quinta-feira, 16 de abril de 2009

hector, o mágico VII

::::: circunstâncias adversas do VII congresso do admirável sindicato dos mágicos anônimos :::::

O primeiro congresso de mágicos do qual participei aconteceu quando eu ainda era um reles principiante no ramo. Acabara de concluir o curso de práticas avançadas do ASMA e já acreditava ser um ás do ilusionismo. Quanta inocência! Sabia fazer aparecer ovos. Mas e quem aqui não o faz? Por exemplo, nesta sétima edição do congresso ainda há quem suba no palco para tirar ovos de codorna ou ovos de páscoa detrás da orelha da bela jovem voluntária de maiô cavado. Tenham dó deste discípulo de T. J. II! Precisamos aprender algo grande, que cause furor. O público quer novidades, quer sair do espetáculo com outra idéia sobre a vida. Em suma, quer ser mudado, na essência. Devemos atendê-los nem que seja através da kátharsis! O mercado exige, o tempo urge, as almas ferem-se. Todavia, mágicacos como estes da platéia estão velhos demais para aprenderem truques novos. Recuso-me a não alcançar o paroxismo da ilusão! Serei o melhor, preciso ser. Se calhar, farei aquela viagem ao desconhecido e aprenderei a técnica doppelgänger da qual ouvi falar através de meu mestre.
– Agora com vocês um show com MC Escher! – anunciou o anfitrião.
Esse profissional, Mestre de Cerimônias Escher, eu não conhecia. De qual toca saíra? Pois apanhou o microfone e mandou umas rimas mágicas, precisas, polimétricas, de perspectivas aguçadas, desconcertantes. Combinando tais qualidades com violentas bases de “furadeira e baixo”, arrancou profundos uivos do público. Já não importava de onde vinha, em qual escola se graduara ou quem era seu mestre. Ele era dos bons, sem chance para Roberto Carlos ou Julio Iglesias. Escher nos fez esquecer a inaptidão do coitado dos ovos que saiu do palco sem nem um retardo aclamar ou vaiar. Deu-se, ora vejam, que aquilo veio a funcionar como um coffee break com música ao vivo. Alguns companheiros de vareta materializaram salgadinhos de camarão e presunto e bolas de queijo dentro dos bolsos dos presentes. O congresso estava começando a melhorar. O nível crescia.
Logo depois do MC veio aquilo que foi o divisor de águas em minha vida.
– O ASMA orgulhosamente apresenta sua mais nova revelação: Sônia Stricteternum!
Achei que o efeito imediato de sua aparição tivesse reverberado somente dentro mim, mas aí olhei em volta: o público, inteiramente masculino, estava boquiaberto. E ela não havia feito uma magia sequer. É bem verdade que não existem muitas mulheres interessadas nessa profissão de deslumbramento puro. Pelo visto as coisas estavam mudando, para a sorte do povo. Quando ela sacou sua arma, quero dizer, uma Fabulous M7000 Gold, quase chorei. Lembrei que ainda não recuperara a minha. A polícia é demasiado lenta em qualquer esfera do pensamento, real ou transreal. Então as luzes se enfraqueceram. Começou seu ato. Esqueci minhas mazelas. Num movimento circular, como se riscasse o ar com a vara, Sônia fez um arco-íris de sete cores. De cada cor surgiu um gato – seus pêlos respeitavam a cor de onde nasceram – saltando sobre cadeiras enfileiradas no palco. Três de seu lado esquerdo, três à direita e uma ao centro. Em seguida, abriu os braços e um vento adentrou o teatro lacrado pelas pesadas portas de isolamento acústico. Além de derrubar nossas cartolas, a lufada empurrou todas as cadeiras para o mesmo ponto, o centro do palco. Mesclando-se, as sete transformaram-se num imenso totem ronronante. Sônia curvou-se para os