segunda-feira, 5 de outubro de 2009

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XIX

::::: sideways :::::

A gente já estava devidamente embriagado antes mesmo de o churrasco ficar pronto. Numa das incontáveis idas e vindas até o freezer, encontrei vários porta-retratos com velhas fotos. Investiguei os rostos. Me convenci de que não conhecia boa parte. Próximo a essas fotografias, havia uma porção de álbuns contendo vasto cemitério de fantasmas em preto e branco. Apanhei-os, e também as cervejas geladas, para mostrar ao Gaúcho, que do lado de fora se esgoelava.
– Traz mais! Traz mais!
No momento em que pôs os olhos trincados naqueles desconhecidos, o cara tornou-se pacífico, e seus olhos ao invés de água, transformaram-se em vinho. Juntos, começamos a folhear os álbuns.





Não ouso discorrer sobre tais imagens carregadas de sentimentos alheios que fazem a gente querer reviver vidas passadas. Pelo contrário. No lugar de ensaios, estudos de imagem como o de Susan Sontag ou os tratados de semiótica, apenas tomo posse das palavras de Helmut Newton: “Those who write about photography write only for those who write about photography”.
Mas ao deparar-me com as (três) últimas fotos, um trovão abriu meu crânio. Nelas localizei a cadeira na qual estava sentado. Virei-me para Gaúcho.
– Os sentimentos, as pessoas, as roupas, até as próprias fotos um dia se vão, dissolvendo-nos. As únicas coisas que sobram das fotos antigas são alguns móveis, algumas casas, carcaças enferrujadas de autos... Um teto, mesas, os ladrilhos, as cadeiras, as pedras... Estes são os únicos seres perenes do mundo de azia que estamos mastigando com desgosto.

Nenhum comentário: