
Se você nunca
ouviu falar do diretor húngaro Béla Tarr é porque nem Gus Van Sant ao
traduzi-lo para o “
american cool way of life” conseguiu popularizá-lo. Historicamente, quando Tarr ultrapassou a
fase Cassavetes de drama familiar, ele foi parar numa espécie de “Platô Tarkovsky”
alegando que na verdade a maior influência em seu trabalho – a maestria na
direção de cena – viera de Fassbinder. O que isso significa? Na verdade é muito
simples. É um cinema cru, de montagem linear, rigoroso à exaustão. Com tempo de
repouso outro; o mesmo da vida. Para o cinema isso é arcaico, pouco válido e
muito árduo, mas tal narrativa emerge da pura contemplação do real como este se
dá. Não tem excesso. De informação, principalmente. O que te dá espaço para
pensar. Sem efeitos especiais, isento de exageros, ainda que com longas cenas, nas
quais você tem oportunidade de ser transportado onde os homens são comparados
com animais expostos. Ah, é apenas outra espécie de velocidade entediante, dizem.
Contra estes que ousam dizer que em seus filmes nada acontece, basta indagar: acha
mesmo que deter-se quarenta minutos para dar boa noite ao cavalo é um desperdício?
Deste modo, seria
complicadamente chato falar do “realismo social metafísico” em Tarr sem
assisti-lo. É bom ter algum preparo para assistir seus filmes. E, afinal, não
serei eu o responsável por facilitar as coisas impossíveis. Tendo em vista esta
singularidade, tomei o filme “
As Harmonias de Werckmeister” (2000) e resolvi
abordá-lo de modo também particular, qual um passeio de imersão.
Seus créditos
não erram; são
classudos: meros caracteres
brancos sobre fundo negro. Em decorrência disso, me pergunto em que tempo
estariam situados os rótulos se eles fossem feitos assim, apenas em preto e
branco. Não há tempo para responder, porém. “
São dez horas. Vamos fechar. Vamos, Valuska! Mostre!” Tarr, num movimento geral de acontecimentos, como se visse
uma baleia morta ao amanhecer, como se o mundo estivesse eclipsado de cabeça
para baixo, sob a escuridão silenciosa da música que toca, digamos, à uma da
tarde, enquanto o sol se curva lá fora e expulsa os bêbados, mostra que alimento
de cor é o calor no campo do visível.
O filme (até
aqui e adiante) consiste em planos-sequências, em tempos mortos orquestrados
que, caso estivessem separados, ainda seriam mais densos e resolvidos que um
saco de lixo de diversas obras. Aliás, algo a dizer todo mundo tem, já que
entupir os tímpanos de lodo é bem fácil. Não é nesse sentido que Béla Tarr se
destaca. Ao basear seus filmes em textos do escritor e amigo László
Krasznahorkai, ele potencializa a cadência da literatura no cinema. Isso não é
novidade, claro. Entretanto, o contexto e a forma que ele utiliza para aplicar isso
aos seus filmes é que os faz deveras recomendáveis.
Voltando a pletora
mnemônica destas “Harmonias” – que são baseadas na novela “A Melancolia da
Resistência” (1989) daquele Krasznahorkai –, estamos diante da analogia de um circo
que traz algo fantástico, que entretém; algo que está morto e te olha de
dentro, bem de dentro. Uma vez no fundo, te faz acender um fósforo, pensar
outra vez e experimentar a sensação de súbita perda de fôlego ao lado de Valuska
e da baleia. Em seguida, vamos à casa do sapateiro, tio Lajos. Ao seu lado,
recebemos uma visita. Esta, na ponta da língua, traz um marido que diz que vai
embora, mas que se você for um espião atento o verá vasculhando os escombros da
própria cidade. Compreensível, acredite. Às vezes temos que fazer alguma coisa
para continuar a não fazer nada, como antes. Em particular, acho que meu tio
não me entenderia muito bem agora. Mesmo se eu lhe dissesse que estou muito
cansado, e não preciso de ajuda, como essas personagens sofridas fazem. Não vou
negar que é difícil compreender que um machado só precisa aparecer uma única vez
para mostrar sua personalidade. Tampouco sustentarei que é “melhor ouvir do que
tocar; melhor falar do que ranger.” Eu... Eu rezo em perguntas. E “por um
momento de loucura qual preço devo pagar?” Valuska, ele chora ao espiar
respostas pelas quais pagou 100 florins que cheiram mal. Tanto melhor! Sem isso
um adeus humilde cheio de dinheiro não faria tão bem quanto a brancura de um
pouco de ar fresco.
