quarta-feira, 4 de novembro de 2009

ex animo dicere LVIII


"Conhecem a história de um cara que cai de um prédio de 50 andares e enquanto vai caindo, repete para ele mesmo, para se tranquilizar: 'Até aqui, tudo bem. Até aqui, tudo bem. Até aqui, tudo bem'. Mas o importante não é a queda. É a aterrissagem!", dispara o narrador no início d'O Ódio de Mathieu Kassovitz, esse multi-artista gostosão, em seu filme que eu comparo a um longo e poderoso fôlego.




Alors, passez la haine!



* imagem: divulgação.

ex animo dicere LVII


Bom, esse filme não tem lá aqueles diálogos qu'eu costumo usurpar para os absurdos fins da citação. Tampouco tem avaliação no Imdb ou é recomendado por alguma entidade de fórum. Longe disso. Sprout (2004) de Thomas Campbell é tão somente um delicioso e suave filme de surf que enche o coração. E digo mais: tem ótima trilha sonora que logo de início o separa do lugar-comum dos filmes do gênero, tem "personagens" (de verdade, baby) interessantes e tem uma montagem deveras inteligente. Agora falta completar a trilogia: trimyourlifeaway.com
Et alors, passez la vague!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXIV

::::: ghost world :::::

Não parava de entrar mulheres e garotas deliciosas naquela padaria. Em dado momento de contemplação da trindade perna-bunda-nuca eu me confessei:
– Só quero um espécime – e mostrei quatro dedos para contrastar a quantidade anunciada pela mente com a desejada pelo corpo.
– Escolha outras, então, FOOLchesatto. Você não precisa de tiros calibre 22 que entram em você pela intriga, aquele buraco entre a clavícula e o pescoço, e circulam aí dentro como roedoras traiçoeiras. Você precisa de amor calibre 38 pra te arrebentar a fuça logo no primeiro impacto – explicou-me McArthur.
– Ou seja – interveio Nha-nhá – O mesmo que você, bala perdida. Rá, vocês e seus risíveis instintos corrompidos...
– PRO-DU-ÇÃO!! – interveio alguém no recinto, mas como não lhe demos atenção, ela foi desaparecendo da cesta de vime como os pães com cobertura de queijo derretido – Cadê a nossa...
– E quanto a você, Nhá? – questionou McArthur, duro feito pedra apaixonada.
– É, e quanto a você? – eu repeti, em repreensão, abusando do tough love.
– Gurizada, eu prefiro pegar uma barata de esgoto, amarrá-la e mergulhá-la em bosta humana até gozar.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXIII

::::: antichrist :::::

– Deus, tá me ouvindo? – gritei, com os olhos crucificados na palma da mão da mulher que foi embora – Tira o dedo do meu cu e enfia no teu nariz.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXII

::::: le charme discret de la bourgeoisie :::::

Convidei Fran para montarmos nossos cavalos e cuspirmos na cara do mundo. A data está marcada. O que não ficou decidido foi a trilha sonora de nosso iHorse. De repente, Castzilla despertou. Iniciou uma série infinita de abdominais culposas. Então fiquei em dúvida quanto a quem convidar para este périplo ao redor do formigueiro.

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves XXI

::::: matou a família e foi ao cinema :::::

Cheguei de madrugada, e meu vizinho – o desconhecido, o invisível – estava empurrando aquele carrinho de mão para dentro da caçamba que desde sempre existiu no fim da rua.
“Por que diabos o cara...?”, me perguntei enquanto ébrio e, portanto, pouco curioso ou interessado nos tropeços da vida do outro lado do muro.
Dois dias depois, porém, surgiram duas possíveis respostas a partir de hipóteses detetivescas que cheiravam a tempestade:
1) Aconteceria a festa de sua filha pequena;
2) Encontrariam meia dúzia de bebês mortos na caçamba.
Desde então, temo que estórias como essas se transformem em filmes contemplados por leis & afins S/A.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

ex animo dicere LVI

"As nuvens correm sobre minha cabeça, mas estou numa espécie de êxtase em que tudo tem um significado e me sinto submergido pelos sentimentos vertiginosos e arrepiantes que devem atingir os esquizofrênicos quando todos os segredos da eternidade são subitamente postos a nu", disse-me Peter Carey quando relatava um sonho que tivera dentro daqueles 30 Dias em Sydney.
Alors, passez la ville!



