Pt. I
Para um texto asséptico, sem preconceitos e julgamentos parciais, o ideal seria que aqui existisse um preâmbulo sucinto para prover as informações necessárias a fim de começarmos com alguma coisa consistente ou, ainda, que agora eu discorresse sobre algo aleatório e acidental com influência indireta na minha vida. Como, em ambos os casos, não consegui escrever nada a respeito (deveria eu ter a audácia de produzir qualquer porcaria com rimas do daily news e conceder a autoria a alguém sempre usado dessa maneira, alguém virtualmente importante e sempre lido como o ousado Arnaldo Jabor?), trocarei a posição de algumas letras deste mouvement introductif e entrarei logo na parte do texto sobre o tio.
Tio O. Também chamado de Tio Ode pelos de maior verve lírica – os tipos rarefeitos que compõem sonetos como quem monta quebra-cabeças. Neste caso, a vida é feita de escolhas acidentais bem intencionadas. Opto, portanto, pelas requintadas simplificações. Pela fluidez. Tio O.
(Queria aproveitar o ensejo para cumprimentá-lo: Oi, Tio O! Como vai essa força? Temos de marcar outra peixada. Vê se me liga).
E logo após a introdução manquitola, logo após não fazer esforço algum, descobri que Tio O estava curtindo uma grande festa do estilo “quem chegar, chegou”. Ou seja, não precisava levar distintivo (a.k.a. bebida alcoólica). Parti para o local esfregando as mãos qual protagonista sem caráter, com muito estilo, cigarro no canto da boca, moedas nos bolsos, que espera descomunal deleite dum encontro familiar, mas não sabe que, para o sucesso de tal empreendimento, o escritor não tem a menor idéia de como engendrar o roteiro acidental, modelo falésia.
Km 62 outra vez. Fiz o percurso na metade do tempo. Chegando quando o galo miudava, miudando, c’est-à-dire, quando seu cacarejar decrescia gradativamente em oposição ao sol que raiava bem longe da ponta de seu bico. Bem, as coisas estavam diferentes lá. Irrelevante dizer exatamente o quanto, coño, porque elas não me interessavam até então. Basta dizer: tudo se encontrava como, de fato, deveria estar no dia... I mean, provavelmente em um março mais silencioso (ver I).
Contudo, as situações estão aí, esperando para nos surpreender quando estamos com paciência e para nos irritar quando esgotados. (Em tempo: a ocorrência do primeiro caso é quase tão rara quanto a não-ocorrência do segundo). De modo que as imagens que mais marcam nossas vidas são as que acontecem em poucos segundos, ficando assim galvanizadas em lugares de destaque nas paredes internas da cabeça do indivíduo.
O que atraiu meu interesse não foi Tio O sentado na centenária cadeira de balanço comendo o quebra torto e contando estórias inesquecíveis enquanto molhava as palavras no “mijo de burro” em intervalos regulares, cadenciados. Não, nada disso. Foi a pomba sem asa, a Intifada (informação importante para os aventureiros sem fronteiras: em árabe escrevemos assim: نتفاضة), a briga de pedras que teve início durante a chegada de Andriolli à festa.
– Hiawatha!! – ela anunciou-se, debaixo da nuvem de pedras arremessadas: escolta promovida pela autóctone infantaria pessoal do inferno, que em seguida dissipou-se em meio à nuvem do elemento de número atômico 16, é evidente.
– Não tenho medo de nada nem de ninguém. Enfrento no peito, rasgando tudo –argumentou Paulão, filho de Tio O e meu primo, levantando bruscamente seu quase 1,90m – Só tenho medo de mim mesmo... – e mandou para dentro mais um copo do líquido precioso.
– Calma lá, meu filho – avisou seu moderado pai – Baixou a pomba-gira nela. Exu-fêmea é fogo nas entranhas, rapaz!
– Rá-rá-rá-rá – Andriolli prolongou a gargalhada – Tratem de devolver o champanhe, a cocaína, os charutos, as jóias e as rosas que me pertencem!! Não me venham com porcarias, como por exemplo: cachaça de Jurubeba ou bijuterias. Quero o que é meu, minhas oferendas de direito. Caso contrário, mando tudo pelos ares! Rá-rá-rá...
– Vamos amarrá-la e açoitá-la – propôs Paulão, com sangue alcoólico subindo para os olhos – Fizeram isso em Zinho. Parece que funcionou. Nunca mais o vi possuído, voando louco pelas ruas do bairro.
De acordo com sapiência de Tio O, aquilo não era brincadeira. Era caso de se levar ao terreiro. Açoite não ajudaria. Tio O sabia do que falava, por experiência de caso. Havia, inclusive, lutado de soco com o próprio demônio. Numa madrugada densa como enxofre, ele levantara-se para ir ao banheiro e dera de cara com o tranca-rua no corredor do apartamento. Começaram a pelejar. Tio O acertava o tinhoso com os punhos, porém, nada lhe acontecia. Ele apenas sorria, faceiro, chifrudo, com as mãos na cintura. Pobre Tio O! Foi se cansando da luta. Enfraquecido, desmaiou no corredor do apartamento. Felizmente, nada de grave lhe ocorreu. Enfim, logo não se vê? Estava decidido. Levaríamos Andriolli para urgente sessão descarrego.
– Banho de sal grosso, Negramina e folha de algodão. Isso entra na pele, expurga o mal que não é corpóreo, mas espiritual – profetizou Verônica, a caseira que freqüentemente vê espíritos.
