terça-feira, 1 de setembro de 2009

a patetice, isto é, a amizade IX

::::: gay thing :::::

Na noite anterior meu carro colapsara. E o eclipse dera-se nalgum lugar do radiador. A máquina ferveu como um semi-virgem lascivamente acariciado na parte interior das coxas. Por isso, na manhã seguinte, eu me encontrava naquele ônibus apinhado de proletários rumo à jornada de doze horas diárias de injustiças no purgatório, intercaladas pelas oito longe de eternas horas de paz. (As quatro horas restantes estão perdidas no limbo da lassitude: o sono). Posto isso, a minha índole de cidadão trivial é notada tão claramente como a densa mucosa – o esfregaço salivar – encaminhado ao microscópio. Portanto, imagina-se que escondo alguma perversão. Errado. Uma não, dúzias. Nesse contexto, eu afundava o nariz no cabelo da perfumada jovem sentada à minha frente. Como de praxe a um hábito, ignoro se ela notava-me ali, fungando sua salgada nuca alva. O inegável é que preciso escolher melhor as mulheres que vão me atrair. Essa aí mostrou seu valor logo em seguida. Mas não vou cometer o escatológico deslize de me adiantar. Antes de mais nada, um motoboy (seria redundante adjetivá-lo e à sua classe como retardados) atropelou o ônibus. O primeiro grito abafou o barulho da batida, então concluo que a vítima deveria, no mínimo, ter um membro amputado. Quase todo mundo desceu para desfrutar do espetáculo da gratuita tragédia alheia. Ficamos eu, um passageiro, o cobrador e o motorista. Sem a presença da minha menina, aquela desgraça não tinha a menor graça.
– Toca aí, ô motorista! – gritei do fundo.
Ele virou o pescoço para trás e me mostrou seus olhos esbugalhados. O cobrador, entretido com o acidente, recebeu minha mensagem com atraso: apenas imitou o movimento de cabeça, mas sem demonstrar espanto. Já o outro passageiro, esse não se movia desde que as outras pessoas desceram.
Levantei os ombros como se dissesse “E aí, pode ser?! Tenho esse direito. Paguei a passagem.” Talvez pensando não em me atender, mas apenas em seu próprio benefício, o motorista afundou o pé no acelerador. Ainda na primeira marcha, a lenta, ganhando velocidade, vi e ouvi placidamente minha péssima escolha sem valor que não o olfativo e estimulante cerebral esgoelar-se para o corpo estendido no chão aguardando atendimento.
– Agora me diz, seu babaca! Aonde – grifo do autor: aqui o advérbio foi empregado incorretamente – está Ele? Em qual pocilga Deus está escondido agora enquanto o diabo tripudia por essas ruas?
Não sei se os demais ouviram, mas eu caí na gargalhada sem pudor. Batendo o pé no chão e na barriga, tamanha a empolgação. Antevi, diga-se de passagem, o acidentado concedendo entrevista ao noticiário. Sem dúvida, ele fazia parte dos maníacos com mania de dizer “nasci de novo” após um acidente qualquer. Quando me recompus, o sujeito-estátua levantou-se e veio se sentar ao meu lado. Era japonês.
– Eu deveria ter suspeitando no instante em que entrei no quarto – disse-me calmamente, apesar dos solavancos do coletivo – Senti que estava quieto demais. Por aquele ambiente ter sido montado como um reflexo de minha personalidade, esse simples fato já significava muito. Entretanto, para decifrá-lo, minha intuição falava que eu teria de ir adiante. Então começou assim que enfiei o cabo do ventilador na tomada. Te juro, ouvi a energia elétrica correndo através dos fios. O zumbido crescia rapidamente. Encostei a orelha na parede e escutei a corrente rasgando o tijolo da parede à 299.792.458 m/s. Numa manifestação do instinto, puxei o fio. Desliguei o aparelho para confirmar se o som era produto de minha imaginação. Bem, você pode até duvidar, mas não era.
– Não duvido de nada que venha de você.
Em resposta, ele sorriu de volta e prosseguiu.
– Mais tarde apareceu uma curiosa mosca que ficou parada no ar, diante de meus olhos, como uma libélula na ponta duma antena ou um beija-flor diante da fonte de mel. Eu virava a cabeça para a esquerda e ela me acompanhava. A mesma coisa para a direita. Depois de me convencer que a mosca estava realmente me encarando, que ela de fato tinha consciência do que fazia... Boom! O rádio ligou por vontade própria. Ouvi vozes distorcidas saindo dele. Diziam obscenidades intraduzíveis. Jamais escutei tamanhas blasfêmias.
– Era o espírito do rádio tentando estabelecer rapport do além-mundo?
Em resposta, ele apenas sorriu, outra vez, dando-me a impressão de que a estória era tão ou mais verdadeira que a sua misteriosa e andrógina beleza. Confesso que me senti atraído por aquele rapaz, e inclinado a acariciar seu rosto liso e quadrado com minhas mãos. Sugeri que almoçássemos juntos. Ainda que amigavelmente, ele concordou, porém, sem demonstrar entusiasmo. O inesperado foi que, durante a refeição, roçamos as pernas debaixo da mesa. Não fiquei embaraçado por isso. Quanto a ele, encobriu o rubor da face com as mãos no típico gesto oriental de recato. Quis beijá-lo naquele minuto! Ir além do básico. Por não ser arrojado o suficiente, o máximo de ação que consegui foi propor um jantar na mesma noite.
O mecânico fez o favor de me trazer o carro por volta do fim do expediente. Graças a esse trabalhador, conclui que um dia sem dirigir muda algo em quem é tão apegado ao seu veículo. Você sente saudade do assento, dos velocímetros, de ser dono daquele design, e, acima de tudo, do motor. E sente que ele também sentiu sua falta. Ouve-se isso em seu ronco, que passa, em instantes, pelo tom melancólico do abandono ao tom da furiosa paixão. É possível que a ansiedade para o encontro pode ter colaborado na exaltação dessas emoções que demonstro, mas o que fazer se, com absoluta certeza, o carro queria mais de mim? Se ele, o pulsante motor, pedia diretamente a mim assim como eu pedia e insistia aos meus amigos: mais, quero mais! Ou não? Ele não sentia minha falta coisa alguma e esse era seu barulho natural, o mesmo de quando foi parar na oficina para que o consertassem? Ah, não pode ser. Me recuso a estar me confundindo. O carro me queria por definitivo. Dava sinais disso. Estava feliz por estar parando nos sinais vermelhos, pois era quando interagia com o ecossistema de seu interior. Com ele sentia que fazia parte do fluxo. Até buzinar era sadio. Produzia-me ondas de calafrios. Os quais me ajudavam a enxergar, a perceber, em suma, a entender que as luzes de néon no horizonte fictício da cidade eram colossais móbiles estáticos que ardiam antes de morrerem em sua simplicidade – e sua energia talvez não mais existisse, guardando assim alguma semelhança às estrelas que pintamos no interior de nossas pálpebras. O veículo conectava-me ao mundo frenético da velocidade. Diante do volante, revivia os mais diversos momentos de mínimo êxtase. Dirigindo por aquelas avenidas, recordava-me de todos os jokers que já vi sendo descartados em jogatinas sob cortinas de fumaça; recordava-me daquela partida de Pac-man que joguei com doze anos e fora interrompida por uma queda de energia. “Porra!”, eu falava ao volante, “Que diferença tem isso da merda dum video game?” Isto é, a loucura pela loucura não compensa. Isso é infrutífero. Três sins à loucura que te empurra ladeira abaixo. Sim, sim, sim! Não as forças contrárias, camaradas. Temos que saber olhar, filtrar e dizer: “Olha, vou te contar ESTA loucura aqui...” Então eu me dei para o carro. Entregue, falei para ele me levar. E ele o fez como um dragão meteórico, arrogante, que você é capaz de amar mais do que a si mesmo; fez com que eu desejasse que aquele extenso percurso nunca acabasse, como durante o filme que você ama, como durante a música que você ama, como quando acompanhado do cara que você inexplicavelmente se apaixonou no primeiro e casual encontro e acredita ser incapaz de viver sem.
