::::: a casa móvel, o lar fixo :::::
Pt. I
Tudo começou... Ou melhor, quem é que pode dizer quando algo finalmente começa? Possivelmente o que faço não passa de uma maneira vulgar de encartuchar memórias plúmbeas. Pesadas e sem vida. Mas se temos de falar a respeito, é melhor que seja agora. Embora soe estranho se dito assim, meu pálido palpite é que tudo tenha começado quando eu, Gaúcho e Turista nos vimos no movimentado velório e subseqüente enterro de Deus. Não nos encontrávamos pessoalmente desde que ambos deixaram o bairro onde, ao lado de outros membros da trupe alada, presenciamos o nascimento, o aprendizado, a ascensão, a coroação e a glória perene deste ser mítico: Dioi. Divindade incontestável que no ensejo jazia – pedindo clemência, pálido, mãos atadas apoiadas no peito seco, narinas obstruídas por tufos de algodão, vestes alinhadas, as coroas de ofuscantes flores brancas em volta –, que agora finalmente descansava no caixão negro, um lar fixo próximo e cada vez mais distante de seus nem tão fiéis companheiros. A partir da desditosa data, tudo mudaria. Ninguém sairia incólume, tenho certeza. Mesmo o fluxo da cidade, as ondas do mar, a circulação do sangue dos morcegos, os escambos, as coisas elementares, as horas... Sim, insisto, outrossim, as horas. Nada mais reverente do que a curvatura do tempo na presença de Dioi! Ao invés de escorrerem como de hábito, as notas do eixo temporal passariam a flutuar, sonolentas, resignadas, minuto a minuto, centímetro a centímetro, agarrando-se aos corpos dos vivos, suspiro a suspiro, diante da triste situação de morte.
Por outro lado, há a possibilidade de minha intuição estar me traindo, e que tudo tenha começado há muito mais tempo. Antes, bem antes da hipotética data de sua concepção. Se assim for, vos confesso que a morte de Deus era apenas o prelúdio de um grande recomeço; era a volta dos clássicos tempos dourados. Aquele, portanto, só podia ser um evento abençoado pelo cosmos, já que nos reunia outra vez.
De qualquer maneira, o referido afastamento voluntário dos dois talvez colaborasse e reforçasse o clima silencioso e fúnebre da ocasião. Gaúcho se atrasara para o velório, chegando no derradeiro momento, pela manhã, desconversando, sem revelar seus motivos. Junto aos demais, eu e Turista agoniávamos devido ao longo período de vigília. Na hora do último adeus, enquanto os coveiros içavam o caixão na acolhedora vala, seus parentes, desacreditados e desesperados, dispararam tiros de canhão. Comovido com a demonstração de afeto aflitivo, o Turista emprestou El Trompete Blanco de Ivanildo, um dos primos de Deus, e solou por cinco ininterruptos minutos elegíacos. Somente então, sublimados, embora não completamente racionais, sentimos na alma a gravidade da perda. E ela era irreparável para nós. Nem a castração de Caco ou a prisão de Suze, Caubói e Biga, tampouco a morte de Tutu, os excessos alcoólicos dos três mosqueteiros da guarita (Juanito, Tidi e Zinho) ou os delírios cocainômanos de Goga, nos abalara tanto. O doloroso adeus a Dioi era definitivo, irrevogável. Por conta disso, desabamos em choro convulsivo, agitado, infernal. Pranto este que inclusive os mortos, nos breves intervalos das explosões dos canhões, enquanto a fumaça da pólvora desaparecia no ar e as lágrimas escorriam para regar a terra sepulcral, podiam ouvir o soluçar.
E assistindo as pás soterrando o ataúde, misturando terra às coroas e aos botões de flores, tentei manter os pensamentos ruins afastados de mim. Foi assim que ouvi a onipresente voz fina de Deus cantando a paródia de uma canção popular.
“Do you love love love? Do you love baseado?”
Entrecortando o refrão, afloraram trechos de vários momentos célebres da vida de Dioi. Dentre provérbios e orações, distingui uma anedótica confidência onírica que certa vez fizera a seu primo, Boi.
“Velho, sonhei com você está noite. Nós estávamos tocando numa banda. Daí surgiu um cara e transformou você num violino. Comecei a passar a vara em você e você gritava duro, mas gritava duro mesmo”.
A essa altura dos fatos, tive a impressão de que sua risada frenética ecoara sobre as cabeças dos presentes. Quanto a mim, esboçando um sorriso quase humano, saindo do exagerado embevecimento, não notei se todos compartilharam do momento sobrenatural.
Ao término da vigília e da cerimônia de sepultamento, quase vinte e quatro horas após minha chegada, tornei a me retrair. Queria ficar sozinho e refletir sobre quais caminhos tomaria daquele momento em diante. Quem me nortearia? Quem eu deveria venerar? A imagem de quem eu propagaria em rodas de conversas suspeitas e escritos prementes que nasciam no alvor do dia noturno? Parte do cortejo deixara a funerária. Outra parte formava a fila dos cumprimentos. Nisso juntei-me às pessoas que aguardavam para falar com a família do Deus morto. Expressei meus pêsames apertando com intenso carinho a mão da viúva e do filho único, o príncipe herdeiro do carma do pai. Em seguida, alguns conhecidos convidaram-me para algo (Um trago? Um delito? Um protesto? Uma ONG? Uma orgia? Que merda de diferença faria?), mas não ouvi. Sinceramente. Fui notar que estavam ao meu lado quando já me davam as costas e partiam. Aos diabos! Só conseguia pensar em Dioi... Dioi, o Santo Dioi! Pensava em como ele, em vida, tivera sofrimento e bonança nas medidas exatas. Imaginava os lugares onde esteve, com quem esteve, o que fez e como procedeu em determinadas ocasiões. Imaginava as sete clínicas de reabilitação, os três presídios, o manicômio, os furtos, uma família que sempre o ajudava, o estupro, a esposa, um filho e incontáveis detenções por uso e porte de entorpecentes, dentre outras ilegalidades, que Dioi enfrentara com ânimo invejável. Eu só conseguia pensar em Dioi, e em como apesar de toda sua trajetória ele conseguia manter o frescor no sorriso insano de sempre. Refletindo profundamente sobre Deus, senti conforto ao concluir que dentre tantos homens no bairro, o Russo me escolhera para ser um dos escrivões de seus lendários feitos. E sei também que toda a trupe lhe era grata. Até o fim. Grata por ter sido Dioi, nosso vizinho, o inventor da voz fina que não cansávamos de usar e propagar.
