Fico irritado quando, após irregular intervalo de tempo, religo para alguém e o telefone continua a dar sinal de ocupado. Sinto vontade de engolir o telefone. É injusto, sejamos justos com quem merece bonança, porque quem deveria sofrer com tamanha raiva declarada é o cidadão que preciso falar. Por outro lado, fazê-lo engolir o telefone seria terrivelmente cansativo. Esperar quem está atrasado a um encontro qualquer ou consolar um bezerro que chora de saudade da amplitude do pasto e do confinamento no curral não me irritaria tanto. Em tais situações, não menos que em outras de igual abstração, tenho espaço para pensar aleatoriamente e sem obrigação. Meus sapatos me apertam, pensei, então.
A camionete que dirigia estava parada do outro lado da BR. O bezerro amarrado na carroceria mugia – mugido que se fossemos traduzir corretamente, diria que eram insultos à vaca que o pusera no mundo para morrer com tamanha obediência e elegância. Comprei umas cinco fichas telefônicas porque a bateria do celular descarregara. No orelhão, enquanto bebia suco de maçã de caixinha, eu insistia na tentativa de falar com renomado amigo: Caubói, homem bom de laço, campeão de montaria, uma ninhada de filhos para criar. Tinha certeza de que o dito cujo era capaz de honrar a amizade de longa data e me fornecer dicas para chegar à fazenda. Pelo que escutei das bocas pequenas, haveria pândega no lugar. Utilizariam o bezerro na prova de laço. Permitiriam às crianças montarem e marcarem com ferro quente o corpo do quadrúpede. Então o matariam e assariam para a multidão presente encher as crateras sem fim que tinham no lugar de estômagos humanos. De algumas partes, os chamados cortes nobres, fariam, utilizando caras especiarias, um guisado do vitelo de menos de um ano – aquele mesmo, firme e pacato na carroceria. No que me diz respeito, ficar de pé era ruim. Meus sapatos ainda me apertavam.
Disquei os códigos chave.
– Alô, o Caubói pode falar comigo?
Ouço meu amigo gritando do outro lado. A mãe dele é quem atende, entretanto.
– Ih, acho que não. O homem tá bêbado que só vendo. Quem fala aí?
Quem fala aí? Quem fala aí? Diabos. A frase ricocheteou no crânio fazendo-me perder a ordem dos verbos, substantivos, preposições e artigos para, por fim, desabotoar dois botões da camisa que perturbava a circulação sangüínea.
– Eita diacho. Desembucha, homem!
– Ah! Oi... Alô? Desculpa. Sou amigo dele, lá do bairro. Da Várzea. A senhora não se lembra de mim? Estive em sua casa ontem para apanhar o bezerro. Caubói pediu que fizesse o favor de transportá-lo. Falou para trazê-lo até a fazenda. Mas não encontro o bendito lugar. Peça para ele me atender. Alguém tem de explicar como se chega aí.
– Esperaí, moço.
Para onde mais eu poderia ir só ela mesma poderia responder. O bezerro estava quieto. Eu batia um pé, marcando o tempo. Coloquei mais ficha no telefone. O tilintar delas caindo me agrada. Segundos mais tarde consigo distinguir, dentre o alvoroço na linha, a voz do Caubói exprimindo seus mais sórdidos sentimentos em relação a mim, que desde sempre o tive em alta conta, eu que o idolatrava nos rodeios e me humilharia em qualquer confronto para ajudá-lo a não se ferir. Por conseguinte, continuei a colocar fichas e apreciar o barulho, toda a sinfonia de ruídos, sem me desanimar com a crise de nosso relacionamento. Daí as fichas acabaram. Não dava para ir buscar outras. O sapato passou a machucar mais. A pressão alta fazia meu pescoço latejar como se quatro mãos o apertassem. Comecei a arrancar os botões da camisa e usá-los no lugar das fichas. O bezerro se deitou. Parei de mexer o pé. O sangue circulava regularmente. Dei uma melhorada.
– Olha moço, ele não quer falar com você.
Insisto em não desanimar com o amigo. Brinco com as “fichas” restantes na mão. Alimento a fome do aparelho. Fecho os olhos. Vejo o que tenho dentro.

– Tá m’escutando?
– Como faço agora, dona? – insisto.
– O que cê disse? Não tô te ouvindo direito. Tá com interferência.
– COMO CHEGO AÍ? – explodi.
– Ôxe! Calma, cabra. Eu te ensino, ué. Onde cê tá?
– No posto telefônico.
– É fácil. Pra chegar aqui, e ainda aproveitar a festa, você vem pela BR, sentido capital, até o KM 62. No acostamento do teu lado direito tem três porteiras. Daí cê... – e a matriarca explicou nos mínimos detalhes, para meu total desassossego.
Acelerei até as tais porteiras. Escolhi uma. Entrei. Chegamos, eu e o bezerro encomendado, a uma clareira. Avistei uma parede em ruínas por onde trepadeiras cresciam, preguiçosas. Faziam aquilo para se divertirem, imaginei. Fazem isso para me deixar com fome, pensaria meu acompanhante. Escutei suas risadas, assim, de repente. Das plantas e do vitelo. E não havia viv’alma de cabelos desgrenhados, epilépticos do álcool. Não havia sequer vestígios de festa. Subitamente meu sapato parou de apertar. A pressão baixou. Resolvi descer o passivo bezerro da carroceria.
– Tens medo de morrer, ginete? – interpelou-me, quando livre.
Falei que não.
– Morri há três semanas atrás... – respondi-lhe, olhando fixamente para seus olhos de lantejoula – Morri quando...
– Não fale! – interrompeu-me, bramindo.
