segunda-feira, 19 de outubro de 2009

ex animo dicere LIV

"Adeus, quarto. Você tem sido realmente agradável para mim. Você me serviu bem. A cadeira foi agradável de sentar sobre ela. A cama era um bom conforto nas noites. E as janelas, as janelas me permitiram ver o mundo. Você tem sido um quarto maravilhoso para mim. Mas preciso ir. Preciso deixar você. Lembre-se, eu me lembrarei de você para sempre. E estou certo que você sempre se lembrará de mim. Adeus", despediu-se Michael Jackson, Mister Lonely, neste estranho filme de personificadores que conta com Werner Herzog no papel de um padre e Leos Carax interpretando um agente-amigo duvidoso.


Cena de abertura:

Alors, passez le mot!



* imagens: pôsteres divulgação.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

ex animo dicere LIII

"Conhece o velho Testamento, jovem? 'Embora soprem a trombeta e deixem tudo preparado, ninguém irá à batalha, pois minha ira está sobre a multidão. Fora está a espada, dentro a peste e a fome. Aqueles no campo morrerão pela espada, aqueles na cidade serão devorados pela fome e pela peste. Todos que sobreviverem e escaparem, irão às montanhas, gemendo como as pombas dos vales, cada um por seus próprios pecados. Mãos ficarão moles, joelhos fracos como a água. O horror cairá sobre eles. Jogarão sua prata nas ruas, seu ouro será impuro. Seu ouro e prata não os salvarão no dia da ira do Senhor. Não poderão satisfazer sua fome ou encher seus estômagos com eles, pois os fizeram cair no pecado. Viro minha face para eles, e profanam meu lugar sagrado. A terra está ensangüentada e a cidade cheia de violência. Trago a mais perversa das nações para tomar posse de suas casas. Quando o terror chegar, buscarão paz, mas não haverá nenhuma. Buscarão a visão do profeta, e os ensinamentos da lei do sacerdote haverá desaparecido. Assim como os conselhos dos idosos. As mãos das pessoas da terra irão tremer. Os tratarei de acordo com suas condutas e pelos seus próprios critérios os julgarei. E então saberão que eu sou o Senhor'", foi o que automaticamente a mãe disse ao filho debaixo da húngara chuva da Condenação (Kárhozat) assim que ele saiu do show:

Alors, passez...




* imagem: da noite em que afundamos no bar.

ex animo dicere LII

Georgina Spica indaga Richard Borst, respectivamente, terceira e primeiro citados no título de The Cook, The Thief, His Wife & Her Lover:
"- Quando você faz um menu, como estabelece o preço de um prato?
- Cobro caro por tudo que for preto. Uvas, azeitonas, amoras. As pessoas gostam de ser lembradas da morte. Comer comida preta é como consumir a morte. Como dissesse: Morte, estou comendo você. As trufas pretas são as mais caras, e o caviar. Morte e nascimento. O fim e o começo."
Alors, passez!



* imagem: da noite em que jantamos em família.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

ex animo dicere LI


"Eu fico irritado quando as pessoas não percebem que viver é basicamente um ato de crueldade", disse Sr. Okada de Hohohoh enquanto pescava produtos de roubo lá no volume 04 de Bambi.
Alors, passez le mot!




* imagem: loja conrad.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

ex animo dicere L


Hlemmur (2002) é um documentário islandês dirigido por Ólafur Sveinsson sobre a homônima estação de ônibus na capital do país, Reykjavik, e seus nem-tanto-Dharma-mas-apenas-Bums frequentadores. Deixando os comentários quanto ao filme de lado, reah, ressalto que a trilha sonora é assinada pelo magnífico Sigur Rós. No mais, parece-me que o filme não foi muito visto: tem somente 38 votos no IMDB. E, no mesmo site, tem outro detalhe curioso a respeito do Cast: há somente um character descrito. Enfim, por essas e outras, reze para o deus torrent todas as noites. Abrace seu computador agora. Or "sit me down and shut me up."