* imagem: veio pelo correio.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

ex animo dicere LV



John Fante.
1933 foi um ano ruim.

Danilo Fochesatto.
2009 foi um ano ruim.

Ainda estamos em loop, capitão.





"Eu sabia que podia contar com Kenny. Ele tinha uma mesada semanal regular e uma conta no banco; além disso, não era como estar completamente falido e pedir a ele para financiar a viagem inteira.
Da rua eu vi a luz na sua janela, então soube que ele estava em casa. A luz acendeu-se na janela de Dorothy também, e esperei que fosse ela que abrisse a porta quando toquei a campainha, e não Kenny.
Mas também não foi Kenny. Foi o senhor Parrish.
- Quero falar com você - disse ele, saindo para a varanda rapidamente e fechando a porta.
Ele parecia um pedaço de gelo. Tentou manter a voz gelada também, mas ela tremia de emoção.
- Quero que você fique longe do meu filho - falou. - E fique longe desta casa. - O punho dele empurrou meu peito. - Está claro? Você não é bem-vindo aqui. - Ele estava tremendo.
- O que houve? - perguntei.
- Agora escute. Kenny não vai nessa viagem estúpida. Essas são as minhas ordens. E ele não vai mais andar com você. Você é uma má influência para o garoto, entende? Por isso, deixe-o em paz. Fique longe dele, volte para a sua parte da cidade, ou chamarei a polícia.
Antes que eu pudesse falar, e eu não tinha nada para dizer, ele correu para dentro, trancou a porta ruidosamente e apagou a luz da varanda. Fui embora aturdido. Eu sabia que o senhor Parrish não gostava muito de mim, mas não que ele me odiava. Teria sido por eu ter dirigido o caminhão? Teria Ken contado a ele sobre o misturador? Será que ele sabia o que acontecera entre Dorothy e eu? Eu não sabia.
Eu não sabia coisa nenhuma, nem a hora do dia, não sabia quem eu era, ou por que, tudo de roldão, aos trancos colina abaixo na direção de casa, eu não me importava, estava cansado de me importar, e a seu modo o senhor Parrish havia tomado a decisão por mim. A viagem estava cancelada. Sem Kenny, nada de viagem. Eu era estúpido demais para fazê-la sozinho, poderia ir no caminho errado, acabar em Torricella Peligna, lugar ao qual que pertencia. Meu pai estava certo. Eu devia esperar um ano. Diabos, Roper não era uma cidade tão ruim. Pelo menos eu podia andar por ela sem ficar perdido. Ia devolver o dinheiro para o meu pai e esperar outro ano.
O Braço começou a protestar, crispando-se, chorando como uma criança mimada, chamando-me de covarde, caloteiro. Seu desprezível, seu nojento, você só pensa em si mesmo. Dei-lhe um tapinha consolador. Veja, eu disse, temos bastante tempo, vamos terminar nossos estudos e passar um verão legal aqui mesmo, em Roper. Vamos trabalhar para o velho, arremessar nos domingos e economizar nosso dinheiro. Mas O Braço não ligava para esse tipo de conversa. Ficou flácido e apático e se fingiu de morto. Tive que rir. Que dissimulado!
Ao entrar na nossa rua passando pelo posto de gasolina do Art, vi alguma coisa familiar na garagem aberta que servia de oficina de lubrificação. Cruzei o asfalto para olhar mais de perto. E lá estava a betoneira do meu pai, o motor desmantelado, os pedaços espalhados pelo chão, o carburador encharcando-se numa cuba de gasolina.
Senti uma dor repentina no peito, uma sensação de que eu ia gritar. Por cima do meu ombro vi Art Belden, o dono do posto, recostado numa cadeira, ouvindo Bing Crosby cantar Where the Blur of the Night no rádio. Fui até lá e abri a porta, e Art disse:
- Oi, Dom.
A marmita dele estava aberta sobre a mesa à sua frente. Ele estava vestido com um macacão branco, com quatro canetas no bolso do peito, e eu o odiei. Odiei o esmero dos sanduíches de manteiga de amendoim que ele estava comendo, as cascas delicadamente retiradas pela mulher dele. Odiei-a também. Odiei o aconchegante bangalô cinza em que eles moravam na Spruce Street. Odiei o cachorro collie deles. Odiei o sorriso amável dele, e odiei a sua resposta antes mesmo de eu perguntar o que o misturador do meu pai estava fazendo na sua garagem.
- Era do seu pai - ele disse. - Comprei-o esta tarde.
Acreditei nele e falei:
- Não acredito em você.
Ele mordeu o sanduíche, desligou Bing Crosby e me alcançou a nota da venda assinada por meu pai. Pelos vinte e cinco dólares sebosos no meu bolso.
- Vou recomprá-lo.
- Não está a venda.
- Eu lhe dou trinta.
Ele sacudiu a cabeça e despejou leite de sua garrafa térmica numa xícara.
- Faça por quarenta.
- Veja bem. Não quero vender.
Tirei o maço de notas e joguei-o em cima da mesa.
- Cinqüenta pratas. Vinte e cinco agora e vinte e cinco nesse verão.
Chegou um carro, e ele saiu para atendê-lo. Peguei o rolo de dinheiro e caminhei de volta até o misturador. Estava surrado e rebentado, como as mãos do meu pai, uma parte da vida dele, tão estranhamente antiga, como que vinda de um país distante, de Torricella Peligna. Coloquei os braços em volta dele, beijei-o com minha boca e chorei por meu pai e por todos os pais, e filhos também, por estarem vivos naquela época, por mim mesmo, porque agora eu tinha que ir para a Califórnia, eu tinha que me dar bem."
Alors, passez le fin.