Foram Gaúcho e Turista que me retiraram do estado absorto de saudosismo. Vieram a mim, voltando do banheiro. Percebi que haviam consideravelmente emagrecido, mas, diante de meu estado inverso – quero dizer que engodara como um marrão, criado com zelo, para o abate –, calei-me. Deixei que falassem à vontade. Convenceram-me de que deveríamos presentear o filho de Deus. Sabíamos que os familiares ainda demorariam a deixar o templo das cerimônias, pois ainda era extensa a fila de pessoas aguardando para lhes cumprimentar e expressar as máximas condolências. Sendo assim, corremos – trespassados por um filete de alegria – para comprar os regalos.
– Perceberam? Ele parecia respirar dentro do ataúde... – manifestei-me, em meio à falta de ar dos pulmões despreparados, ao passo que eles nada falaram sobre e aceleraram o trote.
Voltamos em menos de quinze minutos. Presenteamos o pequeno príncipe órfão para que ele nunca esquecesse dos feitos de seu pai. Alguns, ao menos. Eu o presenteei com um prato de comida e expliquei-lhe em detalhes sobre o posicionamento que seu pai costumava ter. Fiz o garoto repetir, com aquela voz, para demonstrar algum respeito pelo progenitor: “Nunca fui pedir um prato de comida na tua casa!”. Gaúcho ofereceu um porta-retratos emoldurando famosa fotografia de Dioi com o impávido semblante jovial e as ventas em chamas, de braços abertos, esperando seu primo Macaco descer do avião londrino. Turista deixou para o garoto seu gravador de áudio contendo longas conversas com o ser iluminado, e, por isso, inconseqüente. O menino logo quis pôr o aparelho para funcionar e escutar do que se tratava.
A viúva – triste como uma écharpe de raposa – nos agradeceu, emocionada com o ato surpresa. No entanto, creio que o garoto não compreendeu perfeitamente nossa devoção e o significado das lembranças, porém, sabíamos que não tardaria a chegada da vibrante noite carmesim em que o jovem assimilaria aquela profusão de ensinamentos. Nesse momento ele sentiria nossas mãos lhe agraciando, ficando-nos infernalmente grato pelos souvenires.
Domamos nossa impaciência no saguão da agência funerária ao determo-nos para tomar um café ou coisa parecida. Fitamo-nos com seriedade. Os olhos dardejantes passando de um rosto ao outro, do minúsculo copo entre os dedos às memórias algo douradas que carregávamos. Então, tudo novamente, sempre esquecendo algo e lembrando outra coisa a cada volta. Acompanhei o pomo de adão dos dois enquanto bebiam o estimulante torrado e quente. Narizes afundados nas xícaras. Mas o ritual do café ou coisa que o valha foi interrompido por forças urgentes. Consentimos com a cabeça, mudos como a lua daquele dia de luto fechado. Trejeitos desse tipo tinham significados concisos. Sabíamos que deveríamos nos encontrar na taverna do Biga – o Rancho de Taquara, no coração do querido Cerrados –, se nós quiséssemos derreter a morte com velas de amor fraternal.
Olhei para o pulso, onde se encontravam os ponteiros do relógio. Batiam 13:13. Era hora dos morcegos baterem asas.
Pt. II
Ainda que reprovasse a onomatopéia (fou fou fou) de vôo que balbuciávamos, Biga ficou feliz em rever todos nós. Desde que havia cumprido sua pena e sido posto em liberdade, não o visitávamos. Ele sabia muito sobre o falecido, e quiçá emocionado pelas circunstâncias, coroou-nos com três doses de cachaça que desapareceram num segundo que não existiu nem voltará atrás.
– Biga! – chamei-lhe – Dessa vez, já sabe o que fazer. Traga três copázios de cerveja. Eles costumam durar um pouco mais.
Outra vez, viramos. Contrariando as expectativas. Fundo seco. Para aplacar o desespero.
– Ah! – exclamamos, os três, um tanto lubrificados, na volúpia do refrescamento.
– Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar arrotando melhor – disse Biga antes de ir ocupar-se de seus negócios com outrem.
– Como diz o ditado – rememorou Gaúcho – quem tem uma caixa de cerveja não tem nada.
O que mais me espanta é que mesmo após milhares de acontecimentos excessivamente confusos e perturbados verificados em nossas incivis vidas, nós três ainda lembrássemos do bolão. Foi uma espécie de aposta coletiva que fizemos entre a trupe. Quem acertasse a data (ou chegasse mais próximo) da morte de Dioi levaria o dinheiro envolvido. Não passava de uma ninharia, evidentemente. Ninguém se dera bem com isso, entretanto. Ninguém supunha que o mito prolongasse – e muito – sua meteórica passagem por este mundo.
– Bá, piazada – pontuou Gaúcho, se levantando para apanhar uma bola de sinuca que rolara até seus pés e arremessá-la com exagerada força para os colonos que estavam à mesa segurando os tacos, esperando para prosseguir a partida –, que loucura foi esse bolão, hein? Somos uns Dráculas famintos mesmo. Reah.
– Rá-rá-rá-rá – fez Turista, dando sua risada mais sonolenta.
– Biga, traga outra rodada! – gritei, babando em mim mesmo – Sim, Gaúcho, mas na época precisávamos fazê-lo – virei para o Turista, engatilhando outro assunto – Porra, muito estranho isso, cara. Quer dizer que tu tem de beber cachaça antiofídica para não ficar maluco?
– Éan – respondeu Turista – Quer dizer, quase isso. Começo a tremer e suar. Depois a garganta seca, o coração dispara e surge uma febre terrível. Dá uma olhada na cicatriz que as presas da cobra me deixaram – ele ergueu a camisa e nos mostrou dois consideravelmente largos pontos negros próximos às costelas.
– São Sinfrônio! – exclamei, quase derrubando o copo.
– Durante a turnê pela Bolívia, a banda acabou estendendo a permanência mais do que o previsto. Num final de semana qualquer, desci ao rio com Chuy, o goleiro. Foi lá que aconteceu a desgraça.
