::::: tratado dos conceitos desleixados :::::
Dei dois passos em direção ao prédio e parei – supondo que realmente exista um estado pleno de repouso no qual nada se move e tudo se espera. Dobrei o pescoço para a esquerda, podendo assim encará-lo melhor. Não me esforço para entender, mas achei aquilo parecido a uma barra de cereal com cobertura de mármore. Tamanha obra-prima das sensações degustativas transmitia-me a noção de pecado que é ser um incompleto monumento originado daquele espermatozóide sem igual. Isso veio a se confirmar quando a sombra de um gavião (costurando – com a linha de bolsas de ar – os arranha-céus daquele perímetro) me cobriu. Concentrando nela, apenas uma forma de representação, tropecei. Sinos badalaram nos tímpanos, reverberando na caixa craniana do homúnculo. “Quanta magnitude!”, desabafei. Seria mais digno se eu fosse uma galinha com o pescoço cortado me debatendo no seu prato. Portanto, caí de cara no chão não ao ciscar, mas ao tentar atravessar essa confusa avenida, onde a traiçoeira camada de fina areia que cobria o asfalto voava como a calda de um fantasma branco solto pela beira mar das férias de verão de 1997. De véu, uma senhora mumificada tentou me ajudar. Lhe disse que estava “tudo bem, obrigado” quando – não é preciso ser um Charles Darwin ou estar ciente do
Efeito Flynn para se verificar que – a situação era, desconsiderando a cadeia alimentar, raquítica. Coloquei a mão no chão para me levantar e, não por acaso, não por estar fazendo um calor sufocante, meus cinco dedos transformaram-se em minhocas. “Tão jogando batalha naval com a minha cabeça”, gotejei pela boca aos filhos da terra. Mantive a calma, apesar de não parecer que estava ali. Olhei novamente para a estrutura vertical. Ela ainda era uma apetitosa barra de cereal. Por outro lado, noventa e oito por cento das janelas, que representavam alguma parte da cobertura do saudável produto comestível, haviam desaparecido. Restando apenas um par, as janelas do 14º andar, e estas guardavam semelhança a dois olhos sabiamente abertos, sendo que o impossível colorido da luz atravessando o vidro com um quê de chama eterna do Monte Quimera era o que distinguia
la ventana dum par de íris pigmentadas. Ali era o
bunker domiciliar de Nha-nhá.
No elevador, o espelho, derretendo-se, me advertiu: você precisa de isotônico. Por certo que sim. Às vezes eu era um
roué borracho com o pito de pango pendurado nos lábios, levantando fina nuvem de fumaça e areia no ar. (Pela cor branca das partículas flutuantes, aquilo não deveria ser muito conveniente). Devido ao fato de eu ter sido uma criança que chorava quando o noticiário anunciava o fim do mundo, uma criança que mesmo sendo incapaz de nadar se jogava na piscina, às vezes eu também perseguia a incapacidade de me auto-realizar. Nas demais ocasiões, para nossas seções de verminosas elucubrações, eu procurava Nha-nhá.
As minhocas beliscaram o interruptor. A campainha parecia o som estridente de copos se quebrando. Recompus-me com o adubo de escassos segundos. Em seguida, a porta se abriu, rangendo como se fosse um nariz sendo assoado.
– E aí, Antônio das Mortes – recebeu-me Nha-nhá, fazendo o movimento
flipping com o canivete
butterfly como quem manuseia a filosofia da/e linguagem no intuito de arranjar a ordem da sentença de forma similar à navalha que corta prepúcios.
– Fala, Cangaceiro das Filipinas. Como está a prisão domiciliar? – ele resmungou algo que não entendi – Entendo, Entendo. Bem, que tal deixar de ser
deviant por uns tempos? Trouxe isto – tirei uma sacola do bolso – Vamos coquear?
–
Por seguro, la hoja de coca no es droga. Se bem que – e ele parou de manusear a arma branca – seria muito mais intenso nunca se esquecer do faraó Frantchesca que no leito de morte, ao sucumbir de sua dinastia, durante o prelúdio da sinfonia da morte, ordenou: Me enterrem com dois quilos de cânhamo.