Pouco tempo depois, no ponto onde combinamos o rendez-vous, eu estacionava o carro bem diante dele.
– Eu vim de longe.
– Eu volto com você – respondeu-me Shigeru.
Acomodando-se no carro, ele me entregou uma caixa embrulhada em papel adornado com sakuras em flores e de textura gostosa. Era um presente. Ganhei uma matryoshka, a tradicional boneca russa. Agradeci-o com um abraço quente. Confessou-me, então, que estava ansioso, e não sabia dizer o motivo. Por conta disso, estava sem fome. Como eu queria ser gentil e conquistá-lo permiti que sugerisse um lugar para irmos.
– Preferiria que fôssemos dançar.
Embiquei o carro para a boate gay Zabriskie Joint. Lá, as situações não foram das mais aprazíveis. Shigeru engolia muito depressa seus destilados. Sem qualquer aviso, ele me deixou e foi cochichar no ouvido de um cara. Fiquei os acompanhando de longe. Vi quando entraram no banheiro de mãos dadas. Terminava minha cerveja quando ele voltou relatando suas aventuras ordinárias.
– Fiz sexo oral com aquele desconhecido.
– Não duvido de nada que venha de você – disse-lhe, pela segunda vez naquele dia.
Ele sorriu quase como na ocasião de nosso encontro no ônibus. A diferença estava no ar de menosprezo que brotavam em seus finos lábios, pincelados pela natureza. Nem por isso fiquei desestimulado. Fui tomado por louca vontade de tê-los nos braços, deitá-lo na cama, beijá-lo por inteiro, com amor, e penetrá-lo, com muita dedicação.
Consegui convencê-lo a sairmos daquela reprodução contemporânea de uma fase do Pac-man. No caminho para o motel, Shigeru apertava meus mamilos, apalpava meu pênis e viscosamente me chupava o pescoço. Arrepios assumiram o lugar dos calafrios. De modo que era difícil controlar a direção. Embora, e felizmente, o fluxo do trânsito diminuísse durante a madrugada, não estávamos isentos das manifestações de imprevistos dos demais seres néscios ou de um mistério. Virando os olhos, vi as supracitadas estrelas pintadas no fundo negro de mim. Contudo, na volta ao mundo da dor, nada mais harmônico que a iminência de um pequeno desastre.
– Se segura que a gente vai bater!
Puxei o freio de mão e afundei o pé no freio, girando o volante a ponto de travá-lo. Tentava evitar atropelar algo que caíra na pista, sabe-se lá de onde, e por pouco não acerto um poste. O grito agudo de Shigeru revelou sua inequívoca passividade. “Um possante nas mãos e uma bicha ao lado”, pensei, subitamente heterossexual e piadista. Não é porque eu sabia me depilar ou falar o peculiar dialeto ou porque eu tinha esse ou aquele trejeito ou desejo, uma cueca bonita e, talvez, um consolo à pilha, que me “transformaria” num completo gay. Era preciso mais do que simples máscaras. Era preciso ser como Shigeru, que não estancou a agudez até eu grosseiramente mandá-lo calar a boca. Era preciso saber escolher melhor não só as minhas mulheres, mas também os meus homens. Feito isso, desci para investigar o tal objeto bloqueador. Aproximando-me identifiquei aquilo como um monte de cobertores aos trapos, pertences de mendigo. Empurrei com o pé para ver se não havia nada no meio. Tudo certo. Voltei para o carro. Só que lá as coisas não estavam bem. Desviando o olhar, Shigeru fixava-se num ponto distante de mim. Por conta disso, ele teve o prazer de ser o primeiro a ver aquilo...
Eu já me preparava para socá-lo porque, outra vez, irrompera aos berros. Mas, por alguma espécie de altruísmo, lhe dei algum crédito e aceitei seguir – com estes olhos que a terra há de conservar – a direção que indicava. Cruzando a rua qual personagem germinado do Necronomicon Lovecraftiano, engatinhava, deixando para trás sua caverna de cobertores, um estranho bebê com cabeça de cavalo em corpo de gente que arrastava sua boneca de pele negra e sem cabeça. A porta do passageiro abriu. Em seguida, com um baque seco, fechou-se com violência afeminada. Aterrorizado, Shigeru fugiu, tomando estreito beco adjacente, gorjeando como um pássaro da família Corvidae e arrancando as penas (isto é, as roupas) para voar rumo a felicidade reduzida d’alguma gaiola acolchoada.
– Até... – e começou o gargantear do Canto Glauberiano – Até que o sertão vire mar e o mar vire sertão, Foche!
Decidido a deixar aqueles sórdidos acontecimentos de um capítulo não concluído para trás, tomei o caminho de casa. Engatei marcha ré e costurei os demais carros na contramão. Foi então que me senti sujo, implorando por um banho como o criminoso confesso pela absolvição. Pensava no ato que por pouco não cometera. Apesar de o sexo ter feito de mim um viciado, sinceramente, me faltava apetite sexual para cambiar minhas predileções carnais. As tive assim, positivo e negativo, papai e mamãe, por nove deleitosos anos. Na hora que quisesse. Bastava estalar os dedos. Agora estou inativo, a ocupação foi interrompida, os alunos foram expulsos, e eu me tornei um expatriado das vaginas. Desde então, venho sentindo a terrível abstinência. Só tenho pulmões para dizer: Au nom de Dieu: sauvez la pornographie!
A casa estava tão limpa que pensei não ser a minha. Portanto, deixei a roupa do lado de fora. Tomei banho de mangueira. Nu, na madrugada. Me limpando. Para poder entrar no próprio ninho e conversar com as formigas – quando muito com as aranhas e as teias amorosas. Para poder deitar onde os travesseiros foram untados em palavras bonitas e os odores reconfortantes das propagandas mirabolantes se fixaram e criaram raízes na memória de minha alma.
Às vezes, é bom ter uma casa sadia, Tyler.
Estou molhado quando me deito e batem à porta. É impressão minha? Começou a chover? Enquanto pensava se girava a maçaneta para verificar as pancadas, para checar o tempo, acabei por ter outra idéia. Em retrospectiva, o pensamento atravessou a estória do rádio de Shigeru e chegou ao acidente entre a moto e ambulância. Bateu uma curiosidade quanto ao destino do motoboy e, em ínfima escala, quanto a meu intangível flerte. Liguei a televisão procurando algum noticiário. Sapeando, encontrei uma transmissão ao vivo. O câmera dava um close no rosto do sujeito nu – com a corda enrolada no pescoço e a outra extremidade atada ao parapeito da ponte – que, visivelmente atormentado, ameaçava se matar. Era Shigeru, o japonês.

