segunda-feira, 22 de junho de 2009

a patetice, isto é, a amizade V

::::: garota de chinatown :::::

Guiga, agitadamente sentado ao meu lado, quebrou o eco do túnel que atravessávamos fazendo air guitar.
– Ua-bap-lupa-bup-lap-bem-bum.
– Little Richard, Tutti Frutti! – respondeu Tino, às pressas, sozinho no banco detrás, olhando, da janela arreganhada pela metade, sabe-se lá o quê.
Naquele instante, se o assistíssemos pelo lado de fora, o chamaríamos de Jack Nicholson do lotação. E algum jornalista embriagado de Nelson Rodrigues trataria de escrever empertigada crônica sobre. Mas voltando ao início do parágrafo encontro outro fato embutido naquele mesmo instante, dir-se-ia, très ordinaire: Tino acabara comigo. Sequer tive chance de começar a pensar a cerca da onomatopéia.
– Game over. Tino venceu. 5 x 1 em cima de Foche – apitou o árbitro Guiga em relação ao nosso joguete de adivinhações – Ei, ei! – resmungou – Devo iniciar nova contagem de pontos?
– Por obséquio, mano.
– Filhos de uma ronca e fuça!! – xinguei-os – Não há como vencê-los. Vocês moram juntos. Além de já se conhecerem muito bem, um sabe o repertório do outro.
– É verdade, gajo, ninguém pode com a família Kibe. Espere só até dominarmos o mundo, em especial o velho.
Antes que os dois incrementassem a troça contra mim, a minoria em vários sentidos, uma robusta explosão fez-se intrusiva. Nos jogamos no chão do micro-ônibus que freou bruscamente. Outros passageiros, menos cautelosos e (se vocês quiserem) mais corajosos, apenas enfiaram a cabeça entre as pernas como se instruídos pela comissária de bordo no momento do embarque ordenado. Levantamos cautelosamente para procurar a origem do som ou o próprio estrago. Todos respeitosos curiosos um tanto orgulhosos diante dum provável atentado digno de cobertura da mídia. Mirei a rua através da nossa janela embaçada pela maresia. Um motoqueiro estava no chão. Seu pneu havia estourado. Conclusão consternadora. Disfarçamos o embaraço tossindo forçosamente, coçando o ouvido com o dedo mínimo e ajeitando a gola da camisa, respectivamente, eu, Tino e Guiga. Os demais, ignoro com veemência.
– Como vai o Pelicano rebelde? – indagou Tino, desviando qualquer assunto em vigor nas últimas manchetes extraordinárias.
– Vai bem. Nem deve se lembrar de nossa existência, a essa altura. Anda fazendo negócios com gringos.
– Grande garoto!
– E-e-e-estou pensando em co-come-me-meçar a prati-ti-ticar Le Parkour – anunciou Guiga, às vezes e há não muito, acometido de enigmática gagueira.
– Em outras palavras, está ansioso para ser um macaco. Se tiver sorte, ganhará uma vaga de bombeiro – falei-lhe tentando ser a mangueira que apaga o fogo do falso alarme.
– Não, Foche. Mas espero que o exército me convide para fazer operações nos morros.
– Acho isso muito precipitado – ponderou Tino, encerrando o assunto por algumas páginas.
Guiga, que carregava o carma de ser o irmão do meio, estava fazendo um experimento inventado por seu recém-graduado (leia-se entusiasta) fonoaudiólogo. Assim sendo, repetiu o que Tino dissera. A intenção era treinar as frases alheias, repetindo-as silenciosamente assim que ouvidas.
“Exercício deveras bizarro de se assistir”, refleti, fazendo a leitura labial, por via das dúvidas, antes de realmente concordar comigo mesmo, em voz alta, que era um:
– Exercício deveras bizarro de se assistir. Um Foche nunca se atreveria a.
– Mas que faz efeito! – respondeu-me, sem titubear, fazendo com que eu pensasse que sua dificuldade com a pronúncia não passasse de mais um estudo maluco que ele inventara e nos aplicava sistematicamente.
– É verdade – endossou Tino – O garotinho está praticamente curado.
– Discordo.
– O que disse, Foche? Repete pra gente.
– Porca puttana! Por acaso estou gaguejando?
Os dois ficaram silenciosos. Na certa acharam que eu falava a sério.
– Mas e você, Tino? – inquiri-o a fim de levantar discussões que não levariam em lugar algum – Ainda consegue chorar com um olho só? E espirrar de olho aberto?
– Ser um Kibe é isso, Foche. É ser capaz do que os outros não são.
