::::: confraternização universal :::::
– Tudo bem, baby blue – disse o marido, usando a famigerada cueca umedecida de suor por baixo do short de futebol, de dormir e de tomar banho de rio, antes de abrir o portão de casa, às duas da manhã, para levar o lixo da cozinha e do banheiro a um passeio –, não como carne morta mesmo. Então... – e segurou a risadinha provocadora que escapava pelo canto da boca em que o gosto de pasta de dente se misturava ao das cáries da madrugada.
O cálculo era esse pois a premissa vinha da matemática da mulher. Carnívorocrata binária derivada de números imaginários, já estava cansada do velho enunciado domiciliar, de escrever no ar sempre a mesma equação, em outras grandezas mais puras, daquele sujeito adicionando ao contrário, multiplicando o complexo, o negativo, trabalhando na catequização alimentar dela. Propositalmente ela esquecera de resolver o problema, de fazer o serviço, de usar a calculadora, de digitar =, de dividir-se para sobreviver, no exato dia em que os caminhões coletores passariam para resolver sua babilônica raiz quadrada de restos.
O marido botou os pés para fora, suspirando gostoso, sentindo-se rico, como se de dentro para fora tivesse se passado um réveillon, e ele começasse vida nova noutro plano, ou no Caribe, por exemplo.

– Quer dizer que esse é o céu do Caribe? – indagou-se, olhando para o todo rabiscado quadro negro do programador acima de seu nariz.
Virou, em seguida, seus olhos para a esquerda. Os números se reorganizaram. O expediente reiniciara. A saliva desceu. Ele sabia quem poderia calcular a velocidade disso, mas preferiu manter o foco na tarefa da mulher. Viu o caminhão se arrastando lesmamente duas quadras à frente. Pôs à prova sua teoria de que por comer o que comia correria como uma pluma verde. A contraproposta do desafio (esclarecida só na manhã do dia seguinte, quando sua fama corria mais que suas pernas) foi a de que o marido não se lembrava dos pares de anos em que trabalhara fielmente na produção de fumaça através da crucificação dos pulmões. Simplificando, assumiu honestamente que não seria capaz de alcançar o veículo incensário caso não corresse muito. Porém, percebeu isso quando se esforçava até o limite de suas funções aritméticas, e seu pensamento rapidamente delineou que “pelo menos na força muscular eu sou capaz”. Esticou-se, portanto, enquanto preparava o arremesso da sacola, efetuando inclinação do tronco para o lado direito. Preparado, concedeu impulso com os pés. Lançou. Os números bagunçaram. Deveríamos chamar um especialista? Anulemos a questão. Prestem atenção que agora observaremos o lançamento de outra maneira, analisando o exercício por outro prisma. Algo menos viciado. Em sua lerdeza absoluta de pensamento herbívoro, e isso é redundante dizer, o marido também esqueceu de que por estar em recesso alimentar com sua esposa, aquele braço, o direito, o bom, o caridoso, o queridão, vinha sendo muito requisitado em covarde atividade no banheiro – da empresa, em geral. Resultado, ou subtotal, ainda que livre de marcação ou de progressões geométricas, o saco se espatifou a rigoroso um metro do caminhão.

Na região afetada pelo erro logarítmico estavam dois lixeiros vestidos com macacões laranja. Utilizando o celular, um filmava o outro, e esse, objeto de escrutínio em close-up, se negava a compartilhar a bandeja de papelão com esfihas encontradas na lixeira do coronel da Cohab.
– Me desculpem, eu... – disse o notável marido, tentando esconder as mãos nos bolsos que o short não dispunha, sem saber que diabos fazer com os números do próprio lixo.
Os olhos dos dois brilharam no escuro. Tal qual lobos que não querem dividir a caça e sentem a presença de outro predador. Mas ao notar que na escala de obediência natural o marido era uma lagartixa, o ignoraram e intensificaram a disputa pela comida desperdiçada de cada dia. Virando-se para voltar ao aconchego de seu covil, o arrimo da família foi tomado por uma chispa de sabe-se lá que classe de cidadania, de humanidade, pois bem, o distinto cavalheiro resolve juntar a própria cagada. Como, obviamente, tratamos aqui de uma tragédia universal, ele escorregou numa inofensiva alface sem cor e veio a tombar por terra. Isto é, total final, o companheiro se besunta, por completo, em restos de comida e coliformes fecais. Alternativa E, resposta correta.
– É isso mesmo... – manifesta-se a esposa – De gentileza em gentileza o mundo vai pro pau!
A rua inteira acorda para vê-lo praguejar. Atinados às vertentes estéticas e ao jornalismo do entretenimento, os lixeiros o filmaram. O mundo inteiro riria do fato na manhã seguinte em diante. E assim, mais um cidadão descobre o que acontece aos homens de caráter mediano, de sangue quente, de cu incansável e militante.