Já diria Stuart Staples, el borracho, na canção Old Friends de seu disco solo pós-Tindersticks:
"For I've been drunk and stoned and feeling mellow
and that's how I've been getting through.
Looking at the blurry shapes around me,
thinking I knew more than I knew
".
Comparado a isso, só o depoimento/desabafo real do personagem moonshiner, Hannesar Þórs Traustasonar, que não termina o filme (e não é à toa que evoquei Staples, pois, no trailer acima, Traustasonar é aquele com terno parecido a esse, mas com mangas):
"I have three children. I have a son who is 18, another son who is 10 and a 3-year-old girl. None of them is registered as mine. I'm not bitter about life. I have my whole life ahead of me. I could have killed myself ages ago if I'd wanted to. Even so, I hope every single night that I won't wake up the next day. Then it would all be over. But it never seems to happen. I always wake up".
Ah! Há também o packaging, e essas são as informações:
"It comes as a hessian covered hardback measuring 20 x 17cm, with a cute inset plate and the word 'Hlemmur' subtlely debossed into the front cover. Each copy is individually stamped and numbered 1 - 3,000, and contains 48 pages of beautifully reproduced pencil drawings by members of Sigur Rós. There is no text, save for track-listings and minimal spine information. A cd of the full musical score comes in a pochette on the inside front cover, while the dvd of the documentary is likewise housed in the inside back cover".





Alors, passez pas la mort!




* imagens: não lembro onde encontrei.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XX

::::: heima :::::

Ela precisa voltar para casa. Comme tout le monde.


a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XIX

::::: sideways :::::

A gente já estava devidamente embriagado antes mesmo de o churrasco ficar pronto. Numa das incontáveis idas e vindas até o freezer, encontrei vários porta-retratos com velhas fotos. Investiguei os rostos. Me convenci de que não conhecia boa parte. Próximo a essas fotografias, havia uma porção de álbuns contendo vasto cemitério de fantasmas em preto e branco. Apanhei-os, e também as cervejas geladas, para mostrar ao Gaúcho, que do lado de fora se esgoelava.
– Traz mais! Traz mais!
No momento em que pôs os olhos trincados naqueles desconhecidos, o cara tornou-se pacífico, e seus olhos ao invés de água, transformaram-se em vinho. Juntos, começamos a folhear os álbuns.





Não ouso discorrer sobre tais imagens carregadas de sentimentos alheios que fazem a gente querer reviver vidas passadas. Pelo contrário. No lugar de ensaios, estudos de imagem como o de Susan Sontag ou os tratados de semiótica, apenas tomo posse das palavras de Helmut Newton: “Those who write about photography write only for those who write about photography”.
Mas ao deparar-me com as (três) últimas fotos, um trovão abriu meu crânio. Nelas localizei a cadeira na qual estava sentado. Virei-me para Gaúcho.
– Os sentimentos, as pessoas, as roupas, até as próprias fotos um dia se vão, dissolvendo-nos. As únicas coisas que sobram das fotos antigas são alguns móveis, algumas casas, carcaças enferrujadas de autos... Um teto, mesas, os ladrilhos, as cadeiras, as pedras... Estes são os únicos seres perenes do mundo de azia que estamos mastigando com desgosto.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

a patetice, isto é, a amizade X

::::: tratado dos conceitos desleixados :::::

