::::: circunstâncias adversas de um feriado nacional :::::
As ondas sonoras das marchas militares executadas pela fanfarra fuzilavam nossos corpos acostumados às nuanças menos patrióticas. Para mim, aquilo caracterizava crime de guerra. Em dia de feriado nacional deveriam tocar música clássica ao volume máximo; deveriam alegrar tudo com muita mágica. Das boas. Porém, para sorte dos correligionários e azar dos entusiastas como eu, o presidente faria um pronunciamento extraordinário – decisão que atenuava meu desagrado perante o repertório da banda e enaltecia a simpatia do povo por aquela carta de baralho marcado.
Escoltado por uma dúzia de agentes uniformizados – tão alinhados que ouso dizer que suas mamães os produziam toda manhã, e carregavam suas munições com talco ao invés de pólvora –, o Rei de Paus surgiu no palanque, acenando para a multidão. Foi ovacionado como qualquer mágico gostaria de ser. Oras, não entendo isso muito bem. Será que ele fazia maiores e melhores mágicas do que, hã, eu, por exemplo? Senti-me incomodado com tanto carinho destinado a outrem. Para mim, nada. Que a banda voltasse a tocar e deixassem todos surdos! Castrados, burros e sem imaginação! No entanto, algum tempo depois também me vi a aplaudir e dizer palavras de ordem, de incentivo a carta mais forte do baralho. Não consigo imaginar exatamente como se deu tal paradoxo em mim. Então o presidente nos silenciou com um rápido gesto de mão.
– Meus amigos e minhas amigas... Forçado pelas circunstâncias, eu renuncio! – declarou, o excelentíssimo senhor, assim que segurou o microfone da tribuna – Renuncio ao meu cargo! E vou além: cometerei suicídio em público para provar-lhes que as bárbaras acusações que venho sofrendo são infundadas! Mostrarei a sinceridade através de minhas entranhas! Pois aqui está um homem honrado! Sintam-se orgulhosos por terem votado em mim!
O presidente tomou o revólver dum segurança do erário. Engatilhou e segurou contra a têmpora. Ficou gemendo de medo, suando, os olhos profundamente apertados. O povo ficou em suspenso, processando as informações chocantes. O que fazer? O que fazer quando alguém sempre termina suas frases com pontos de exclamação, mas no dia D foge? Pois ficaram loucos! A massa disparou-se para todos os cantos, qual champanhe quente agitado que explode a rolha. Uma grande confusão aquilo foi. Notei que apesar de nem todos estarem de acordo, isto é, certamente havia uma cisão nas diretrizes, tais inclinações eram inverificáveis – tamanha era a desordem. O mundo não precisava de outro Yukio Mishima vernaculista ou Tatenokai que o valha. E já que estava ali, presenciando tenebroso fato histórico, não pude me conter. Teci corajosos pensamentos prestidigitadores para realizar algo de bom para o evento. Era um feriado, afinal. Ninguém além de mim poderia ajudar.
Avancei camuflado na multidão. Saltei o último cordão de isolamento. Investi contra os seguranças do presidente, o homem que nunca foi curinga. Alguns me reconheceram por conta de outros infortúnios que lhes causei. Bem, eu já encontrara pelo menos metade deles em circunstâncias de nível duvidoso inferior ao atual. Eles logo me cercaram. Abri minha capa para sacar meu cajado. Numa das extremidades do cajado há uma pedra ágata energizada por meu saudoso mestre, Thomas Jabril II, antes de sua morte.
– Krazex Intensus! – falei, tocando-a.
Criou-se imensa calda luminosa que atingiu os seguranças em cheio. Atordoados, eles se abaixaram, esfregando as retinas ofuscadas. Agradeci a gentileza, a mesura. Bati a ágata em meus sapatos e flutuei por sobre suas cabeças enquanto estas se transformavam em cabeças de porcos com chapéus de pirata e narizes de Pinóquio. Em cima do palanque, ao lado do presidente hesitante, utilizei o cajado outra vez para fazer o feitiço final...
Antes de a descontrolada multidão de intenções dúbias engolir o pai da nação embaralhada, ele – mais uma carta perdida no jogo político – finalmente decidiu-se: puxou o gatilho. Ao fazê-lo teve início uma colorida chuva de confettis. Todos os presentes ficaram sorrindo, cabeças inclinadas, encarando o sorriso maior que vinha do céu acompanhado de trombetas, violinos e arranjos eruditos. Virei-me para ir embora. O trabalho estava feito. Eu, satisfeito.
– Ei, ô da cartola! – alguém me abordou desagradavelmente, mas diante de minha recusa, insistiu – Ei! É, você mesmo. Gostei de você, meu caro. Quero contratá-lo para um grande espetáculo. Me chamo Nikolai Kravchenko, sou dono do circo Russo que está passando breve temporada nesta cidade. Como é seu nome?
Janota, não hesitei. Puxei minha longa capa de modo que ela cobrisse parte de meu rosto, evidenciando meus olhos afiados, profundos, misteriosos, e, concluindo pela primeira vez a apresentação que ensaiara durante anos, respondi.
– Hector, o mágico.
