
John Fante.
1933 foi um ano ruim.
Danilo Fochesatto.
2009 foi um ano ruim.
Ainda estamos em loop, capitão.
"Eu sabia que podia contar com Kenny. Ele tinha uma mesada semanal regular e uma conta no banco; além disso, não era como estar completamente falido e pedir a ele para financiar a viagem inteira.
Da rua eu vi a luz na sua janela, então soube que ele estava em casa. A luz acendeu-se na janela de Dorothy também, e esperei que fosse ela que abrisse a porta quando toquei a campainha, e não Kenny.
Mas também não foi Kenny. Foi o senhor Parrish.
- Quero falar com você - disse ele, saindo para a varanda rapidamente e fechando a porta.
Ele parecia um pedaço de gelo. Tentou manter a voz gelada também, mas ela tremia de emoção.
- Quero que você fique longe do meu filho - falou. - E fique longe desta casa. - O punho dele empurrou meu peito. - Está claro? Você não é bem-vindo aqui. - Ele estava tremendo.
- O que houve? - perguntei.
- Agora escute. Kenny não vai nessa viagem estúpida. Essas são as minhas ordens. E ele não vai mais andar com você. Você é uma má influência para o garoto, entende? Por isso, deixe-o em paz. Fique longe dele, volte para a sua parte da cidade, ou chamarei a polícia.
Antes que eu pudesse falar, e eu não tinha nada para dizer, ele correu para dentro, trancou a porta ruidosamente e apagou a luz da varanda. Fui embora aturdido. Eu sabia que o senhor Parrish não gostava muito de mim, mas não que ele me odiava. Teria sido por eu ter dirigido o caminhão? Teria Ken contado a ele sobre o misturador? Será que ele sabia o que acontecera entre Dorothy e eu? Eu não sabia.
Eu não sabia coisa nenhuma, nem a hora do dia, não sabia quem eu era, ou por que, tudo de roldão, aos trancos colina abaixo na direção de casa, eu não me importava, estava cansado de me importar, e a seu modo o senhor Parrish havia tomado a decisão por mim. A viagem estava cancelada. Sem Kenny, nada de viagem. Eu era estúpido demais para fazê-la sozinho, poderia ir no caminho errado, acabar em Torricella Peligna, lugar ao qual que pertencia. Meu pai estava certo. Eu devia esperar um ano. Diabos, Roper não era uma cidade tão ruim. Pelo menos eu podia andar por ela sem ficar perdido. Ia devolver o dinheiro para o meu pai e esperar outro ano.
O Braço começou a protestar, crispando-se, chorando como uma criança mimada, chamando-me de covarde, caloteiro. Seu desprezível, seu nojento, você só pensa em si mesmo. Dei-lhe um tapinha consolador. Veja, eu disse, temos bastante tempo, vamos terminar nossos estudos e passar um verão legal aqui mesmo, em Roper. Vamos trabalhar para o velho, arremessar nos domingos e economizar nosso dinheiro. Mas O Braço não ligava para esse tipo de conversa. Ficou flácido e apático e se fingiu de morto. Tive que rir. Que dissimulado!
Ao entrar na nossa rua passando pelo posto de gasolina do Art, vi alguma coisa familiar na garagem aberta que servia de oficina de lubrificação. Cruzei o asfalto para olhar mais de perto. E lá estava a betoneira do meu pai, o motor desmantelado, os pedaços espalhados pelo chão, o carburador encharcando-se numa cuba de gasolina.
Senti uma dor repentina no peito, uma sensação de que eu ia gritar. Por cima do meu ombro vi Art Belden, o dono do posto, recostado numa cadeira, ouvindo Bing Crosby cantar Where the Blur of the Night no rádio. Fui até lá e abri a porta, e Art disse:
- Oi, Dom.
A marmita dele estava aberta sobre a mesa à sua frente. Ele estava vestido com um macacão branco, com quatro canetas no bolso do peito, e eu o odiei. Odiei o esmero dos sanduíches de manteiga de amendoim que ele estava comendo, as cascas delicadamente retiradas pela mulher dele. Odiei-a também. Odiei o aconchegante bangalô cinza em que eles moravam na Spruce Street. Odiei o cachorro collie deles. Odiei o sorriso amável dele, e odiei a sua resposta antes mesmo de eu perguntar o que o misturador do meu pai estava fazendo na sua garagem.
- Era do seu pai - ele disse. - Comprei-o esta tarde.
Acreditei nele e falei:
- Não acredito em você.
Ele mordeu o sanduíche, desligou Bing Crosby e me alcançou a nota da venda assinada por meu pai. Pelos vinte e cinco dólares sebosos no meu bolso.
- Vou recomprá-lo.
- Não está a venda.
- Eu lhe dou trinta.
Ele sacudiu a cabeça e despejou leite de sua garrafa térmica numa xícara.
- Faça por quarenta.
- Veja bem. Não quero vender.
Tirei o maço de notas e joguei-o em cima da mesa.
- Cinqüenta pratas. Vinte e cinco agora e vinte e cinco nesse verão.
Chegou um carro, e ele saiu para atendê-lo. Peguei o rolo de dinheiro e caminhei de volta até o misturador. Estava surrado e rebentado, como as mãos do meu pai, uma parte da vida dele, tão estranhamente antiga, como que vinda de um país distante, de Torricella Peligna. Coloquei os braços em volta dele, beijei-o com minha boca e chorei por meu pai e por todos os pais, e filhos também, por estarem vivos naquela época, por mim mesmo, porque agora eu tinha que ir para a Califórnia, eu tinha que me dar bem."
Alors, passez le fin.
* imagem: recebi por fax junto com a cesta de amoras.
Ainda estamos em loop, capitão.