Dei dois passos em direção ao prédio e parei – supondo que realmente exista um estado pleno de repouso no qual nada se move e tudo se espera. Dobrei o pescoço para a esquerda, podendo assim encará-lo melhor. Não me esforço para entender, mas achei aquilo parecido a uma barra de cereal com cobertura de mármore. Tamanha obra-prima das sensações degustativas transmitia-me a noção de pecado que é ser um incompleto monumento originado daquele espermatozóide sem igual. Isso veio a se confirmar quando a sombra de um gavião (costurando – com a linha de bolsas de ar – os arranha-céus daquele perímetro) me cobriu. Concentrando nela, apenas uma forma de representação, tropecei. Sinos badalaram nos tímpanos, reverberando na caixa craniana do homúnculo. “Quanta magnitude!”, desabafei. Seria mais digno se eu fosse uma galinha com o pescoço cortado me debatendo no seu prato. Portanto, caí de cara no chão não ao ciscar, mas ao tentar atravessar essa confusa avenida, onde a traiçoeira camada de fina areia que cobria o asfalto voava como a calda de um fantasma branco solto pela beira mar das férias de verão de 1997. De véu, uma senhora mumificada tentou me ajudar. Lhe disse que estava “tudo bem, obrigado” quando – não é preciso ser um Charles Darwin ou estar ciente do Efeito Flynn para se verificar que – a situação era, desconsiderando a cadeia alimentar, raquítica. Coloquei a mão no chão para me levantar e, não por acaso, não por estar fazendo um calor sufocante, meus cinco dedos transformaram-se em minhocas. “Tão jogando batalha naval com a minha cabeça”, gotejei pela boca aos filhos da terra. Mantive a calma, apesar de não parecer que estava ali. Olhei novamente para a estrutura vertical. Ela ainda era uma apetitosa barra de cereal. Por outro lado, noventa e oito por cento das janelas, que representavam alguma parte da cobertura do saudável produto comestível, haviam desaparecido. Restando apenas um par, as janelas do 14º andar, e estas guardavam semelhança a dois olhos sabiamente abertos, sendo que o impossível colorido da luz atravessando o vidro com um quê de chama eterna do Monte Quimera era o que distinguia la ventana dum par de íris pigmentadas. Ali era o bunker domiciliar de Nha-nhá.
No elevador, o espelho, derretendo-se, me advertiu: você precisa de isotônico. Por certo que sim. Às vezes eu era um roué borracho com o pito de pango pendurado nos lábios, levantando fina nuvem de fumaça e areia no ar. (Pela cor branca das partículas flutuantes, aquilo não deveria ser muito conveniente). Devido ao fato de eu ter sido uma criança que chorava quando o noticiário anunciava o fim do mundo, uma criança que mesmo sendo incapaz de nadar se jogava na piscina, às vezes eu também perseguia a incapacidade de me auto-realizar. Nas demais ocasiões, para nossas seções de verminosas elucubrações, eu procurava Nha-nhá.
As minhocas beliscaram o interruptor. A campainha parecia o som estridente de copos se quebrando. Recompus-me com o adubo de escassos segundos. Em seguida, a porta se abriu, rangendo como se fosse um nariz sendo assoado.
