Na noite anterior meu carro colapsara. E o eclipse dera-se nalgum lugar do radiador. A máquina ferveu como um semi-virgem lascivamente acariciado na parte interior das coxas. Por isso, na manhã seguinte, eu me encontrava naquele ônibus apinhado de proletários rumo à jornada de doze horas diárias de injustiças no purgatório, intercaladas pelas oito longe de eternas horas de paz. (As quatro horas restantes estão perdidas no limbo da lassitude: o sono). Posto isso, a minha índole de cidadão trivial é notada tão claramente como a densa mucosa – o esfregaço salivar – encaminhado ao microscópio. Portanto, imagina-se que escondo alguma perversão. Errado. Uma não, dúzias. Nesse contexto, eu afundava o nariz no cabelo da perfumada jovem sentada à minha frente. Como de praxe a um hábito, ignoro se ela notava-me ali, fungando sua salgada nuca alva. O inegável é que preciso escolher melhor as mulheres que vão me atrair. Essa aí mostrou seu valor logo em seguida. Mas não vou cometer o escatológico deslize de me adiantar. Antes de mais nada, um motoboy (seria redundante adjetivá-lo e à sua classe como retardados) atropelou o ônibus. O primeiro grito abafou o barulho da batida, então concluo que a vítima deveria, no mínimo, ter um membro amputado. Quase todo mundo desceu para desfrutar do espetáculo da gratuita tragédia alheia. Ficamos eu, um passageiro, o cobrador e o motorista. Sem a presença da minha menina, aquela desgraça não tinha a menor graça.
– Toca aí, ô motorista! – gritei do fundo.
Ele virou o pescoço para trás e me mostrou seus olhos esbugalhados. O cobrador, entretido com o acidente, recebeu minha mensagem com atraso: apenas imitou o movimento de cabeça, mas sem demonstrar espanto. Já o outro passageiro, esse não se movia desde que as outras pessoas desceram.
Levantei os ombros como se dissesse “E aí, pode ser?! Tenho esse direito. Paguei a passagem.” Talvez pensando não em me atender, mas apenas em seu próprio benefício, o motorista afundou o pé no acelerador. Ainda na primeira marcha, a lenta, ganhando velocidade, vi e ouvi placidamente minha péssima escolha sem valor que não o olfativo e estimulante cerebral esgoelar-se para o corpo estendido no chão aguardando atendimento.
– Agora me diz, seu babaca! Aonde – grifo do autor: aqui o advérbio foi empregado incorretamente – está Ele? Em qual pocilga Deus está escondido agora enquanto o diabo tripudia por essas ruas?
Não sei se os demais ouviram, mas eu caí na gargalhada sem pudor. Batendo o pé no chão e na barriga, tamanha a empolgação. Antevi, diga-se de passagem, o acidentado concedendo entrevista ao noticiário. Sem dúvida, ele fazia parte dos maníacos com mania de dizer “nasci de novo” após um acidente qualquer. Quando me recompus, o sujeito-estátua levantou-se e veio se sentar ao meu lado. Era japonês.
– Eu deveria ter suspeitando no instante em que entrei no quarto – disse-me calmamente, apesar dos solavancos do coletivo – Senti que estava quieto demais. Por aquele ambiente ter sido montado como um reflexo de minha personalidade, esse simples fato já significava muito. Entretanto, para decifrá-lo, minha intuição falava que eu teria de ir adiante. Então começou assim que enfiei o cabo do ventilador na tomada. Te juro, ouvi a energia elétrica correndo através dos fios. O zumbido crescia rapidamente. Encostei a orelha na parede e escutei a corrente rasgando o tijolo da parede à 299.792.458 m/s. Numa manifestação do instinto, puxei o fio. Desliguei o aparelho para confirmar se o som era produto de minha imaginação. Bem, você pode até duvidar, mas não era.
– Não duvido de nada que venha de você.
Em resposta, ele sorriu de volta e prosseguiu.
– Mais tarde apareceu uma curiosa mosca que ficou parada no ar, diante de meus olhos, como uma libélula na ponta duma antena ou um beija-flor diante da fonte de mel. Eu virava a cabeça para a esquerda e ela me acompanhava. A mesma coisa para a direita. Depois de me convencer que a mosca estava realmente me encarando, que ela de fato tinha consciência do que fazia... Boom! O rádio ligou por vontade própria. Ouvi vozes distorcidas saindo dele. Diziam obscenidades intraduzíveis. Jamais escutei tamanhas blasfêmias.
– Era o espírito do rádio tentando estabelecer rapport do além-mundo?
Em resposta, ele apenas sorriu, outra vez, dando-me a impressão de que a estória era tão ou mais verdadeira que a sua misteriosa e andrógina beleza. Confesso que me senti atraído por aquele rapaz, e inclinado a acariciar seu rosto liso e quadrado com minhas mãos. Sugeri que almoçássemos juntos. Ainda que amigavelmente, ele concordou, porém, sem demonstrar entusiasmo. O inesperado foi que, durante a refeição, roçamos as pernas debaixo da mesa. Não fiquei embaraçado por isso. Quanto a ele, encobriu o rubor da face com as mãos no típico gesto oriental de recato. Quis beijá-lo naquele minuto! Ir além do básico. Por não ser arrojado o suficiente, o máximo de ação que consegui foi propor um jantar na mesma noite.