– Tudo bem, baby blue – disse o marido, usando a famigerada cueca umedecida de suor por baixo do short de futebol, de dormir e de tomar banho de rio, antes de abrir o portão de casa, às duas da manhã, para levar o lixo da cozinha e do banheiro a um passeio –, não como carne morta mesmo. Então... – e segurou a risadinha provocadora que escapava pelo canto da boca em que o gosto de pasta de dente se misturava ao das cáries da madrugada.
O cálculo era esse pois a premissa vinha da matemática da mulher. Carnívorocrata binária derivada de números imaginários, já estava cansada do velho enunciado domiciliar, de escrever no ar sempre a mesma equação, em outras grandezas mais puras, daquele sujeito adicionando ao contrário, multiplicando o complexo, o negativo, trabalhando na catequização alimentar dela. Propositalmente ela esquecera de resolver o problema, de fazer o serviço, de usar a calculadora, de digitar =, de dividir-se para sobreviver, no exato dia em que os caminhões coletores passariam para resolver sua babilônica raiz quadrada de restos.
O marido botou os pés para fora, suspirando gostoso, sentindo-se rico, como se de dentro para fora tivesse se passado um réveillon, e ele começasse vida nova noutro plano, ou no Caribe, por exemplo.
– Quer dizer que esse é o céu do Caribe? – indagou-se, olhando para o todo rabiscado quadro negro do programador acima de seu nariz.
Virou, em seguida, seus olhos para a esquerda. Os números se reorganizaram. O expediente reiniciara. A saliva desceu. Ele sabia quem poderia calcular a velocidade disso, mas preferiu manter o foco na tarefa da mulher. Viu o caminhão se arrastando lesmamente duas quadras à frente. Pôs à prova sua teoria de que por comer o que comia correria como uma pluma verde. A contraproposta do desafio (esclarecida só na manhã do dia seguinte, quando sua fama corria mais que suas pernas) foi a de que o marido não se lembrava dos pares de anos em que trabalhara fielmente na produção de fumaça através da crucificação dos pulmões. Simplificando, assumiu honestamente que não seria capaz de alcançar o veículo incensário caso não corresse muito. Porém, percebeu isso quando se esforçava até o limite de suas funções aritméticas, e seu pensamento rapidamente delineou que “pelo menos na força muscular eu sou capaz”. Esticou-se, portanto, enquanto preparava o arremesso da sacola, efetuando inclinação do tronco para o lado direito. Preparado, concedeu impulso com os pés. Lançou. Os números bagunçaram. Deveríamos chamar um especialista? Anulemos a questão. Prestem atenção que agora observaremos o lançamento de outra maneira, analisando o exercício por outro prisma. Algo menos viciado. Em sua lerdeza absoluta de pensamento herbívoro, e isso é redundante dizer, o marido também esqueceu de que por estar em recesso alimentar com sua esposa, aquele braço, o direito, o bom, o caridoso, o queridão, vinha sendo muito requisitado em covarde atividade no banheiro – da empresa, em geral. Resultado, ou subtotal, ainda que livre de marcação ou de progressões geométricas, o saco se espatifou a rigoroso um metro do caminhão.
Na região afetada pelo erro logarítmico estavam dois lixeiros vestidos com macacões laranja. Utilizando o celular, um filmava o outro, e esse, objeto de escrutínio em close-up, se negava a compartilhar a bandeja de papelão com esfihas encontradas na lixeira do coronel da Cohab.
– Me desculpem, eu... – disse o notável marido, tentando esconder as mãos nos bolsos que o short não dispunha, sem saber que diabos fazer com os números do próprio lixo.
Os olhos dos dois brilharam no escuro. Tal qual lobos que não querem dividir a caça e sentem a presença de outro predador. Mas ao notar que na escala de obediência natural o marido era uma lagartixa, o ignoraram e intensificaram a disputa pela comida desperdiçada de cada dia. Virando-se para voltar ao aconchego de seu covil, o arrimo da família foi tomado por uma chispa de sabe-se lá que classe de cidadania, de humanidade, pois bem, o distinto cavalheiro resolve juntar a própria cagada. Como, obviamente, tratamos aqui de uma tragédia universal, ele escorregou numa inofensiva alface sem cor e veio a tombar por terra. Isto é, total final, o companheiro se besunta, por completo, em restos de comida e coliformes fecais. Alternativa E, resposta correta.
– É isso mesmo... – manifesta-se a esposa – De gentileza em gentileza o mundo vai pro pau!
A rua inteira acorda para vê-lo praguejar. Atinados às vertentes estéticas e ao jornalismo do entretenimento, os lixeiros o filmaram. O mundo inteiro riria do fato na manhã seguinte em diante. E assim, mais um cidadão descobre o que acontece aos homens de caráter mediano, de sangue quente, de cu incansável e militante.
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