– Ok, já chega de conversê – interrompi – Falta muito para chegarmos a Chinatown do Rio? Lady K deve estar cansada de nos esperar.
– Po-por um acaso malig-ligno, descemos no pró-pró-próximo po-po-porra-ponto.
Estava escurecendo quando descemos. Esperando o sinal para atravessarmos a avenida, olhei para o céu, sonhando com situações impraticáveis. Encontrei nuvem parecida com gigantesca bolha de sabão. Ao seu lado havia espécie de aurora boreal, não muito grande, suavemente brilhante como uma pincelada borrada. Parei na faixa de pedestres e fiquei girando em 360 graus, cabeça tombada para trás, braços abertos sobre a avenida, como não diz a música e, ainda por cima, como se eu soubesse estudar a fisionomia do firmamento.
– Admita, cara – Tino passou por mim, deixando-me leve tapa na nuca.
– Esse fenômeno não existe neste lado do globo – completou Guiga.
– É, mas estava tão legal ficar ali... – retruquei, meio zonzo das voltas que dei – Escutem, desde quando existe uma Chinatown no Rio?
– Sei lá – esclareceu-me Guiga, aparentemente curado da gaguez.
– Ótimo demérito! É para isso que servem os universitários e os historiadores e os poetas e o caralho do resto, não é mesmo Tino?
– Lá está ela, garotinhos!
– Onde?
– É, onde? – apoiou-me Guiga, sem intenção de estabelecer algum tratado de paz e ajuda mútua.
– Aquela de costas, sozinha na mesa perto da fonte desligada. Lembram da Kiki de Man Ray? Pensem em Le violon d’ingres. Vamos, usem a cabeça. Esqueçam os bancos de imagem na internet.
Lady K se virou, não para trás e em nossa direção, apenas metade disso. Naquele instante nossos olhos fotográficos queimaram o negativo da memória e registraram o momento. Para alguns significava uma imagem a mais para ocupar espaço nas gavetas. Para outros...
– Há-há! Gostei da tatuagem de tua amiga, Foche. Será que ela não quer “trepar” por aí comigo? Em galhos de concreto, claro. Não! Não me entenda mal. Eu não me atreveria a te enrolar. Nunca dou desculpas vagabundas, meu caro. Ah, não. Não diga isso que você me ofende. Estou apenas a convidando para praticar Le Parkour. Já saquei. Você também a deseja naquele sentido? Seu safado. Por que não disse antes? É mesmo, sem ressentimentos? Ok! Très ok! Vamos lá.
– Olá, K – cumprimentei-a ao me aproximar.
– Não vou conseguir me levantar antes de meia-noite.
Ela terminou a frase e desmaiou. Ajeitei seu corpo na cadeira, apoiando a cabeça na mesa. Tentei dobrar seus braços, mas estes despencaram. Então pedimos quatro bebidas na esperança dela voltar a si, a qualquer momento, com muita sede. Depois que as nossas secaram, pedimos mais quatro, de modo que Lady K acumulara copos cheios. Mas enquanto ela não estava entre nós e a segunda rodada não chegava, a sensação que pairava no ambiente era a de feira de noivas. Uma calmaria finita que parece infinita. Uma forte paixão que resultará em casamento, uma crescente felicidade que trará alguma prole de respeito nos meios corrompidos (antevejo o cheiro de cocô de bebê na casa), enfim, para ser mais direto, uma abundância comemorativa similar ao masu transbordando saquê que indeterminado pingüim de gravata borboleta nos trouxe. Em contato com a mesa, os copos quadrados produziram som peculiar.
– Proponho um brinde! – foram as três primeiras palavras dela ao acordar, contrariando as próprias previsões – Um brinde à prostituição! He-he-he. Vi isso num filme, gente – e bebeu seus dois copos, um atrás do outro – Hmm. Vejo que pediram bebida de qualidade. Quase um mármore líquido lapidado com carinho e experiência. “Uma bebida inofensiva ao alcance do vício não assumido” – disse K, em tom de citação – Não se preocupem, hoje é por minha conta – sem se importar com o volume da voz, continuou – Recentemente derreti jóias da minha mãe e revendi o ouro para um renomado delegado de polícia... Renomado delegado? Seria isso pleonasmo?