– Vai, pai, vai – incentivou Paulão – Leva essa mulher que ainda tem dente-de-leite, mas que já está precisando duma dentadura nova. Ei, garçom! Tá querendo me matar de sede? Claro, que dúvida idiota. Traz mais “mijo”. Ou melhor... Pai, não vai, não. Deixe as coisas como estão. Joga para Jesus! Enche esse copo, rapaz! Vai, joga para Jesus! Enche bem enchido.
Eu tinha aqui comigo que “jogar para Jesus” era uma forma polida de “tocar o foda-se”, e já que Paulão não se apresentara para ajudar, juntei-me a Tio O, Verônica e mais três outros jagunços do deputado dono da festa para, com dificuldade, imobilizá-la. Enfiamos a mulher no porta-malas do carro e voamos baixo naquela Parati 87, relíquia de Tio O. Nem tão baixo, porém. De repente, na estrada conseguimos o improvável. Um golpe abafado no vidro. Atropelamos um morcego em pleno vôo. Andriolli, como se estivesse conectada ao mamífero voador, pôs-se em estado convulsivo, condoído. Livrando-se dos que a seguravam, desceu do carro para sofrer junto à vítima e prestar-lhe alguma homenagem. Tendo-o na palma da mão, cantou versos incompreensíveis. Deixamos que seguisse para ver no que dava. Terminada a oração melódica, enfureceu-se conosco, em especial com o motorista.
– Ele é Deus! Vocês mataram Deus, idiotas! E você? Sim, você! Você é o culpado! – disse, apontando para o motorista: eu mesmo, no caso – Mas só por diversão, eu vou jogar pedra em todo mundo! Rá-rá-rá...
– Andri, Andri – invocou-a Tio O, sempre sereno, diante da ameaça dela avançar sobre nós – Vai morder teu pai na bunda. Entra no carro e fica quieta.
Ela misteriosamente obedeceu, e seguimos velejando a Via Láctea de asfalto ao galope do motor Volks.
Pt. II
A chegada ao terreiro foi algo charmosa e encantadora. Havia diversas oferendas depositadas nas cercanias, para contentamento das falanges e legiões das Sete Linhas. Encontramos bolo e cural milho, pamonha, arroz e garrafas de vinho e conhaque. Muito mel derramado em volta e algumas flores. Velas, por certo. Dúzias delas acesas. Descemos Andriolli do carro e a levamos diante de Piango, o pai velho. Fizemos rápida reverência, entregando-a aos seus cuidados, e nos afastamos em silêncio. Com um sinal, seus ajudantes/discípulos levaram-na para o centro do “espetáculo”. Então entoaram trechos de As Sete Lágrimas de um Preto Velho, em repetições hipnóticas produtoras de êxtase para conexão com o divino.
“Salihed, Mehi Mahar Selmi Laresh Lach Me Yê!
Saravá, Regente Oxalá!
Saravá, Umbanda!”
Mais fiéis sectários desse sincretismo religioso juntaram-se ao coro, fechando um grande círculo em torno de Andri e Pai Piango.
– É melhor três Oxum zangado que um alegre. Esse último é imprevisível demais – comentou Pai Piango, soltando fumaça pelas ventas, e em misterioso tom de voz que ultrapassou todo o resto.
Então ele pôs máscara ancestral assustadora. Fez alguns movimentos com as mãos, diferente do que o seu pessoal fazia, e lançou os búzios que em contato com o marrom vivo do solo, começaram a se movimentar.
– Em mundos contrários, onde terra é água, nadamos ao invés de caminhar – disse-nos, sem perder o foco no seu trabalho: a moça.
Andriolli, no núcleo das energias do terreiro, parecia querer aquietar-se. Pai Piango aproximou-se dela e colocou um cordão de Chave Grande em seu pescoço. Ela desmaiou na hora. Depois a levaram ao quarto especial para o banho de ervas. Ficamos do lado de fora esperando, conversando.
– Deixe-me dizer, Foche. Essa fusão de práticas religiosas com culturas e crenças afro-brasileiras... – e parou para tomar fôlego, disfarçando o assunto para alguém que ele não queria que ouvisse – É o seguinte. Espiritismo é universidade – confessou meu Tio – Nos terreiros eles estão aprendendo a escrever. Entendeu?
– Sim, estão mais pra Era das Feras.
– Ah, não diga isso. O caminho é outro.
– Talvez fosse só uma TPM espetacular agindo em Andriolli – opinou um dos jagunços, murmurando como quem conta um segredo, pois ainda estava atônito com o ritual presenciado.
– Para que saber os porquês se a resposta não será aceita e não mudará suas suspeitas? – desabafou Tio O – É na loucura que reside a razão. Ponto.
Dali em diante, não evoluímos muito. Na vida. Tampouco na conversa.
Instantes foram gastos na espera. Da dissipação.
Passou um helicóptero avisando a respeito do concurso Miss Biquíni. A melhor escolha que já fiz foi ter ido ver aquele explosivo atol de peitudas formosas e bundudas gostosas. A vida, na maioria dos casos, é feita de escolhas aleatórias as quais tomamos por nossa imperativa vontade. Tio O, por exemplo, vai trabalhar segunda-feira, mas só se não chover.
* imagem: este gif saiu do site do mestre que tem seu nome mostrado ao final do loop.
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