23
de junho de 1940 - Há 72 anos, o exército de Hitler vagava por uma Paris fantasmagórica, mas
conquistada.
sábado, 23 de junho de 2012
sexta-feira, 22 de junho de 2012
ex animo dicere CXXXIV
![]() |
| De despedida em despedida. |
“Terapia tapioco! Prematurada a
superpichotada ou brincamos? Como se fosse antani mesmo para si apenas em dois
ou então em quatro mesmo escrevendo com cofandina como anti-furto, por exemplo!
Então, eu posso dizer-lhe, mesmo com respeito pela autoridade, que até apenas
as duas coisas como vice-presidente da câmara, percebe? Antani segundo o art.
12, tenha paciência, senão posterdatas para dois, mesmo um bocadinho antani na
prefeitura. E isso sem falar que a superpichotada antecedente perdeu o contato
com a terapia tapioco. Antani, como tração às duas, embora fosse uma
superpichotada betumada, tem o chapelamento à direita.”
Amici Miei, não há dúvida de que estamos em 1975
ou 1982, pois o magnânimo Conde Mascetti (Ugo Tognazzi, de La Grande Bouffe escatológica) “apronta todas” com a trupe de Mario Monicelli. Allora,
Supercazzola!
quinta-feira, 21 de junho de 2012
ex animo dicere CXXXIII
O
Touro
“Do fundo do deserto interminável (cujo sol dá
febre, assim como sua lua dá pasmo), viram adiantar-se três figuras que lhes
pareceram altíssimas. As três eram humanas e a do meio tinha uma cabeça de
touro. Quando se aproximaram, viram que este usava uma máscara e que os outros
dois eram cegos.
Alguém (como nos contos das mil e
uma noites) indagou a razão dessa maravilha. Estão cegos, explicou o homem da
máscara, porque viram meu rosto.”
Alors, este é o antiquado Jorge Luis
Borges – em 1984, ano corrente – a me iludir com “O Tintureiro Mascarado – Hakim de Merv”.
iura in re aliena XXX, XXXI
Da carencia de notorio saber no emprego de acentos graficos.
&
Da venturosa pescaria registrada por Homero (acabou tear, Penélope).
quarta-feira, 20 de junho de 2012
técnica não patenteada para melhorar poemas
Pegue o poema armado,
decassílabo farpado sob rima do
mal,
e corte-os da terceira linha até
o final.
A convalescença do gênero é frouxidão:
A convalescença do gênero é frouxidão:
fio vermelho é fio azul -
porque arrebentam.
Se metade do título couber num verso,
repete-se todo o processo,
porque arrebentam.
Se metade do título couber num verso,
repete-se todo o processo,
detonando raquítico resto.
O auspício da inspiração deu luz à instrução:
quem deixa rastros é bomba -
porque fez reação.
O auspício da inspiração deu luz à instrução:
quem deixa rastros é bomba -
porque fez reação.
terça-feira, 19 de junho de 2012
comensalismo corrompido
Em um dos flambados
semestres do Curso Superior de Tecnologia em Gastronomia, o erudito professor
de Planejamento de Cardápios – sem questionar a fé – dividiu a sala entre
teístas e ateístas. Demandou a cada um dos biodegradáveis lados que produzisse
absurdo banquete para ser servido ao outro flanco. Exigiu uma refeição que
tivesse a honra de ser batizada de cornucópia, i.e., símbolo de riqueza e
abundância (ainda que com baixo custo de produção para o Restaurante Fictício
Ltda). Preparados, os pratos – sem visar o bem comum tampouco à extinção da
oposição – foram imediatamente servidos. Respeitando assim a temperatura ideal
para.
Entretanto, o
professor glutão desfez a divisão de “princípios” e todos voltaram aos seus
estados naturais de utopias finitas. De modo que, em suma, quem era ateísta fez
comida ao teísta, e vice-versa. O suficiente para – Tyrannosaurus me mordam! – cozer uma saborosa guerra teórica de sublime
desconfiança. Exigindo silêncio – sem soar beligerante ou aceitar
justificativas pueris ou senis –, o mestre os obrigou a mastigar. Comer veneno era
o melhor para poderem crescer. Vorazes como milicos reformados, não tardaram em
limpar os pratos. O milagre (ainda que acadêmico e, portanto, tóxico) ficou por
conta destes se tornarem superfícies polidas quase espelhadas.