Então ele pediu a dose de pinga na qual diluiria seu remédio. Biga, o taberneiro, a trouxe. Fiquei assistindo para aprender. Turista tratou de misturar àquilo o conteúdo de um frasco de soro antiofídico. O cheiro da bebida era bizarro, proibido. De acordo com um bugre que lhe ensinara a receita, o odor tinha de ser ruim o suficiente para afastar os maus espíritos rastejantes. Ofereceu-me um pouco. Sem demora, aceitei. O gole caiu como uma granada na minha caverna estomacal.
– La draga muy fuerte! – exclamei, com o rosto avermelhado.
– La draga muy fuerte! – repetiu Turista, acostumado.
– La draga muy fuerte! – concluiu Gaúcho, tirando sarro.
Levantei-me para dar alguns passos nas dependências do Rancho. A intenção era deambular para acelerar a circulação sangüínea e desvencilhar-me de uma vez da sensação pouco familiar provocada pela infusão. Através de uma abertura no portão de entrada, encontrei um caminhão com uma casa pré-fabricada na carroceria. Meio chocado com a visão, retornei à mesa.
– Ei, vocês viram aquilo em cima do caminhão? – e, se alguém seguisse na direção apontada pelo meu dedo, encontraria aquilo que lhes falava.
Turista não respondeu, ocupava-se com anotações num caderno de bolso. Sem muita empolgação se comparado a mim, Gaúcho explicou que a casa, bem como o caminhão, lhe pertenciam. Havia algo mais por trás daquilo. O plano era pegar a estrada e procurar um lugar para literalmente plantar a casa.
– Onde diabos você aprendeu a fazer esse tipo de serviço, Gaúcho? – indagou Turista, sem tirar a ponta da caneta da folha do bloquinho.
– No sul, oras. Onde mais seria? É só lá que as coisas funcionam.
– Deixando esses exageros de lado – comecei – Diga-nos mais. Aonde pensa em levar a casa?
– Meu plano é descer, descer cada vez mais, descer e continuar descendo. Atravessar a fronteira. Percorrer El Soberbio, Dos de Mayo, Oberá, Aristobulo del Valle...
– Se descer tanto, chegará a Tierra del Fuego – intrometeu-se Biga, que logo percebeu o despropósito – Hã, desculpem. Se precisarem de mim, é só chamar.
– Como eu dizia: descer. Quando encontrarmos o local perfeito, descarregamos e nos instalamos.
– Quem vai com você?
– Espero encontrar todo mundo lá. Mas por enquanto, vocês dois.
Turista aquiesceu, levantando as sobrancelhas e sorrindo como um gato. O negócio era sério. Porém, me pegaram desprevenido. A sombra fúnebre ainda pairava na minha cabeça. Eu precisava mudar. Além do que, tenho certa necessidade de planejamento próprio. Minha sistematização é outra; meus transtornos são perfeccionistas. Lançar-se em aventuras insensatas não era de meu feitio. De modo que muitas possibilidades não imaginadas me afetam quando surgem de súbito. Senti a bexiga latejar. Eu precisava mesmo mudar. Nada do que eu aprendi até hoje foi inútil.
– Preciso ir ao banheiro – e levantei-me.
– Eu vou com você.
Abri o zíper e perguntei para Turista, que estava ao meu lado no mictório.
– Gaúcho se converteu para alguma religião?
– Capaz. Esse é eternamente louco. Até depois de morto.
– Sei. Deve ser por conta de seus princípios de Hezbollah. Regra número 1: Keep going.
Enquanto lavava as mãos e me preparava para puxar umas quatro folhas de papel toalha para, em seguida, secá-las, percebi que no cesto de lixo do banheiro havia ratos roendo cuecas ensangüentadas. Sem entender os motivos da conexão neural, atentei-me para o fato de que gostávamos de ficar bêbados e rodar sessenta quilômetros até outra cidade só para comer algo e voltar. Meio atordoado, voltei à mesa pela segunda e última vez.
– Estou pronto. Vamos sair daqui.
O tanque estava quase cheio, os pneus calibrados, o vidro da frente empoeirado e o óleo em bom nível. Partimos imediatamente, portanto. E devido insistência, Turista foi dirigindo. Pouco mais de meia-hora depois, ao invés de já termos saído dos limites da cidade, estávamos presos num engarrafamento incomum para o momento. Eu estava deveras excitado com as possibilidades da viagem. Pensava nisso e naquilo mais, quando, de repente, o fora da lei no volante começou a passar mal. Palrava com ódio, em outras línguas, gesticulando com fantasmas. Falávamos para virar a esquerda e lá íamos nós para a direita. Ele precisava de sua infusão com urgência. Encontramos uma vaga e fizemos parada obrigatória na Pastelaria Lhufas, situada num prédio underground famoso onde, segundo as lendas, um escritor fracassado suicidara-se. Descemos correndo do caminhão. Direto para o balcão. Eu mesmo preparei a cachaça antiofídica de Turista. Ele a engoliu virando os olhos, trêmulo como as águas de uma corredeira.
– Agora é só esperar um pouco. Daqui a pouco estou pronto para seguir. Deixem-me cochilar por alguns minutos.
– E agora, Gaúcho?
– Peça umas garrafas para eu conseguir te contar umas coisas. Reah.
Rapidamente fui buscar. Regressando, vi que Turista, algo sonâmbulo, embotado, penteava o cabelo com uma faca.
– Hmm, isso é legal. Faz cócegas.
Desceu a lâmina e coçou, coçou bastante as costas. Pelo barulho da fricção, parecia que rasgaria a pele. Mas pelo modo como o sujeito regozijava-se, deixei-o se satisfazer. Nem se quisesse eu poderia me intrometer. Corria o risco de cortar a ponta da língua no canino superior caso falasse besteira, antes de Gaúcho.
