Quando, por algum distinto milagre sepulcral, chegou minha vez de ser atendido, cheguei bem perto do rosto enrugado do funcionário do caixa e gritei, gritei com força, baforando como treminhão carregado subindo serra em marcha reduzida.
– Eu tenho halitose?
Parece feitiçaria, mas esperar horas na fila me transformou. Teci pensamentos prestidigitadores. Tudo porque metade dos clientes, cito os analfabetos digitais inúteis como um quadro atrás da porta, poderiam estar utilizando ou o computador pessoal ou o caixa-eletrônico para resolverem suas pendências. Dobrando, assim, a velocidade de andamento da infame linha reta de gente desgraçada que tem de obrigatoriamente estar ali; diminuindo (de acordo com fontes seguras do ASMA, Admirável Sindicato dos Mágicos Anônimos) em vinte por cento o número de enfartados por causa da cruel espera em filas e que, segundo as mesmas pesquisas, deram entrada nos hospitais recentemente. Entrada pela porta de emergência. Saída triunfal de rabecão. Por outro lado – e serei franco como um cassetete autoritário –, dois terços da outra metade, isso mesmo!, correspondem a parcela de sádicos que adoram uma fila e não perdem a oportunidade de filiar-se a uma só para terem a atenção (forçada, vale lembrar) de alguém, a frente ou atrás, a quem lamuriam sobre as mazelas do nascimento, da vida, da morte e do que mais ocorrer de indigno no intervalo desses fatos marcantes, marcantes para os dois terços e irrelevante para o número restante. No fim, aquele um terço abrange as pessoas normais, tão suscetíveis a transformações como eu ou os bichos-de-seda. Sendo assim, diante do silêncio abissal da agência, tomei a liberdade de responder minha própria pergunta.
– Não, eu não tenho halitose! E digo mais. Farei uma mágica que dará cabo ao aborrecimento de todos nós, cidadãos molestados pelas filas. Criarei um clima de festa, de confraternização e de pura alegria aqui nesta agência.
Pulei sobre o guichê número três e, rodopiando num só pé, tirei a cartola da cabeça com movimento inspirado em Chaplin, o vagabundo pantomímico. Atirei no chão uma bombinha especial que fez subir fumaça azul e amarela. Enfiei a mão no bolso e distribuí caramelos, narizes de palhaço e cartas de baralho para a platéia. Pronto, estava aberto o espetáculo.
– Respeitável público, para mostrar-lhes a grandiosidade de minhas mágicas, tirarei agora um lindo coelho da cartola.
Meti a mão na cartola e segurei o peludo pelas orelhas. Estavam bem quentes. Minha mão doía, isto é, ardia, mas não reclamei. Agüentei firme. A cartola exalava uma fumaça estranha. O roedor entalou logo em seguida. Irrompeu em agudos gemidos. Na premência, recrutei uma jovem ajudante no público. Juntos, conseguimos retirar o coelho da cartola. O ergui, contente, e me curvei, reverente, esperando receber a ovação das palmas dos clientes.
– Vejam! O bicho está ardendo em chamas! – denunciou algum mal-caráter sem instrução e incapaz de descobrir a diferença entre o dia e a noite, tampouco reconhecer o talento de artistas profissionais.
– Acalmem-se, meus caros... – disse-lhes, tentando, em vão, conter as adversidades da circunstância.
O alarme do banco soou. Um bebê pôs-se a chorar. As luzes principais foram substituídas pelas de emergência. A platéia, em geral, agitou-se. Destacando-se da massa uniforme, um sujeito robusto, segurando o malote de sua firma debaixo do braço, avançou em câmera lenta e pegou o extintor de pó químico. Rompeu o lacre com os dentes e pôs o negócio para funcionar. Dirigiu o jato branco no coelho. Depois, passou a derramar a coisa em mim. De imediato, aquilo que me entrou pelas vias respiratórias causou danos. Comecei a lacrimejar, tossindo feito cão tuberculoso. Dois homens fardados, velhos conhecidos, apareceram para restabelecer a ordem provinciana do recinto. Retiraram-me do palco, imobilizando as valiosas mãos nas costas e confiscando meus utensílios de fabricar o extraordinário. Os dois começaram a me arrastar para fora do banco. Daí todo mundo ficou em silêncio, me assistindo. O peculiar barulho do solado dos borzeguins dos oficias, em atrito com o chão polido, atravessando o salão, despertou-me idéias para uma próxima apresentação. Só que de tanto respirar o pó químico do extintor, minha vista foi escurecendo gradativamente. Tentei recapitular a idéia que tivera para o novo espetáculo, mas antes de me dar conta, a consciência se esvaia, em bocejos macios. Desmaiei ouvindo a ruidosa salva de palmas dos cidadãos presentes.