aplausos. Ergueu-se, resplandecente, confiante de sua faculdade espetacular, e deu dois saltos para trás. No terceiro, voou até o topo do totem. Ao tocá-lo com os pés, este começou a diminuir, recolhendo-se como uma antena, e ganhou o tamanho de um lápis; trazendo-a, por fim, a altura do palco. Curvou-se novamente, não para os aplausos, mas para pegar a única cópia do totem em miniatura e multiplicá-la. Com outro movimento da vareta, enviou os souvenirs aos bolsos de nossos casacos. Que final majestoso! Essa mulher dispunha de muita classe, além de excessiva habilidade. Nem David Copperfield faria melhor. O Museu e Biblioteca Internacionais das Artes de Conjuração jamais seriam capazes de desvendar os segredos de tamanha façanha. Os brados de reconhecimento foram tão intensos que a estrutura do teatro parecia tremer. Meus olhos chegaram a lacrimejar. Quando cessaram, não me fiz de rogado, não me contive. Levantei a voz. Ali estava o que eu queria. O paroxismo da ilusão: o amor.
– Te quiero, Sônia Stricteternum!
Ela sorriu para mim, encorajando-me a ser rompante. Era a faísca de que precisava. Avancei, cego de amor, louco de vontade. Porém, antes mesmo de sair da fileira de cadeiras, dedicaram-me um feitiço. Dos ruins! Dos brabos! Fui despachado diretamente para as mãos dos dois homens fardados. O fizeram assim mesmo, pelas costas, num átimo insolente que não respeita o sentimento recíproco entre duas pessoas! E todos sabem – quem não, agora saberá: está escrito –, tudo de ruim que um mágico faz lhe volta em dobro. Curioso é que os sujeitos uniformizados praticamente me consideravam da “família” devido a freqüência de nossos encontros. Enfim, lá estava eu, outra vez, enjaulado. Com o agravante de ter o coração partido e a obrigação de pagar uma fiança de 500 pratas se quisesse ganhar liberdade. Teci pensamentos mendicantes. Na certa, alguém lá do ASMA me emprestaria a quantia.
– Conheço meus direitos, senhores.
Liguei para a coordenação do VII Congresso do Admirável Sindicato dos Mágicos Anônimos. Solicitei que pusessem o responsável pela canalhice na linha. Para meu assombro, Sônia pegou o telefone.
– Hélas, pauvre de toi, mon magicien... – suspirou, contendo a emoção, a dor de não me ter por perto – Oh, mon cher Hector! – aquele sotaque, os erres arrastados, aquelas palavras, ó, aquelas doces palavras dirigidas a mim valiam mais que mil truques novos, mais que multidões me aplaudindo de pé; aquelas palavras enchiam meu coração de reconfortantes rouxinóis da cor do arco-íris, aquelas palavras eram mágicas, eram nada mais que ilusões – Não se preocupe. Quebrarei o encanto para trazê-lo de volta.
– Agradeço, Sônia, de coração entregue – eu tinha de ir além, tinha de demonstrar valentia – Mas minha honra precisa ser restituída. Diga-me quem foi o exibicionista fajuto. Qual o nome do responsável por afrontar-me? Quero propor-lhe um duelo.
– Calmez-vous, Hector. Não é hora para isso. Primeiro volte, eu me ocuparei de ti. Depois caçamos o bastardinho. Desde já garanto que o Código da Prestidigitação estará a seu favor. Agora – e, ora ora, enviou-me um beijo! –, trate de se preparar para viajar.
– Te quiero, Sôni...
Pronto, fui parar no convés de um navio enquanto ele atravessava uma das eclusas do Canal do Panamá.

2 comentários:

Iuri Gomes disse...

.eu acho que essa mágica - a mulher, é claro - é uma farsante. a mágica - o feitiço - é uma ilusão. o mágico - não 'o encanto' - é um sujeito incauto. e o mágico - não o profissional - é saber dos enganos.

.rá!.

Guilherme N. M. Muzulon disse...

doidera