– Bá, deixa eu contar o que aconteceu hoje. Precisava faltar ao trabalho. Então disse que estava mal do estômago. Para dar cobertura completa a fraude, tinha de conseguir uma requisição hospitalar. Em outras palavras, o atestado médico. O médico que me atendeu foi educado, rápido, e no fim disse que eu estava muito bem. Mas para minha surpresa, ele não me liberou. Receitou, por garantia, que eu fosse a enfermaria e ministrassem-me dois litros de soro fisiológico. Demorou demais isso. Às vezes eu regulava o equipo para gotejar mais rápido, como uma cachoeira. As enfermeiras logo percebiam, censurando-me. Bom, esse foi o motivo do atraso. Mas agora estou hidratadinho, documentado, morto de alegria. Delirium tremens? Nunca ouvi falar. Reah.
– Por que simplesmente não disse ao seu patrão que um amigo havia morrido e tinha de ir ao velório? – questionei, meditativo, alisando a pança.
– Ah, prefiro promentir. Como diz o ditado, não há nada como uma cabeça de cinco – suspirou o sulista, citando palavras de Dioi.
Caímos na risada. Paramos logo em seguida com receio de acordar Turista. Retomamos as gargalhadas logo depois, pois notamos que o expatriado boliviano estava tão grogue quanto o Sérgio Malandro. Inflamado por idéias quentes, Gaúcho correu ao balcão e apanhou fichas para a jukebox. Colocou Billy Idol para tocar enquanto sacava seu isqueiro e ateava fogo na máquina. Dançando, em giros e piruetas, voltou à mesa e pegou Turista pelo pescoço.
– Andriolli, tu sabe que tu é meu brother! – noutra mão, brandia um garfo torto – Acorda, bicho. Eu e você, aqui nesse mundo. Vai lá fora e liga o som do caminhão. Reah.
Apesar da agitação, Turista não abrira os olhos. Mas ao eclodir um assombroso estrondo do lado de fora, ele se levantou, apressado.
– Que barulho foi esse?
– O eco da morte – avisei.
Saímos do Lhufas para ver o que acontecia. O caminhão e a casa haviam desaparecido.
– Mas que porra! Esqueci de avisar – lamentou-se Gaúcho, assumindo o erro – O freio de mão do caminhão estava estragado.
– Nice job, Xirú.
Andamos até o meio da rua e forçando a visão vimos que o veículo descera algumas quadras e capotara. A casa também estava lá, caída no meio da rua, no cruzamento com a Rua da Paz, onde o cara dos malabares ganhava seus trocados. Escorregamos até lá. Abrimos a porta da frente e conhecemos nosso próprio ser interior. Tão-somente descaminhados.
– Lar é onde nós nos sentimos bem. E eu me sinto bem em todos os lugares onde estive – reconheceu Turista, com sua experiência de trotamundos – Que toquem o tango mais assassino para nós vivermos bem.
Pt. III
Contamos um par de anos antes de notarmos que deveríamos sair de casa. E só saímos quando coisas morreram. Dentro de nós. Saímos porque o mar já estava próximo da casa. Queríamos venerá-lo. E todos nossos amigos, até os imaginários estavam presentes.
Dioi, Andriolli, Tutu, Caco, Macaco, Papa, Xuxa, Caubói, Boi, Bat, Beto Pilha, Garoto de Programa, Princesinha do Verão, Lolo, Tigrinho, Bugrinho, Mancueba, Dioiturga, Seven, McArthur, Bruno Bela Vista, Cinthia de Biase, Keyser_Soze, Russo, Cumum, Harry Potta, (Ó, me enganei. Pau no cu não entra aqui. Não há espaço ou cota para garotos mimados que correm atrás de irmãos com faca na mão. Risque o último nome e prossiga a leitura), Bote, Gordo, Lixeiro, Jota, Lady K, Goga, Castzilla, Fran, Tino, Guiga, Cami 220, Loro, Ferrari, Anna Mércia, Pedrinha, Pedrón, Liberalino, Charbas, Vilarvi, 1515, os Sagins, Ankito, Andarilho, Gus, Peste, Gauli, Biga, Juanito, Tidi, Zinho, Palito, Macumba, Notorius B.I.G., Formiga, Dona Cida, Boto Cor-de-rosa, Ditão, Daniscley, Caça-Fantasma, Nha-nhá, Alein Frenético, Dark, Homem-Cova, Homem do Subsolo, Homem do Viaduto, Bezerro, Vovô, Rabisco, Moreninho Forte, Monstro, Mamífero, Prota, Dota, Lead, Rodrugs, Gayoso, Maniac, Sol, Ig, Sick, Jonas, Thiago-Rogê Millá, Fernanda da Moto, Pipiu, Bicudo, Drácula, Branquinho da Mata Grande, Djoa, Suze...
Ei-los, os sujeitos merecedores de menção honrosa. Portanto, analisei cada um daqueles rostos importantes. Em volta da casa, eles nos aplaudiam. Jogavam areia para o alto, celebrando a união.
– Como vão as coisas na orla marítima? – perguntei ao vento que passava por entre nós e fazia-nos assumir formas reais.
Alguém se preparava para acender uma fogueira. Outro ensinava as gaivotas a voar. Trouxeram bebidas, e minhocas para alimentarmos as plantas carnívoras.
– Ah! – suspirou Turista, aliviado, afastando a letargia, aproximando o diletantismo protestante e exercendo sua arte por gosto, não por obrigação ou como um fim – Eu sempre passo nesse lugar quando não sei aonde vou.
Finalmente havia chegado o grande dia da fundação do Clube do Gerson.
– Vamos para dentro – sugeriu Gaúcho – Tenho Irish Coffee, seda e caneta. Dá para disputarmos o jogo da forca. Reah.
– Rá-rá-rá.
– "É mais fácil construir casas imaginárias do que amizades reais". *
Diante disso, Turista pegou sua viola e dedilhou-a enquanto Gaúcho, no mais cristalino castelhano esquecido, entoava apócrifas canções divertidas sobre lindas virgens em apuros. Eu não entrei na casa. Fiquei brincando com as gaivotas junto aos demais que também preferiam voar. Aos poucos, entretanto, cada um foi entrando no Clube. Lá parecia mais animado e seguro. Fiquei sozinho na praia, vagando, lambendo o sol, assistindo ondas gigantes que começavam a se aproximar. Deitei-me para acariciar as pegadas deixadas na areia pelos meus amigos. Então, ali me enterrei.