– E aí, Antônio das Mortes – recebeu-me Nha-nhá, fazendo o movimento flipping com o canivete butterfly como quem manuseia a filosofia da/e linguagem no intuito de arranjar a ordem da sentença de forma similar à navalha que corta prepúcios.
– Fala, Cangaceiro das Filipinas. Como está a prisão domiciliar? – ele resmungou algo que não entendi – Entendo, Entendo. Bem, que tal deixar de ser deviant por uns tempos? Trouxe isto – tirei uma sacola do bolso – Vamos coquear?
– Por seguro, la hoja de coca no es droga. Se bem que – e ele parou de manusear a arma branca – seria muito mais intenso nunca se esquecer do faraó Frantchesca que no leito de morte, ao sucumbir de sua dinastia, durante o prelúdio da sinfonia da morte, ordenou: Me enterrem com dois quilos de cânhamo.
– Tem Gatorade aí, cara? Me arruma um pouco... – e eu poderia ter completado a sentença comentando que “o espelho me disse”, porém e felizmente, na hora certa me recordei da odiosa banda autora de tal música desgraçada e, com os “três pontinhos”, evitei que eu também me tornasse um.
Seguimos através dos cômodos do apartamento. No corredor que levava à cozinha, Nha-nhá arremessou o canivete que, qual lepidóptero kamikaze, foi fincar-se na natureza morta à mesa. Chegando lá, me serviu a bebida e uma daquelas frutas impressionistas. Com o copo na boca e nada na cabeça, minha atenção se perdeu. Localizei-a junto ao programa de esportes que a empregada assistia, vidrada.
– Atualmente – comecei, mas parei para engolir um pouco do líquido e retomei – a única coisa que me emociona é assistir ao esforço recompensado de um atleta que vence uma partida, uma prova ou bate um recorde. Aqueles segundos de explosão, de êxtase, de músculos arrebentando, de puro vício, são fogos de artifício em meu coração.
– Ou seja, Foche, são aqueles míseros segundos de prazer do viciado quando este começa a se drogar.
– Elektrobank – resmungou a empregada, eletronicamente além de nossa conversa fiada.
– Cara, existe a lei da compensação do universo – prossegui.
– E de que livro de auto-ajuda você tirou essa alínea?
– Livro algum, Nha-nhá. Foi quando da última borracheira que isso me surgiu.
Por conta dos avançados estudos lingüísticos, Nha-nhá tinha problemas em acreditar em qualquer sentença “possível de se exprimir”, “que o verbo alcançasse”. Entretanto, no caso da força de luz que invoquei, nada se podia dizer contra.
– Tudo bem. Mas a única coisa que penso ao assistir essas atletas é: que me desculpem as feias, mas matar as belas é fundamental.
– Homem! Imagina se você está na rua andando e um anzol te fisga ou se está chupando um fruto na árvore e uma mão te espatifa.
– Não sou nem peixe nem mosquito.
– Quer ser como o canivete? Quer ter poder?
– O poder só é despótico a partir do momento em que você (esclarecido de suas perniciosas propriedades) o utiliza para seu próprio apetite. No mais, eu sou tirano.
– A questão não é ser perfeito, certo? É assumir os defeitos e fazer deles a sua perfeição.
– Una pelota! A questão é ter um bloquinho de anotações para quando for usar o vaso sanitário.
– E um lápis que para escrever tem de sangrar.
– Então sinta o peso transparente do que atravessa por esta caneta.
Dito isso, Nha-nhá tomou para si um caderno de caligrafia da empregada e começou a escrever.