Ao fim do
espetáculo, manejando afiados talheres de giz, o insaciável professor deu
início à prova oral. A avaliação consistia em uma única questão:
– Como estava
a comida?
Algo dizia ao
professor que ninguém seria aprovado no teste, mas nada o impedia de, em
particular, seguir inquirindo a cada um dos turvos reflexos humanos que
encontrasse pelos corredores.
* Texto
publicado no jornal Folha do Estado, edição 5787, de 13 de maio de 2012.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
mens sana in corpore sano
Mens sana in corpore sano? Qual! O corpo,
quando doente, permite mais capacidade de clareza à mente. Portanto, aprisionar
um pode aperfeiçoar o outro. Deixa ver se desenvolvo.
À tarde,
choveu. Isso automaticamente quer dizer que algum ponto da cidade ficou
alagado. Passei por um deles porque precisava comprar remédios. Na pista, um
laguinho formado por – é óbvio – falta de pagamento do IPVA, agravou meu estado
febril. Atravessando-o com os vidros fechados, vi esse garoto que sequer
erguera as barras da calça para, a pé, fazê-lo. Parei o carro. Fiz sinal. Ele embarcou
pela porta traseira, sentando-se logo atrás de mim. Ficou lá no banco, silencioso.
Avancei devagar, massageando o acelerador, tentando ganhar tempo para fitá-lo
no retrovisor. Quando saímos da malfadada região, eu mal tinha visto metade de
seu rosto. Disse-me: “Aqui está bom.” “Tem certeza?” Mas não houve resposta. O
sujeito desceu sem dar um grunhido adicional.
Segui meu
caminho adoentado até o palacete da farmacologia. Lá, não me atrevi estacionar
em vaga de idoso. Deixando o bom-mocismo de lado, conclui, a diferença entre uma
pessoa boa e uma ruim é que aquela sabe o que é compromisso enquanto essa, não.
Por isso, quando minha vez de enfrentar a saraivada de pingos chegou, aceitei. Voltei
ao volante cronicamente ensopado, mas algo contente. No caminho de volta, pensava
na severa condição de homens como Sasaki Kojiro e Stephen Hawking até reencontrar
o garoto. Vendo-o de frente, lhe dei pouco mais de meia dúzia de anos. Desta
vez, mão dada com uma garota, me mostrou os dentes. Para não molhá-los, desviei
das poças, enquanto os observava desaparecer na felicidade chuvosa do
retrovisor.
* Texto
publicado no jornal Folha do Estado, edição 5777, de 03 de maio de 2012.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
quarta à noite na tv
Boa noite, queridos
telespectadores! Que tal assistirmos a um joguinho do campeonato estadual? Sim,
vai ser terrível, mas e daí? O padrão de qualidade é nacional. É isso mesmo que
você ouviu: não é dia da mentira. Talvez por isso os times mato-grossenses estejam
irradiando motivação; a Agecopa, em inflacionada polvorosa. Os ambulantes
comemoram com promoção e paixão. “Olha o amendoim! Olha o ‘chiclete
cuiabano’!”. Afinal, somos sede da Boate Pantanal e subsede da Copa no Pantanal.
Então vamos às obras, onde os relógios são desmontados. Em seguida vamos ao
campo, onde o Chicote da Fronteira ainda nem abriu o placar. “Lamentável, lamentavelmente
humano”, filosofa o comentarista direto do túnel do vestiário. “Nas rodas de
boleiros, três quartos das perguntas feitas e das respostas dadas são para
magoar um pouco o interlocutor”, acrescenta, só pra polemizar. Minha gente,
esse jogo vai ser quente. Liberaram entrar de sola e dar carrinho por trás. Haverá
tanta falta em campo que não demora sair cartão vermelho pra todo lado. Coerência pra quê, né?
