quinta-feira, 10 de setembro de 2009

ex animo dicere XXXXIV

Tudo começou quando joguei fora as latinhas e roubaram meus bonés. Precisava de uma nova coleção para ditar minha vida. Então comecei essa, a melhor e mais experiente. Tento explicar que é uma ótima idéia salvar essas e outras imagens, mas a maioria dos indivíduos acham que estou pirando no ócio. Atualmente meu banco de dados possuí 31.810 arquivos de imagens catalogadas (em ordem alfabética) por artistas. O que me garante 3,70 GB a menos no winchester. A intenção é ir um pouco além dos cinqüenta mil arquivos (aceita-se mão-de-obra e colaboradores para tal) e talvez vender um DVD com tantas imagens úteis. Isto é, enfiar o dedo no olho eterno da pirataria. Isto é http://www.dafont.com/.

Começarei pelas comemorações do Pai, pois rever as fotos dele é como olhar um álbum de família.








Bem, tem mais de mil arquivos só do Uol. É útil para cair o queixo com o Olho Mágico e fazer a sua própria retrospectiva no final do ano.


Tem backgrounds pra criançada doente. É lindo desfrutar dos benefícios da cromoterapia.


(Se bem que as mais funcionais são as que te levam pro lado negro. Por sua vez, não ouso confessá-las na hora do jantar).


Tem também diversos artistas sem nome e/ou desconhecidos. É bom pra pensar: O que é uma arte medíocre e por que a aceitamos?


Enfim, não vou alongar demais tais reticências. Haverão outras oportunidades para detalhar as sessões desta coleção. Mas a respeito das imagens extras – as de tag sexo –, bem, estas não cabem aqui right now. Posso quebrar o galho e mostrar o que andam expondo no meu museu MSN.





Alors, passez la syndrome!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XVII

::::: flow: for love of water :::::

Na hora em que o encontrei, Gaúcho estava com os olhos excessivamente brancos. Me puxou com força pelos cabelos, e rugiu.
– Sim senhor, hoje você vem comigo pra noite.
– Cê tá louco, porra?!
Aliviou-me quando me soltou. Depois esfregou as mãos na própria cabeça e, com olhos injetados, tornou a rugir.
– Hoje eu vou pra sarjeta do mundo!
– Me deixa, então! Tô fora.
– Mas antes tu vai me ajudar numa limpeza. Dormi com a torneira da pia do banheiro ligada. Cara, tem um lago dentro da minha casa!
Sem dúvida que ajudaria Gaúcho. Afinal, sabe-se lá quando o mesmo não poderia acontecer comigo. Talvez deixasse a libertina janela arreganhada ou o sofrido rio em fúria transbordasse... Não sei, aliás, poderia me ocorrer qualquer outro desígnio do divino – divino azar.
– Você ainda tem AQUELA caixa de pescaria? – perguntei, querendo apenas aturdi-lo com a falta de senso embutido em qualquer problema.
– Tenho. Turista deixou com Caco. Daí eu a roubei pra mim.
– Então acho que antes de mais nada vamos ter de pescar no Mar Cuiabá...
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* imagem: seqüestrada da rede de um navio pesqueiro.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XVI

::::: airplane! :::::

Enquanto isso, no aeroporto da capital federal...
– Atenção aos passageiros com destino à Sinopse. Favor dirigir-se ao portão 4. Repetindo.
“Para quê?”, pensei, “Para apresentarmos nossos livros de gramática e embarcamos numa aventura anarco-literária no interior de Mato Grosso?”
Mas antes de procurarmos os livros de geografia capazes de nos elucidar e/ou criar o caos, um garoto tomou a frente e, já que não tinha mais de dez anos, perguntou ao seu almighty que lia um best-seller:
– Pai! Ei, pai! Onde fica Sinopse?

ex animo dicere XXXXIII



Que Amauri Lobo me perdoe, mas surrupiei isto do varal no evento Re-Mecânica da Palavra.
Alors, passez la poésie!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

ex animo dicere XXXXII


"Existe a vida como ela é e a vida como deveria ser. Infelizmente, temos de viver a vida como ela é", disse o conde, amigo do papa, ao seu engajado filho que, por querer – dentre outras coisas – salvar os judeus, viria a morrer num campo de concentração.
Costa-Gavras é sempre poderoso. Stefan Lux disse Amém antes de se matar?
Alors, passez la mort!