O mecânico fez o favor de me trazer o carro por volta do fim do expediente. Graças a esse trabalhador, conclui que um dia sem dirigir muda algo em quem é tão apegado ao seu veículo. Você sente saudade do assento, dos velocímetros, de ser dono daquele design, e, acima de tudo, do motor. E sente que ele também sentiu sua falta. Ouve-se isso em seu ronco, que passa, em instantes, pelo tom melancólico do abandono ao tom da furiosa paixão. É possível que a ansiedade para o encontro pode ter colaborado na exaltação dessas emoções que demonstro, mas o que fazer se, com absoluta certeza, o carro queria mais de mim? Se ele, o pulsante motor, pedia diretamente a mim assim como eu pedia e insistia aos meus amigos: mais, quero mais! Ou não? Ele não sentia minha falta coisa alguma e esse era seu barulho natural, o mesmo de quando foi parar na oficina para que o consertassem? Ah, não pode ser. Me recuso a estar me confundindo. O carro me queria por definitivo. Dava sinais disso. Estava feliz por estar parando nos sinais vermelhos, pois era quando interagia com o ecossistema de seu interior. Com ele sentia que fazia parte do fluxo. Até buzinar era sadio. Produzia-me ondas de calafrios. Os quais me ajudavam a enxergar, a perceber, em suma, a entender que as luzes de néon no horizonte fictício da cidade eram colossais móbiles estáticos que ardiam antes de morrerem em sua simplicidade – e sua energia talvez não mais existisse, guardando assim alguma semelhança às estrelas que pintamos no interior de nossas pálpebras. O veículo conectava-me ao mundo frenético da velocidade. Diante do volante, revivia os mais diversos momentos de mínimo êxtase. Dirigindo por aquelas avenidas, recordava-me de todos os jokers que já vi sendo descartados em jogatinas sob cortinas de fumaça; recordava-me daquela partida de Pac-man que joguei com doze anos e fora interrompida por uma queda de energia. “Porra!”, eu falava ao volante, “Que diferença tem isso da merda dum video game?” Isto é, a loucura pela loucura não compensa. Isso é infrutífero. Três sins à loucura que te empurra ladeira abaixo. Sim, sim, sim! Não as forças contrárias, camaradas. Temos que saber olhar, filtrar e dizer: “Olha, vou te contar ESTA loucura aqui...” Então eu me dei para o carro. Entregue, falei para ele me levar. E ele o fez como um dragão meteórico, arrogante, que você é capaz de amar mais do que a si mesmo; fez com que eu desejasse que aquele extenso percurso nunca acabasse, como durante o filme que você ama, como durante a música que você ama, como quando acompanhado do cara que você inexplicavelmente se apaixonou no primeiro e casual encontro e acredita ser incapaz de viver sem.
Pouco tempo depois, no ponto onde combinamos o rendez-vous, eu estacionava o carro bem diante dele.
– Eu vim de longe.
– Eu volto com você – respondeu-me Shigeru.
Acomodando-se no carro, ele me entregou uma caixa embrulhada em papel adornado com sakuras em flores e de textura gostosa. Era um presente. Ganhei uma matryoshka, a tradicional boneca russa. Agradeci-o com um abraço quente. Confessou-me, então, que estava ansioso, e não sabia dizer o motivo. Por conta disso, estava sem fome. Como eu queria ser gentil e conquistá-lo permiti que sugerisse um lugar para irmos.
– Preferiria que fôssemos dançar.
Embiquei o carro para a boate gay Zabriskie Joint. Lá, as situações não foram das mais aprazíveis. Shigeru engolia muito depressa seus destilados. Sem qualquer aviso, ele me deixou e foi cochichar no ouvido de um cara. Fiquei os acompanhando de longe. Vi quando entraram no banheiro de mãos dadas. Terminava minha cerveja quando ele voltou relatando suas aventuras ordinárias.
– Fiz sexo oral com aquele desconhecido.
– Não duvido de nada que venha de você – disse-lhe, pela segunda vez naquele dia.
Ele sorriu quase como na ocasião de nosso encontro no ônibus. A diferença estava no ar de menosprezo que brotavam em seus finos lábios, pincelados pela natureza. Nem por isso fiquei desestimulado. Fui tomado por louca vontade de tê-los nos braços, deitá-lo na cama, beijá-lo por inteiro, com amor, e penetrá-lo, com muita dedicação.