Dias mais tarde, cansado de minhas piadas, o carcereiro confessou que os aplausos eram para a equipe de salvamento que, com sucesso, reanimara o coelho queimado.
– Eu tenho halitose?
Parece feitiçaria, mas esperar horas na fila me transformou. Teci pensamentos prestidigitadores. Tudo porque metade dos clientes, cito os analfabetos digitais inúteis como um quadro atrás da porta, poderiam estar utilizando ou o computador pessoal ou o caixa-eletrônico para resolverem suas pendências. Dobrando, assim, a velocidade de andamento da infame linha reta de gente desgraçada que tem de obrigatoriamente estar ali; diminuindo (de acordo com fontes seguras do ASMA, Admirável Sindicato dos Mágicos Anônimos) em vinte por cento o número de enfartados por causa da cruel espera em filas e que, segundo as mesmas pesquisas, deram entrada nos hospitais recentemente. Entrada pela porta de emergência. Saída triunfal de rabecão. Por outro lado – e serei franco como um cassetete autoritário –, dois terços da outra metade, isso mesmo!, correspondem a parcela de sádicos que adoram uma fila e não perdem a oportunidade de filiar-se a uma só para terem a atenção (forçada, vale lembrar) de alguém, a frente ou atrás, a quem lamuriam sobre as mazelas do nascimento, da vida, da morte e do que mais ocorrer de indigno no intervalo desses fatos marcantes, marcantes para os dois terços e irrelevante para o número restante. No fim, aquele um terço abrange as pessoas normais, tão suscetíveis a transformações como eu ou os bichos-de-seda. Sendo assim, diante do silêncio abissal da agência, tomei a liberdade de responder minha própria pergunta.
– Não, eu não tenho halitose! E digo mais. Farei uma mágica que dará cabo ao aborrecimento de todos nós, cidadãos molestados pelas filas. Criarei um clima de festa, de confraternização e de pura alegria aqui nesta agência.
Pulei sobre o guichê número três e, rodopiando num só pé, tirei a cartola da cabeça com movimento inspirado em Chaplin, o vagabundo pantomímico. Atirei no chão uma bombinha especial que fez subir fumaça azul e amarela. Enfiei a mão no bolso e distribuí caramelos, narizes de palhaço e cartas de baralho para a platéia. Pronto, estava aberto o espetáculo.
– Respeitável público, para mostrar-lhes a grandiosidade de minhas mágicas, tirarei agora um lindo coelho da cartola.
Meti a mão na cartola e segurei o peludo pelas orelhas. Estavam bem quentes. Minha mão doía, isto é, ardia, mas não reclamei. Agüentei firme. A cartola exalava uma fumaça estranha. O roedor entalou logo em seguida. Irrompeu em agudos gemidos. Na premência, recrutei uma jovem ajudante no público. Juntos, conseguimos retirar o coelho da cartola. O ergui, contente, e me curvei, reverente, esperando receber a ovação das palmas dos clientes.
– Vejam! O bicho está ardendo em chamas! – denunciou algum mal-caráter sem instrução e incapaz de descobrir a diferença entre o dia e a noite, tampouco reconhecer o talento de artistas profissionais.
– Acalmem-se, meus caros... – disse-lhes, tentando, em vão, conter as adversidades da circunstância.
O alarme do banco soou. Um bebê pôs-se a chorar. As luzes principais foram substituídas pelas de emergência. A platéia, em geral, agitou-se. Destacando-se da massa uniforme, um sujeito robusto, segurando o malote de sua firma debaixo do braço, avançou em câmera lenta e pegou o extintor de pó químico. Rompeu o lacre com os dentes e pôs o negócio para funcionar. Dirigiu o jato branco no coelho. Depois, passou a derramar a coisa em mim. De imediato, aquilo que me entrou pelas vias respiratórias causou danos. Comecei a lacrimejar, tossindo feito cão tuberculoso. Dois homens fardados, velhos conhecidos, apareceram para restabelecer a ordem provinciana do recinto. Retiraram-me do palco, imobilizando as valiosas mãos nas costas e confiscando meus utensílios de fabricar o extraordinário. Os dois começaram a me arrastar para fora do banco. Daí todo mundo ficou em silêncio, me assistindo. O peculiar barulho do solado dos borzeguins dos oficias, em atrito com o chão polido, atravessando o salão, despertou-me idéias para uma próxima apresentação. Só que de tanto respirar o pó químico do extintor, minha vista foi escurecendo gradativamente. Tentei recapitular a idéia que tivera para o novo espetáculo, mas antes de me dar conta, a consciência se esvaia, em bocejos macios. Desmaiei ouvindo a ruidosa salva de palmas dos cidadãos presentes.
Dias mais tarde, cansado de minhas piadas, o carcereiro confessou que os aplausos eram para a equipe de salvamento que, com sucesso, reanimara o coelho queimado.
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