Pt. I
Tudo começou... Ou melhor, quem é que pode dizer quando algo finalmente começa? Possivelmente o que faço não passa de uma maneira vulgar de encartuchar memórias plúmbeas. Pesadas e sem vida. Mas se temos de falar a respeito, é melhor que seja agora. Embora soe estranho se dito assim, meu pálido palpite é que tudo tenha começado quando eu, Gaúcho e Turista nos vimos no movimentado velório e subseqüente enterro de Deus. Não nos encontrávamos pessoalmente desde que ambos deixaram o bairro onde, ao lado de outros membros da trupe alada, presenciamos o nascimento, o aprendizado, a ascensão, a coroação e a glória perene deste ser mítico: Dioi. Divindade incontestável que no ensejo jazia – pedindo clemência, pálido, mãos atadas apoiadas no peito seco, narinas obstruídas por tufos de algodão, vestes alinhadas, as coroas de ofuscantes flores brancas em volta –, que agora finalmente descansava no caixão negro, um lar fixo próximo e cada vez mais distante de seus nem tão fiéis companheiros. A partir da desditosa data, tudo mudaria. Ninguém sairia incólume, tenho certeza. Mesmo o fluxo da cidade, as ondas do mar, a circulação do sangue dos morcegos, os escambos, as coisas elementares, as horas... Sim, insisto, outrossim, as horas. Nada mais reverente do que a curvatura do tempo na presença de Dioi! Ao invés de escorrerem como de hábito, as notas do eixo temporal passariam a flutuar, sonolentas, resignadas, minuto a minuto, centímetro a centímetro, agarrando-se aos corpos dos vivos, suspiro a suspiro, diante da triste situação de morte.
Por outro lado, há a possibilidade de minha intuição estar me traindo, e que tudo tenha começado há muito mais tempo. Antes, bem antes da hipotética data de sua concepção. Se assim for, vos confesso que a morte de Deus era apenas o prelúdio de um grande recomeço; era a volta dos clássicos tempos dourados. Aquele, portanto, só podia ser um evento abençoado pelo cosmos, já que nos reunia outra vez.
De qualquer maneira, o referido afastamento voluntário dos dois talvez colaborasse e reforçasse o clima silencioso e fúnebre da ocasião. Gaúcho se atrasara para o velório, chegando no derradeiro momento, pela manhã, desconversando, sem revelar seus motivos. Junto aos demais, eu e Turista agoniávamos devido ao longo período de vigília. Na hora do último adeus, enquanto os coveiros içavam o caixão na acolhedora vala, seus parentes, desacreditados e desesperados, dispararam tiros de canhão. Comovido com a demonstração de afeto aflitivo, o Turista emprestou El Trompete Blanco de Ivanildo, um dos primos de Deus, e solou por cinco ininterruptos minutos elegíacos. Somente então, sublimados, embora não completamente racionais, sentimos na alma a gravidade da perda. E ela era irreparável para nós. Nem a castração de Caco ou a prisão de Suze, Caubói e Biga, tampouco a morte de Tutu, os excessos alcoólicos dos três mosqueteiros da guarita (Juanito, Tidi e Zinho) ou os delírios cocainômanos de Goga, nos abalara tanto. O doloroso adeus a Dioi era definitivo, irrevogável. Por conta disso, desabamos em choro convulsivo, agitado, infernal. Pranto este que inclusive os mortos, nos breves intervalos das explosões dos canhões, enquanto a fumaça da pólvora desaparecia no ar e as lágrimas escorriam para regar a terra sepulcral, podiam ouvir o soluçar.
E assistindo as pás soterrando o ataúde, misturando terra às coroas e aos botões de flores, tentei manter os pensamentos ruins afastados de mim. Foi assim que ouvi a onipresente voz fina de Deus cantando a paródia de uma canção popular.
“Do you love love love? Do you love baseado?”
Entrecortando o refrão, afloraram trechos de vários momentos célebres da vida de Dioi. Dentre provérbios e orações, distingui uma anedótica confidência onírica que certa vez fizera a seu primo, Boi.
“Velho, sonhei com você está noite. Nós estávamos tocando numa banda. Daí surgiu um cara e transformou você num violino. Comecei a passar a vara em você e você gritava duro, mas gritava duro mesmo”.
A essa altura dos fatos, tive a impressão de que sua risada frenética ecoara sobre as cabeças dos presentes. Quanto a mim, esboçando um sorriso quase humano, saindo do exagerado embevecimento, não notei se todos compartilharam do momento sobrenatural.
Ao término da vigília e da cerimônia de sepultamento, quase vinte e quatro horas após minha chegada, tornei a me retrair. Queria ficar sozinho e refletir sobre quais caminhos tomaria daquele momento em diante. Quem me nortearia? Quem eu deveria venerar? A imagem de quem eu propagaria em rodas de conversas suspeitas e escritos prementes que nasciam no alvor do dia noturno? Parte do cortejo deixara a funerária. Outra parte formava a fila dos cumprimentos. Nisso juntei-me às pessoas que aguardavam para falar com a família do Deus morto. Expressei meus pêsames apertando com intenso carinho a mão da viúva e do filho único, o príncipe herdeiro do carma do pai. Em seguida, alguns conhecidos convidaram-me para algo (Um trago? Um delito? Um protesto? Uma ONG? Uma orgia? Que merda de diferença faria?), mas não ouvi. Sinceramente. Fui notar que estavam ao meu lado quando já me davam as costas e partiam. Aos diabos! Só conseguia pensar em Dioi... Dioi, o Santo Dioi! Pensava em como ele, em vida, tivera sofrimento e bonança nas medidas exatas. Imaginava os lugares onde esteve, com quem esteve, o que fez e como procedeu em determinadas ocasiões. Imaginava as sete clínicas de reabilitação, os três presídios, o manicômio, os furtos, uma família que sempre o ajudava, o estupro, a esposa, um filho e incontáveis detenções por uso e porte de entorpecentes, dentre outras ilegalidades, que Dioi enfrentara com ânimo invejável. Eu só conseguia pensar em Dioi, e em como apesar de toda sua trajetória ele conseguia manter o frescor no sorriso insano de sempre. Refletindo profundamente sobre Deus, senti conforto ao concluir que dentre tantos homens no bairro, o Russo me escolhera para ser um dos escrivões de seus lendários feitos. E sei também que toda a trupe lhe era grata. Até o fim. Grata por ter sido Dioi, nosso vizinho, o inventor da voz fina que não cansávamos de usar e propagar.