As ondas sonoras das marchas militares executadas pela fanfarra fuzilavam nossos corpos acostumados às nuanças menos patrióticas. Para mim, aquilo caracterizava crime de guerra. Em dia de feriado nacional deveriam tocar música clássica ao volume máximo; deveriam alegrar tudo com muita mágica. Das boas. Porém, para sorte dos correligionários e azar dos entusiastas como eu, o presidente faria um pronunciamento extraordinário – decisão que atenuava meu desagrado perante o repertório da banda e enaltecia a simpatia do povo por aquela carta de baralho marcado.
Escoltado por uma dúzia de agentes uniformizados – tão alinhados que ouso dizer que suas mamães os produziam toda manhã, e carregavam suas munições com talco ao invés de pólvora –, o Rei de Paus surgiu no palanque, acenando para a multidão. Foi ovacionado como qualquer mágico gostaria de ser. Oras, não entendo isso muito bem. Será que ele fazia maiores e melhores mágicas do que, hã, eu, por exemplo? Senti-me incomodado com tanto carinho destinado a outrem. Para mim, nada. Que a banda voltasse a tocar e deixassem todos surdos! Castrados, burros e sem imaginação! No entanto, algum tempo depois também me vi a aplaudir e dizer palavras de ordem, de incentivo a carta mais forte do baralho. Não consigo imaginar exatamente como se deu tal paradoxo em mim. Então o presidente nos silenciou com um rápido gesto de mão.
– Meus amigos e minhas amigas... Forçado pelas circunstâncias, eu renuncio! – declarou, o excelentíssimo senhor, assim que segurou o microfone da tribuna – Renuncio ao meu cargo! E vou além: cometerei suicídio em público para provar-lhes que as bárbaras acusações que venho sofrendo são infundadas! Mostrarei a sinceridade através de minhas entranhas! Pois aqui está um homem honrado! Sintam-se orgulhosos por terem votado em mim!
O presidente tomou o revólver dum segurança do erário. Engatilhou e segurou contra a têmpora. Ficou gemendo de medo, suando, os olhos profundamente apertados. O povo ficou em suspenso, processando as informações chocantes. O que fazer? O que fazer quando alguém sempre termina suas frases com pontos de exclamação, mas no dia D foge? Pois ficaram loucos! A massa disparou-se para todos os cantos, qual champanhe quente agitado que explode a rolha. Uma grande confusão aquilo foi. Notei que apesar de nem todos estarem de acordo, isto é, certamente havia uma cisão nas diretrizes, tais inclinações eram inverificáveis – tamanha era a desordem. O mundo não precisava de outro Yukio Mishima vernaculista ou Tatenokai que o valha. E já que estava ali, presenciando tenebroso fato histórico, não pude me conter. Teci corajosos pensamentos prestidigitadores para realizar algo de bom para o evento. Era um feriado, afinal. Ninguém além de mim poderia ajudar.
Avancei camuflado na multidão. Saltei o último cordão de isolamento. Investi contra os seguranças do presidente, o homem que nunca foi curinga. Alguns me reconheceram por conta de outros infortúnios que lhes causei. Bem, eu já encontrara pelo menos metade deles em circunstâncias de nível duvidoso inferior ao atual. Eles logo me cercaram. Abri minha capa para sacar meu cajado. Numa das extremidades do cajado há uma pedra ágata energizada por meu saudoso mestre, Thomas Jabril II, antes de sua morte.
– Krazex Intensus! – falei, tocando-a.
Criou-se imensa calda luminosa que atingiu os seguranças em cheio. Atordoados, eles se abaixaram, esfregando as retinas ofuscadas. Agradeci a gentileza, a mesura. Bati a ágata em meus sapatos e flutuei por sobre suas cabeças enquanto estas se transformavam em cabeças de porcos com chapéus de pirata e narizes de Pinóquio. Em cima do palanque, ao lado do presidente hesitante, utilizei o cajado outra vez para fazer o feitiço final...
Antes de a descontrolada multidão de intenções dúbias engolir o pai da nação embaralhada, ele – mais uma carta perdida no jogo político – finalmente decidiu-se: puxou o gatilho. Ao fazê-lo teve início uma colorida chuva de confettis. Todos os presentes ficaram sorrindo, cabeças inclinadas, encarando o sorriso maior que vinha do céu acompanhado de trombetas, violinos e arranjos eruditos. Virei-me para ir embora. O trabalho estava feito. Eu, satisfeito.
– Ei, ô da cartola! – alguém me abordou desagradavelmente, mas diante de minha recusa, insistiu – Ei! É, você mesmo. Gostei de você, meu caro. Quero contratá-lo para um grande espetáculo. Me chamo Nikolai Kravchenko, sou dono do circo Russo que está passando breve temporada nesta cidade. Como é seu nome?
Janota, não hesitei. Puxei minha longa capa de modo que ela cobrisse parte de meu rosto, evidenciando meus olhos afiados, profundos, misteriosos, e, concluindo pela primeira vez a apresentação que ensaiara durante anos, respondi.
– Hector, o mágico.
Nenhum comentário:
Postar um comentário