ex animo dicere XXXVIII, XXXIX

Se tem algo mais impactante do que a presença da monumental lata vermelha da Coca-Cola, são esses dois filmes de Todd Solondz. Imagine um pedófilo "ex-criminoso" e psicologicamente (como a maioria dos personagens) confuso discutindo sua relação com a "ainda-não-mulher" de 13 anos que tanto o ama; que pede, constantemente, para que ele a engravide; e que o está ajudando a caçar e matar o médico que lhe fez um aborto no passado. Bom, isso está lá, em Palíndromos, onde Todd faz com que a figura paterna seja apenas um patético título. Por outro lado, em Felicidade as coisas são ligeiramente diferentes. Solondz "valoriza" o esteio da família americana por se tratar dele e do sexo masculino o "ponto forte" da trama de perversão sexual e homossexualidade infantil.



No caso de Palíndromos isto vai cair no colo da(s) mãe(s), pois, ao contrário da primeira, trata-se de um, digamos e sejamos levianos, filme de problema feminino. (Sem mencionar o final de ambos, que corroboram para minha leitura). Posto assim, só me resta concluir que de alguma forma o diretor conseguiu enfiar todo seu ardente bisturi nas chagas da sociedade e seus prezados valores corrompidos e escondidos - cito, em especial, os de ordem sexual e religiosa. Ao meu ver, Storytelling, outro filme dele, não alcança a primazia desses dois. E o trabalho de Daniel Clowes parece brincadeira de criança perto de tudo isso.





Cituado aqui, este extrato de Palíndromos pode parecer fora de contexto, mas quando inserido no desenrolar do filme, é um toltchoque no gúliver, drugues.



Logo abaixo segue recorte de estupendo diálogo do mesmo filme.