Espere aí! O
árbitro paralisou o jogo. Quem foi que colocou essa segunda bola em campo? É
claro que foi a torcida organizada. Contra ela e a catimba, temos a polícia
local: preparada para agir quando convier. Parecem despreparados, mas com os
treinamentos ostensivos que dão ênfase em agressão aos torcedores de futebol e
à norma culta, eles estão tranquilos – desde que os cassetetes não saiam da
cintura e os escudos permaneçam imaculados. Tudo bem, voltemos ao centro do circo:
a grande área. Não vamos desviar a atenção do craque que corre feito doido e
vai à linha de fundo. Cruzou... Olho no lance! Ih, bola na trave não é gol. Um
oferecimento Amaggi, Brahma, Globo, Itaú e você: tudo a ver com a ordem
alfabética do mercado.
Segue em zero
a zero o clássico aqui na capital, mas no interior o Leão da Colina já enfiou
três no Cuiabá. Infelizmente não temos imagem, exceto essa tosquice com o Sesc
Arsenal ao fundo. De qualquer jeito, não sai daí. Clássico é clássico, não é? O
sangue ferve porque a gente sabe que a qualquer momento a rede vai balançar. Temos
informações que o técnico mandou o banco inteiro pro aquecimento. Quem é que
vai ser substituído? Opa, vamos ver esse lance. Atenção ao passe açucarado,
linda tabelinha entre os jogadores, tocou, driblou, jogou na frente, preparou, olha
a bomba... Uh! Pelas barbas do profeta! Que espetáculo! Põe no replay essa
defesa do Perereca!
Agora dá um close ali na torcedora fazendo crochê.
Da arquibancada ela manda um recado à comissão técnica: “Fala pr’eles leva o
djogo de camisa manhã lá no mamãe qu’eu custuro tudinho. Depois dessa ponte,
xomano rasgou até as cueca, num tein?” Ha-ha-ha. Você aí em casa deve estar se
divertindo com a irreverência do torcedor cuiabano, certo? Esse sentimento
inigualável que só abrilhanta o campeonato toma conta de todo mundo. Mas a bola
não para por aí. Prometemos muita emoção nesta noite memorável para o esporte
bretão. Fique com a gente que logo mais, no show do intervalo, Beto Cuiabano nos
concede entrevista exclusiva. O que ele tá achando da nossa transmissão? Tem
muita gente que gosta de futebol amador e acredita que nós da televisão devemos
ajudar a fortalecer as bases? Será que Beto Cachaça também achou impressionante
a camisa do Bebeto quando de sua visita às obras? Não perca a razão, torcedor! É
daqui a pouco! Beto fará revelações polêmicas. Se você gosta de misticismo,
aqui é o seu lugar. Se você acredita que a TV está te sacaneando, então está no
lugar certo. O ritual tribal de correr atrás de um pedaço de couro é mesmo muitíssimo
indispensável à nação. Portanto, não vamos desperdiçar chances. Seu time
precisa dos três pontos.
Enquanto o
primeiro tempo não termina, nosso repórter procura uma mulher peituda para ser
entrevistada. Nada ainda, arigó? Então manda o câmera filmar o barítono deslocado que puxou o hino do seu time do coração: “Reparem como é bonita minha
camisa vermelho, branco e verde.” Em resposta, a torcida Boca Suja põe o estádio
Dutrinha abaixo com o seus criativos gritos de incentivo: “Mixto, Mixto, Mixto!”
Que bonita é a festa do torcedor!
É tamanha a
emoção que sinto súbita saudade da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Na época
em que o vício não impedia o homônimo na narração: “Crack na escola, craque na
bola”. Hoje, como celetista “adepto” ao Esporte Clube Fomento, tenho que narrar
medindo as palavras. Por sorte não tenho mais tempo para transmitir minhas elucubrações
poéticas a cerca da partida. A ROTAM está subindo a arquibancada atirando gás
de pimenta nos olhos das crianças, dos velhos e das mulheres. Eles parecem irritados
porque os sacos de mijo tingiram seus uniformes dum amarelo Van Gogh sem igual.