* imagem: pôster divulgação.

ex animo dicere XXXX, XXXXI

O Quarto das Letras foi um trabalho selecionado para o Salão Jovem Arte de 2008 (se não me engano). Para tal, Lorenzo Falcão convocou Protásios Morais, I.Bê Gomes e este pedaço de carne que vos fala. Fizemos, então, um ensaio fotográfico enquanto Lorenzo aquecia os músculos de sua poesia acrobática. Deu certo. O ensaio tornou-se HQ. O poeta, personagem principal. O alter-ego zombador, eu. Protásios nos fotografou e I.Bê tratou as imagens digitalmente. Depois disso, no dia da abertura do Salão, o caminho foi refeito em forma de perfomance. Desta vez, I.Bê Gomes cuidou das fotografias e do tratamento. O poeta Rodrigo Capella e o secretário de cultura João Carlos foram convidados para este segundo ato. O produto final está aqui, talvez para relembrarmos a fortuna que isso nos rendeu. Por fim, não há desculpa que dê conta dessa diagramação fajuta queu fiz.


::::: Ensaio :::::






::::: Em ação :::::







Alors, passez les bandes dessinées!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

a patetice, isto é, a amizade IX

::::: gay thing :::::

Na noite anterior meu carro colapsara. E o eclipse dera-se nalgum lugar do radiador. A máquina ferveu como um semi-virgem lascivamente acariciado na parte interior das coxas. Por isso, na manhã seguinte, eu me encontrava naquele ônibus apinhado de proletários rumo à jornada de doze horas diárias de injustiças no purgatório, intercaladas pelas oito longe de eternas horas de paz. (As quatro horas restantes estão perdidas no limbo da lassitude: o sono). Posto isso, a minha índole de cidadão trivial é notada tão claramente como a densa mucosa – o esfregaço salivar – encaminhado ao microscópio. Portanto, imagina-se que escondo alguma perversão. Errado. Uma não, dúzias. Nesse contexto, eu afundava o nariz no cabelo da perfumada jovem sentada à minha frente. Como de praxe a um hábito, ignoro se ela notava-me ali, fungando sua salgada nuca alva. O inegável é que preciso escolher melhor as mulheres que vão me atrair. Essa aí mostrou seu valor logo em seguida. Mas não vou cometer o escatológico deslize de me adiantar. Antes de mais nada, um motoboy (seria redundante adjetivá-lo e à sua classe como retardados) atropelou o ônibus. O primeiro grito abafou o barulho da batida, então concluo que a vítima deveria, no mínimo, ter um membro amputado. Quase todo mundo desceu para desfrutar do espetáculo da gratuita tragédia alheia. Ficamos eu, um passageiro, o cobrador e o motorista. Sem a presença da minha menina, aquela desgraça não tinha a menor graça.
– Toca aí, ô motorista! – gritei do fundo.
Ele virou o pescoço para trás e me mostrou seus olhos esbugalhados. O cobrador, entretido com o acidente, recebeu minha mensagem com atraso: apenas imitou o movimento de cabeça, mas sem demonstrar espanto. Já o outro passageiro, esse não se movia desde que as outras pessoas desceram.
Levantei os ombros como se dissesse “E aí, pode ser?! Tenho esse direito. Paguei a passagem.” Talvez pensando não em me atender, mas apenas em seu próprio benefício, o motorista afundou o pé no acelerador. Ainda na primeira marcha, a lenta, ganhando velocidade, vi e ouvi placidamente minha péssima escolha sem valor que não o olfativo e estimulante cerebral esgoelar-se para o corpo estendido no chão aguardando atendimento.
– Agora me diz, seu babaca! Aonde – grifo do autor: aqui o advérbio foi empregado incorretamente – está Ele? Em qual pocilga Deus está escondido agora enquanto o diabo tripudia por essas ruas?
Não sei se os demais ouviram, mas eu caí na gargalhada sem pudor. Batendo o pé no chão e na barriga, tamanha a empolgação. Antevi, diga-se de passagem, o acidentado concedendo entrevista ao noticiário. Sem dúvida, ele fazia parte dos maníacos com mania de dizer “nasci de novo” após um acidente qualquer. Quando me recompus, o sujeito-estátua levantou-se e veio se sentar ao meu lado. Era japonês.