Voltei à camionete. Atrás do banco encontrei fivela e chapéu, os quais tratei de usar. Aproximei-me do bezerro e beijei-lhe a boca. Se fossemos íntimos, talvez permitisse que eu o montasse adequadamente. Funcionou. Afeiçoamo-nos, um ao outro, reciprocamente. Optamos por desaparecer na pradaria infinita, em diamantino galope, deixando rastro de silêncio ambíguo.
A camionete que dirigia estava parada do outro lado da BR. O bezerro amarrado na carroceria mugia – mugido que se fossemos traduzir corretamente, diria que eram insultos à vaca que o pusera no mundo para morrer com tamanha obediência e elegância. Comprei umas cinco fichas telefônicas porque a bateria do celular descarregara. No orelhão, enquanto bebia suco de maçã de caixinha, eu insistia na tentativa de falar com renomado amigo: Caubói, homem bom de laço, campeão de montaria, uma ninhada de filhos para criar. Tinha certeza de que o dito cujo era capaz de honrar a amizade de longa data e me fornecer dicas para chegar à fazenda. Pelo que escutei das bocas pequenas, haveria pândega no lugar. Utilizariam o bezerro na prova de laço. Permitiriam às crianças montarem e marcarem com ferro quente o corpo do quadrúpede. Então o matariam e assariam para a multidão presente encher as crateras sem fim que tinham no lugar de estômagos humanos. De algumas partes, os chamados cortes nobres, fariam, utilizando caras especiarias, um guisado do vitelo de menos de um ano – aquele mesmo, firme e pacato na carroceria. No que me diz respeito, ficar de pé era ruim. Meus sapatos ainda me apertavam.
Disquei os códigos chave.
– Alô, o Caubói pode falar comigo?
Ouço meu amigo gritando do outro lado. A mãe dele é quem atende, entretanto.
– Ih, acho que não. O homem tá bêbado que só vendo. Quem fala aí?
Quem fala aí? Quem fala aí? Diabos. A frase ricocheteou no crânio fazendo-me perder a ordem dos verbos, substantivos, preposições e artigos para, por fim, desabotoar dois botões da camisa que perturbava a circulação sangüínea.
– Eita diacho. Desembucha, homem!
– Ah! Oi... Alô? Desculpa. Sou amigo dele, lá do bairro. Da Várzea. A senhora não se lembra de mim? Estive em sua casa ontem para apanhar o bezerro. Caubói pediu que fizesse o favor de transportá-lo. Falou para trazê-lo até a fazenda. Mas não encontro o bendito lugar. Peça para ele me atender. Alguém tem de explicar como se chega aí.
– Esperaí, moço.
Para onde mais eu poderia ir só ela mesma poderia responder. O bezerro estava quieto. Eu batia um pé, marcando o tempo. Coloquei mais ficha no telefone. O tilintar delas caindo me agrada. Segundos mais tarde consigo distinguir, dentre o alvoroço na linha, a voz do Caubói exprimindo seus mais sórdidos sentimentos em relação a mim, que desde sempre o tive em alta conta, eu que o idolatrava nos rodeios e me humilharia em qualquer confronto para ajudá-lo a não se ferir. Por conseguinte, continuei a colocar fichas e apreciar o barulho, toda a sinfonia de ruídos, sem me desanimar com a crise de nosso relacionamento. Daí as fichas acabaram. Não dava para ir buscar outras. O sapato passou a machucar mais. A pressão alta fazia meu pescoço latejar como se quatro mãos o apertassem. Comecei a arrancar os botões da camisa e usá-los no lugar das fichas. O bezerro se deitou. Parei de mexer o pé. O sangue circulava regularmente. Dei uma melhorada.
– Olha moço, ele não quer falar com você.
Insisto em não desanimar com o amigo. Brinco com as “fichas” restantes na mão. Alimento a fome do aparelho. Fecho os olhos. Vejo o que tenho dentro.

– Tá m’escutando?
– Como faço agora, dona? – insisto.
– O que cê disse? Não tô te ouvindo direito. Tá com interferência.
– COMO CHEGO AÍ? – explodi.
– Ôxe! Calma, cabra. Eu te ensino, ué. Onde cê tá?
– No posto telefônico.
– É fácil. Pra chegar aqui, e ainda aproveitar a festa, você vem pela BR, sentido capital, até o KM 62. No acostamento do teu lado direito tem três porteiras. Daí cê... – e a matriarca explicou nos mínimos detalhes, para meu total desassossego.
Acelerei até as tais porteiras. Escolhi uma. Entrei. Chegamos, eu e o bezerro encomendado, a uma clareira. Avistei uma parede em ruínas por onde trepadeiras cresciam, preguiçosas. Faziam aquilo para se divertirem, imaginei. Fazem isso para me deixar com fome, pensaria meu acompanhante. Escutei suas risadas, assim, de repente. Das plantas e do vitelo. E não havia viv’alma de cabelos desgrenhados, epilépticos do álcool. Não havia sequer vestígios de festa. Subitamente meu sapato parou de apertar. A pressão baixou. Resolvi descer o passivo bezerro da carroceria.
– Tens medo de morrer, ginete? – interpelou-me, quando livre.
Falei que não.
– Morri há três semanas atrás... – respondi-lhe, olhando fixamente para seus olhos de lantejoula – Morri quando...
– Não fale! – interrompeu-me, bramindo.
Voltei à camionete. Atrás do banco encontrei fivela e chapéu, os quais tratei de usar. Aproximei-me do bezerro e beijei-lhe a boca. Se fossemos íntimos, talvez permitisse que eu o montasse adequadamente. Funcionou. Afeiçoamo-nos, um ao outro, reciprocamente. Optamos por desaparecer na pradaria infinita, em diamantino galope, deixando rastro de silêncio ambíguo.
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