Não vai ter jeito, vão descer porrada em geral. Pelo visto, vai sobrar até pra
Chico Buarque com camisa vintage do
fluminense. Resta saber até quando a gente fica no ar.
* Texto
publicado no jornal Folha do Estado, edição 5770, de 25 de abril de 2012.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
crônica de uma prova agendada
Minha mãe me
levou à prova, e à porta da sala me desejou boa sorte. Ainda por meio da voz,
abençoou-me: “Relaxe, filha. A formalidade do processo seletivo nas universidades
particulares é apenas um meio justo de tapar o buraco do cu com dinheiro. Tudo
é muito simples, já que a situação da mão de obra nacional é precária.” Corei: “Mamãe!
Na frente dos vestibulandos?” Ela – louvada seja – se foi, procurando o assento
no qual me esperaria dissertar.
Escolhi a
cadeira ao pé da porta para me acomodar. Mal o fiz, uns sujeitos distribuíram a
lista de documentos necessários à realização da matrícula. “Pessoal, em dois
dias saem os resultados”, exclamaram. Uau! Quase mil redações corrigidas em
menos de quarenta e oito horas? Considerei-os deveras eficientes. Não é à toa
que estavam devidamente identificados por crachá algum, vestindo, contudo,
jeans e camiseta da FGV.
Finalmente
entregaram o caderno de prova. Mesmo contendo um único item (citando
Kierkegaard), as instruções solicitavam ao candidato que conferisse se este não
estava incompleto. Ora, fosse eu mais jovem me negaria a acreditar em tanta
coerência. Porém, como determinados números costumamos esconder, resigno-me a
imaginar que tal teatro esconde um aterrador objetivo: manter a miraculosa
ordem social disponível enquanto as malogradas profecias para 2012 se realizam.
Não for isso, algo está bem estranho; algo está preso no intestino dessas
pessoas.
Eu sequer materializara
as linhas acima quando a turma toda já se retirava da sala. Bem sucedidos, imaginei.
Pensando tão corretamente, agi. Esbocei trinta linhas. É fácil demais se cansar
de bancar a estenografa, portanto, rapidamente passei tudo a limpo. Entreguei a
lauda preenchida com a letra forçada de um raciocínio pouco desenvolvido. Em
parte porque anunciaram o resultado para dali dois dias e isso significava que
nada (ou quase tudo) seria corrigido. Por outro lado, abortava a masturbação de
palavras devido ao frenético abrir e fechar da porta que, intuo, me impelia ao
relaxo de pensar lá do lado de fora da academia. Não que a universidade não
funcione, mas acontece de ser uma instituição que trabalha para vários fins,
exceto dar ao aluno o que ele precisa: a capacidade de aprender sozinho (o
célebre non scholae, sed vitae discimus)
e de saber procurar por aquilo que é relevante.
Reencontrei
mamãe no bebedouro. Tomamos, então, o ônibus. Narrei-lhe o que tinha perdido
conforme a vista da janela cambiava. Horas depois, chegamos ao lar, longínquo
lar. No que mamãe, segurando molho de chaves, resmungou: “Que tal você me
ajudar a compreender por qual razão essa
porta não está abrindo?”
* Texto publicado
no jornal Folha do Estado, edição 5691, de 29 de janeiro de 2012.
entrevista - dia nacional dos quadrinhos
HQ nacional comemora
seu dia
Hoje é o Dia Nacional
dos Quadrinhos. Contando histórias em imagens sequenciais, os HQs se tornaram
um dos maiores símbolos da comunicação de massa contemporânea, fazendo circular
por todo o mundo uma infinidade de narrativas povoadas por heróis, vilões e
personagens acompanhadas por diferentes gerações.
Enquanto
conceito, os quadrinhos remetem à transmissão de mensagens por imagens ainda na
Pré-História, quando o homem retratava as suas caças e crenças sobrenaturais
nas paredes das cavernas. No entanto, enquanto gênero que carrega a forma atual
da junção de texto verbal e do desenho, os HQs se desenvolvem já no final do
século XIX, sob especial influência da produção dos Estados Unidos, onde levam
o nome de Comics.