– Eu deveria ter suspeitando no instante em que entrei no quarto – disse-me calmamente, apesar dos solavancos do coletivo – Senti que estava quieto demais. Por aquele ambiente ter sido montado como um reflexo de minha personalidade, esse simples fato já significava muito. Entretanto, para decifrá-lo, minha intuição falava que eu teria de ir adiante. Então começou assim que enfiei o cabo do ventilador na tomada. Te juro, ouvi a energia elétrica correndo através dos fios. O zumbido crescia rapidamente. Encostei a orelha na parede e escutei a corrente rasgando o tijolo da parede à 299.792.458 m/s. Numa manifestação do instinto, puxei o fio. Desliguei o aparelho para confirmar se o som era produto de minha imaginação. Bem, você pode até duvidar, mas não era.
– Não duvido de nada que venha de você.
Em resposta, ele sorriu de volta e prosseguiu.
– Mais tarde apareceu uma curiosa mosca que ficou parada no ar, diante de meus olhos, como uma libélula na ponta duma antena ou um beija-flor diante da fonte de mel. Eu virava a cabeça para a esquerda e ela me acompanhava. A mesma coisa para a direita. Depois de me convencer que a mosca estava realmente me encarando, que ela de fato tinha consciência do que fazia... Boom! O rádio ligou por vontade própria. Ouvi vozes distorcidas saindo dele. Diziam obscenidades intraduzíveis. Jamais escutei tamanhas blasfêmias.
– Era o espírito do rádio tentando estabelecer rapport do além-mundo?
Em resposta, ele apenas sorriu, outra vez, dando-me a impressão de que a estória era tão ou mais verdadeira que a sua misteriosa e andrógina beleza. Confesso que me senti atraído por aquele rapaz, e inclinado a acariciar seu rosto liso e quadrado com minhas mãos. Sugeri que almoçássemos juntos. Ainda que amigavelmente, ele concordou, porém, sem demonstrar entusiasmo. O inesperado foi que, durante a refeição, roçamos as pernas debaixo da mesa. Não fiquei embaraçado por isso. Quanto a ele, encobriu o rubor da face com as mãos no típico gesto oriental de recato. Quis beijá-lo naquele minuto! Ir além do básico. Por não ser arrojado o suficiente, o máximo de ação que consegui foi propor um jantar na mesma noite.
O mecânico fez o favor de me trazer o carro por volta do fim do expediente. Graças a esse trabalhador, conclui que um dia sem dirigir muda algo em quem é tão apegado ao seu veículo. Você sente saudade do assento, dos velocímetros, de ser dono daquele design, e, acima de tudo, do motor. E sente que ele também sentiu sua falta. Ouve-se isso em seu ronco, que passa, em instantes, pelo tom melancólico do abandono ao tom da furiosa paixão. É possível que a ansiedade para o encontro pode ter colaborado na exaltação dessas emoções que demonstro, mas o que fazer se, com absoluta certeza, o carro queria mais de mim? Se ele, o pulsante motor, pedia diretamente a mim assim como eu pedia e insistia aos meus amigos: mais, quero mais! Ou não? Ele não sentia minha falta coisa alguma e esse era seu barulho natural, o mesmo de quando foi parar na oficina para que o consertassem? Ah, não pode ser. Me recuso a estar me confundindo. O carro me queria por definitivo. Dava sinais disso. Estava feliz por estar parando nos sinais vermelhos, pois era quando interagia com o ecossistema de seu interior. Com ele sentia que fazia parte do fluxo. Até buzinar era sadio. Produzia-me ondas de calafrios. Os quais me ajudavam a enxergar, a perceber, em suma, a entender que as luzes de néon no horizonte fictício da cidade eram colossais móbiles estáticos que ardiam antes de morrerem em sua simplicidade – e sua energia talvez não mais existisse, guardando assim alguma semelhança às estrelas que pintamos no interior de nossas pálpebras. O veículo conectava-me ao mundo frenético da velocidade. Diante do volante, revivia os mais diversos momentos de mínimo êxtase. Dirigindo por aquelas avenidas, recordava-me de todos os jokers que já vi sendo descartados em jogatinas sob cortinas de fumaça; recordava-me daquela partida de Pac-man que joguei com doze anos e fora interrompida por uma queda de energia. “Porra!”, eu falava ao volante, “Que diferença tem isso da merda dum video game?” Isto é, a loucura pela loucura não compensa. Isso é infrutífero. Três sins à loucura que te empurra ladeira abaixo. Sim, sim, sim! Não as forças contrárias, camaradas. Temos que saber olhar, filtrar e dizer: “Olha, vou te contar ESTA loucura aqui...” Então eu me dei para o carro. Entregue, falei para ele me levar. E ele o fez como um dragão meteórico, arrogante, que você é capaz de amar mais do que a si mesmo; fez com que eu desejasse que aquele extenso percurso nunca acabasse, como durante o filme que você ama, como durante a música que você ama, como quando acompanhado do cara que você inexplicavelmente se apaixonou no primeiro e casual encontro e acredita ser incapaz de viver sem.
Pouco tempo depois, no ponto onde combinamos o rendez-vous, eu estacionava o carro bem diante dele.
– Eu vim de longe.
– Eu volto com você – respondeu-me Shigeru.
Acomodando-se no carro, ele me entregou uma caixa embrulhada em papel adornado com sakuras em flores e de textura gostosa. Era um presente. Ganhei uma matryoshka, a tradicional boneca russa. Agradeci-o com um abraço quente. Confessou-me, então, que estava ansioso, e não sabia dizer o motivo. Por conta disso, estava sem fome. Como eu queria ser gentil e conquistá-lo permiti que sugerisse um lugar para irmos.
– Preferiria que fôssemos dançar.
Embiquei o carro para a boate gay Zabriskie Joint. Lá, as situações não foram das mais aprazíveis. Shigeru engolia muito depressa seus destilados. Sem qualquer aviso, ele me deixou e foi cochichar no ouvido de um cara. Fiquei os acompanhando de longe. Vi quando entraram no banheiro de mãos dadas. Terminava minha cerveja quando ele voltou relatando suas aventuras ordinárias.
– Fiz sexo oral com aquele desconhecido.
– Não duvido de nada que venha de você – disse-lhe, pela segunda vez naquele dia.
Ele sorriu quase como na ocasião de nosso encontro no ônibus. A diferença estava no ar de menosprezo que brotavam em seus finos lábios, pincelados pela natureza. Nem por isso fiquei desestimulado. Fui tomado por louca vontade de tê-los nos braços, deitá-lo na cama, beijá-lo por inteiro, com amor, e penetrá-lo, com muita dedicação.
Consegui convencê-lo a sairmos daquela reprodução contemporânea de uma fase do Pac-man. No caminho para o motel, Shigeru apertava meus mamilos, apalpava meu pênis e viscosamente me chupava o pescoço. Arrepios assumiram o lugar dos calafrios. De modo que era difícil controlar a direção. Embora, e felizmente, o fluxo do trânsito diminuísse durante a madrugada, não estávamos isentos das manifestações de imprevistos dos demais seres néscios ou de um mistério. Virando os olhos, vi as supracitadas estrelas pintadas no fundo negro de mim. Contudo, na volta ao mundo da dor, nada mais harmônico que a iminência de um pequeno desastre.
– Se segura que a gente vai bater!