* imagem: recebi por fax junto com a cesta de amoras.

ex animo dicere LIV

"Adeus, quarto. Você tem sido realmente agradável para mim. Você me serviu bem. A cadeira foi agradável de sentar sobre ela. A cama era um bom conforto nas noites. E as janelas, as janelas me permitiram ver o mundo. Você tem sido um quarto maravilhoso para mim. Mas preciso ir. Preciso deixar você. Lembre-se, eu me lembrarei de você para sempre. E estou certo que você sempre se lembrará de mim. Adeus", despediu-se Michael Jackson, Mister Lonely, neste estranho filme de personificadores que conta com Werner Herzog no papel de um padre e Leos Carax interpretando um agente-amigo duvidoso.


Cena de abertura:

Alors, passez le mot!



* imagens: pôsteres divulgação.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

ex animo dicere LIII

"Conhece o velho Testamento, jovem? 'Embora soprem a trombeta e deixem tudo preparado, ninguém irá à batalha, pois minha ira está sobre a multidão. Fora está a espada, dentro a peste e a fome. Aqueles no campo morrerão pela espada, aqueles na cidade serão devorados pela fome e pela peste. Todos que sobreviverem e escaparem, irão às montanhas, gemendo como as pombas dos vales, cada um por seus próprios pecados. Mãos ficarão moles, joelhos fracos como a água. O horror cairá sobre eles. Jogarão sua prata nas ruas, seu ouro será impuro. Seu ouro e prata não os salvarão no dia da ira do Senhor. Não poderão satisfazer sua fome ou encher seus estômagos com eles, pois os fizeram cair no pecado. Viro minha face para eles, e profanam meu lugar sagrado. A terra está ensangüentada e a cidade cheia de violência. Trago a mais perversa das nações para tomar posse de suas casas. Quando o terror chegar, buscarão paz, mas não haverá nenhuma. Buscarão a visão do profeta, e os ensinamentos da lei do sacerdote haverá desaparecido. Assim como os conselhos dos idosos. As mãos das pessoas da terra irão tremer. Os tratarei de acordo com suas condutas e pelos seus próprios critérios os julgarei. E então saberão que eu sou o Senhor'", foi o que automaticamente a mãe disse ao filho debaixo da húngara chuva da Condenação (Kárhozat) assim que ele saiu do show:

Alors, passez...




* imagem: da noite em que afundamos no bar.

ex animo dicere LII

Georgina Spica indaga Richard Borst, respectivamente, terceira e primeiro citados no título de The Cook, The Thief, His Wife & Her Lover:
"- Quando você faz um menu, como estabelece o preço de um prato?
- Cobro caro por tudo que for preto. Uvas, azeitonas, amoras. As pessoas gostam de ser lembradas da morte. Comer comida preta é como consumir a morte. Como dissesse: Morte, estou comendo você. As trufas pretas são as mais caras, e o caviar. Morte e nascimento. O fim e o começo."
Alors, passez!



* imagem: da noite em que jantamos em família.