Foram Gaúcho e Turista que me retiraram do estado absorto de saudosismo. Vieram a mim, voltando do banheiro. Percebi que haviam consideravelmente emagrecido, mas, diante de meu estado inverso – quero dizer que engodara como um marrão, criado com zelo, para o abate –, calei-me. Deixei que falassem à vontade. Convenceram-me de que deveríamos presentear o filho de Deus. Sabíamos que os familiares ainda demorariam a deixar o templo das cerimônias, pois ainda era extensa a fila de pessoas aguardando para lhes cumprimentar e expressar as máximas condolências. Sendo assim, corremos – trespassados por um filete de alegria – para comprar os regalos.
– Perceberam? Ele parecia respirar dentro do ataúde... – manifestei-me, em meio à falta de ar dos pulmões despreparados, ao passo que eles nada falaram sobre e aceleraram o trote.
Voltamos em menos de quinze minutos. Presenteamos o pequeno príncipe órfão para que ele nunca esquecesse dos feitos de seu pai. Alguns, ao menos. Eu o presenteei com um prato de comida e expliquei-lhe em detalhes sobre o posicionamento que seu pai costumava ter. Fiz o garoto repetir, com aquela voz, para demonstrar algum respeito pelo progenitor: “Nunca fui pedir um prato de comida na tua casa!”. Gaúcho ofereceu um porta-retratos emoldurando famosa fotografia de Dioi com o impávido semblante jovial e as ventas em chamas, de braços abertos, esperando seu primo Macaco descer do avião londrino. Turista deixou para o garoto seu gravador de áudio contendo longas conversas com o ser iluminado, e, por isso, inconseqüente. O menino logo quis pôr o aparelho para funcionar e escutar do que se tratava.
A viúva – triste como uma écharpe de raposa – nos agradeceu, emocionada com o ato surpresa. No entanto, creio que o garoto não compreendeu perfeitamente nossa devoção e o significado das lembranças, porém, sabíamos que não tardaria a chegada da vibrante noite carmesim em que o jovem assimilaria aquela profusão de ensinamentos. Nesse momento ele sentiria nossas mãos lhe agraciando, ficando-nos infernalmente grato pelos souvenires.
Domamos nossa impaciência no saguão da agência funerária ao determo-nos para tomar um café ou coisa parecida. Fitamo-nos com seriedade. Os olhos dardejantes passando de um rosto ao outro, do minúsculo copo entre os dedos às memórias algo douradas que carregávamos. Então, tudo novamente, sempre esquecendo algo e lembrando outra coisa a cada volta. Acompanhei o pomo de adão dos dois enquanto bebiam o estimulante torrado e quente. Narizes afundados nas xícaras. Mas o ritual do café ou coisa que o valha foi interrompido por forças urgentes. Consentimos com a cabeça, mudos como a lua daquele dia de luto fechado. Trejeitos desse tipo tinham significados concisos. Sabíamos que deveríamos nos encontrar na taverna do Biga – o Rancho de Taquara, no coração do querido Cerrados –, se nós quiséssemos derreter a morte com velas de amor fraternal.
Olhei para o pulso, onde se encontravam os ponteiros do relógio. Batiam 13:13. Era hora dos morcegos baterem asas.
Pt. II
Ainda que reprovasse a onomatopéia (fou fou fou) de vôo que balbuciávamos, Biga ficou feliz em rever todos nós. Desde que havia cumprido sua pena e sido posto em liberdade, não o visitávamos. Ele sabia muito sobre o falecido, e quiçá emocionado pelas circunstâncias, coroou-nos com três doses de cachaça que desapareceram num segundo que não existiu nem voltará atrás.
– Biga! – chamei-lhe – Dessa vez, já sabe o que fazer. Traga três copázios de cerveja. Eles costumam durar um pouco mais.
Outra vez, viramos. Contrariando as expectativas. Fundo seco. Para aplacar o desespero.
– Ah! – exclamamos, os três, um tanto lubrificados, na volúpia do refrescamento.
– Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar arrotando melhor – disse Biga antes de ir ocupar-se de seus negócios com outrem.
– Como diz o ditado – rememorou Gaúcho – quem tem uma caixa de cerveja não tem nada.
O que mais me espanta é que mesmo após milhares de acontecimentos excessivamente confusos e perturbados verificados em nossas incivis vidas, nós três ainda lembrássemos do bolão. Foi uma espécie de aposta coletiva que fizemos entre a trupe. Quem acertasse a data (ou chegasse mais próximo) da morte de Dioi levaria o dinheiro envolvido. Não passava de uma ninharia, evidentemente. Ninguém se dera bem com isso, entretanto. Ninguém supunha que o mito prolongasse – e muito – sua meteórica passagem por este mundo.
– Bá, piazada – pontuou Gaúcho, se levantando para apanhar uma bola de sinuca que rolara até seus pés e arremessá-la com exagerada força para os colonos que estavam à mesa segurando os tacos, esperando para prosseguir a partida –, que loucura foi esse bolão, hein? Somos uns Dráculas famintos mesmo. Reah.
– Rá-rá-rá-rá – fez Turista, dando sua risada mais sonolenta.
– Biga, traga outra rodada! – gritei, babando em mim mesmo – Sim, Gaúcho, mas na época precisávamos fazê-lo – virei para o Turista, engatilhando outro assunto – Porra, muito estranho isso, cara. Quer dizer que tu tem de beber cachaça antiofídica para não ficar maluco?
– Éan – respondeu Turista – Quer dizer, quase isso. Começo a tremer e suar. Depois a garganta seca, o coração dispara e surge uma febre terrível. Dá uma olhada na cicatriz que as presas da cobra me deixaram – ele ergueu a camisa e nos mostrou dois consideravelmente largos pontos negros próximos às costelas.
– São Sinfrônio! – exclamei, quase derrubando o copo.
– Durante a turnê pela Bolívia, a banda acabou estendendo a permanência mais do que o previsto. Num final de semana qualquer, desci ao rio com Chuy, o goleiro. Foi lá que aconteceu a desgraça.