Consegui convencê-lo a sairmos daquela reprodução contemporânea de uma fase do Pac-man. No caminho para o motel, Shigeru apertava meus mamilos, apalpava meu pênis e viscosamente me chupava o pescoço. Arrepios assumiram o lugar dos calafrios. De modo que era difícil controlar a direção. Embora, e felizmente, o fluxo do trânsito diminuísse durante a madrugada, não estávamos isentos das manifestações de imprevistos dos demais seres néscios ou de um mistério. Virando os olhos, vi as supracitadas estrelas pintadas no fundo negro de mim. Contudo, na volta ao mundo da dor, nada mais harmônico que a iminência de um pequeno desastre.
– Se segura que a gente vai bater!
Puxei o freio de mão e afundei o pé no freio, girando o volante a ponto de travá-lo. Tentava evitar atropelar algo que caíra na pista, sabe-se lá de onde, e por pouco não acerto um poste. O grito agudo de Shigeru revelou sua inequívoca passividade. “Um possante nas mãos e uma bicha ao lado”, pensei, subitamente heterossexual e piadista. Não é porque eu sabia me depilar ou falar o peculiar dialeto ou porque eu tinha esse ou aquele trejeito ou desejo, uma cueca bonita e, talvez, um consolo à pilha, que me “transformaria” num completo gay. Era preciso mais do que simples máscaras. Era preciso ser como Shigeru, que não estancou a agudez até eu grosseiramente mandá-lo calar a boca. Era preciso saber escolher melhor não só as minhas mulheres, mas também os meus homens. Feito isso, desci para investigar o tal objeto bloqueador. Aproximando-me identifiquei aquilo como um monte de cobertores aos trapos, pertences de mendigo. Empurrei com o pé para ver se não havia nada no meio. Tudo certo. Voltei para o carro. Só que lá as coisas não estavam bem. Desviando o olhar, Shigeru fixava-se num ponto distante de mim. Por conta disso, ele teve o prazer de ser o primeiro a ver aquilo...
Eu já me preparava para socá-lo porque, outra vez, irrompera aos berros. Mas, por alguma espécie de altruísmo, lhe dei algum crédito e aceitei seguir – com estes olhos que a terra há de conservar – a direção que indicava. Cruzando a rua qual personagem germinado do Necronomicon Lovecraftiano, engatinhava, deixando para trás sua caverna de cobertores, um estranho bebê com cabeça de cavalo em corpo de gente que arrastava sua boneca de pele negra e sem cabeça. A porta do passageiro abriu. Em seguida, com um baque seco, fechou-se com violência afeminada. Aterrorizado, Shigeru fugiu, tomando estreito beco adjacente, gorjeando como um pássaro da família Corvidae e arrancando as penas (isto é, as roupas) para voar rumo a felicidade reduzida d’alguma gaiola acolchoada.
– Até... – e começou o gargantear do Canto Glauberiano – Até que o sertão vire mar e o mar vire sertão, Foche!
Decidido a deixar aqueles sórdidos acontecimentos de um capítulo não concluído para trás, tomei o caminho de casa. Engatei marcha ré e costurei os demais carros na contramão. Foi então que me senti sujo, implorando por um banho como o criminoso confesso pela absolvição. Pensava no ato que por pouco não cometera. Apesar de o sexo ter feito de mim um viciado, sinceramente, me faltava apetite sexual para cambiar minhas predileções carnais. As tive assim, positivo e negativo, papai e mamãe, por nove deleitosos anos. Na hora que quisesse. Bastava estalar os dedos. Agora estou inativo, a ocupação foi interrompida, os alunos foram expulsos, e eu me tornei um expatriado das vaginas. Desde então, venho sentindo a terrível abstinência. Só tenho pulmões para dizer: Au nom de Dieu: sauvez la pornographie!
A casa estava tão limpa que pensei não ser a minha. Portanto, deixei a roupa do lado de fora. Tomei banho de mangueira. Nu, na madrugada. Me limpando. Para poder entrar no próprio ninho e conversar com as formigas – quando muito com as aranhas e as teias amorosas. Para poder deitar onde os travesseiros foram untados em palavras bonitas e os odores reconfortantes das propagandas mirabolantes se fixaram e criaram raízes na memória de minha alma.
Às vezes, é bom ter uma casa sadia, Tyler.
Estou molhado quando me deito e batem à porta. É impressão minha? Começou a chover? Enquanto pensava se girava a maçaneta para verificar as pancadas, para checar o tempo, acabei por ter outra idéia. Em retrospectiva, o pensamento atravessou a estória do rádio de Shigeru e chegou ao acidente entre a moto e ambulância. Bateu uma curiosidade quanto ao destino do motoboy e, em ínfima escala, quanto a meu intangível flerte. Liguei a televisão procurando algum noticiário. Sapeando, encontrei uma transmissão ao vivo. O câmera dava um close no rosto do sujeito nu – com a corda enrolada no pescoço e a outra extremidade atada ao parapeito da ponte – que, visivelmente atormentado, ameaçava se matar. Era Shigeru, o japonês.








