– Tem
Gatorade aí, cara? Me arruma um pouco... – e eu poderia ter completado a sentença comentando que “o espelho me disse”, porém e felizmente, na hora certa me recordei da odiosa banda autora de tal música desgraçada e, com os “três pontinhos”, evitei que eu também me tornasse um.
Seguimos através dos cômodos do apartamento. No corredor que levava à cozinha, Nha-nhá arremessou o canivete que, qual
lepidóptero kamikaze, foi fincar-se na natureza morta à mesa. Chegando lá, me serviu a bebida e uma daquelas frutas impressionistas. Com o copo na boca e nada na cabeça, minha atenção se perdeu. Localizei-a junto ao programa de esportes que a empregada assistia, vidrada.
– Atualmente – comecei, mas parei para engolir um pouco do líquido e retomei – a única coisa que me emociona é assistir ao esforço recompensado de um atleta que vence uma partida, uma prova ou bate um recorde. Aqueles segundos de explosão, de êxtase, de músculos arrebentando, de puro vício, são fogos de artifício em meu coração.
– Ou seja, Foche, são aqueles míseros segundos de prazer do viciado quando este começa a se drogar.
–
Elektrobank – resmungou a empregada, eletronicamente além de nossa conversa fiada.
– Cara, existe a lei da compensação do universo – prossegui.
– E de que livro de auto-ajuda você tirou essa alínea?
– Livro algum, Nha-nhá. Foi quando da última borracheira que isso me surgiu.
Por conta dos avançados estudos lingüísticos, Nha-nhá tinha problemas em acreditar em qualquer sentença “possível de se exprimir”, “que o verbo alcançasse”. Entretanto, no caso da
força de luz que invoquei, nada se podia dizer contra.
– Tudo bem. Mas a única coisa que penso ao assistir essas atletas é: que me desculpem as feias, mas matar as belas é fundamental.
– Homem! Imagina se você está na rua andando e um anzol te fisga ou se está chupando um fruto na árvore e uma mão te espatifa.
– Não sou nem peixe nem mosquito.
– Quer ser como o canivete? Quer ter poder?
– O poder só é despótico a partir do momento em que você (esclarecido de suas perniciosas propriedades) o utiliza para seu próprio apetite. No mais, eu sou tirano.
– A questão não é ser perfeito, certo? É assumir os defeitos e fazer deles a sua perfeição.
–
Una pelota! A questão é ter um bloquinho de anotações para quando for usar o vaso sanitário.
– E um lápis que para escrever tem de sangrar.
– Então sinta o peso transparente do que atravessa por esta caneta.
Dito isso, Nha-nhá tomou para si um caderno de caligrafia da empregada e começou a escrever.

–
Isso é poder, Johnny – disse-me, enfático e, ao mesmo tempo, resplandecente, como se estivesse diante de uma nota de quinhentos rasgada ao meio – Zeros.
– E é tão absurdo acreditar que o mundo...
– Já chega! – tentou interromper-me.
– Por exemplo... – insisti.
– Já chega! – derrubou um copo para me aterrorizar.
– Criou a si próprio e vendeu o tempo engarrafado.
– Não agüento. Isso é filosofia de porco, Foche.
– Ah, pode até ser... – respondi, tristonho, e prossegui com a voz quase imperceptível – Mas eu consigo olhar para o céu...
– E é – e aqui ele exagerou em sua famosa risada peculiar – É inteligência negligenciada. Tome o caso de
John Zerzan. O sujeito viveu por alguns anos do dinheiro que ganhava vendendo o próprio sangue para um hemocentro norte-americano.
– Sabia que espero ansiosamente pelo dia em que essa risada se torne um clássico do cinema mil grau?
Finalmente, e ignorando-me, Nha-nhá resolveu abrir a sacola de coca. Pôs água para ferver. Selecionava as folhas quando, com uma folha que caiu no chão, decidiu chamar o gavião. A colocou na frente dos lábios e assoprou. O som agudo e prolongado atravessou o zênite do sol e voltou trazendo o mau agouro das notícias vastas.
– Em que tem pensado, Nhá?
– Em vender a alma ou trocá-la por uma cerveja eterna.
