sexta-feira, 29 de julho de 2011

ex animo dicere CXXXII

"Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas."
Foi o que me interessou sobre Shirley Jackson em "Sempre vivemos no castelo" no http://ocafedosloucos.blogspot.com

Alors, ctrl+c & ctrl+v!



rt vôte 11699!

http://agoraquando.blogspot.com/2011/07/vote-11699.html

a serenidade do embrutecimento

Ritualisticamente eu me banhava cronometrando a perda de tempo. A voz atravessou a porta – e recomeçando sua trajetória como onda, quebrou-se próxima ao bidê. Quase pude vê-la ali, nua, perturbação oscilante, glúteos saudáveis que reanimam.
– Foche, tem um cara vendendo peixe aqui. Você o conhece? Quer comprar?
Com a firmeza de um resmungar, declinei. Em complemento à resposta, também para lhe demonstrar o status quo daquela terra, acrescentei mais aos meios lineares.
– Fala pr’ele i lá no titio qu’ele sempre compra um pixinho.
Falo Cuiabanês com naturalidade. Evito assim que o mesmo seja respeitado exclusivamente quando analisado de fora como genuíno objeto de anedota distorcida. Tais coisas eu faço porque preciso. Por exemplo: vou ao bar, mas volto sóbrio. Aviso-a: “Meu amô, a pharmácia tá fechado.” Ou ainda, vejamos outro modelo de conduta: antes de dormir, lhe sussurro: “Bebe logo esse caldo de djaú no mamadeira, xô cancro sifilítico guspido dum cu!” Tais coisas falo para encher o próximo de pavor, porque amo. Falo Cuiabanês, Economês, Juridiquês e Bichês contra o academicismo. Se o formalismo ainda vai triunfar? Não sei. Fracasso é direcionar potente jato de urina para a sujeira na porcelana e não purificá-la. Ficou claro? Claro como a lua refletida numa poça de vinho? Sim, afinal, longe de mim! Não permito que se iludam ao meu respeito, não; apenas comigo.
Ao sair do box purificado feito recém-criado signo do zodíaco me toquei que o tempo só passava e para meu espanto o sujeito não funcionava como a água do chuveiro. Bem sabemos que esta possui três inequívocos estados: agravante (não alcoólico), atenuante (alcoólico) e transparente (meramente ilustrativo). In abstracto, a freqüência é a mesma para qualquer tema.
– Será que vamos nos atrasar? – questionei-a, previamente conhecendo o mau funcionamento do ato.
– Quanto mais tarde saímos, mais cedo chegamos – respondeu, imitando a brandura de uma atriz pornô.
Por conta disso, informei-a de que essa “Discussão de Relação” no vácuo estava sendo gravada.
– A serenidade do embrutecimento me move, Daquilo – retrucou, e, numa tentativa homonímica, rotulou-me para que não percebesse que me trancava no banheiro.
Honestamente, tínhamos tanta coisa errada em comum que as certas optaram por entrar em concordata. Noutra perspectiva, percebi que tinha tanta formiga amontoada ali que às vezes não enxergávamos as balinhas jogadas no chão. Somente os seus pés. Mas se você segui-los, eles ensinarão à saudade o pirotécnico caminho do campo minado.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

ad infernum dormimus lactis I


Quem nunca se perguntou: por que não analisam o leite no cinema? Bem, eu nunca. Quando o fiz, O Googletífice pouco me ajudou. Café e bebida alcoólica já são triviais no ramo/galho cinematográfico; e no mais, cenas de dança, beijo, despedida, neve e ação estão lá, aos borbotões (aproveitando o sentido pornográfico do substantivo, excluo daqui a presença do leite na pornografia). Pensando no preenchimento da lacuna, no bem dos mamíferos que mamam de tudo até depois de desmamados, na brancura dos lençóis, nas mamadeiras mordidas, na intolerância à lactose, na semântica pura do branquinho segregado pelas glândulas, na Via Láctea, nos produtos Nestlé, no leite em pó, no elemento de número atômico três Li, no açúcar, na coalhada, nas mamães etc., cá estou criando uma nova sessão aqui no AAAE.

