::::: o alimento aceita a fome (enquanto finge que morre) :::::
– Gosta de ler?
– Sim, gosto.
– Então gosta de chegar ao fim dos livros, não?
– Não exatamente. É como o fim de uma relação. Boa ou ruim. É como a própria morte. Boa e ruim.
– Não seja tão dramática. Você sabe que pode escolher outro na prateleira e recomeçar a viver.
– Não acredito em reencarnação. Principalmente dos fatos, e do amor.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
a patetice, isto é, a amizade XVIII
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXXIV
::::: platoon :::::
Escolheu aleatoriamente, afinal, todas eram gêmeas em sentido algum. Ou só na guerra. Passou rasteira naquela mulher que desfilava seu exército de artifícios no calçadão, então. E ela se esborrachou com a eficiência de um míssil. Julguei, por estar próximo do vulcão, que a lava logo escorreria da boca.
– Agora vai, faz pose para o flash! Vai, recruta! Escreve com sangue o teu nome no cemitério da fama! – gritou o velhinho da perna de ferro, bom de pontaria, ex-açougueiro, engolidor de remédios, para o corpo no chão.
As medalhas de condecoração estavam chegando. Eu podia sentir, pelo cheiro da carne.
– Ela desmaiou – concluíram os vitoriosos.
Sentamos em cima dela para esperar os envelopes, os elogios, a chuva. Ao menos eu já tinha algo para contar em casa, depois que fizesse a sesta.
– Agora vai, faz pose para o flash! Vai, recruta! Escreve com sangue o teu nome no cemitério da fama! – gritou o velhinho da perna de ferro, bom de pontaria, ex-açougueiro, engolidor de remédios, para o corpo no chão.
As medalhas de condecoração estavam chegando. Eu podia sentir, pelo cheiro da carne.
– Ela desmaiou – concluíram os vitoriosos.
Sentamos em cima dela para esperar os envelopes, os elogios, a chuva. Ao menos eu já tinha algo para contar em casa, depois que fizesse a sesta.
a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXXIII
::::: santa sangre :::::
O mariachi envidraçou...
– Mas bá, homem, é de cair os braços do maêstro mesmo!
... quando seu parceiro de 15 anos de percussão nas rodas de rock rural o surpreendeu dizendo que era 80% surdo do ouvido direito.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
ex animo dicere LXIX, LXX
"Puro lixo. Quando as pessoas morrem elas se tornam lixo. E lixo não precisa de funeral. Se retalharmos gritando: 'assim queremos que seja', o mundo se resolveria facilmente".
Walter C. Dornez, el traidor de la revolución Stanilista!
No volume 17 de Hellsing.

& Kenichi Hoshine

Alors, passez la vraie violence!
Walter C. Dornez, el traidor de la revolución Stanilista!
No volume 17 de Hellsing.