Então ele pediu a dose de pinga na qual diluiria seu remédio. Biga, o taberneiro, a trouxe. Fiquei assistindo para aprender. Turista tratou de misturar àquilo o conteúdo de um frasco de soro antiofídico. O cheiro da bebida era bizarro, proibido. De acordo com um bugre que lhe ensinara a receita, o odor tinha de ser ruim o suficiente para afastar os maus espíritos rastejantes. Ofereceu-me um pouco. Sem demora, aceitei. O gole caiu como uma granada na minha caverna estomacal.
– La draga muy fuerte! – exclamei, com o rosto avermelhado.
– La draga muy fuerte! – repetiu Turista, acostumado.
– La draga muy fuerte! – concluiu Gaúcho, tirando sarro.
Levantei-me para dar alguns passos nas dependências do Rancho. A intenção era deambular para acelerar a circulação sangüínea e desvencilhar-me de uma vez da sensação pouco familiar provocada pela infusão. Através de uma abertura no portão de entrada, encontrei um caminhão com uma casa pré-fabricada na carroceria. Meio chocado com a visão, retornei à mesa.
– Ei, vocês viram aquilo em cima do caminhão? – e, se alguém seguisse na direção apontada pelo meu dedo, encontraria aquilo que lhes falava.
Turista não respondeu, ocupava-se com anotações num caderno de bolso. Sem muita empolgação se comparado a mim, Gaúcho explicou que a casa, bem como o caminhão, lhe pertenciam. Havia algo mais por trás daquilo. O plano era pegar a estrada e procurar um lugar para literalmente plantar a casa.
– Onde diabos você aprendeu a fazer esse tipo de serviço, Gaúcho? – indagou Turista, sem tirar a ponta da caneta da folha do bloquinho.
– No sul, oras. Onde mais seria? É só lá que as coisas funcionam.
– Deixando esses exageros de lado – comecei – Diga-nos mais. Aonde pensa em levar a casa?
– Meu plano é descer, descer cada vez mais, descer e continuar descendo. Atravessar a fronteira. Percorrer El Soberbio, Dos de Mayo, Oberá, Aristobulo del Valle...
– Se descer tanto, chegará a Tierra del Fuego – intrometeu-se Biga, que logo percebeu o despropósito – Hã, desculpem. Se precisarem de mim, é só chamar.
– Como eu dizia: descer. Quando encontrarmos o local perfeito, descarregamos e nos instalamos.
– Quem vai com você?
– Espero encontrar todo mundo lá. Mas por enquanto, vocês dois.
Turista aquiesceu, levantando as sobrancelhas e sorrindo como um gato. O negócio era sério. Porém, me pegaram desprevenido. A sombra fúnebre ainda pairava na minha cabeça. Eu precisava mudar. Além do que, tenho certa necessidade de planejamento próprio. Minha sistematização é outra; meus transtornos são perfeccionistas. Lançar-se em aventuras insensatas não era de meu feitio. De modo que muitas possibilidades não imaginadas me afetam quando surgem de súbito. Senti a bexiga latejar. Eu precisava mesmo mudar. Nada do que eu aprendi até hoje foi inútil.
– Preciso ir ao banheiro – e levantei-me.
– Eu vou com você.
Abri o zíper e perguntei para Turista, que estava ao meu lado no mictório.
– Gaúcho se converteu para alguma religião?
– Capaz. Esse é eternamente louco. Até depois de morto.
– Sei. Deve ser por conta de seus princípios de Hezbollah. Regra número 1: Keep going.
Enquanto lavava as mãos e me preparava para puxar umas quatro folhas de papel toalha para, em seguida, secá-las, percebi que no cesto de lixo do banheiro havia ratos roendo cuecas ensangüentadas. Sem entender os motivos da conexão neural, atentei-me para o fato de que gostávamos de ficar bêbados e rodar sessenta quilômetros até outra cidade só para comer algo e voltar. Meio atordoado, voltei à mesa pela segunda e última vez.
– Estou pronto. Vamos sair daqui.
O tanque estava quase cheio, os pneus calibrados, o vidro da frente empoeirado e o óleo em bom nível. Partimos imediatamente, portanto. E devido insistência, Turista foi dirigindo. Pouco mais de meia-hora depois, ao invés de já termos saído dos limites da cidade, estávamos presos num engarrafamento incomum para o momento. Eu estava deveras excitado com as possibilidades da viagem. Pensava nisso e naquilo mais, quando, de repente, o fora da lei no volante começou a passar mal. Palrava com ódio, em outras línguas, gesticulando com fantasmas. Falávamos para virar a esquerda e lá íamos nós para a direita. Ele precisava de sua infusão com urgência. Encontramos uma vaga e fizemos parada obrigatória na Pastelaria Lhufas, situada num prédio underground famoso onde, segundo as lendas, um escritor fracassado suicidara-se. Descemos correndo do caminhão. Direto para o balcão. Eu mesmo preparei a cachaça antiofídica de Turista. Ele a engoliu virando os olhos, trêmulo como as águas de uma corredeira.
– Agora é só esperar um pouco. Daqui a pouco estou pronto para seguir. Deixem-me cochilar por alguns minutos.
– E agora, Gaúcho?
– Peça umas garrafas para eu conseguir te contar umas coisas. Reah.
Rapidamente fui buscar. Regressando, vi que Turista, algo sonâmbulo, embotado, penteava o cabelo com uma faca.
– Hmm, isso é legal. Faz cócegas.
Desceu a lâmina e coçou, coçou bastante as costas. Pelo barulho da fricção, parecia que rasgaria a pele. Mas pelo modo como o sujeito regozijava-se, deixei-o se satisfazer. Nem se quisesse eu poderia me intrometer. Corria o risco de cortar a ponta da língua no canino superior caso falasse besteira, antes de Gaúcho.
– Bá, deixa eu contar o que aconteceu hoje. Precisava faltar ao trabalho. Então disse que estava mal do estômago. Para dar cobertura completa a fraude, tinha de conseguir uma requisição hospitalar. Em outras palavras, o atestado médico. O médico que me atendeu foi educado, rápido, e no fim disse que eu estava muito bem. Mas para minha surpresa, ele não me liberou. Receitou, por garantia, que eu fosse a enfermaria e ministrassem-me dois litros de soro fisiológico. Demorou demais isso. Às vezes eu regulava o equipo para gotejar mais rápido, como uma cachoeira. As enfermeiras logo percebiam, censurando-me. Bom, esse foi o motivo do atraso. Mas agora estou hidratadinho, documentado, morto de alegria. Delirium tremens? Nunca ouvi falar. Reah.