Abdel Kechiche - 2007 - La Graine et Le Mulet


Alfred Hitchcock - 1960 - Psicose (Psycho)


Andrei Tarkovsky - 1975 - The Mirror (Zerkalo)


Andrei Tarkovsky - 1979 - Stalker

Andrei Tarkovsky - 1983 - Nostalghia

Torun Lian - 2004 - The Color of Milk



Por certo que alguns filmes apenas mencionam o branquinho de alguma forma que não merecem destaque. Resolvi citá-los também. Para esse post, o dueto é este - sendo que o último é o maior TERROR dos resultados de busca para o termo em questão:


Claudia Llosa - 2009 - The Milk of Sorrow (La Teta Asustada)


Gus Van Sant - 2008 - Milk


Allora, freddo o caldo?

iura in re aliena XXI, XXII

da democratização na destruição ou pisca-pisca e dos peitos crescidos.

vox dei erga omnes XIII

Quando Jesus Cristo Selvagem voltar...
Iremos experimentar minha Jacuzzi.
Alors, on n'y va pas?

rt eu, eu mesmo e os alheios

"Sem óculos, nossas olheiras se acentuaram. Caminhando com uma lanterna, um gárgula petrificado pedia prendas para a quermesse. A sala escureceu. Era ela ou era eu. Escutamos sinos badalarem. Colocamo-nos de joelhos. E permanecemos congelados, prontos para sermos digeridos, diante do filme que mudou nossas vidas minúsculas", escrevi, no trecho final de "Apenas Uma Estória Nocturna" do 8ito, e esqueci.

Jordan Crane


Jeremyville

quarta-feira, 30 de março de 2011

ex animo dicere CXXXI

"Os narcóticos foram demonizados e transformados em bode expiatório. A idéia de que alguém possa usar drogas e escapar a um destino terrível é uma execração para estes idiotas. Eu prevejo que num futuro próximo os da direita vão usar a histeria das drogas como pretexto para montar um aparato policial internacional. Eu já sou velho e talvez não vá assistir à solução final do problema da droga", explicou-me, com incontestável conhecimento de causa e inconfundível voz cava, William S. Burroughs em Drugstore Cowboy.

* imagem: divulgação.


Alors, passez la seringue and fight tuberculosis, folks!

rt garfield

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

o núcleo atrai os corpos para trair a gravidade

Pt. I

O bonde passava somente nas madrugadas em que os relógios tiravam folga, quando do ocaso dos ponteiros, do suicídio das engrenagens, do cair dos dentes bons. Por isso nunca nos encontramos. Até então. Até eu subir, falando sozinho. Até ela acertar o tempo defectivo. Segurando a alça de apoio triangular, uma mão com unhas de morango colou em cima da minha. Carregava uma lanterna, a garota. E à noite, através da janela, através das paradas do bonde, disparava seu canhão de luz em árvores espectrais e besouros bêbados de cansaço.
Nunca gravo os nomes na primeira vez que me falam de si. O dela repeti BAIXINHO várias vezes, para criar laço, para produzir pigmentação sadia nos lábios. Seu nome era Castanea, da família Anacardiaceae. Sua pele, de coelho cândido como açúcar. Seu cheiro, frutas importadas da infância. Gostava de pequenos suínos rosados – todos sabem, todos comem, todos os rabinhos esticados, todas as gaiolas abertas, todos os acidentes forçados, todos os movimentos de rotação que passamos no colo dos mais velhos, mas todos somem –, e, de acordo com o horário, não dispensava um baseado, uma barra de chocolate derretido e uma garrafa de refrigerante quente ou café puro. Apesar de madura, o canto das borboletas ainda habitava a alma de sua voz – supondo que no acaso dum amanhecer o canto dos pássaros precisem das asas dela para te conquistar por definitivo.
– Duas e doze.
Graciosamente, Castanea acertava às horas apenas observando a lua.
– Um cara dorme com a boca aberta na varanda, em frente à rodovia; na cozinha, a panela está em pleno repouso, já que a chama do fogão s’extinguiu com a corrente de ar que voltava para sua pátria não delimitada.
Enquanto eu completava sua avaliação com os recortes que alcançavam minhas retinas. Para tomar fôlego. Passamos sobre uma ponte.
– Aquela margem é escura. A outra margem está agitada. Venta forte sobre o rio – ao me declamar essa espécie de poema espontâneo, Castanea marejou um pergaminho de cor análoga aos seus olhos castanhos.
– O que é esse barulho vindo do fundo? Será orgulho das rodas ao não aceitarem a porta traseira como amiga? – indaguei, tentando abrandar o formato das lágrimas ao passo que as guardava para mim.
Com o vagão em movimento, ela abriu a porta traseira para ver que espécie de guerra acontecia no maquinismo do mundo.
– Sentiu o cheiro da chuva que se aproxima?
– Senti.
Praticando o exercício de inventar sinônimos, sagradas pareidolias e comparações díspares entre as coisas, os objetos sobrenaturais e as pessoas, eu vislumbrei Castanea esticar a mão e pegar o cabo de chuva caindo de uma nuvem que guardava nosso molhar.
– Quais serão os lirismos efêmeros no céu, F.?
Não tinha resposta pronta. Fiquei coagulando frases. E fui te dar um beijo. Pegou de raspão, na bochecha.
– Se as nuvens olhassem a gente, Castanea, nos comparariam com o quê? Observariam uma estrada e diriam: “Como é bonita! Amanhã farei sombra aqui.” Uma diz pra outra mal-humorada: “Você está tão insuportável quanto aquela enchente que ajudei a criar mês passado.”
– “Vou trovejar teu nome a noite inteira, Onomatopéia.”
– Coisas assim, não?
Apontei uma nuvem em forma de Basset no exato momento em que o movimento de seu corpo s’encaixava com alguma estrela. Aquilo lhe serviu de olho. Em seguida as nuvens se transformaram em outra coisa impossível de nomear. Adiante, assumiram a forma de uma cadeira vazia. E continuariam mesmo que ninguém tivesse olhos para.
– Quer fazer animação psicodelicamente meiga, F.? Copie o roteiro das nuvens exibidas no cinema lá fora.
– Desenha pra mim, Castanea.
Pouco depois, desdobrou e m’entregou um esboço com o qual ofeguei, balançando de fome os cabelos.

