sábado, 30 de maio de 2009

a patetice, isto é, a amizade IV

::::: trippy terrorless tale show :::::

Bateram à porta.
– Nada melhor do que dormir uma noite em um mês, hã?
Era Fran. Havia saído ontem durante a festa de inauguração e só retornara agora, enquanto o resto da casa roncava como uma orquestra mal ensaiada. Trazia pequeno globo de neve ligeiramente bizarro numa das mãos.
– Fique com isto. Custou uma nota, e é para o Clube. Trará bons auspícios, assim espero. Na realidade procurava por outro, talvez um que fosse a representação da favela em meio ao tiroteio com areia e munição voando ao invés de gelo, mas...
Eu mandriava antes dele chegar. Deitado de roupão, vendo as coisas de cabeça para baixo. Sentindo-me, há muito tempo, um inseto grudado na parede. Porém, já que ele estava de volta, era preciso acordar a mim mesmo. Agradeci-o, também me agraciando, com uma enorme xícara de café fumegante. As pupilas dilataram rapidamente. Ficamos a pino antes do sol, de fato, nascer.
– Quando eu for beber álcool hoje, daqui a pouco, vou oferecer um trago para o santo, e o santo é você, Fran – disse-lhe.
– Legal – comentou com impaciência, e acendeu um cigarro.
– O que tem nessa sacola?
– Sushis.
– Zushi? Banzai! Passa pra cá, estou com fome. Não jantei.
– Não, isso não serve pra isso. Mais tarde me entenderá – acabando de fumar aquele, ele guardou a guimba no bolso para usar no caso de o nariz sangrar, puxou outro cigarro do maço e pôs fogo – O barco está lá fora. Partimos ou não?
A carona com o barco Pelicano era essencial se quiséssemos chegar ao show de sua irmã. Fran conseguira somente dois ingressos, os nossos, é evidente. Além do que, o grupo na casa estava tão cansado que provavelmente acordariam dali vinte e quatro horas achando que não tinham dormido míseras seis horas e, portanto, sem opções razoáveis, retornariam para o aconchegante mundo turvo dos berços enfeitados com móbiles e oferendas para Iemanjá. Assim sendo, de mansinho, pé ante pé, sem bater as portas com muita força, escapamos do Clube. Logo na esquina estava o píer. No mesmo lugar onde ontem não estava. Embarcamos ao comando do capitão Carmélio, o supremo dos mares. Seguimos viagem embalados por canção éterea, causadora de sensações melífluas e memórias oníricas.