"- As pessoas sempre terminam do jeito que começaram. Ninguém nunca muda. Acham que mudam, mas não mudam. Se for do tipo deprimida agora, vai ser sempre assim. Se for alegre e descerebrada, vai ser assim quando crescer. Pode perder peso, perder as espinhas, ficar bronzeada, aumentar os seios, mudar de sexo, não faz diferença. Essencialmente está firme de frente, mas de costas... Mesmo se tiver 13 ou 50 anos, sempre será a mesma.
- Você ainda é o mesmo?
- Sim.
- Está contente por ser o mesmo?
- Não importa se estou contente, não há livre arbítrio. Não tenho escolha a não ser escolher o que escolho. Fazer o que faço. Viver como vivo. No fim somos apenas robôs programados arbitrariamente pelo código genético da natureza.
- Mas não há nenhuma esperança?
- Pra quê? Sentimos esperança e desespero por causa do jeito que fomos programados. Genes e aleatoreidade. Só há isso e nada disso importa."

Post-Scriptum: Aproveitando a temática palindrômica, destaco que no very end da página 21 para o début da página 22 de meu livro (8ito) escrevi que: "De fato, ninguém muda. Apenas evolui ou involui no contexto ao qual se está subjugado". O que vem a ser, de certa forma, um inconsistente resumo menos emocionante do que o proferido pelo personagem de Todd.
Alors, passez les images!



* imagens: pôsteres divulgação.

ex animo dicere XXXVII



Penso que ao contrário de laureados filmes onde, por exemplo, só os trailers valem a pena, filmes mais tocantes como Welcome to Dongmakgol deveriam ser feitos.
Passez l'amour, s'il vous plaît.



* imagem: pôster divulgação.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XV

::::: super size me :::::

Circula entre os antigos mestres a lenda do Bombom do Fofão. A estória original reapareceu quando da ocasião de seu remake. Comecemos como Gaspar Noé. Dessa vez, o protagonista de ambas, um “pobre coitado” que já sofreu na mão (literalmente) de uma maníaca sexual praiana, fora parado em blitz de rotina. Ao se aproximar da janela do motorista, o policial notou considerável rastro de vômito na porta. Olhou para o indivíduo e o encontrou, devido seu estado de alteração, com a cabeça tombada para trás.
– Senhor, acorde, senhor – disse-lhe o oficial.
Voltando a si, de muito longe, ele dirigiu-se, com inegável bafo de uísque, a autoridade do Estado, ali representada por um espantalho de farda.
– Ôpa, homi. Viu esse estrago? Sabe o que é?
– Senhor, por favor, desça do carro.
– Comi um Bombom do Fofão que não caiu legal.
Photobucket
Há aproximadamente sete anos a estória original nascia num ridículo aniversário de quinze anos. Lá estava nosso destemido protagonista abraçado ao vaso sanitário do buffet quando fora surpreendido pela Dona da Festa, a cat killa, que (já informada sobre o inconveniente sujeito deitado no banheiro) tentava ajudá-lo a se levantar enquanto ele dava início àquela lendária frase.
– Sabe o que é? Comi um...
















* imagens: seqüestradas da rede.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XIII, XIV

::::: ten minutes older - the cello :::::

Formiga pedia que fizessem silêncio imediatamente. Trancou as portas da casa e ficava espiando a rua por uma fresta na janela. O lamentável é que ele não enxergava Jota preso do outro lado do muro, no terreno em volta da casa, mas fechado para a rua. Por conta disso, negava-se a destravar qualquer fechadura.
– Tem algum bandido lá fora! – ele desesperava-se, para logo em seguida contrariar-se – Vocês estão loucos! Não tem ninguém lá fora! Ei, estão ouvindo essa música clássica? Estão?
Notorius B.I.G. também estava desaparecido. E levara a moto consigo. Diante desse rompimento de estruturas, Gus, Beto Pilha e eu demos de ombro. Deitamos no tapete da sala. Ficamos contando as rotações que, com a perfeição dos objetos inanimados, o ventilador de teto efetuava.
[...]
Devo ter adormecido. Para acordar com a agitação dos outros. Quando descartaram uma guimba acesa que grudou numa das hélices, perturbando nosso equilíbrio tal qual a labirintite. A madeira começou a queimar como se fosse o próprio chão onde podíamos pisar.


Não tenho certeza se realmente estava lá quando às sete da manhã o sobrinho de Formiga lhe desmontou com uma pergunta.
– Tio, por que é que ontem à noite o senhor tava com a boca torta e a língua de fora e se mordendo?
O restante da estória é descartável como um solo de trompete morto. O interessante aqui é que o fato jamais será esquecido. Contaremos aos nossos filhos e os educaremos para não serem impertinentes, não com tipos como o velho Formiga.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XI, XII

::::: the bucket list & easy rider :::::

Me virei para Fernoo e declarei.
– Meu nariz caiu.
– E meu pulmão apodreceu – ela respondeu sem pestanejar – E daí?
– Então estamos em ótima forma.
– Goodbye sweet Alabama. Goodbye dear Vallegrand. Goodbye… – cantarolou imitando a voz de sua sósia, Patti Smith.
Eis que Dota e sua filha aterrissam de moto. Ele tirou o celular do bolso, entregou para a filha, que o apontou para mim. Discou meu número.
– O que que é pra perguntar mesmo, pai?
– Pergunta pra ele se vai ter gravação.
– Ah, é. Isso mesmo.
Eu já tinha escutado, mas ela repetiu a frase. Respondi que não, não naquele mês. A garotinha virou-se para ele. Então os dois começaram a rir. E sem se conterem, montaram na moto. Na iminência de abandonar Fernoo e eu às nossas inquietações terminais, os pneus da moto, formando o símbolo do infinito, falaram, e seu eco soou como:
“Our name is eight o’clock.”