– Sem luas de dúvidas, isto não é meu.
– Que horas são?
– São três e vinte e oito.
– Esta menina ouve a música que a faz lembrar do gosto da neve que engoliu inverno passado quando caminhou no parque e tropeçou.
Ela abriu um sorriso cheiroso diante de mais um recorte de momento. Conferi se o pergaminho marejado estava no meu bolso. Estava, mas em forma líquida. Então encostei a cabeça no ombro dela e olhei para fora, lateralmente. Nadei de braçadas na terra, assistindo peixes-garrafa voando enterrados na linha do horizonte, criando marolas no pasto. Tornava a me virar para dentro e respirava, mergulhado na água do bonde, ao lado de pássaros-sacola nadando na resina do ar. Depois de algum exercício, levantei, e ela foi logo assumindo sua vez de deitar. Os sabores da experiência se passavam internamente, portanto, mantivemos uma espécie de silêncio airoso. Dormimos assim. Às 21:58.


Pt. II

As palmas de quem pedia licença para entrar na mata nos despertaram. Apedrejamos caules de manga e as comemos para confortar o estômago. Com o barulho, cães surgiram para nos guiar por entre cobras sorrindo em paz, troncos lodosos com veias em auto-relevo, uma prece incrustada na rocha, prateleiras de folhas, morcegos pouco higiênicos e muitos catálogos de pedras.
– Não há malícia em sentar no dedo de Deus – disse-nos um cão morador do Roncador.
Subimos e sentamos e assoviamos para sinalizar que estávamos atravessando território de dono desconhecido.
– De endereço não encontrado, F. – ela me corrigiu.
– Isso mesmo, Castanea. Nesse exato momento, na rua A, casa 06, setor norte, um várzea-grandense, capricorniano, aluno da quarta série, consegue fazer seu primeiro e único travesseiro de penas de pomba. Do outro lado da rua, um executivo bebe café e vê aquilo. No minuto seguinte, acredita ter tido a idéia que tirará sua empresa do ostracismo financeiro. Enquanto que aqui, próximo a nós, a pedra presa no desfiladeiro da saudade, forçada para baixo porque o núcleo tem ciúme da gravidade, qual obelisco invertido buscando seu encaixe, é fotografada por um atento viajante.
– A estrada parece mais densa sem seu ombro pra eu encostar – confessou-me.
– Já vi tantos sentimentos que nem os meus me comovem. Não é que eu seja frio. Acontece que minha sensibilidade somente aflora diante de perfeitos absurdos. Profundos tão perfeitos que a cada vez que lhe experimento absorvo partes, escapam outros tantos.
Recorrendo a elucubrações infecundas falei tanto que não a vi mais. Não houve terceira vez para o relógio de Castanea. Naquele momento, quando anoiteceu, ela não disse mais as horas. O bonde sumiu, ela e suas pequenas mãos também, e outros marcadores de tempo ruim ressuscitaram. Seu ponto a chamara para descer. E tudo que vai se perde antes de voltar.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

iura in re aliena XX

de quando um frame prendeu um livro na bolha.

iura in re aliena XIX

dos cartões que arthuro, bruno bela vista, mcarthur, tetsa-kun e preto fizeram: avec BOMB.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

vox dei erga omnes XII

Quando MC JC voltar...
Quero que ele me crucifique com pregos de jujuba, m'enfeite com coroa de chocolate e cueca comestível.
Alors, passez la croix!