"Eu sabia que podia contar com Kenny. Ele tinha uma mesada semanal regular e uma conta no banco; além disso, não era como estar completamente falido e pedir a ele para financiar a viagem inteira.
Da rua eu vi a luz na sua janela, então soube que ele estava em casa. A luz acendeu-se na janela de Dorothy também, e esperei que fosse ela que abrisse a porta quando toquei a campainha, e não Kenny.
Mas também não foi Kenny. Foi o senhor Parrish.
- Quero falar com você - disse ele, saindo para a varanda rapidamente e fechando a porta.
Ele parecia um pedaço de gelo. Tentou manter a voz gelada também, mas ela tremia de emoção.
- Quero que você fique longe do meu filho - falou. - E fique longe desta casa. - O punho dele empurrou meu peito. - Está claro? Você não é bem-vindo aqui. - Ele estava tremendo.
- O que houve? - perguntei.
- Agora escute. Kenny não vai nessa viagem estúpida. Essas são as minhas ordens. E ele não vai mais andar com você. Você é uma má influência para o garoto, entende? Por isso, deixe-o em paz. Fique longe dele, volte para a sua parte da cidade, ou chamarei a polícia.
Antes que eu pudesse falar, e eu não tinha nada para dizer, ele correu para dentro, trancou a porta ruidosamente e apagou a luz da varanda. Fui embora aturdido. Eu sabia que o senhor Parrish não gostava muito de mim, mas não que ele me odiava. Teria sido por eu ter dirigido o caminhão? Teria Ken contado a ele sobre o misturador? Será que ele sabia o que acontecera entre Dorothy e eu? Eu não sabia.
Eu não sabia coisa nenhuma, nem a hora do dia, não sabia quem eu era, ou por que, tudo de roldão, aos trancos colina abaixo na direção de casa, eu não me importava, estava cansado de me importar, e a seu modo o senhor Parrish havia tomado a decisão por mim. A viagem estava cancelada. Sem Kenny, nada de viagem. Eu era estúpido demais para fazê-la sozinho, poderia ir no caminho errado, acabar em Torricella Peligna, lugar ao qual que pertencia. Meu pai estava certo. Eu devia esperar um ano. Diabos, Roper não era uma cidade tão ruim. Pelo menos eu podia andar por ela sem ficar perdido. Ia devolver o dinheiro para o meu pai e esperar outro ano.
O Braço começou a protestar, crispando-se, chorando como uma criança mimada, chamando-me de covarde, caloteiro. Seu desprezível, seu nojento, você só pensa em si mesmo. Dei-lhe um tapinha consolador. Veja, eu disse, temos bastante tempo, vamos terminar nossos estudos e passar um verão legal aqui mesmo, em Roper. Vamos trabalhar para o velho, arremessar nos domingos e economizar nosso dinheiro. Mas O Braço não ligava para esse tipo de conversa. Ficou flácido e apático e se fingiu de morto. Tive que rir. Que dissimulado!
Ao entrar na nossa rua passando pelo posto de gasolina do Art, vi alguma coisa familiar na garagem aberta que servia de oficina de lubrificação. Cruzei o asfalto para olhar mais de perto. E lá estava a betoneira do meu pai, o motor desmantelado, os pedaços espalhados pelo chão, o carburador encharcando-se numa cuba de gasolina.
Senti uma dor repentina no peito, uma sensação de que eu ia gritar. Por cima do meu ombro vi Art Belden, o dono do posto, recostado numa cadeira, ouvindo Bing Crosby cantar Where the Blur of the Night no rádio. Fui até lá e abri a porta, e Art disse:
- Oi, Dom.
A marmita dele estava aberta sobre a mesa à sua frente. Ele estava vestido com um macacão branco, com quatro canetas no bolso do peito, e eu o odiei. Odiei o esmero dos sanduíches de manteiga de amendoim que ele estava comendo, as cascas delicadamente retiradas pela mulher dele. Odiei-a também. Odiei o aconchegante bangalô cinza em que eles moravam na Spruce Street. Odiei o cachorro collie deles. Odiei o sorriso amável dele, e odiei a sua resposta antes mesmo de eu perguntar o que o misturador do meu pai estava fazendo na sua garagem.
- Era do seu pai - ele disse. - Comprei-o esta tarde.
Acreditei nele e falei:
- Não acredito em você.
Ele mordeu o sanduíche, desligou Bing Crosby e me alcançou a nota da venda assinada por meu pai. Pelos vinte e cinco dólares sebosos no meu bolso.
- Vou recomprá-lo.
- Não está a venda.
- Eu lhe dou trinta.
Ele sacudiu a cabeça e despejou leite de sua garrafa térmica numa xícara.
- Faça por quarenta.
- Veja bem. Não quero vender.
Tirei o maço de notas e joguei-o em cima da mesa.
- Cinqüenta pratas. Vinte e cinco agora e vinte e cinco nesse verão.
Chegou um carro, e ele saiu para atendê-lo. Peguei o rolo de dinheiro e caminhei de volta até o misturador. Estava surrado e rebentado, como as mãos do meu pai, uma parte da vida dele, tão estranhamente antiga, como que vinda de um país distante, de Torricella Peligna. Coloquei os braços em volta dele, beijei-o com minha boca e chorei por meu pai e por todos os pais, e filhos também, por estarem vivos naquela época, por mim mesmo, porque agora eu tinha que ir para a Califórnia, eu tinha que me dar bem."
Alors, passez le fin.
* imagem: recebi por fax junto com a cesta de amoras.
3 comentários:
e não me venha(m) dizer que o ano nem começou.
posto concórdia. ducaralho. todos os anos são e serão cagados. (?)
2009 foi um ano de merda
Postar um comentário