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

ex animo dicere XXXVI


"Emir... Sabe que jogador teria sido eu, se não tivesse tomado cocaína?", lamentou-se, sorrindo, Diego Armando Maradona - aquele craque que, fora das quatros linhas, conjugou o verbo ratatatar em todos os tempos otorrino-verbais - ao diretor sérvio e aos não menos importantes fiéis da igreja Maradoniana.
Alors, passez le ballon!



* imagem: pôster divulgação.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves X

::::: crash :::::

SEXO VICIA.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

ex animo dicere XXXIII, XXXIV, XXXV

Não quero me empolgar com esse vício. Passei da idade de. Tampouco desejo me passar por Pedro Moura. Não tenho cacife ou verborragia para. Mas vamos lá, vamos para outra sessão de bons quadrinhos selecionados com carinho pelo Sokezato-san aqui.
Adquiri esta obra de arte pelo site da Livraria Cultura. Demorou um bocado para chegar, assim como todos os itens importados deles. Cada dia de espera valeu a pena. Là Oú Vont Nos Péres do australiano Shaun Tan teve sua primeira tiragem em 2007 e saiu pela editora Dargaud (dêem só uma checada no site e vejam a quantidade monstruosa de autores publicados). Não tem muito que dizer além de elogios boquiabertos quanto a este título. São silenciosos desenhos hiper-realistas que contam determinado trecho da vida de um imigrante à procura de um lugar melhor para viver. O conceito de estrangeiro talvez nunca deixe de ser debatido entre filósofos expatriados ou músicos clandestinos ou garotas de programa, porém, em The Arrival (título em inglês do livro) essa mudança de território ganha proporções fantásticas quando o personagem vai parar num lugar completa e absurdamente diferente do de sua origem. Quer dizer, aparentemente. Pois ele se acostumará, se adaptará àquilo. Mais a frente sua família se juntará a ele. Então, o leitor imediatamente associará passagens do passado às novas características do cotidiano nos quais eles estão inseridos. Por último quero lamentar não ter tido paciência para escanear decentemente a imagem da nuvem gigante "esmagando" o navio dos imigrantes (amostra 04) e a subseqüente passagem do tempo marcada por duas páginas inteiras de retratos de nuvens. É simplesmente magnífico, mas penoso demais para que eu digitalize. Como McArthur já profetizou certa vez: aqueles que escaneam livros e disponibilizam na internet tem lugar garantido no paraíso. Quem sabe como é, há de convir que essa é uma atividade miserável.




Antes do próximo tópico, direi que percebo certo padrão criado sem premeditação entre esse post e o post anterior. Começa-se com uma obra-prima. Segue-se com depravação. Finaliza-se com obras similares. Ok. Fim do intermezzo.
Agora posso apresentar algo a respeito de Hideo Yamamoto. Isso mesmo, seguindo a programação ditada acima, veremos imagens fortes (?) aqui. Portanto, traga as crianças até a sala. Ah, e depois de folhear tais páginas virtuais do tankobon de Homunculus n.05 (2005, Panini Comics), será exibido o filme baseado noutro mangá de Yamamoto e dirigido pelo carniceiro do Takashi Miike. Mas antes disso, antes que me esqueça, aplausos para a velocidade e os paralelos que o autor conseguiu imprimir nessa amostra da narrativa. Estendendo as congratulações, ressalto dois detalhes da página que numerei como seis: (1) o olho virando para buscar no cérebro informações a respeito de algo sentido (olfato, no caso) e logo em seguida (2) a imagem de um passado misterioso que aparece no líquido na palma da mão e se reflete nos olhos (estímulo visual, nesse caso). Interessante o que uma gozada pode representar - e as luzes que uma gota dela ou de sangue podem trazer para a vida alheia. E pelamor de Dioi! Sentido oriental de leitura, ok?







Mais italianos? Sim, e só porque italiane parla con le mane. Estigmas é outro grande lançamento da virada do século (1999) da Conrad. Li há muito tempo essa estória de um derrotado que vai até o fundo e volta para contar as atrocidades que passou. Separei a seqüência final porque é algo deveras fantástico, que o Ginko Biloba nunca deixará queu mesqueça e venha a questionar-me por dentro: Ma che merda è questa, Dio lazarone? Dica do Foche. Brincar de passar rapidamente as imagens da neve cobrindo a cidade como se fosse uma (primitiva) animação.




"Vamos rápido com isso!", latiram-me.
Bem, e como prometido, o bônus. Outra vez por semelhança. Isso fica por conta do sul-coreano Derek Kirk Kim e seu livro Same Difference and other stories (2004, Top Shelf Productions) que tem um final tão significativo quanto o de Mattotti. A diferença é que Derek é meu chapa. Enviou-me um cartão de presente e eu o deixo pregado na porta da geladeira. Talvez para me lembrar que o mundo é um cu que às vezes cheira bem, às vezes cheira mal.



Alors, passez le mot!





* imagens: os créditos foram todos distribuídos no texto, eu acho.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ex animo dicere XXX, XXXI, XXXII

Quero relembrar um pouco de poesia contemporânea, de fumetti, de mangá, de bande dessinée, de HQ, de quadrinhos ou de não importa como queiram chamar. Começando com o italiano Gipi (pseudônimo de Gian Alfonso Pacinnotti) e seu livro Garage Band lançado ali (e aqui não) por 2005 pela Paperback e que nesse instante toca os acordes finais da Seconda Canzone. O ideal é não se deter tanto na "questão teenager" (ou a transição ritualística dela?) da obra. É uma bela estória - saudosa, para muitos - e vale mesmo prestar atenção no trabalho de coloração e no silêncio das músicas e dos pássaros que se transformam em aviões impressos nas páginas...