Puxei o freio de mão e afundei o pé no freio, girando o volante a ponto de travá-lo. Tentava evitar atropelar algo que caíra na pista, sabe-se lá de onde, e por pouco não acerto um poste. O grito agudo de Shigeru revelou sua inequívoca passividade. “Um possante nas mãos e uma bicha ao lado”, pensei, subitamente heterossexual e piadista. Não é porque eu sabia me depilar ou falar o peculiar dialeto ou porque eu tinha esse ou aquele trejeito ou desejo, uma cueca bonita e, talvez, um consolo à pilha, que me “transformaria” num completo gay. Era preciso mais do que simples máscaras. Era preciso ser como Shigeru, que não estancou a agudez até eu grosseiramente mandá-lo calar a boca. Era preciso saber escolher melhor não só as minhas mulheres, mas também os meus homens. Feito isso, desci para investigar o tal objeto bloqueador. Aproximando-me identifiquei aquilo como um monte de cobertores aos trapos, pertences de mendigo. Empurrei com o pé para ver se não havia nada no meio. Tudo certo. Voltei para o carro. Só que lá as coisas não estavam bem. Desviando o olhar, Shigeru fixava-se num ponto distante de mim. Por conta disso, ele teve o prazer de ser o primeiro a ver aquilo...
Eu já me preparava para socá-lo porque, outra vez, irrompera aos berros. Mas, por alguma espécie de altruísmo, lhe dei algum crédito e aceitei seguir – com estes olhos que a terra há de conservar – a direção que indicava. Cruzando a rua qual personagem germinado do Necronomicon Lovecraftiano, engatinhava, deixando para trás sua caverna de cobertores, um estranho bebê com cabeça de cavalo em corpo de gente que arrastava sua boneca de pele negra e sem cabeça. A porta do passageiro abriu. Em seguida, com um baque seco, fechou-se com violência afeminada. Aterrorizado, Shigeru fugiu, tomando estreito beco adjacente, gorjeando como um pássaro da família Corvidae e arrancando as penas (isto é, as roupas) para voar rumo a felicidade reduzida d’alguma gaiola acolchoada.
– Até... – e começou o gargantear do Canto Glauberiano – Até que o sertão vire mar e o mar vire sertão, Foche!
Decidido a deixar aqueles sórdidos acontecimentos de um capítulo não concluído para trás, tomei o caminho de casa. Engatei marcha ré e costurei os demais carros na contramão. Foi então que me senti sujo, implorando por um banho como o criminoso confesso pela absolvição. Pensava no ato que por pouco não cometera. Apesar de o sexo ter feito de mim um viciado, sinceramente, me faltava apetite sexual para cambiar minhas predileções carnais. As tive assim, positivo e negativo, papai e mamãe, por nove deleitosos anos. Na hora que quisesse. Bastava estalar os dedos. Agora estou inativo, a ocupação foi interrompida, os alunos foram expulsos, e eu me tornei um expatriado das vaginas. Desde então, venho sentindo a terrível abstinência. Só tenho pulmões para dizer: Au nom de Dieu: sauvez la pornographie!
A casa estava tão limpa que pensei não ser a minha. Portanto, deixei a roupa do lado de fora. Tomei banho de mangueira. Nu, na madrugada. Me limpando. Para poder entrar no próprio ninho e conversar com as formigas – quando muito com as aranhas e as teias amorosas. Para poder deitar onde os travesseiros foram untados em palavras bonitas e os odores reconfortantes das propagandas mirabolantes se fixaram e criaram raízes na memória de minha alma.
Às vezes, é bom ter uma casa sadia, Tyler.
Estou molhado quando me deito e batem à porta. É impressão minha? Começou a chover? Enquanto pensava se girava a maçaneta para verificar as pancadas, para checar o tempo, acabei por ter outra idéia. Em retrospectiva, o pensamento atravessou a estória do rádio de Shigeru e chegou ao acidente entre a moto e ambulância. Bateu uma curiosidade quanto ao destino do motoboy e, em ínfima escala, quanto a meu intangível flerte. Liguei a televisão procurando algum noticiário. Sapeando, encontrei uma transmissão ao vivo. O câmera dava um close no rosto do sujeito nu – com a corda enrolada no pescoço e a outra extremidade atada ao parapeito da ponte – que, visivelmente atormentado, ameaçava se matar. Era Shigeru, o japonês.

