLV


Mais non! C’est la faute à Fidel!

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XLIV

::::: chicken poets :::::

Na saída do estacionamento parei ao lado do carro dessa mulher. Abaixei o vidro e, fervorosamente cego, cutuquei seus olhos de isopor e afirmei:
– Sou poeta.
– ...
– Escolha uma poesia de qualquer autor que goste e eu a recitarei.
– Chanson de la plus haute tour, de Rimbaud – previsivelmente respondeu, em límpido francês glacial, não comestível.
– Ah, deixa pra lá.
Engatei ré e voltei. Esperaria outra mulher, mais fácil, mais burra; cujo corpo eu pudesse experimentar em falso silêncio. Afinal, as palavras são reis sem poderes efetivos tentando acertar rainhas com rachaduras invisíveis.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XLIII

::::: os flintstones :::::

As cigarras não mais farão as garotinhas gritarem de medo. Aquela, em especial, não vai mais me arranhar quando eu for embora fingindo ser MacGyver. Ninguém vai quebrar o braço em volta da piscina, ninguém vai apostar corrida para copiar a matéria, ninguém vai jogar queimada e ninguém cantará hinos infantis alinhados em filas militares. Aquelas crianças também não encherão de ar as embalagens descartáveis do achocolatado do lanche para pisarem em cima e estourarem o mundo em risos banguelas. De amanhã em diante, a moda não será eterna: o Jardim Escola Bambam & Pedrita fechou. A neblina que resta fede.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XLII

::::: logorama :::::

– ¿Qué te passa, El Loco? – gargalhando, desferiu um perturbante soco no balcão – Vou chamar os comercias! – anunciou o pescador grisalho, chefe do restaurante e dono do barco que ficara a deriva por falta de combustível, antes de rugir como o leão da MGM; depois disso, passei dez dias comendo pastéis dos mais variados sabores em sua insanável presença, e passeei para tão longe que esqueci de que sangue seu nome era feito.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XLI

::::: sonho de moça :::::

Essa garota pequena de cachos igualmente miúdos andava de um jeito engraçado. Numa espécie de ritual contínuo, virava o pescoço para fazer o cabelo dançar. Esquerda e direita, e avante. Depois sorria serena. Depois se repetia, se sentava. Assim, ressoando, no aconchego de um suco, percebi que seus óculos de cor rosa me refletiram enquanto fiquei naquela mesa fingindo não vê-la. O rádio foi ligado. A Voz do Brasil me lembrava Woody Allen, o divertido hipocondríaco. A “morena simpática” da outra mesa fingia reclamar quanto a fumaça da churrasqueira, mas por dentro sorria já que os cachos da pequena também ficariam fedidos e a atenção agora era dela. Outras pessoas, outras culturas, outras referências de grunhidos, outras misérias avançadas. Mas São Google, em quais megahertzs andará Toni Braxton?

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XL

::::: arachnophobia :::::

Parei diante do portão da casa dessa garota. Tentei a campainha. Não estava funcionando. Pensando se apertava a do vizinho ou gritava seu apelido, olhei para a lua e esta parecia estar à mesma distância que aquele gato em frente ao portão da casa do outro lado da rua. Uma corrente de ar me fez apertar o outro botão. Nada, também. Voltei pro gato. Ele se coçava devagar. Um caminhão passou e empurrou o gato para longe – porque acabei por notar que este era de papel.
Invariavelmente a garota demorou, mas apareceu. Subimos à alcova celeste e nos deitamos lado a lado como satélites. Com apenas um olho aberto e o outro afundado no lençol, julguei que a assistia de dentro de uma gruta formada pelos ossos da minha órbita. Ela parecia Deus me olhando pelo buraco da fechadura. De repente tomei um susto com a aranha em cima do travesseiro. Foi então que por instinto, flutuando no halo que a envolvia, peguei papel e caneta para escrever o texto.

:::: o compasso cru ::::