Em seguida, temos dois momentos perturbantes de Suehiro Maruo. As duas abaixo pertencem ao livro Ero-Guro que a Conrad lançou no aquecido mercado brasileiro do início do século XXI. Fato é que este recorte vem do conto A Cidade que Sucumbe, de (provavelmente) 1982. Adiante, as cinco páginas pertencem a'O Vampiro que Ri, da mesma editora. Well, costumam colocar este autor ao lado de Edogawa Rampo pelo teor chocante de seus contos. Mas eu gosto de guardá-lo junto a Toshio Saeki pela falta de barreira entre a extrema violência e a suave poesia visual. Outro detalhe que gostaria de salientar é a fixação do autor por - dentre outras perversidades - insetos e répteis, os quais desenha com a perfeição dos livros de estudo científico. E atenção: sentido de leitura oriental, baby.






Por fim, Bill Watterson diverte (ainda que utilizando essa "Escola" onde "o mundo é visto pelos olhos das crianças") ao se sentir meta-onírico no volume I d'O Progresso Científico deu Tilt (Best Editora), um livro que reúne tiras e curtas estórias do clássico (diário) Calvin e Haroldo (quanto ao link anterior: faça download do CDisplay para ler arquivos de extensão .cbr) lançado em 1991 e, acredito, dificilmente encontrado - inclusive em sebos.



Qualquer semelhança entre a página acima e a tira abaixo, Falling Dream, de Nicholas Gurewitch, The Perry Bible Fellowship, é mera osmose, referência, releitura, inconsciente coletivo, loop...



Alors, passez le mot!





* imagens: Samsung SCX-4300. Entendeu? Assim espero. Mas não recomendo. Danifica as lombadas.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

a patetice, isto é, a amizade VIII

::::: futebol: a fé acabou :::::