– Olha, o oceano está pegando fogo – comentou Fran, da proa, apontando para o pouco vigoroso nascer do sol refletido no espelho da água do mar, entretanto, dois dias depois deste sereno balouçar, ele me comunicou que um mês antes tomara conhecimento de poema lesbiano algo parecido com tal observação.
A viagem de barco era deveras breve. Para se atravessar de um lado ao outro das ilhas era preciso apenas meia dúzia de curtos minutos. Quase não dava para a dose da canção fazer efeito. No píer do porto de desembarque, despedimos de Carmélio e enveredamos pelo caminho mais bonito, mais longo e que aparentava ser capaz de nos enganar sem no magoar.
De praxe, como desejado, fomos prolixamente ludibriados. O caminho logo mostrou seu pior lado. Fomos acossados por morcegos, lobos, cobras e estórias fantasiosas. O tempo todo Fran manteve-se firme, como alguém sem decência que sabe o final do livro. Era de se estranhar, seu comportamento. Afinal, saber o final da estória pode ser tão chato quanto escrever uma. Por outro lado – onde se destaca mais um ponto de vista meu –, o tempo inteiro notava inconveniente luz incidindo no rosto.
– Que porra de luz é essa que tenta nos cegar?
– Ah, você percebeu? Fique tranqüilo, é minha irmã. Vem, pula que eu te seguro. Cuidado aí, não vá pisar nessa pedra que ela morde. Minha irmã está no alto da torre fazendo sinal para nos guiar.
– Vou te trucidar – rebentou a pedra, ficando linhas para trás.
– Eu não disse? Já conheço os pseudo-labirintos dessa estória.
Em dado momento, tivemos de nos pendurar em cipós qual personagem de jogo eletrônico. Nisso não precisei de ajuda. Atari era o console que me dominou em tenra idade. Todavia, não contava com pássaros negros tentando nos derrubar. Fran, em sua infinita bondade, atirava-lhes os sushis, sushis de pimenta, logo descobri. Sem perceber as bombas que eram distribuídas, os pássaros bicavam o arroz enrolado na alga marinha. Com isso, ingeriam cavalares doses de pimenta poivre vert. Um a um, pavimentando nossa [sic] highway, foram caindo como folhas outonais.
Depois disso, soltando os cipós e as farsas imaginativas, chegamos exatamente à porta do castelo. He-he, os ingressos de Fran não eram quaisquer ingressos.
– Konichiwa, bitches: free access! – esnobou geral.
Apropriadamente, entramos pelos fundos. Lá estava Castzilla, no camarim, sendo aborrecida e cortejada por um babaca falastrão de tatuagens filosóficas nos antebraços.
– Mulheres são ardilosas. Te beijam insistentemente, mas antes, depois e às vezes durante, te esquadrinham à procura de problemas, nuvens negras – chegamos ao lado dos dois, cumprimentando-os: a ela com mais intimidade, relegando-o ao educado aceno de mão à distância – Francamente! Quem aqui nunca pensou em se casar no lugar do grande amigo acreditando piamente que você sim era capaz de fazer aquela fêmea feliz e vice-versa, mas que por mais uma injustiça do destino alguém passara-lhe a frente (felizmente um amigo!) e agora que você sentia o que sente por ela não podia perder tempo nem deixá-la escapar já que o sentimento era recíproco, não é mesmo? – até onde sabíamos, Cast não estava de casamento marcado, então, afunilando seu discurso e dirigindo suas palavras a quem realmente lhe interessava, o sujeito manifestou-se de acordo com os princípios do falo – Agora que notei. A textura de minha roupa de cama é a mesma do teu vestido. Que tal se você fosse deitar na minha cama para eu ver se a gente combina em algo mais além do bom gosto, baby?
– Francamente! Não fode, cara – retrucou Castzilla, P.J. do agreste, assinante número 34879 do Le Monde Diplomatique, residente em endereço que não me recordo porque a edição do jornal que surrupiei foi rasgada para servir de proteção contra o impacto nas garrafas de vinho que importei da região sans appellation contrôlée cuja localização no mapa-múndi também não sei informar mas assim como sua casa sei que não se trata da Europa apesar de dizerem o contrário; em suma, foi o que ela disse, tomando Fran e eu pelas mãos.
Noutro ambiente, mas ainda nos arredores dos camarins, nos serviram uns drinks e com eles pudemos nos misturar aos outros indivíduos batizados, com base em tratados internacionais que ignoro, de Very Important Persons. Benzi-me e deitei uma porção do líquido no chão. Para o santo. Fran sorriu. Cast acompanhou porque quis. Então demos longuíssimas risadas e fizemos piadas más e suposições absurdas sobre os demais presentes – hip hoperas, açougueiros e nús em geral – e – em menor escala – o galã. Cogitamos o fato de o falastrão ser apenas o que eles chamam de emo, um emo retirante que debandara da Linha Jacuí (aquele lugar que não está lá abaixo de Victor Graeff) e aterrissara neste Zoo tentando se tornar fotógrafo, mas o máximo que conseguira fora boas estórias magoadas. Com sorte e alguns copos, a hipótese se confirmou através da informante de Cast, uma maquiadora que se passava por Carolina Dieckmann nas horas vagas ou em private parties de travestis abastados.
– Em resumo, o cara não passa de uma bactéria – salivou a maquiadora – Acidentalmente evacuou seu planeta Y não-catalogado se instalando num asteróide que vagou por milênios até cair aos nossos pés sofrendo dessas metamorfoses desastrosas – assim suponho ter-nos dito, talvez por experiência na própria carne.