ex animo dicere XXXVIII, XXXIX

Se tem algo mais impactante do que a presença da monumental lata vermelha da Coca-Cola, são esses dois filmes de Todd Solondz. Imagine um pedófilo "ex-criminoso" e psicologicamente (como a maioria dos personagens) confuso discutindo sua relação com a "ainda-não-mulher" de 13 anos que tanto o ama; que pede, constantemente, para que ele a engravide; e que o está ajudando a caçar e matar o médico que lhe fez um aborto no passado. Bom, isso está lá, em Palíndromos, onde Todd faz com que a figura paterna seja apenas um patético título. Por outro lado, em Felicidade as coisas são ligeiramente diferentes. Solondz "valoriza" o esteio da família americana por se tratar dele e do sexo masculino o "ponto forte" da trama de perversão sexual e homossexualidade infantil.



No caso de Palíndromos isto vai cair no colo da(s) mãe(s), pois, ao contrário da primeira, trata-se de um, digamos e sejamos levianos, filme de problema feminino. (Sem mencionar o final de ambos, que corroboram para minha leitura). Posto assim, só me resta concluir que de alguma forma o diretor conseguiu enfiar todo seu ardente bisturi nas chagas da sociedade e seus prezados valores corrompidos e escondidos - cito, em especial, os de ordem sexual e religiosa. Ao meu ver, Storytelling, outro filme dele, não alcança a primazia desses dois. E o trabalho de Daniel Clowes parece brincadeira de criança perto de tudo isso.





Cituado aqui, este extrato de Palíndromos pode parecer fora de contexto, mas quando inserido no desenrolar do filme, é um toltchoque no gúliver, drugues.



Logo abaixo segue recorte de estupendo diálogo do mesmo filme.

"- As pessoas sempre terminam do jeito que começaram. Ninguém nunca muda. Acham que mudam, mas não mudam. Se for do tipo deprimida agora, vai ser sempre assim. Se for alegre e descerebrada, vai ser assim quando crescer. Pode perder peso, perder as espinhas, ficar bronzeada, aumentar os seios, mudar de sexo, não faz diferença. Essencialmente está firme de frente, mas de costas... Mesmo se tiver 13 ou 50 anos, sempre será a mesma.
- Você ainda é o mesmo?
- Sim.
- Está contente por ser o mesmo?
- Não importa se estou contente, não há livre arbítrio. Não tenho escolha a não ser escolher o que escolho. Fazer o que faço. Viver como vivo. No fim somos apenas robôs programados arbitrariamente pelo código genético da natureza.
- Mas não há nenhuma esperança?
- Pra quê? Sentimos esperança e desespero por causa do jeito que fomos programados. Genes e aleatoreidade. Só há isso e nada disso importa."

Post-Scriptum: Aproveitando a temática palindrômica, destaco que no very end da página 21 para o début da página 22 de meu livro (8ito) escrevi que: "De fato, ninguém muda. Apenas evolui ou involui no contexto ao qual se está subjugado". O que vem a ser, de certa forma, um inconsistente resumo menos emocionante do que o proferido pelo personagem de Todd.
Alors, passez les images!



* imagens: pôsteres divulgação.

ex animo dicere XXXVII



Penso que ao contrário de laureados filmes onde, por exemplo, só os trailers valem a pena, filmes mais tocantes como Welcome to Dongmakgol deveriam ser feitos.
Passez l'amour, s'il vous plaît.