& Kenichi Hoshine

Alors, passez la vraie violence!
a patetice, isto é, a amizade XVII
::::: meu pai :::::
Vou contar como consegui meu pai. Um dia tive pesadelos e acordei mais cedo que o resto da família – minha mãe, minha irmã, meus dois irmãos, uma tia solteira, meus avós, um casal de pastores alemães e um papagaio azul contrabandeado. Fiquei na janela vendo a rua uivando, e no meio de soluços engolindo pessoas distraídas. Avistei uma viatura descendo, na gatunagem, e na certa mal intencionada. Notei o desespero de um homem bem próximo ao muro de minha casa. Ele tirou a mochila das costas e a jogou do outro lado. Os policiais desceram. Fortemente armados, o renderam. Escutei que queriam prendê-lo por suspeita de tráfico e interceptação de mercadorias roubadas. Perguntavam pela mochila. Abri o portão. Disse-lhes que aquele homem estava ali para resolver o problema com a fiação da casa. Eu era apenas mais um garoto filho de mãe solteira. Ficaram me fitando sem dizer o que pensavam. Entreguei a mochila. Não encontraram nada para declarar flagrante, coisa alguma que pudessem usar para incriminá-lo. Eu a enchera de ferramentas, de conexões de canos e de fios de cobre. De lixo. De amor. Resignados, o liberaram. Contemplamos a viatura dobrar a esquina. Daí o homem me levantou pela gola. “Garoto, onde estão as minhas coisas?”. Eu sorri para ele. Sabia que seria um bom pai e me amaria se me conhecesse, e casaria com minha mãe se também a conhecesse. Sabia que ele faria qualquer um feliz. Se quisesse. “Guardei”, respondi para aquele desconhecido, meu futuro pai, pois tive o pressentimento de que ele era o melhor dentre a escória da região. Às vezes temos de arriscar para valer. Se fosse por minha mãe, eu nunca teria um pai. Ela só arrumava trastes viciados, vagabundos desempregados e valentões declarados. Meus avós nunca reclamavam das escolhas que ela fazia porque mamãe os sustentava. O convidei para tomar um copo de água na cozinha. Quando ele pôs o copo vazio na pia, minha mãe apareceu. Vi os olhares deles se cruzarem e torci os dedos dentro dos bolsos para que tudo desse certo. Só dessa vez. Como sempre pedimos. Em seguida, ele foi lá para fora. Fez um gato no poste e depois disso nunca mais precisamos pagar pela energia elétrica que usávamos. Meses depois, os dois se casaram nos moldes antigos, com festa e tudo mais. Finalmente ele era meu pai. Eternamente grato pelo meu ato imaturo. Enquanto eu, que não tinha nem onze anos, já sabia que as estações do ano eram mal divididas.
Vou contar como consegui meu pai. Um dia tive pesadelos e acordei mais cedo que o resto da família – minha mãe, minha irmã, meus dois irmãos, uma tia solteira, meus avós, um casal de pastores alemães e um papagaio azul contrabandeado. Fiquei na janela vendo a rua uivando, e no meio de soluços engolindo pessoas distraídas. Avistei uma viatura descendo, na gatunagem, e na certa mal intencionada. Notei o desespero de um homem bem próximo ao muro de minha casa. Ele tirou a mochila das costas e a jogou do outro lado. Os policiais desceram. Fortemente armados, o renderam. Escutei que queriam prendê-lo por suspeita de tráfico e interceptação de mercadorias roubadas. Perguntavam pela mochila. Abri o portão. Disse-lhes que aquele homem estava ali para resolver o problema com a fiação da casa. Eu era apenas mais um garoto filho de mãe solteira. Ficaram me fitando sem dizer o que pensavam. Entreguei a mochila. Não encontraram nada para declarar flagrante, coisa alguma que pudessem usar para incriminá-lo. Eu a enchera de ferramentas, de conexões de canos e de fios de cobre. De lixo. De amor. Resignados, o liberaram. Contemplamos a viatura dobrar a esquina. Daí o homem me levantou pela gola. “Garoto, onde estão as minhas coisas?”. Eu sorri para ele. Sabia que seria um bom pai e me amaria se me conhecesse, e casaria com minha mãe se também a conhecesse. Sabia que ele faria qualquer um feliz. Se quisesse. “Guardei”, respondi para aquele desconhecido, meu futuro pai, pois tive o pressentimento de que ele era o melhor dentre a escória da região. Às vezes temos de arriscar para valer. Se fosse por minha mãe, eu nunca teria um pai. Ela só arrumava trastes viciados, vagabundos desempregados e valentões declarados. Meus avós nunca reclamavam das escolhas que ela fazia porque mamãe os sustentava. O convidei para tomar um copo de água na cozinha. Quando ele pôs o copo vazio na pia, minha mãe apareceu. Vi os olhares deles se cruzarem e torci os dedos dentro dos bolsos para que tudo desse certo. Só dessa vez. Como sempre pedimos. Em seguida, ele foi lá para fora. Fez um gato no poste e depois disso nunca mais precisamos pagar pela energia elétrica que usávamos. Meses depois, os dois se casaram nos moldes antigos, com festa e tudo mais. Finalmente ele era meu pai. Eternamente grato pelo meu ato imaturo. Enquanto eu, que não tinha nem onze anos, já sabia que as estações do ano eram mal divididas.
vox dei erga omnes II
Quando Jesus voltar...
Amolecerei seu coração com muita exatidão e pouca confusão.
Alors, passez la croix!
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