– Cada macaco em sua jaula.
O gavião apareceu na janela da cozinha. Bicou o vidro e fez-se notar. Numa tigela, lhe servimos o chá. Encarei-o à procura da beleza animal que o já mencionado Darwin deveria odiar. Procurei também por rastros de semelhança humana naquele pássaro. Por azar, uma viatura passou na avenida lá embaixo, assustando o penoso antes que eu visse a medula óssea da gema que o pariu. Meu amigo fechou o cenho.
– Não me sinto confortável quando ouço a sirene da polícia – segredou-me.
– Essa sensação é tão genérica quanto a necessidade de dormir com os pés limpos para o caso de morrer na hibernação e for parar onde tiver que ir, desde que com a tranqüilidade de não estar sujando casa alheia.
– Cala a boca. Nem vou glosar.
– Glosar, glosar... Palavrinha
gay.
– Notaram que as folhas e as penas podem ter parentesco? – ponderou a avantajada funcionária da família Nha-nhá – Um pássaro poderia vestir sua roupa de folhas e as árvores crescerem com penas nas extremidades de suas mãos que daria no mesmo.
– Por essa eu não esperava – comentei, com pouca sinceridade.
– Eu gosto quando é chave – ele rebateu – Crio hábitos muito depressa, Fuck. Porém, toda discussão deve ser conduzida sem interesse para que dela se aproveite algo.
– Escuta, ontem tinha uma caminhonete descendo a rua de casa com várias vadias na carroceria. Pensei em assaltá-las, mas não para roubar pertences. Anunciaria: quero um cu, porra! Passa um cu desses pra cá!
– Brilhante! Prometa que se um dia o fizer a trará aqui.
Hesitei em responder.
– Promete logo, bicho. Te digo. Faremos endoscopia e filmaremos o interior dessa mulher. Em seguida, distribuiremos esse vídeo nas escolas primárias.
– Dúvida! – avisei, levantando a mão como um aluno dentro da caverna do mestre – O que me mata é ficar pensando: como será que ela fode?
– Não se faça de rogado na próxima. Aprenda comigo – ele fechou a janela, amarrou o fio das cortinas e deixou a casa numa penumbra amistosa – Recusei gentilmente (mais do que devesse, talvez), quando, na primeira das vinte noites que um amigo passaria ausente, metido em viagem com a família empresarial, a mulher dele me ligou convidando para jantarmos a sós. A carne é fraca, a merda é mole e a cabeça é dura: bem sabemos. Estava convicto de que se a encontrasse seria uma explosão de prazer acumulado. Por mais que as intenções dela não fossem similares. Contudo, a noite insone que se seguiu me fez pensar somente na resolução do desejo. Ainda madrugada, comprei pães, queijos, presuntos, manteiga e leite, muito leite – novamente aquela risada incomparável ecoando nos tambores da garganta – E parti para a casa do casal desfalcado. Tomaria o desjejum ao lado dela para redimir-me quanto a noite passada. Por outro lado, após noite de reflexão e contenção sexual, de delírios e fantasias extraconjugais idênticas a minha, ela me recebeu sorridente, de braços e pernas incandescentes abertas.
– De quem você está falando, cara? Da
oriental, albina e modelo?
– Exato. A reencarnação do SEU bonsai, que eu deveria ter enrabado desde o princípio.
– Você não havia me contado sobre a sacanagem. Deveria ter me convidado para. Por agora, preciso ir ao banheiro. Calor, está muito calor, seu desertor.
Enfiei a cabeça debaixo da torneira. Quando emergi, meu reflexo ficou fracionado pelos espelhos do armário acima da pia, cada qual em seu ângulo, dividido em 3, 5, 2 e 7 vezes. Era como um jogo de espelhos, um parque de diversões com diversos de mim. Apenas outra forma de representação, sem olhos. Recuei a cabeça alguns centímetros mais e eu, o refletido, li o seguinte aviso: “Não jogue papel na Cuba. Fidel não gosta”. Comecei a criar uma história em quadrinhos com essas cenas. Voltei para lhe compartilhar a idéia, mas ele preferiu levar meu subterfúgio para passear em outros satélites.
