Mens sana in corpore sano? Qual! O corpo,
quando doente, permite mais capacidade de clareza à mente. Portanto, aprisionar
um pode aperfeiçoar o outro. Deixa ver se desenvolvo.
À tarde,
choveu. Isso automaticamente quer dizer que algum ponto da cidade ficou
alagado. Passei por um deles porque precisava comprar remédios. Na pista, um
laguinho formado por – é óbvio – falta de pagamento do IPVA, agravou meu estado
febril. Atravessando-o com os vidros fechados, vi esse garoto que sequer
erguera as barras da calça para, a pé, fazê-lo. Parei o carro. Fiz sinal. Ele embarcou
pela porta traseira, sentando-se logo atrás de mim. Ficou lá no banco, silencioso.
Avancei devagar, massageando o acelerador, tentando ganhar tempo para fitá-lo
no retrovisor. Quando saímos da malfadada região, eu mal tinha visto metade de
seu rosto. Disse-me: “Aqui está bom.” “Tem certeza?” Mas não houve resposta. O
sujeito desceu sem dar um grunhido adicional.
Segui meu
caminho adoentado até o palacete da farmacologia. Lá, não me atrevi estacionar
em vaga de idoso. Deixando o bom-mocismo de lado, conclui, a diferença entre uma
pessoa boa e uma ruim é que aquela sabe o que é compromisso enquanto essa, não.
Por isso, quando minha vez de enfrentar a saraivada de pingos chegou, aceitei. Voltei
ao volante cronicamente ensopado, mas algo contente. No caminho de volta, pensava
na severa condição de homens como Sasaki Kojiro e Stephen Hawking até reencontrar
o garoto. Vendo-o de frente, lhe dei pouco mais de meia dúzia de anos. Desta
vez, mão dada com uma garota, me mostrou os dentes. Para não molhá-los, desviei
das poças, enquanto os observava desaparecer na felicidade chuvosa do
retrovisor.
* Texto
publicado no jornal Folha do Estado, edição 5777, de 03 de maio de 2012.

2 comentários:
Como eu disse, gosto dos seus textos porque eles me inspiram. Principalmente a sair do quadrado.
( :
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