A agilidade
narrativa, a grande proximidade da linguagem oral, o efeito expressivo
alcançado pelo estilo de cada autor fizeram deles publicações que atraíram
grandes públicos de diferentes idades e interesses. O tempo fez com que
extrapolassem as páginas para ganhar movimento. ‘Homem-Aranha’, ‘Super-Homem’,
‘SinCity’, ‘Batman’ e ‘X-Men’ são algumas das histórias que começaram no papel
para depois alavancar milionárias bilheterias no cinema.
Mas não há só
as narrativas que se tornaram produções hollywoodianas, os quadrinhos são
leituras populares no Japão, que não para de produzir mais mangás, em Portugal,
lugar em que são chamados de ‘bandas desenhadas’ e como não lembrar da
perspicaz Mafalda do cartunista argentino Quino?
Daqui
E têm quadrinhos
de Cuiabá. Danilo Fochesatto e Júlio Custódio finalizaram o roteiro da revista
‘Lava Lamp = um curso de entropia’. A publicação é um grande apanhado sobre folclore,
ciência e outros temas. Na definição de Danilo, “É um avalanche de ideias, um
caos; assim como trabalho pode ser completamente convertido em calor – e não o
contrário: não há regionalismo que não possa ser convertido em inconsistência
numa obra escalonada, semi-complexa e com tendências unilaterais pela
entropia”.
Roteiro pronto
e storyboard feito até a página 100, a revista precisa ainda de desenhistas
para finalizar o que foi esboçado. Os autores pretendem fazer três edições com
aproximadamente 150 páginas cada.
O grupo de
pesquisa artística Arte Negus também tem explorado o gênero, tematizando a
história mato-grossense. Augusto Figliaggi e Elaine Guarani lançaram em
dezembro do ano passado a revista ‘Paiaguá-Donos do Rio’,que conta a história
do massacre dos índios Paiaguá no século XVIII em quadros cheios de cores e
dinamismo.
* Texto de
Andreza Pereira, publicado no jornal Folha do Estado, edição 5692, de 30 de janeiro de 2012.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
num tempo que é arcaico e árduo
Se você nunca
ouviu falar do diretor húngaro Béla Tarr é porque nem Gus Van Sant ao
traduzi-lo para o “american cool way of life” conseguiu popularizá-lo. Historicamente, quando Tarr ultrapassou a
fase Cassavetes de drama familiar, ele foi parar numa espécie de “Platô Tarkovsky”
alegando que na verdade a maior influência em seu trabalho – a maestria na
direção de cena – viera de Fassbinder. O que isso significa? Na verdade é muito
simples. É um cinema cru, de montagem linear, rigoroso à exaustão. Com tempo de
repouso outro; o mesmo da vida. Para o cinema isso é arcaico, pouco válido e
muito árduo, mas tal narrativa emerge da pura contemplação do real como este se
dá. Não tem excesso. De informação, principalmente. O que te dá espaço para
pensar. Sem efeitos especiais, isento de exageros, ainda que com longas cenas, nas
quais você tem oportunidade de ser transportado onde os homens são comparados
com animais expostos. Ah, é apenas outra espécie de velocidade entediante, dizem.
Contra estes que ousam dizer que em seus filmes nada acontece, basta indagar: acha
mesmo que deter-se quarenta minutos para dar boa noite ao cavalo é um desperdício?
Deste modo, seria
complicadamente chato falar do “realismo social metafísico” em Tarr sem
assisti-lo. É bom ter algum preparo para assistir seus filmes. E, afinal, não
serei eu o responsável por facilitar as coisas impossíveis. Tendo em vista esta
singularidade, tomei o filme “As Harmonias de Werckmeister” (2000) e resolvi
abordá-lo de modo também particular, qual um passeio de imersão.