A essa altura,
como não posso “desenhar” pegadas sem o auxílio da tabela
ASCII, sou incapaz de
representar a cena meditativa preferida de Béla Tarr. Imagem de passos e de rastros, da
caminhada e da pegada. Uma marcha de conquista; marcha pesarosa. Bem demorada,
pra variar. Ah, os problemas se amplificam com o vento, e as cinzas das
blasfêmias encobrem os sorrisos de carvão. Os aristocratas têm empregados; não
fazem comida. Como nós, eles vivem de caridade. Nessa cidade, as pessoas agarram-se
ao que aparece. À lama, muitas vezes. Meu tio continua sem entender; nunca
ouviu falar dessa Hungria demoníaca. Mesmo se lhe dissesse que Tarr denuncia a
pobreza e as riquezas de seu povo ao mesmo tempo; que ambos beijamos nada além
de signos humanos. Sim, Tarr é duro. As crianças dele também são duras com
você. Ora, não vamos julgar que são tão maus! Elas são lindas, autênticas e
explosivas. Para elas compusemos um hino nacional, János Valuska. Quando se
tornarem pais, dançarão com armas na mão e abraçarão suas esposas. Só não
desejo isso agora. Portanto, não vá, János. Lá, o voo de um helicóptero é mais
que uma aproximação. “Isso não é da nossa conta. Terão que trazer o exército. Não
há nada que podemos fazer.” Nessa cidade, a traição faz a fêmea.
Víg Mihály
cuida da trilha sonora – afinado qualquer instrumento não é difícil de ser
tocado, certo? Figura chave da banda Balaton, Mihály tem colaborado com temas
facilmente decoráveis, e belos, e tristes, para os arrastados filmes de Béla
Tarr. A propósito, “tenho que esclarecer isto para que não fique dúvida; que
não é um problema técnico, mas uma questão filosófica. De modo que o sistema
tonal em questão, por investigação, nos conduziu inevitavelmente a uma prova de
fé.” Coloque a culpa em animais, nas alegorias do diretor, quem sabe no próprio
escritor. Isente o príncipe. “Vai tomar no cu!” “O príncipe não saberá nada de
nada, mas ganhará dinheiro.” Devagar, isso pode assustar alguém, tio Lajos. Nunca
se está seguro num compromisso, imagina na memória. Tio, me ouve, ficou claro ou
até aqui nada? Sim! Com o passar do tempo, eu vejo. São elas, as horas. Para
elas não importa qual a causa, desde que seus ponteiros se movimentem. Onde
isso termina? Nessa astrologia, havendo matança ou incêndio, por um saco de
batatas uma mulher te ama por muitas e muitas noites. Assim seguimos, em preto
e branco.
De manhã,
sentado na cama, redescobrimos que János simplesmente assistiu a tudo. E parece
que sobreviveu. Da mesma janela que você, como testemunha. Atrasado, o ser
humano demora um tempo mais do que necessário para reconhecer a si mesmo. No
outro. Aí já é tarde! Todos voltam às camas duras e geladas. “Não reconhecem
nem ao homem nem a Deus.” Por conseguinte, “nada mais importa, de verdade.” Ao
fim, calha ainda dizer que foram os cento e quarenta e cinco minutos mais
heterossexuais do cinema.