segunda-feira, 13 de abril de 2009

hector, o mágico V

::::: circunstâncias adversas de um entardecer na praça :::::

Em meus dias de folga costumo treinar mágica com pombos sem abrigo. Para tal, visito a grande praça do centro (que apesar da localização privilegiada, é pouco freqüentada) e, perto do busto de bronze em homenagem ao fundador da cidade, exerço as atividades necessárias para manter a boa forma de meus poderes sobrenaturais. Durante toda minha carreira o fiz, assim, ali. Naquele lugar público podia executar tranqüilamente as magias, sem ser interrompido por terceiros.
Certa vez, porém – enquanto arrancava pombos das mangas de meu paletó e os fazia voar em círculos até um estalar de dedos sentenciá-los ao temporário confinamento de minha cartola –, um garoto de cerca de dez anos acompanhado de uma menina de pelo menos a metade de sua idade me observavam atentamente, de pé, no banco da praça onde eu deixara minha maleta de pertences. Interrompi o exercício, deixando as aves soltas, a brincar. Sorri para aquelas crianças no intuito de ganhar confiança. Nesse instante, para meu absoluto espanto, os dois começaram a arremessar pedras na direção dos pombos. Foi terrível. Era demasiado fácil acertá-los. Estavam desprevenidos e reunidos, aos montes. Derrubaram pelo menos quatro, em pleno vôo. Não esboçaram qualquer alegria ou tristeza quando viram as aves abatidas em agonia mortal. Diante do estado desfavorável das coisas, tentei salvar o que ainda não havia sido perdido.
– Não toquem em minha maleta, crianças!
O astuto menino captou a mensagem embutida em minha fala. Para tramar imoralidades, turvou o semblante. Abriu a maleta displicentemente deixada aos seus pés e pescou dali o primeiro objeto que seus lúdicos dedos tatearam. Era minha Toda-Poderosa vareta modelo Fabulous M7000 Gold – a Ferrari das varas mágicas que com muito esforço ganhei no último congresso anual do ASMA; uma espetacular versão compacta do modelo M3000 Brontosaur. Vê-lo erguê-la gelou-me o coração encantado.
– Afaste-se de nós, mágico! – ordenou o garoto brandindo a vareta: daquela maneira o pequeno parecia um fantasma corajoso, um Robin Hood do inferno.
Minha tênue tranqüilidade vinha do fato de ele não saber as palavras certas. De qualquer maneira, por motivos de segurança, deixei-os seguirem, afastando-me gradativamente, pois contra aquilo eu não era capaz. Ele e ela correram para recolher os pombos assassinados. Agacharam-se como animais selvagens, arrancando as penas da caça com voracidade. Em seguida aplicaram felinas mordidas na carne crua.
– Quero beber vinho, mágico! – com a boca cheia, cuspindo pedaçinhos de ossos, demandou a garotinha.
– Estamos famintos, mágico. Não vê? Não vê? Há-há-há.

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