Seus créditos
não erram; são classudos: meros caracteres
brancos sobre fundo negro. Em decorrência disso, me pergunto em que tempo
estariam situados os rótulos se eles fossem feitos assim, apenas em preto e
branco. Não há tempo para responder, porém. “São dez horas. Vamos fechar. Vamos, Valuska! Mostre!” Tarr, num movimento geral de acontecimentos, como se visse
uma baleia morta ao amanhecer, como se o mundo estivesse eclipsado de cabeça
para baixo, sob a escuridão silenciosa da música que toca, digamos, à uma da
tarde, enquanto o sol se curva lá fora e expulsa os bêbados, mostra que alimento
de cor é o calor no campo do visível.
O filme (até
aqui e adiante) consiste em planos-sequências, em tempos mortos orquestrados
que, caso estivessem separados, ainda seriam mais densos e resolvidos que um
saco de lixo de diversas obras. Aliás, algo a dizer todo mundo tem, já que
entupir os tímpanos de lodo é bem fácil. Não é nesse sentido que Béla Tarr se
destaca. Ao basear seus filmes em textos do escritor e amigo László
Krasznahorkai, ele potencializa a cadência da literatura no cinema. Isso não é
novidade, claro. Entretanto, o contexto e a forma que ele utiliza para aplicar isso
aos seus filmes é que os faz deveras recomendáveis.
Voltando a pletora
mnemônica destas “Harmonias” – que são baseadas na novela “A Melancolia da
Resistência” (1989) daquele Krasznahorkai –, estamos diante da analogia de um circo
que traz algo fantástico, que entretém; algo que está morto e te olha de
dentro, bem de dentro. Uma vez no fundo, te faz acender um fósforo, pensar
outra vez e experimentar a sensação de súbita perda de fôlego ao lado de Valuska
e da baleia. Em seguida, vamos à casa do sapateiro, tio Lajos. Ao seu lado,
recebemos uma visita. Esta, na ponta da língua, traz um marido que diz que vai
embora, mas que se você for um espião atento o verá vasculhando os escombros da
própria cidade. Compreensível, acredite. Às vezes temos que fazer alguma coisa
para continuar a não fazer nada, como antes. Em particular, acho que meu tio
não me entenderia muito bem agora. Mesmo se eu lhe dissesse que estou muito
cansado, e não preciso de ajuda, como essas personagens sofridas fazem. Não vou
negar que é difícil compreender que um machado só precisa aparecer uma única vez
para mostrar sua personalidade. Tampouco sustentarei que é “melhor ouvir do que
tocar; melhor falar do que ranger.” Eu... Eu rezo em perguntas. E “por um
momento de loucura qual preço devo pagar?” Valuska, ele chora ao espiar
respostas pelas quais pagou 100 florins que cheiram mal. Tanto melhor! Sem isso
um adeus humilde cheio de dinheiro não faria tão bem quanto a brancura de um
pouco de ar fresco.
A essa altura,
como não posso “desenhar” pegadas sem o auxílio da tabela ASCII, sou incapaz de
representar a cena meditativa preferida de Béla Tarr. Imagem de passos e de rastros, da
caminhada e da pegada. Uma marcha de conquista; marcha pesarosa. Bem demorada,
pra variar. Ah, os problemas se amplificam com o vento, e as cinzas das
blasfêmias encobrem os sorrisos de carvão. Os aristocratas têm empregados; não
fazem comida. Como nós, eles vivem de caridade. Nessa cidade, as pessoas agarram-se
ao que aparece. À lama, muitas vezes. Meu tio continua sem entender; nunca
ouviu falar dessa Hungria demoníaca. Mesmo se lhe dissesse que Tarr denuncia a
pobreza e as riquezas de seu povo ao mesmo tempo; que ambos beijamos nada além
de signos humanos. Sim, Tarr é duro. As crianças dele também são duras com
você. Ora, não vamos julgar que são tão maus! Elas são lindas, autênticas e
explosivas. Para elas compusemos um hino nacional, János Valuska. Quando se
tornarem pais, dançarão com armas na mão e abraçarão suas esposas. Só não
desejo isso agora. Portanto, não vá, János. Lá, o voo de um helicóptero é mais
que uma aproximação. “Isso não é da nossa conta. Terão que trazer o exército. Não
há nada que podemos fazer.” Nessa cidade, a traição faz a fêmea.