Entrei às pressas naquele lounge bar por dois motivos. Um deles, o consciente, é de que minha natureza fisiológica estava me impelindo para as dependências sanitárias do recinto. Precisava dar cabo de violenta constipação que me pegara, para atormentar, durante caminhada por um dos arrondissements de la chaud ville qui est un trou.
Me arrepiei um pouco quando aquilo terminou e foi embora com a descarga d’água. Enquanto me lavava, antes de sair do banheiro, diante de estressante reflexo, a luz grudada no teto começou a piscar, piscar, e piscar, convidando-me para entrar em seu ritmo cósmico. Aquilo se assemelhava a severa descarga elétrica no SNC, bastante interessada em agraciar-me com Le Haut-mal. Porém, fui salvo do dançante ataque epilético. Não convulsionei nem espumei ou entrei em transe, apenas esqueci. Olvidei parcas cobiças, emoções, motivos, argumentos...
Então simplesmente me sentei à mesa e decidir comer. Abri o cardápio, mais para usá-lo como máscara de afastamento sadio. Entretanto, por conta da ação seguinte, deixei a segurança da distância de lado e estreitei-me ao real, filtrando-o com meu olhar por sobre este menu-muro do preconceito e da sem-vergonhice. Pois de repente, assim nada mais que simbolicamente, assim como um trem atrasado, um carro qualquer com um engraçado sujeito grisalho de bigode engraxado atrás do volante passou zunindo do outro lado da rua do restaurante. Driblando, à sua forma irracional, o trânsito um tanto congestionado, hã, como as ampulhetas. Era o sósia de ninguém menos que Loro, personagem central do Quartzo das Letras. Em seguida, grudado a isso como o intervalo ao jornal e você à sua amante, aquele tão estimado objeto retangular passou a tremer dentro do bolso, num compartimento à altura do fêmur. Demorei quatro toques, quatro chamadas, quatro pulsos, quatro seqüências de tremidas, enfim, para me atinar à interferência que acontecia. Apertei o botão verde.
– Aqui é da Polícia Federal, gostaria de falar com o senhor Sokezato-san – coincidência ou não sei ou pouco interessa, era Loro, o original, me passando trote.
– Beduíno!!* – devolvi, reconhecendo sua voz, e expliquei-lhe que acabara de “vê-lo” em louco trânsito.
– Rapaz!! Não era eu, mas já vi tudo. Isso vai dar em algo. Quando começa a escrever? Ah, espera até eu passar a minha parte do texto.
– Algocreverartext? Comoquando?
– Poder ser agora. Estava fazendo entrevista com dupla sertaneja. Eram dois gordos, anteriormente dois amigos magros dos tempos do colégio de padre. Ligeiramente introspectivos e ligeiramente excluídos, entende? – a pausa para eu responder não deu em nada – Bem, eu sei que você entende, mas e seus futuros leitores? – sorri, pois sem dúvida, Loro transvia as cousas – Hoje em dia, são demasiadamente sorridentes, desinibidos, apegados às rimas etc. Espera. Vai, põe isso em negrito, Foche.
– Isso o quê?
– Demasiadamente.
– Está feito – não o questionei a respeito.
– Prosseguindo... Ei, depois te ligo. Começou uma pancadaria aqui na redação. Vou lá assistir de perto. Até.
Sem tempo para demoradas meditações a cerca do caso intruso, abordaram-me, felizmente antes mesmo de me projetar para fora do corpo.
– Qual será seu pedido, Sr. Foche?
– Poco Loco Roll’s Hot & Spicy Tortilla acompanhado de sopa de milho com frango desfiado – respondi, sem hesitar.
Este que anotara minha extravagância era Union Jack. O garçom que costumava me atender sempre que sentava àquela mesa. Vejamos a época de nossa apresentação:
– Como é o seu nome?
– Union Jack.
– Sério? A bandeira britânica?
– Sim. Meus pais eram historiadores. A idade média e a formação do continente europeu são períodos que os encantam, assim como eu... Quando nasci.
E assim, revivendo a imanência da experiência, me sobreveio o segundo motivo, a inconsciência. Um freestyle em cima de Manuel Bandeira. A eficiência. Dos garçons... Quero dizer, conheço os garçons dali. Sou habitué! Exatamente. Tudo começou porque eu estava sozinho. Saí para caminhar. Desde o princípio a intenção era aquele lugar. “Ali sou amigo dos garçons. Ali todos me conhecem. Ali tenho a cerveja que quiser, na temperatura que escolher. Fui-me embora para o bar.” Pensando nessas coisas tradicionais, de referência. E atingindo esse timbre com o pincel, noutros tempos químico-verbais, o ciúme me atacou com suas garras postiças. Acontece que Union Jack dispunha de aborrecimento suficiente lhe esperando noutras mesas, então teria de me deixar sozinho se também quisesse atendê-los. O ritmo da música que julgava conhecer cambiou. Me senti um estrangeiro, excluído. É, Manuel, as glórias de Pasárgada são exclusividades sua.
Tenho certeza que mencionei a eficiência, acima das dúvidas. Pois bem. Aí está ela, em sombras. Depositaram os pratos à minha frente. Comecei a comer. E – Deus me salve da sinceridade cirúrgica – a chorar. Mastigava aquelas Spicy Tortillas enroladas depois de lubrificá-las no Guacamole, sorvia colheradas de sopa, e derramava as pejorativas lagriminhas. Enchi outra colher e a trouxe para perto da boca. Não engoli. Fiquei analisando o conteúdo escorrer em cima de mim. Chorava não por causa de pensamentos sobre milhares de animais mortos por bel prazer para servir de alimento a quem não precisa ou muito menos sobre crianças passando fome em centenas de pontos do globo. Apenas chorei por ser eu mesmo naquele momento de “conforto egoísta”. Ocorreu-me, como com freqüência ocorre, que um copo de conhaque seria bom para. Geralmente não é, convenhamos, mas dá a impressão de. Ademais, a melodia (reformulada centenas de vezes, diretamente nos genes, e que agora mais parecia um ornitorrinco de proveta em D#) me autorizava a “drink my souvenirs and go my way”, mas só de caturrice taurina eu achei que deveria comê-los e ficar ali. Mesmo que por outro lado – onde baixamos a guarda e a nudez atrapalha –, eu devesse admitir que “iria tocar essa música para meus filhos, algum dia”.
Ao fim daquele frêmito (porventura, sem semelhança ao inaugural), isto é, da entrada do líquido achocolatado deslizando para dentro das tripas e misturando-se aos bolos alimentares já armazenados ali, e sem perceber estranha movimentação atrás de mim, comecei a brincar com um palito na boca, retirando piche dentre os dentes. Nessa brincadeira, uma bunda bateu em minha cabeça e o palito fincou na língua. Levantei bruscamente, olhos semicerrados, dolorido, rosnando rispidamente para U.J..
– Desculpe, mas meu nome não é Union Jack – desabafou.
– Pro inferno que não é!! – vociferei, depois de me livrar do palito.
Outra vez, e creio que devido a tanta ação em tão curto espaço de tempo, aquelas cerca de 100g de tecnologia móvel vibraram. No visor lia-se: Chérie.
– Mon cher? Está me ouvindo? – eu estava, mas não quis responder: estávamos reciprocamente magoados – Espero que esteja, e que também queira. Preciso te contar. Hoje sonhei com mais uma espécie de filme. Era o de uma garotinha de menos de dez anos que queria se passar por uma mulher de vinte e poucos. Tinha uma cena onde ela levava o amiguinho de sala para o banheiro. Faziam sexo lá dentro – percebi sua respiração acelerar, e, por conta disso, pareceu-me que falava de si – Ela por cima. Quando bateram à porta perguntando o que estava acontecendo, ela gemeu a resposta, em meio ao esguichar de sangue da vagina: “Você nem acredita. Entra”.
– Isso é Woody Allen?
– O diabo?
– Woody Allen – repeti, como uma professorinha na hora do ditado.
– Ah, eu tinha entendido errado. Não, não é o judeu nerótico de NY. Isso que contei foi o meu sonho.
Fiz uma pausa para pensar o comentário.
– Legal. Não raro sonho com roteiros completos, inclusive trilha sonora e atuações memoráveis. O problema é que esqueço quase tudo quando levanto. Bom, já ouvi falar de pessoas que sonharam estar na pele do Mário Bros., voando com a peninha para pegar cogumelos e moedas douradas, mas nada, absolutamente nada como o que acaba de me contar.
Estranho como após fechar contrato com grande estúdio de cinema faz-se necessário um nome novo. Como um ritual para rebatizar, um renascimento. Isso é cabalisticamente demoníaco. Entretanto, não é o caso de Allan Stewart Königsberg. Nem o meu. No que me concerne, o dualismo – ou quase isso – era mesmo a força motriz do dia. Primeiro (e salvaguardando o mérito da supracitada dupla de princípios opostos) porque se eu ficasse tanto tempo no celular eu esqueceria onde estava, esqueceria que eu era você e então teria de fingir ser outra pessoa. Segundo que enquanto falava com ela no celular, lembrei que tinha uma pelada marcada para aquela tarde. Logo, agi como já agi anteriormente. Me apeguei ao escapismo. Avisei-lhe que tinha de desligar e saí fora dali, fazendo vista grossa para os verdes e alaranjados e amarelos e – por que não? – os azuis canos de atalho do Mario Bros., não deixando-me ser engolido pelos buracos sempre negros e barrentos da cidade, e marchei até o campo público de golfe onde disputávamos nossas partidas de futebol quase beatificador.