– Será que admirar as coisas simples após experimentar a dor é um conceito de beleza contemporâneo, Foche?
– Pouco importa. Mijei azul.
– Azul de tão branco?
– Não, azul mesmo
A meu ver, nossas falas começaram a estourar como bolhas de champanhe assim que deixavam a boca.
– Garanto que é um conceito de beleza ultrapassado.
– Sei lá, Nhá – ensaiei uma resposta e, no entanto, decidi também guiá-lo para outras luas – Mas assistir ao movimento da natureza pode não trazer respostas, quiçá mais perguntas. Fato é que venerá-la com os poros abertos faz com que respostas ou perguntas não signifiquem muito.
A velocidade do pensamento de cada um foi aumentando, se mesclando, a ponto de não saber a origem, não ter destino.
– Quando eu olho para uma mulher eu não vejo um rosto. Vejo um cu e uma boceta no lugar de nariz e boca.
– A contramão é a
freeway dos sem sentido.
Frenéticas, as luzes giravam como um carrossel borrado e soltavam fumaça adocicada e grandes faíscas táteis. Normalmente, alguém enlouqueceria com o espetáculo de tal barbárie conscientemente insignificante.
– Criar é mais importante do que ser feliz, Glauber?
– É por isso
queu vivo morrendo feliz. Para sempre.
A empregada voltou a fazer sua tarefa de caligrafia com a leve caneta cujo sangramento fora estancado por nós.
– Temos de mentir para viver melhor.
– Porque o melhor sempre fica pro final.
Sem demora, descemos as escadas para chegar à avenida infernal donde julgaríamos o rebanho de vacas e bois de barro que brincam de esconde-esconde verbal todos os dias diante da platéia que grita nome algum.
– Particularmente eu não faria isso – confessei, por ser mentiroso – Mas como estou sendo retratado e tenho consciência das implicações disso, eu aceito fazê-lo diante das câmeras desligadas.
Antes e carinhosamente para a desastrosa conclusão do tratado, a borrasca chegou. Levando os prédios para longe. Então pedras de granizo foram expelidas dos rins de algum Deus celestial. Voluptuoso, o gavião ainda planava, envergado, soberano. Era o único ser inteligente num raio geométrico que parte do centro de cada coração febril e vai terminar na última circunferência escrita nas linhas do sistema caligráfico dos mundos: um tênue ponto final que dá seqüência ao excesso. A ave fez um rasante em nossa direção. Não sei de Nha-nhá, mas quando ela mergulhou, eu fui ao seu encontro para mergulhar no fundo dos olhos de gavião, para descobrir que não efetuara a volta que faltava no parafuso, para descobrir que sorvera o gole a mais de chá que explodiria a barriga, para descobrir que alma sequer eu tinha.
– Quando eu esquecer o cheiro da chuva é porque essa cidade deve parar de existir – eu disse, em oração – Se é que algo de fato desaparece por completo.
Em vista disso, Nha-nhá, com a garganta seca, só quis completar.
– Meu cérebro é uma poltrona onde qualquer um, que souber se deitar, pode se aconchegar.
Deitamos na avenida com a promessa de que a estrada iria nos curar, de que alguém lavaria nossos pés encardidos e os secaria com a boca. Nos contemos para praticar a psicótica
pareidolia e procurar rostos desmascarados não nas nuvens carregadas mas no espaço entre elas e nós e os gráficos oceânicos. Nos ajeitamos em posições de
Hatha Yoga que nos fariam alcançar a quarta parede e ultrapassar o sétimo céu (eu, num auto-retrato em
Shirsasana, e ele numa meditação em
Balasana). Deitamos, portanto, na avenida, de tal modo que tínhamos um
bom emprego, que parecíamos simplesmente decoração da cidade sendo metralhada por bólides de gelo, semelhante ao mobiliário a espera da aterrissagem de
Sônia Silk, a fera oxigenada de beleza imemorial.
“
Nessas condições, imóvel diante da grande miséria nacional, o otário só pode seguir dopado de sol, da cachaça e de magia. Até um dia acabar de vez com essa nossa evidente necessidade do samba, da necrofilia e da saudade”.