Víg Mihály
cuida da trilha sonora – afinado qualquer instrumento não é difícil de ser
tocado, certo? Figura chave da banda Balaton, Mihály tem colaborado com temas
facilmente decoráveis, e belos, e tristes, para os arrastados filmes de Béla
Tarr. A propósito, “tenho que esclarecer isto para que não fique dúvida; que
não é um problema técnico, mas uma questão filosófica. De modo que o sistema
tonal em questão, por investigação, nos conduziu inevitavelmente a uma prova de
fé.” Coloque a culpa em animais, nas alegorias do diretor, quem sabe no próprio
escritor. Isente o príncipe. “Vai tomar no cu!” “O príncipe não saberá nada de
nada, mas ganhará dinheiro.” Devagar, isso pode assustar alguém, tio Lajos. Nunca
se está seguro num compromisso, imagina na memória. Tio, me ouve, ficou claro ou
até aqui nada? Sim! Com o passar do tempo, eu vejo. São elas, as horas. Para
elas não importa qual a causa, desde que seus ponteiros se movimentem. Onde
isso termina? Nessa astrologia, havendo matança ou incêndio, por um saco de
batatas uma mulher te ama por muitas e muitas noites. Assim seguimos, em preto
e branco.
De manhã,
sentado na cama, redescobrimos que János simplesmente assistiu a tudo. E parece
que sobreviveu. Da mesma janela que você, como testemunha. Atrasado, o ser
humano demora um tempo mais do que necessário para reconhecer a si mesmo. No
outro. Aí já é tarde! Todos voltam às camas duras e geladas. “Não reconhecem
nem ao homem nem a Deus.” Por conseguinte, “nada mais importa, de verdade.” Ao
fim, calha ainda dizer que foram os cento e quarenta e cinco minutos mais
heterossexuais do cinema.
* Texto publicado no jornal Folha do Estado, edição 5670, de 08 de janeiro de 2012.
terça-feira, 12 de junho de 2012
ao toque de três diálogos
Foi em um dia perfeitamente
seccionado em três. Bastante comum, certamente, já que estamos acostumados à divisão
celular desde a corrida espacial pela conquista da vida que culminou na chegada
ao óvulo. Alguns hão de discordar do silogismo, mas a partir de então nascemos
para praticar um reducionismo que pode ser resumido na divisão e multiplicação de
tais ciclos simbólicos em:
1) Manhã – Cheguei
ao ponto de ônibus excluído de qualquer contexto (meu tempo, minha medida).
Procurando uma sombra calma que atenuasse a autoridade desagradável do sol, me
posicionei no fim de uma fila de, hã, humanos. À frente, um exemplar de gênero indefinido
interrogava seu conselheiro.
– Que qu’eu faço quanto a isso?
– Abre um blog,
cara.
– Ah, já tenho.
– Então sei
lá. Arranja uns seguidores. Talvez assim as coisas mudem.
– Pô, eu
gostava mais quando cê dizia qu’eu tava
errado.
2) Tarde – Durante
almoço, não consegui deixar de pensar em um livro empirista de autoajuda que
ensinasse o leitor a registrar tudo que sentisse durante o dia (em tempo: recordações
metafóricas com prazo de validade expirados, a não ser que registradas). Mais
tarde (sedimentado o momento, efetivado o crivo do tempo), o indivíduo revisaria
a lista e atribuiria os valores corretos aos fatos passados. Contudo, o
adjetivo “correto”, no plural, me deu vertiginosa sensação de inexatidão, no
singular. Afinal, a ideia era pretensiosa ao ridículo. Puro pedantismo de
periferia filosófica. Faltava adubo nela. Então, mandei vir suculento bife acebolado
que me fizesse esquecê-la. Triturando-o com coragem filantrópica, fiquei cara a
cara com uma colorida e sorridente adolescente e seu executor ascendente. Não
sei se estavam entre família ou “entre família”. A mim, parecia que a conversa envolvia
todas as árvores genealógicas.
