::::: arachnophobia :::::
Parei diante do portão da casa dessa garota. Tentei a campainha. Não estava funcionando. Pensando se apertava a do vizinho ou gritava seu apelido, olhei para a lua e esta parecia estar à mesma distância que aquele gato em frente ao portão da casa do outro lado da rua. Uma corrente de ar me fez apertar o outro botão. Nada, também. Voltei pro gato. Ele se coçava devagar. Um caminhão passou e empurrou o gato para longe – porque acabei por notar que este era de papel.
Invariavelmente a garota demorou, mas apareceu. Subimos à alcova celeste e nos deitamos lado a lado como satélites. Com apenas um olho aberto e o outro afundado no lençol, julguei que a assistia de dentro de uma gruta formada pelos ossos da minha órbita. Ela parecia Deus me olhando pelo buraco da fechadura. De repente tomei um susto com a aranha em cima do travesseiro. Foi então que por instinto, flutuando no halo que a envolvia, peguei papel e caneta para escrever o texto.
:::: o compasso cru ::::
Às vezes pode parecer que não, mas sim, é verdade. Já tive menos idade. E em algum momento dessa imaturidade peguei uma aranha para criar. Ou quase isso. Era feriado, ou domingo – lembro-me apenas que era um desses dias doentes de dar pena –, quando a escutei bater à porta. “Tenho um segredo”, disse, claramente, em tom de peçonha, “Matei um homem. Preciso de abrigo por algum tempo”. Perguntei sobre sua família, pois o mais indicado seria procurá-los naquele momento. “Meu pai morreu eletrocutado. Caiu da escada quando dava manutenção no transformador do estádio de futebol. Na queda, segurou-se nos fios de alta tensão para não se espatifar no chão. Ele só esqueceu que estava sem luvas. Minha mãe, a artrópode? Nunca conheci. Enfim”, a aranha ponderou sobre o que diria para completar o pensamento enquanto um grilo passou por perto, e ela o acompanhou com os olhos, mexendo sua presa pra frente e para trás, em dúvida, questão de sobrevivência, questão de fome, “Enfim, querido, não conheço ninguém a não ser você.”
Assim foi que caí na armadilha dos mil olhos da aranha.
Começamos nossa vie à deux. Quando eu chegava em casa, ela corria para seu cantinho favorito do quarto. Toda meiga, e acanhada, balançando na teia. Era interessante ficar a observá-la tecendo. Depois de cansada, me abraçava. Essa era a deixa para alimentá-la com insetos de boa qualidade – os quais eu conseguia mediante negociação injusta com as crianças ranzinzas do bairro. Ao terminar a refeição, deitávamos no sofá e, entrelaçados, conversávamos horas a fio. Não raro, como recompensa por me fazer companhia nas noites insones, trazia-lhe da rua pequenos roedores para se deliciar. Nessa cadência suave, o tempo, indolente, sumia. Por conta do trabalho, costumava passar o dia todo fora de casa. Mas, em minha ausência, sempre lhe deixava algo comestível. A meu ver, era nesse quesito que nossa existência se resumia e se assemelhava. Com muito custo aprendi que não era suficiente; que tinha de dar cada vez mais, cada vez uma coisa nova; que tinha de me esforçar para a convivência agradavelmente seguir adiante. Certa noite, ligeiramente mais absurda que o padrão, cheguei mais embriagado que qualquer homem moderno acredite ser obrigatório. Não consegui, portanto, alimentá-la nem lhe chamar para conversar comigo. Afinal, desmaiei. Durante a madrugada acordei com uma coceira no nariz. Então, simplesmente soube que a aranha havia entrado em mim.
A partir dali, nossas sensações e pensamentos se misturaram. Eu era ela e ela também era eu. Coisa mais estranha. Através dos olhos dela, eu me via por dentro. E acredito que ela trocava informações com algo perdido dentro de mim enquanto vagava pelo meu corpo – embora fisicamente eu não a tivesse penetrado. Assim ficamos por anos. Conhecendo-nos e tornando-nos íntimos dessa maneira. Equivocada, forçada. Dois seres vivendo uma única vida. Apertada. Tecendo a linha de nosso tempo; a armação de um guarda-vento. Apesar de a coceira incomodar nas noites em que bebia conhaque e comia ovos de codorna, aqueles foram os anos mais tranqüilos de minha existência, ou seja, o mesmo vale para ela, pois quando falo do sangue, falo de tudo. Não era preciso me explicar, me fazer entender. Ela carecia de queixas, não precisava pedir. Nem falar. Tudo acontecia em silêncio, internamente. Em pacífico consentimento.
Entretanto – e eu não acredito nisso –, algumas coisas precisam mudar. Numa manhã de domingo, ou feriado santo – nunca distingui a diferença entre esses dias e um triste velório – acordei com a notória coceira no nariz. Em seguida, a aranha estava sentada em meu peito, fitando-me com seus vários olhos, sem exceção dos olhos camuflados nas costas cansadas da vida embaixo de pedras, cadeiras, rins, através do duodeno; tiquetaqueando suas várias pernas; ela havia nascido, portando um meio-sorriso de paixão. A coloquei no carro e, imediatamente, antes que eu cuspisse mais aranhas, fomos nos casar no cartório mais próximo. “Duas traças libidinosas fugiram do paraíso”, esclareceu-nos o padrinho, sublinhando nossos votos de velhos habitantes dum novíssimo testamento inundado.
4 comentários:
sacramentado e verbalizado.
ad infinitum, ivanovitch.
ad regurgitum, petkovic.
tantas aranhas passaram que decorei como inclinam a cabeça para receber beijos familiares; sei como põem os óculos no canto da mesa para talvez derrubá-los no decorrer da refeição; observei o tombar desacompanhado dos dados de bozó em suas esquinas de movimento obstinado; vi como o formato de seus rostos é pegajoso e cativante e me lembram janelas abertas com ressalvas.
aranhas que rabiscam agendas e usam óculos e tentam se maquiar como polvos.
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