Sorridente, Lady K contou-nos tudo a respeito da transação. Apreciava-me sua despreocupação em descrever todos os sórdidos pormenores de suas permutas ilícitas, mesmo diante de estranhos. Quem não a conhece pode achar que era uma maneira de se gabar. Entretanto, acreditem, para se pavonear ela dominava meios mais divertidos e cruéis. Por exemplo, durante esse mesmo encontro, nas deixas cuidadosamente estudadas de nossas falas, ela demonstrava total desinteresse. O ápice deu-se quando se abaixou e apanhou tampinha que rolara até perto de seus pés. Dali em diante, ficou brincando de pressionar a tampinha na pele, na veia, onde geralmente tira-se sangue ou injetam-se porcarias. Assim, K praticamente fazia de conta que estava sofrendo sozinha à mesa. Gosto de pensar que a crueldade era isso, porque a diversão vinha sempre em seguida. De repente, a tampinha entrou na corrente sangüínea.
– Ops – salivou K – Acho que desapareceu. He-he. Sou desse jeito. I don’t think, I drink.
– É, seguindo o fio da meada ou merda amigável (ver IV), sou obrigado a dizer que isso jamais seria comparado a uma fala de minha avó.
– Não quero ser o Senhor K de Kafka, quero ser a Lady K dos príncipes!
– Dio cane, esperem! – alarmou Tino – Sim, acho que ganhei de novo – abrindo e fechando aspas com as mãos deu prosseguimento – “Vi” isso num filme do Hitchcock. Bem me lembro. Amo esse filme desde...
– Whatsoever. A resposta está errada, garanto, e com ênfase. Essa eu sei, Tino, ovomal-Tino, essa EU sei – avisei, quase comemorando o inédito título por antecipação.
– Calem a boca, morons mitológicos – ordenou-nos Lady K, sem se importar com impossíveis explicações – Vou vomitar.
E o fez sem miséria. Com verdoenga bílis alagou considerável área abaixo de nossos pés restaurada com azulejos coloniais. Talvez ela tivesse mesmo esse dom: o de soltar algo, de certa maneira, impactante e completá-lo com ação à altura. Logo surgiram diversos pingüins de gravata para limpar o estrago. A Antártida deveria estar em crise. A população estava migrando, seguindo as correntes. Os que não integravam as tiras de Liniers estavam servindo mesas. Será que dava para “desconsiderar” essa região assim como fizeram com Plutão? Responde essa Guiga. Enfim, o importante (?) é que durante a limpeza vi a tampinha no chão. Bom para Lady K. Não teria futuros problemas em aeroportos e bancos. Porém, tampinhas são todas iguais...
– Eu vomito Zyprexa, gente. Zyprexa: um prazer similar ao de comer a comida predileta acompanhada do vinho favorito. Em excesso. Tudo, tudo para ser regurgitado. Zyprexa: prazer que começa e termina na boca. Como o próprio ato sexual em si.
– Isso é uma boa plopaganda do ploduto – comentou Guiga expondo rotacismo alienígena em nosso dialeto.
– Agora essa! – iniciou Tino, sentindo talvez vergonha alheia – Era só o que faltava. Fica bom daquilo e agora me aparece com isso.
– Você está bem, K? – perguntei, encarando-a de perto.
Em típica atitude de adolescente confusa, K batia a unha do indicador direito no canino superior direito como se estivesse fazendo esforço para pensar em que roupa vestir amanhã quando fosse a aula ou em como faria para pegar o carro sem que os pais descobrissem.
– Estou sóbria como uma trapezista, e o ventilador está contando uma piada tão rápida que não me resta tempo para rir.
Finalizando a seqüência ab absurda, o celular de Tino tocou escandalosamente. Muito embora todos soubessem a quem pertencia àquelas notas introdutórias, houve briga para decidir quem receberia a pontuação. Venceu quem soube air executá-la.

e----------0-----1-----3-----1-----0----------------------------0-----------
B---3---------------------------------3--3-----2------3/5-0h2h3---3p2p0-2-
G-------------------------------------2-------------------------------------
D------0-----0-----0-----0-----0---------0-----0---------------------------
A---------------------------------------------------------------------------
E---------------------------------------------------------------------------

Um comentário:

fochesatto disse...

Quem responder Marie Laforêt, "Marie-douceur, Marie-colère", cover de "Paint It Black" dos Rolling Stones ganha a ilusão dum final de semana nas águas quentes prometidas por Macaco, primo de Deus. Ou uma visita ao morro da Babilônia se Guiga, finalmente, se tornar um homem da lei.