– Pai, o que é
CNPJ?
– Abaixa as
calças que eu vou te mostrar.
– Mas tá todo
mundo olhando!
– Faz parte da
etiqueta, minha filha.
3) Noite – Após
tanta subdivisão, G1, S, G2, anáfase e o escambau, eu já emitia bocejos aos poucos.
Profundos e experientes. Um, dois, quatro, oito e assim por diante. Contra esse
tipo de acordo biológico, me propuseram um escapismo cereal. Deixamos a sala de
aula para ir ao Bar do Bigode ensopar nossos cavanhaques. Ali, estourando buquês
engarrafados, um estranho sujeito conhecido tentava formar par com a mocinha cromossomicamente
mais bem feitinha da paróquia alcoólica. Ele estava armado, e disparava feito o
Robin Hood dos poetas: tirando lirismo dos ricos e doando ao seu pobre amor.
– Posso te passar
uma cantada ou você prefere um acordo?
– Desculpe,
mas prefiro um acordo.
– Você não me
olha que eu não te vejo.
– Ok! E a
cantada?
– Você não me
olha que eu não te vejo.
– Impressão
minha ou dá no mesmo?
– É que, ao
seu respeito, tenho ideias repetidas na cabeça.
– Hã?
– No começo
pode parecer estranho, mas depois você aceita, e engravida.
– Não tô te
entendendo!
– Mulher,
enquanto você não pururucar eu não vou parar de te atiçar.
[...]
Considerando,
uma após outra, as sentenças morais do dia, o apego descabido às memórias, os
ciclos sucessivos dentro de outras estruturas contendo outros ciclos alegóricos
e examinando decentemente tais coisas, senti um nauseabundo efeito dominó, uma
mescla de premissas sem conclusões ou com três torções estomacais ou três
diferentes acepções: 1) a pobreza de ontem era maior; 2) a fortuna de hoje é
menor e 3) só teremos amanhã quando amanhecermos para o desconhecido. Ademais,
nada de grave e incoerente; soa puro, o contentamento sem coerção. Especialmente
pelo fato de o estômago se fortificar por meio do vozerio estrangeiro, vizinho.
Quero dizer, levando em consideração todo esse microscópico barulho, nós somos
meros, hã, seres, e, dentre estes, quem pede pra fazer silêncio faz mais
barulho do que quem não pensa.
RE: FWD: I a VII
Disclaimer:
"RE: FWD:" is sort of a remix project. In fact, it's more like a message being duplicated, overlaid and resent. Living all alone in his own little cloud. Watching our education passing through other peoples production. With no script at all, just syntax like hell.
Trato, portanto, de mensagens duplicadas, justapostas e reenviadas.
"A Indústria Cultural acaba por colocar a imitação como algo de absoluto: belo é tudo que a câmara reproduza. [...] O que é salutar é o que se repete, como os processos cíclicos da natureza: cada filme é um trailer do filme seguinte. [...] E a repetição universal dos termos designando as decisões tomadas torna-as por assim dizer familiares, do mesmo modo que, na époda do mercado livre, a divulgação do nome de uma mercadoria fazia aumentar sua venda. Os espectadores devem se alegrar com o fato de que há tantas coisas a ver e a ouvir."
Theodor Adorno & Max Horkheimer em Dialética do Esclarecimento - Indústria Cultura. O Esclarecimento como Mistificação das Massas, 1947.



segunda-feira, 11 de junho de 2012
vox dei erga omnes XIV
E depois que o
dilúvio recuou, Noé sacrificou a Deus alguns dos mesmos animais que salvou na
arca. E o aroma da carne foi agradável ao Senhor. (Gênesis 8:1-22).
E talvez em
homenagem ao “fato”, também à retomada do blog, fiz um churrasco lá em casa. E
ele foi aos moldes pacíficos da Tribo de Levi, é claro. (Levítico 9:1-24)
domingo, 14 de agosto de 2011
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