* imagem: pôster divulgação.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XV

::::: super size me :::::

Circula entre os antigos mestres a lenda do Bombom do Fofão. A estória original reapareceu quando da ocasião de seu remake. Comecemos como Gaspar Noé. Dessa vez, o protagonista de ambas, um “pobre coitado” que já sofreu na mão (literalmente) de uma maníaca sexual praiana, fora parado em blitz de rotina. Ao se aproximar da janela do motorista, o policial notou considerável rastro de vômito na porta. Olhou para o indivíduo e o encontrou, devido seu estado de alteração, com a cabeça tombada para trás.
– Senhor, acorde, senhor – disse-lhe o oficial.
Voltando a si, de muito longe, ele dirigiu-se, com inegável bafo de uísque, a autoridade do Estado, ali representada por um espantalho de farda.
– Ôpa, homi. Viu esse estrago? Sabe o que é?
– Senhor, por favor, desça do carro.
– Comi um Bombom do Fofão que não caiu legal.
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Há aproximadamente sete anos a estória original nascia num ridículo aniversário de quinze anos. Lá estava nosso destemido protagonista abraçado ao vaso sanitário do buffet quando fora surpreendido pela Dona da Festa, a cat killa, que (já informada sobre o inconveniente sujeito deitado no banheiro) tentava ajudá-lo a se levantar enquanto ele dava início àquela lendária frase.
– Sabe o que é? Comi um...
















* imagens: seqüestradas da rede.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XIII, XIV

::::: ten minutes older - the cello :::::

Formiga pedia que fizessem silêncio imediatamente. Trancou as portas da casa e ficava espiando a rua por uma fresta na janela. O lamentável é que ele não enxergava Jota preso do outro lado do muro, no terreno em volta da casa, mas fechado para a rua. Por conta disso, negava-se a destravar qualquer fechadura.
– Tem algum bandido lá fora! – ele desesperava-se, para logo em seguida contrariar-se – Vocês estão loucos! Não tem ninguém lá fora! Ei, estão ouvindo essa música clássica? Estão?
Notorius B.I.G. também estava desaparecido. E levara a moto consigo. Diante desse rompimento de estruturas, Gus, Beto Pilha e eu demos de ombro. Deitamos no tapete da sala. Ficamos contando as rotações que, com a perfeição dos objetos inanimados, o ventilador de teto efetuava.
[...]
Devo ter adormecido. Para acordar com a agitação dos outros. Quando descartaram uma guimba acesa que grudou numa das hélices, perturbando nosso equilíbrio tal qual a labirintite. A madeira começou a queimar como se fosse o próprio chão onde podíamos pisar.


Não tenho certeza se realmente estava lá quando às sete da manhã o sobrinho de Formiga lhe desmontou com uma pergunta.
– Tio, por que é que ontem à noite o senhor tava com a boca torta e a língua de fora e se mordendo?
O restante da estória é descartável como um solo de trompete morto. O interessante aqui é que o fato jamais será esquecido. Contaremos aos nossos filhos e os educaremos para não serem impertinentes, não com tipos como o velho Formiga.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XI, XII

::::: the bucket list & easy rider :::::

Me virei para Fernoo e declarei.
– Meu nariz caiu.
– E meu pulmão apodreceu – ela respondeu sem pestanejar – E daí?
– Então estamos em ótima forma.
– Goodbye sweet Alabama. Goodbye dear Vallegrand. Goodbye… – cantarolou imitando a voz de sua sósia, Patti Smith.
Eis que Dota e sua filha aterrissam de moto. Ele tirou o celular do bolso, entregou para a filha, que o apontou para mim. Discou meu número.
– O que que é pra perguntar mesmo, pai?
– Pergunta pra ele se vai ter gravação.
– Ah, é. Isso mesmo.
Eu já tinha escutado, mas ela repetiu a frase. Respondi que não, não naquele mês. A garotinha virou-se para ele. Então os dois começaram a rir. E sem se conterem, montaram na moto. Na iminência de abandonar Fernoo e eu às nossas inquietações terminais, os pneus da moto, formando o símbolo do infinito, falaram, e seu eco soou como:
“Our name is eight o’clock.”