– Isso é poder, Johnny – disse-me, enfático e, ao mesmo tempo, resplandecente, como se estivesse diante de uma nota de quinhentos rasgada ao meio – Zeros.
– E é tão absurdo acreditar que o mundo...
– Já chega! – tentou interromper-me.
– Por exemplo... – insisti.
– Já chega! – derrubou um copo para me aterrorizar.
– Criou a si próprio e vendeu o tempo engarrafado.
– Não agüento. Isso é filosofia de porco, Foche.
– Ah, pode até ser... – respondi, tristonho, e prossegui com a voz quase imperceptível – Mas eu consigo olhar para o céu...
– E é – e aqui ele exagerou em sua famosa risada peculiar – É inteligência negligenciada. Tome o caso de John Zerzan. O sujeito viveu por alguns anos do dinheiro que ganhava vendendo o próprio sangue para um hemocentro norte-americano.
– Sabia que espero ansiosamente pelo dia em que essa risada se torne um clássico do cinema mil grau?
Finalmente, e ignorando-me, Nha-nhá resolveu abrir a sacola de coca. Pôs água para ferver. Selecionava as folhas quando, com uma folha que caiu no chão, decidiu chamar o gavião. A colocou na frente dos lábios e assoprou. O som agudo e prolongado atravessou o zênite do sol e voltou trazendo o mau agouro das notícias vastas.
– Em que tem pensado, Nhá?
– Em vender a alma ou trocá-la por uma cerveja eterna.
– Cada macaco em sua jaula.
O gavião apareceu na janela da cozinha. Bicou o vidro e fez-se notar. Numa tigela, lhe servimos o chá. Encarei-o à procura da beleza animal que o já mencionado Darwin deveria odiar. Procurei também por rastros de semelhança humana naquele pássaro. Por azar, uma viatura passou na avenida lá embaixo, assustando o penoso antes que eu visse a medula óssea da gema que o pariu. Meu amigo fechou o cenho.
– Não me sinto confortável quando ouço a sirene da polícia – segredou-me.
– Essa sensação é tão genérica quanto a necessidade de dormir com os pés limpos para o caso de morrer na hibernação e for parar onde tiver que ir, desde que com a tranqüilidade de não estar sujando casa alheia.
– Cala a boca. Nem vou glosar.
– Glosar, glosar... Palavrinha gay.
– Notaram que as folhas e as penas podem ter parentesco? – ponderou a avantajada funcionária da família Nha-nhá – Um pássaro poderia vestir sua roupa de folhas e as árvores crescerem com penas nas extremidades de suas mãos que daria no mesmo.
– Por essa eu não esperava – comentei, com pouca sinceridade.
– Eu gosto quando é chave – ele rebateu – Crio hábitos muito depressa, Fuck. Porém, toda discussão deve ser conduzida sem interesse para que dela se aproveite algo.
– Escuta, ontem tinha uma caminhonete descendo a rua de casa com várias vadias na carroceria. Pensei em assaltá-las, mas não para roubar pertences. Anunciaria: quero um cu, porra! Passa um cu desses pra cá!
– Brilhante! Prometa que se um dia o fizer a trará aqui.
Hesitei em responder.
– Promete logo, bicho. Te digo. Faremos endoscopia e filmaremos o interior dessa mulher. Em seguida, distribuiremos esse vídeo nas escolas primárias.
– Dúvida! – avisei, levantando a mão como um aluno dentro da caverna do mestre – O que me mata é ficar pensando: como será que ela fode?
– Não se faça de rogado na próxima. Aprenda comigo – ele fechou a janela, amarrou o fio das cortinas e deixou a casa numa penumbra amistosa – Recusei gentilmente (mais do que devesse, talvez), quando, na primeira das vinte noites que um amigo passaria ausente, metido em viagem com a família empresarial, a mulher dele me ligou convidando para jantarmos a sós. A carne é fraca, a merda é mole e a cabeça é dura: bem sabemos. Estava convicto de que se a encontrasse seria uma explosão de prazer acumulado. Por mais que as intenções dela não fossem similares. Contudo, a noite insone que se seguiu me fez pensar somente na resolução do desejo. Ainda madrugada, comprei pães, queijos, presuntos, manteiga e leite, muito leite – novamente aquela risada incomparável ecoando nos tambores da garganta – E parti para a casa do casal desfalcado. Tomaria o desjejum ao lado dela para redimir-me quanto a noite passada. Por outro lado, após noite de reflexão e contenção sexual, de delírios e fantasias extraconjugais idênticas a minha, ela me recebeu sorridente, de braços e pernas incandescentes abertas.
– De quem você está falando, cara? Da oriental, albina e modelo?
– Exato. A reencarnação do SEU bonsai, que eu deveria ter enrabado desde o princípio.