Bom, gastamos algum tempo ali. Supostamente pensando mas automaticamente falando o que nos ocorria. Assim, na minha moderada discrição, percebi que Castzilla estava bebendo bem, bem demais. Não resisti e fiz a pergunta idiota.
– Dio santo, maledetta! Por que está bebendo tanto?
– Ah, Foche, a bebida ajuda a viver.
– Parece minha avó falando.
– Por quê? Ela é sempre tão honesta que tem dores de coluna?
– Creio que sim, mas por outros motivos.
Abaixei para amarrar o cadarço. Algo me mordeu no calcanhar quando tentei reatar os laços. Tirei o tênis e, sem pressa, uma aranha saiu. Saltitou e perdeu-se no meio da agitação do povo post-cool. Aproveitei a posição para procurar por novas galáxias. Mirei Cast – e suas longas pernas – do ângulo inferior.
– Você é muito fotogênica.
– Por supuesto, a genética trabalha ao meu favor.
– Ao nosso... – momentos de concórdia entre eles eram raros, uma vez que o signo dela é o inferno astral do irmão bem como a recíproca também soa verdadeira.
– Sim, ao de vocês, entendi.
Surgiu um roadie (neo-roadie, diria Fran em uma post-joke interna) descabelado, óculos quadrados, vestindo trapos, gritando pela estrela da noite e carregando um acordeão. Encontrando-a conosco, passou-lhe as coordenadas. Castzilla pegou espelho de retocar maquiagem dentro da bolsa. Afastando-se por um corredor, sumindo rumo ao palco, ela brincou de fazer reflexos em nossos rostos. Eu e Fran ficamos para assistir do backstage.
Seu show consistia em diversos estilos e ritmos musicais construídos a partir de sons sampleados da natureza e pontuados por ocasionais vocais distorcidos. Não descobri qual era a função do acordeão na apresentação além de esconder dentro do fole dinero y otras cositas más. Bem, tudo corria muito bem. Nenhuma similaridade com new age. As cinco primeiras composições foram realmente criativas e cativantes. Mas depois disso a coisa descarrilou. Divine cover, ou quem sabe o próprio Glenn Milstead reencarnado, apareceu para aterrorizar o espetáculo.
– Ok, agora começa o espetáculo musical de mal gosto. Bem, digamos que só esperávamos por essas canções – confessou Fran, sem me convencer – Está ficando cedo, vamos embora enquanto ainda podemos, Foche.
– Tarde. Está ficando tarde, você quer dizer.
– Não, está cedo mesmo. Veja as horas.
– Não tenho como.
– Escuta, e se todo mundo fosse de uma cor?
– Ah, seria muito chato, cara.
Apesar de ser um fast-rewind com chuviscos e fantasmas da transcomunicação instrumental, a volta é sempre mais rápida. Fizemos o percurso inverso, enfrentando as mesmas adversidades. Com as pupilas não menores, apenas acostumadas ao escuro. Calada da noite no píer: estivadores descarregavam pescado ilegal do navio dos paladinos do Greenpeace e enfiavam tudo nos porões do Pelicano. Quarto de hora depois, o calado alcançava o nível máximo: quilha e linha de flutuação eram quase siamesas.
– Legal – comentou com impaciência, e acendeu um cigarro.
– Tive um déjà-vu, Fran.
– E eu gostaria de ter visto ao menos oitenta e cinco por cento dos pores-do-sol que já aconteceram ao longo de minha vida. Acho que isso faria de mim uma pessoa diferente.
– O sol não está se pondo. Deve estar raiando. Enfim. Ouvi algo na TV sobre um rio que pega fogo.
– Como o mar?
– Sim, mas lá na minha terra.
– Só não vá dizer que um dia lá teve mar – falando desse modo, "contrariando lendas", uma ruga em forma de cruz surgiu no meio das sobrancelhas de Fran; uau, imaginei, em big close isso saltando no monitor ficaria lindo – O quê?
– Nada, Fran. Quero dizer, ali estão nossas sombras.
Por um período indefinido, assistimo-as nos acompanhar pelo mar. Desestruturadas pelo movimento das marés, elas persistiam em nos seguir. Custe o que custar não podiam se desgrudar dos respectivos corpos. Para isso, nadavam-nos, engoliam caravelas e camarões brilhantes que cruzavam seu caminho e esticavam seus cordões umbilicais até onde a luz tornava-se escuridão e, enquanto meras sombras, nós beirávamos o limite da vida e da morte.
– É, em big close também ficariam lindas. Saltando aos olhos.
Certo, entendi o aviso do cérebro. Promenti a mim mesmo que a partir dali policiaria meus pensamentos e minhas falas. I.e., por Fran repetir quase que exatamente meus pensamentos, o ideal seria eu duvidar de minhas faculdades mentais. Mas um fenômeno jamais presenciado pelos sequazes do Greenpeace ou por aqueles milhares de indivíduos que desconhecem as tramas das estórias interrompeu aquelas auto-investigações. Com agudíssimo ruído, Carmélio ligou as caixas acústicas e, segurando o microfone, pôs-se a cantar rezas para Iemanjá & Cia Ltda. Quase instantaneamente peixes fosforescentes começaram a pular a bordo. Amontoando-se no convés como um cemitério de fogos-fátuos. Pareceu-me que as palavras oriundas de suas entranhas eram elementares como o verdadeiro fogo, pois iluminavam o ambiente e atraiam os peixes como se nos beneficiássemos de inconcebível promombó.

Um comentário:

sara castillo disse...

ei, quer dizer então que foi você que rasgou o meu le monde?