– Por que simplesmente não disse ao seu patrão que um amigo havia morrido e tinha de ir ao velório? – questionei, meditativo, alisando a pança.
– Ah, prefiro promentir. Como diz o ditado, não há nada como uma cabeça de cinco – suspirou o sulista, citando palavras de Dioi.
Caímos na risada. Paramos logo em seguida com receio de acordar Turista. Retomamos as gargalhadas logo depois, pois notamos que o expatriado boliviano estava tão grogue quanto o Sérgio Malandro. Inflamado por idéias quentes, Gaúcho correu ao balcão e apanhou fichas para a jukebox. Colocou Billy Idol para tocar enquanto sacava seu isqueiro e ateava fogo na máquina. Dançando, em giros e piruetas, voltou à mesa e pegou Turista pelo pescoço.
– Andriolli, tu sabe que tu é meu brother! – noutra mão, brandia um garfo torto – Acorda, bicho. Eu e você, aqui nesse mundo. Vai lá fora e liga o som do caminhão. Reah.
Apesar da agitação, Turista não abrira os olhos. Mas ao eclodir um assombroso estrondo do lado de fora, ele se levantou, apressado.
– Que barulho foi esse?
– O eco da morte – avisei.
Saímos do Lhufas para ver o que acontecia. O caminhão e a casa haviam desaparecido.
– Mas que porra! Esqueci de avisar – lamentou-se Gaúcho, assumindo o erro – O freio de mão do caminhão estava estragado.
– Nice job, Xirú.
Andamos até o meio da rua e forçando a visão vimos que o veículo descera algumas quadras e capotara. A casa também estava lá, caída no meio da rua, no cruzamento com a Rua da Paz, onde o cara dos malabares ganhava seus trocados. Escorregamos até lá. Abrimos a porta da frente e conhecemos nosso próprio ser interior. Tão-somente descaminhados.
– Lar é onde nós nos sentimos bem. E eu me sinto bem em todos os lugares onde estive – reconheceu Turista, com sua experiência de trotamundos – Que toquem o tango mais assassino para nós vivermos bem.
Pt. III
Contamos um par de anos antes de notarmos que deveríamos sair de casa. E só saímos quando coisas morreram. Dentro de nós. Saímos porque o mar já estava próximo da casa. Queríamos venerá-lo. E todos nossos amigos, até os imaginários estavam presentes.
Dioi, Andriolli, Tutu, Caco, Macaco, Papa, Xuxa, Caubói, Boi, Bat, Beto Pilha, Garoto de Programa, Princesinha do Verão, Lolo, Tigrinho, Bugrinho, Mancueba, Dioiturga, Seven, McArthur, Bruno Bela Vista, Cinthia de Biase, Keyser_Soze, Russo, Cumum, Harry Potta, (Ó, me enganei. Pau no cu não entra aqui. Não há espaço ou cota para garotos mimados que correm atrás de irmãos com faca na mão. Risque o último nome e prossiga a leitura), Bote, Gordo, Lixeiro, Jota, Lady K, Goga, Castzilla, Fran, Tino, Guiga, Cami 220, Loro, Ferrari, Anna Mércia, Pedrinha, Pedrón, Liberalino, Charbas, Vilarvi, 1515, os Sagins, Ankito, Andarilho, Gus, Peste, Gauli, Biga, Juanito, Tidi, Zinho, Palito, Macumba, Notorius B.I.G., Formiga, Dona Cida, Boto Cor-de-rosa, Ditão, Daniscley, Caça-Fantasma, Nha-nhá, Alein Frenético, Dark, Homem-Cova, Homem do Subsolo, Homem do Viaduto, Bezerro, Vovô, Rabisco, Moreninho Forte, Monstro, Mamífero, Prota, Dota, Lead, Rodrugs, Gayoso, Maniac, Sol, Ig, Sick, Jonas, Thiago-Rogê Millá, Fernanda da Moto, Pipiu, Bicudo, Drácula, Branquinho da Mata Grande, Djoa, Suze...
Ei-los, os sujeitos merecedores de menção honrosa. Portanto, analisei cada um daqueles rostos importantes. Em volta da casa, eles nos aplaudiam. Jogavam areia para o alto, celebrando a união.
– Como vão as coisas na orla marítima? – perguntei ao vento que passava por entre nós e fazia-nos assumir formas reais.
Alguém se preparava para acender uma fogueira. Outro ensinava as gaivotas a voar. Trouxeram bebidas, e minhocas para alimentarmos as plantas carnívoras.
– Ah! – suspirou Turista, aliviado, afastando a letargia, aproximando o diletantismo protestante e exercendo sua arte por gosto, não por obrigação ou como um fim – Eu sempre passo nesse lugar quando não sei aonde vou.
Finalmente havia chegado o grande dia da fundação do Clube do Gerson.
– Vamos para dentro – sugeriu Gaúcho – Tenho Irish Coffee, seda e caneta. Dá para disputarmos o jogo da forca. Reah.
– Rá-rá-rá.
– "É mais fácil construir casas imaginárias do que amizades reais". *
Diante disso, Turista pegou sua viola e dedilhou-a enquanto Gaúcho, no mais cristalino castelhano esquecido, entoava apócrifas canções divertidas sobre lindas virgens em apuros. Eu não entrei na casa. Fiquei brincando com as gaivotas junto aos demais que também preferiam voar. Aos poucos, entretanto, cada um foi entrando no Clube. Lá parecia mais animado e seguro. Fiquei sozinho na praia, vagando, lambendo o sol, assistindo ondas gigantes que começavam a se aproximar. Deitei-me para acariciar as pegadas deixadas na areia pelos meus amigos. Então, ali me enterrei.
3 comentários:
aspasDeitei-me para acariciar as pegadas deixadas na areia pelos meus amigos.aspas
.eu também faria a mesma cousa.
- toma mais, toma mais...
- eu tomo rapaz
shdufsuhdfuusdf
os cavaleiros do apocalipse
apocapepsi
apocaguaraná
apocalata
Postar um comentário