– Você não havia me contado sobre a sacanagem. Deveria ter me convidado para. Por agora, preciso ir ao banheiro. Calor, está muito calor, seu desertor.
Enfiei a cabeça debaixo da torneira. Quando emergi, meu reflexo ficou fracionado pelos espelhos do armário acima da pia, cada qual em seu ângulo, dividido em 3, 5, 2 e 7 vezes. Era como um jogo de espelhos, um parque de diversões com diversos de mim. Apenas outra forma de representação, sem olhos. Recuei a cabeça alguns centímetros mais e eu, o refletido, li o seguinte aviso: “Não jogue papel na Cuba. Fidel não gosta”. Comecei a criar uma história em quadrinhos com essas cenas. Voltei para lhe compartilhar a idéia, mas ele preferiu levar meu subterfúgio para passear em outros satélites.
– Será que admirar as coisas simples após experimentar a dor é um conceito de beleza contemporâneo, Foche?
– Pouco importa. Mijei azul.
– Azul de tão branco?
– Não, azul mesmo
A meu ver, nossas falas começaram a estourar como bolhas de champanhe assim que deixavam a boca.
– Garanto que é um conceito de beleza ultrapassado.
– Sei lá, Nhá – ensaiei uma resposta e, no entanto, decidi também guiá-lo para outras luas – Mas assistir ao movimento da natureza pode não trazer respostas, quiçá mais perguntas. Fato é que venerá-la com os poros abertos faz com que respostas ou perguntas não signifiquem muito.
A velocidade do pensamento de cada um foi aumentando, se mesclando, a ponto de não saber a origem, não ter destino.
– Quando eu olho para uma mulher eu não vejo um rosto. Vejo um cu e uma boceta no lugar de nariz e boca.
– A contramão é a freeway dos sem sentido.
Frenéticas, as luzes giravam como um carrossel borrado e soltavam fumaça adocicada e grandes faíscas táteis. Normalmente, alguém enlouqueceria com o espetáculo de tal barbárie conscientemente insignificante.
– Criar é mais importante do que ser feliz, Glauber?
– É por isso queu vivo morrendo feliz. Para sempre.
A empregada voltou a fazer sua tarefa de caligrafia com a leve caneta cujo sangramento fora estancado por nós.
– Temos de mentir para viver melhor.
– Porque o melhor sempre fica pro final.
Sem demora, descemos as escadas para chegar à avenida infernal donde julgaríamos o rebanho de vacas e bois de barro que brincam de esconde-esconde verbal todos os dias diante da platéia que grita nome algum.
– Particularmente eu não faria isso – confessei, por ser mentiroso – Mas como estou sendo retratado e tenho consciência das implicações disso, eu aceito fazê-lo diante das câmeras desligadas.
Antes e carinhosamente para a desastrosa conclusão do tratado, a borrasca chegou. Levando os prédios para longe. Então pedras de granizo foram expelidas dos rins de algum Deus celestial. Voluptuoso, o gavião ainda planava, envergado, soberano. Era o único ser inteligente num raio geométrico que parte do centro de cada coração febril e vai terminar na última circunferência escrita nas linhas do sistema caligráfico dos mundos: um tênue ponto final que dá seqüência ao excesso. A ave fez um rasante em nossa direção. Não sei de Nha-nhá, mas quando ela mergulhou, eu fui ao seu encontro para mergulhar no fundo dos olhos de gavião, para descobrir que não efetuara a volta que faltava no parafuso, para descobrir que sorvera o gole a mais de chá que explodiria a barriga, para descobrir que alma sequer eu tinha.
– Quando eu esquecer o cheiro da chuva é porque essa cidade deve parar de existir – eu disse, em oração – Se é que algo de fato desaparece por completo.
Em vista disso, Nha-nhá, com a garganta seca, só quis completar.
– Meu cérebro é uma poltrona onde qualquer um, que souber se deitar, pode se aconchegar.
Deitamos na avenida com a promessa de que a estrada iria nos curar, de que alguém lavaria nossos pés encardidos e os secaria com a boca. Nos contemos para praticar a psicótica pareidolia e procurar rostos desmascarados não nas nuvens carregadas mas no espaço entre elas e nós e os gráficos oceânicos. Nos ajeitamos em posições de Hatha Yoga que nos fariam alcançar a quarta parede e ultrapassar o sétimo céu (eu, num auto-retrato em Shirsasana, e ele numa meditação em Balasana). Deitamos, portanto, na avenida, de tal modo que tínhamos um bom emprego, que parecíamos simplesmente decoração da cidade sendo metralhada por bólides de gelo, semelhante ao mobiliário a espera da aterrissagem de Sônia Silk, a fera oxigenada de beleza imemorial.