(Nessa movimentação, e somente então, enxerguei com meus olhos da percepção, pois eles se abriram para o que se escondia atrás do piscar incessante das lâmpadas. Ora, eles são como as matérias invisíveis que compõe os universos e que não estão aí até que um físico – por que não, daqui anos de profundo estudo e total acaso, o próprio Vovô? – as capte visualmente no microscópio e as batize para que, uma vez inventadas, os outros também tenham o poder de vê-las. Digo dessa maneira confiante porque dois terços das lâmpadas acessas nesse trajeto escureceram por algum tempo, e isso somente se deu enquanto eu pensava a cerca de suas meras existências como forma binária de sim e não, zero e um.)

Vovô e Rabisco tocavam bola no gramado. As traves estavam posicionadas. Achei que ninguém havia comparecido. Muito menos as agradáveis garotas que participavam das partidas mistas.
– Já vieram e já foram – avisou Vovô – Até Turista e Maniac compareceram. Trouxeram o tabuleiro de botão. Assim, quem ficava de próximo podia fazer o aquecimento.
– Como estamos em três, vamos jogar gol a gol – sugeriu Rabisco, para completar a sátira logo em seguida – Esse jogo babaca que nasceu nas quadras dos prédios dos garotos de classe média alta, onde maricas jogam para evitar contato físico, jogam porque só moram maricas nesses prédios, e eles não querem saber de outra coisa que não seja os laptops que ganharam de natal – deu uma pausa para assoar as narinas obstruídas – Ah, e eles são vintage. É assim que se diz? Vintage, então! Gostam de jogar usando camisas acolchoada no peito e no cotovelo, modelo antigo, encontrado no brechó esportivo da Travessa dos Ateliês, em Vallegrand.
– Calmaí, Rascunho – interrompeu Vovô, físico apaziguador e ciclista noctâmbulo, e eu pensei: “o nome dele não é Rabisco?” – Corta o original e vamos jogar futebol, cara. Ninguém aqui faz parte dessa gangue.
Rabisco, ou Rascunho, deslocava seu corpo de um ponto ao outro, sem linearidade ou objetivo. Procurava uma posição em campo. A lâmpada do estádio improvisado começou a piscar, piscar, e piscar, como se fosse queimar, como se fosse um vaga-lume capaz de me matar. Quando ela por fim se apagou, notei nossos sorrisos sem fé, cansados. De quem ri de tanto chorar.
Et « un coup de dés jamais n’abolira le hasard », n’est-ce pas Loro?

I


II


III





* imagem: J. Bennett Fitts - Golf - Verdugo Hills.
** Outrora adquirimos o hábito de nos chamar pelos nomes das avenidas e ruas da cidade. Mais tarde mantivemos apenas o cerne do preceito: basicamente qualquer alcunha, que não a “verdadeira”. Mamífero (Av. Miguel Sutil) e Dota (Av. Isaac Póvoas) e Rodroga (Av. Fernando Corrêa) e Maniac (Av. Filinto Müller) e Ser Humano (Av. Barão de Melgaço) sabem mais dessas invenções do amanhecer...

ex animo dicere XXVIII, XXIX

Gostaria de endossar o que www.twitter.com/srabotelho disse hoje, e ilustrar com:
"- Serei vigilante em uma fábrica de chocolates. Ou porteiro em uma residência de senhoritas. E tentarei me esquecer de tudo. Uma bacia de água quente e nada para fazer. Só contemplar a passagem desta vida de merda.
- Aonde diabos queremos ir? No primeiro povoado a polícia nos prenderá. Nem sequer perguntarão por nossos nomes."

::::: Ressurreição :::::


Bem, deixem Sátántangó de Béla Tarr de lado e por agora agonizem com Nick Grinderman Cave:
"My face is finished, my body's gone.
And I can't help but think standin' up here in all this applause and gazin' down at all the young and the beautiful.
With their questioning eyes.
That I must above all things love myself.
That I must above all things love myself.
That I must above all things love myself
".



"Pode ouvir isso? O que é isso? Uma máquina? As luzes? Alguém cantando? Quem se atreve a cantar aqui? Silêncio!", dizia o garboso e eloqüente Irimiás.

ALLORA!!

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves IX

::::: lost highway :::::

Dentro da cidade não dava para acelerar aquele carro como eu precisava. Peguei a estrada, então, para me saciar. Quilômetros mais tarde, cruzei uma ponte quase que voando, e meus olhos perceberam o vulto de estranho ser agachado no acostamento da cabeceira. Decido retornar e verificar. Faço o contorno pelo acostamento do lado oposto e pego a pista no outro sentido.
Quando me aproximo do referido ponto, vejo o aglomerado de policiais que cercam a área. A função da lei era interditar o tráfego em ambos os sentidos da pista. Subitamente entendi que o cara deformado ameaçava a vítima com uma arma.
– Ei, cidadão – alguém me chama com a polida rispidez dos oficiais e ordena que eu – Vá para casa e se mate.