Às vezes pode parecer que não, mas sim, é verdade. Já tive menos idade. E em algum momento dessa imaturidade peguei uma aranha para criar. Ou quase isso. Era feriado, ou domingo – lembro-me apenas que era um desses dias doentes de dar pena –, quando a escutei bater à porta. “Tenho um segredo”, disse, claramente, em tom de peçonha, “Matei um homem. Preciso de abrigo por algum tempo”. Perguntei sobre sua família, pois o mais indicado seria procurá-los naquele momento. “Meu pai morreu eletrocutado. Caiu da escada quando dava manutenção no transformador do estádio de futebol. Na queda, segurou-se nos fios de alta tensão para não se espatifar no chão. Ele só esqueceu que estava sem luvas. Minha mãe, a artrópode? Nunca conheci. Enfim”, a aranha ponderou sobre o que diria para completar o pensamento enquanto um grilo passou por perto, e ela o acompanhou com os olhos, mexendo sua presa pra frente e para trás, em dúvida, questão de sobrevivência, questão de fome, “Enfim, querido, não conheço ninguém a não ser você.”
Assim foi que caí na armadilha dos mil olhos da aranha.
Começamos nossa vie à deux. Quando eu chegava em casa, ela corria para seu cantinho favorito do quarto. Toda meiga, e acanhada, balançando na teia. Era interessante ficar a observá-la tecendo. Depois de cansada, me abraçava. Essa era a deixa para alimentá-la com insetos de boa qualidade – os quais eu conseguia mediante negociação injusta com as crianças ranzinzas do bairro. Ao terminar a refeição, deitávamos no sofá e, entrelaçados, conversávamos horas a fio. Não raro, como recompensa por me fazer companhia nas noites insones, trazia-lhe da rua pequenos roedores para se deliciar. Nessa cadência suave, o tempo, indolente, sumia. Por conta do trabalho, costumava passar o dia todo fora de casa. Mas, em minha ausência, sempre lhe deixava algo comestível. A meu ver, era nesse quesito que nossa existência se resumia e se assemelhava. Com muito custo aprendi que não era suficiente; que tinha de dar cada vez mais, cada vez uma coisa nova; que tinha de me esforçar para a convivência agradavelmente seguir adiante. Certa noite, ligeiramente mais absurda que o padrão, cheguei mais embriagado que qualquer homem moderno acredite ser obrigatório. Não consegui, portanto, alimentá-la nem lhe chamar para conversar comigo. Afinal, desmaiei. Durante a madrugada acordei com uma coceira no nariz. Então, simplesmente soube que a aranha havia entrado em mim.
A partir dali, nossas sensações e pensamentos se misturaram. Eu era ela e ela também era eu. Coisa mais estranha. Através dos olhos dela, eu me via por dentro. E acredito que ela trocava informações com algo perdido dentro de mim enquanto vagava pelo meu corpo – embora fisicamente eu não a tivesse penetrado. Assim ficamos por anos. Conhecendo-nos e tornando-nos íntimos dessa maneira. Equivocada, forçada. Dois seres vivendo uma única vida. Apertada. Tecendo a linha de nosso tempo; a armação de um guarda-vento. Apesar de a coceira incomodar nas noites em que bebia conhaque e comia ovos de codorna, aqueles foram os anos mais tranqüilos de minha existência, ou seja, o mesmo vale para ela, pois quando falo do sangue, falo de tudo. Não era preciso me explicar, me fazer entender. Ela carecia de queixas, não precisava pedir. Nem falar. Tudo acontecia em silêncio, internamente. Em pacífico consentimento.
Entretanto – e eu não acredito nisso –, algumas coisas precisam mudar. Numa manhã de domingo, ou feriado santo – nunca distingui a diferença entre esses dias e um triste velório – acordei com a notória coceira no nariz. Em seguida, a aranha estava sentada em meu peito, fitando-me com seus vários olhos, sem exceção dos olhos camuflados nas costas cansadas da vida embaixo de pedras, cadeiras, rins, através do duodeno; tiquetaqueando suas várias pernas; ela havia nascido, portando um meio-sorriso de paixão. A coloquei no carro e, imediatamente, antes que eu cuspisse mais aranhas, fomos nos casar no cartório mais próximo. “Duas traças libidinosas fugiram do paraíso”, esclareceu-nos o padrinho, sublinhando nossos votos de velhos habitantes dum novíssimo testamento inundado.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXXIX

::::: the coca-cola kid :::::

Arranque teus olhos de peixe e deposite no aquário. Adicione sal a gosto. Em pouco tempo as escamas crescerão. Imagem não é nada. Oceano é tudo. Cegue-se, então, e chora-me uma fórmula seivosa para fazer espumas que eu possa engarrafar e vender.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXXVIII


– Vamos quebrar uma?
Com jamais vista agilidade de raciocínio viciado, concordei. Contornei, estacionei o carro e descemos para comprar algumas latas. Quebramos os lacres, jogamos salivas usadas na lata do lixo, urinamos em azulejos brancos e quando cansamos os corpos retornamos ao conforto do asfalto.
Numa rotatória sem sinaleiro, paramos. Um táxi bateu na traseira. Verificamos nosso estado. Não quebramos nada. Descemos para procurar o sujeito educado, mas não o vimos. O vidro dianteiro não estava avariado, não havia sangue, e de fora não se notava pessoa alguma no carro. Jimbo foi lá espiar pela janela. Quase caiu com a cena. Me chamou e também quase chorei. O motorista havia dormido, estava bem, apenas desmaiado, pois com o impacto fora arremessado como um hot wheels para o espaço onde o passageiro repousa as pernas. Parecia um boneco inflável, só que sem ar. La beauté est dans la rue, n’est-ce pas?

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXXVII

::::: apocalypse now :::::

O vencedor da loteria não havia se pronunciado publicamente tampouco reclamado o prêmio. Para mim bastava saber que o novo milionário não era meu pai, uma vez que acreditava em sua recente confissão de quase-sorte – acertou apenas quatro números. Mas qual não foi minha dor de barriga quando um helicóptero sobrevoou o quintal de casa e jogou uma escada. Naturalmente, achei que era para eu subir. Foi quando ouvi uma voz do alto:
– Traz o teu prato!
Esse amigo sim teve sorte. Acertou sozinho e ganhou um monte de notas. Algumas nunca mais perderam a forma de canudo.
– Porque ninguém samba no meu prato!
Felizmente ele me estimava já que eu nunca fora pedir um prato de comida em sua casa.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXXVI

::::: mondo cane :::::

O ex-marido da vizinha de meus pais criava leões. Sujeito era coronel famoso pela insanidade; matava pra ver o tombo, como dizem. Divorciaram-se. Ela seguiu carreira na escola de tiro e com o treinamento de cães, que assumiram as jaulas dos leões fazendo tanto barulho quanto. Penso que a comunidade deveria fazer um bingo. Arrecadando dinheiro pra viagem sem volta desses pulguentos.
Possíveis destinos:
1) Tribo da Nova Guiné onde os cães comem carne de porco no colo dos chefes.
2) Cemitério canino em Los Angeles.
3) Restaurantes em Taipei onde os cães mais apetitosos são escolhidos na jaula.
Escolham.