“Nessas condições, imóvel diante da grande miséria nacional, o otário só pode seguir dopado de sol, da cachaça e de magia. Até um dia acabar de vez com essa nossa evidente necessidade do samba, da necrofilia e da saudade”.

ex animo dicere XXXXIX



Então, ao sul do setembro mais azul de 1897, surgiu este sujeito chamado Georges Bataille. Depois dele, as libertinagens ficaram mais profusas. Em poesia psicanalista também.

"A partir dessa época. Simone adquiriu a mania de quebrar ovos com o cu. Para isso, colocava a cabeça no assento de uma poltrona, as costas coladas ao espaldar, as pernas dobradas na minha direção enquanto eu batia punheta para esporrar em seu rosto. Só então eu punha o ovo em cima do buraco: ela se deliciava a mexer com ele na rachadura profunda. No momento em que a porra jorrava, as nádegas quebravam o ovo, ela gozava, e eu, mergulhando o rosto no seu cu, me inundava com aquela imundície abundante."

Várias páginas de pura beleza se seguem, mas vamos adiantar o clímax.

"Ela me levou até o morto e, ajoelhando-se, levantou as pálpebras e abriu completamente o olho sobre o qual a mosca havia pousado.
– Você está vendo o olho?
– E daí?
– É um ovo – disse ela, com toda a simplicidade.
Insisti, perturbado:
– Aonde você quer chegar?
– Quero me divertir com ele.
– E o que mais?
Levantando-se, ela parecia incendiar-se (estava, então, terrivelmente nua).
– Escute, Sir Edmond, quero que você me dê o olho já, arranque-o.
Sir Edmond não estremeceu, tirou uma tesoura da carteira, ajoelhou-se, recortou as carnes, depois enfiou os dedos na órbita e extraiu o olho, cortando os ligamentos esticados. Colocou o pequeno globo branco na mão de minha amiga.
Ela contemplou a extravagância, visivelmente constrangida, mas sem qualquer hesitação. Acariciando as pernas, fez o olho escorregar por elas. A carícia do olho sobre a pele é de uma doçura extrema... com algo de horrível como o grito do galo!
Simone, entretanto, divertia-se, fazendo o olho escorregar na rachadura da bunda. Deitou-se, levantou as pernas e o cu. Tentou imobilizar o olho contraindo as nádegas, mas ele saltou – como um caroço entre os dedos – e caiu em cima da barriga do morto.
(...)
Levantando-me, afastei as coxas de Simone: ela jazia no chão, de lado; encontrei-me então diante daquilo que – imagino – eu sempre esperara: assim como a guilhotina espera a cabeça que vai decepar. Meus olhos pareciam estacados de tanto horror; vi, na vulva peluda de Simone, o olho azul-pálido de Marcela a me olhar, chorando lágrimas de urina. Rastros de porra no pêlo fumegante conferiam a esse espetáculo um aspecto de dolorosa tristeza. Mantive afastadas as coxas de Simone: a urina ardente escorria por baixo do olho, sobre a coxa estendida no chão..."
(BATAILLE, Georges. Histoire de l'oeil, 1928, p. 29, 84, 85).

Alors, passez l'érotisme!




* imagens: I got 'em from my mama.

ex animo dicere XXXXVIII














Como não poderia faltar, aí vem Ele: Henry Miller. Pois não há nada igual quando Ele começa a deslizar.

"À noite, quando olho o cavanhaque de Bóris estendido sobre o travesseiro, fico histérico. Ó Tânia, onde estão agora aquela sua boceta quente, aquelas ligas gordas e pesadas, aquelas coxas macias e arredondadas? Em meu membro há um osso de quinze centímetros de comprimento. Tânia, alisarei todas as pregas de sua vulva, cheia de semente. Mandá-la-ei de volta para seu Sylvester com a barriga doendo e o útero virado. Seu Sylvester! Sim, ele sabe acender um fogo, mas eu sei inflamar uma vagina. Enfiarei pregos quentes em você, Tânia. Deixarei seus ovários incandescentes. Seu Sylvester agora está um pouco ciumento? Ele sente alguma coisa, não sente? Sente os remanescentes de meu grande membro. Deixei as margens um pouco mais largas. Alisei as pregas. Depois de mim, você pode receber garanhões, touros, carneiros, cisnes e São Bernardos. Pode enfiar pelo reto sapos, morcegos, lagartos. Você pode defecar arpejos ou amarrar uma cítara sobre o umbigo. Eu estou fodendo, Tânia, para que você fique fornicada. E se tem medo de ser fornicada em público, eu fornicarei privativamente. Arrancarei pêlos de sua vulva e os grudarei no queixo de Bóris. Morderei seu clitóris e cuspirei moedas de dois francos..."
(MILLER, Henry. Tropic of Cancer, 1934, p. 11).



In fact
, Ele já esteve por aqui, na versão do dinamarquês Jens Jørgen Thorsen. Pero fue Tom Schiller que cinco anos mais tarde filmou Asleep & Awake, uma "conversa" com o autor em seu peculiar banheiro.

I


II


III

Alors, passez le grand maître!




* imagens: a capa do livro resgatei dum sebo e as demais são stills da película.

rt 4º

http://agoraquando.blogspot.com/2009/10/4.html