segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XLVII

::::: loucademia de polícia :::::

Passava por um beco de onde saíram quatro sujeitos mercadologicamente classificados como suspeitos de. Desci da viatura e quando mandei todos erguerem as mãos notei que não tinha arma. Também rapidamente, notei que estava com meu carro particular e sem farda. De modo que o porta-voz deles demonstrou a mesologia de sua impostação:
– Liga não, dotô, a gente é traficante tamém, mais tamos de paisana.
– "Foda-se eu; viva a corporação!" – disse-me-lhes.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XLVI

::::: i walked with a zombie :::::

Deglutia minha mojica de pintado predileta, à cuiabana, quando não me contive e, sem me virar, ouvi conversa alheia. Assim, em segredo, por desvio, comecei a transcrever o diálogo entre as duas pessoas de vozes animalescamente distintas.
– Você caminha para encontrar sentido, sentido para aquela sensação que te acerta quando você não caminha, quando está parado como um galho quebrado, e você encontra sentido algum em se mover, a não ser que seja uma canoa.
– Então você se move até encontrar o sentido de não remar, tentando não pensar na inquietude dos peixes, você tenta simplesmente não se molhar demais e tenta dissecar o rio de sentidos únicos que passa pelo teu corpo de madeira.
Tamanho devaneio seria um ótimo ingrediente para minha satisfação durante o pós-operatório deste hábito diário de indigestão de resíduos. Entretanto, veloz carro “desterritorializado” atravessou cegamente o pátio do posto de gasolina que, da sacada do restaurante, meus cílios alcançavam. Com humor duvidoso vindo do motor, o veículo deitou o letreiro dos preços como faria um estuprador a vitima. Parei as anotações, virando-me para ver se o público (dois rostos apáticos emoldurados por espessa fumaça uivando longas frases) também se interessava por. Os pneus rangeram e a porta do carro foi fechada com convicção. Mas me mantive inerte até discernir quatro olhos faiscantes atrás daquela cortina tóxica. Tornei a me virar. Uma mulher musculosa subia as escadas. Passou rente a minha mesa. Seu celular tocou um antigo sucesso. Levantei-me, e, chamando sua atenção, lhe perguntei se precisava de ajuda.
– Sim, com o saco de pancada no porta-malas.
– Cá estou.
Ela sorriu como uma lata de sardinha aberta da maneira errada e, para me transformar em fiel zumbi, me introduziu as cicatrizes e aos calos de suas mãos de concreto.