::::: circunstâncias adversas de um sonho de picadeiro :::::
Depois de vagar por diversas dimensões, desgovernado como um pião anômalo, rumo ao leste, sempre leste, cada vez mais próximo dela, toda direção é leste, leste até encontrar a terra natal, esse chão aqui: eu magnanimamente retornei. Sem perder tempo, parti no encalço do “bastardinho”, como bem salientou Sônia. Dago Patroclus, o chamavam. Cão danado, eu o batizo! Ao encontrá-lo, esperamos finalizar sua apresentação pública. Após o término, reunimo-nos com a Comissão Executiva do Código da Prestidigitação e marcamos o duelo. Era eu contra aquele ítalo-grego velho! Porém, é preciso registrar: notei que o cansaço da viagem entrecortada tornara-se um indigesto problema. Não permitia que os treinos para o combate rendessem, a fadiga. De certa forma, digna acima de tudo, eu me arrastava com honradez. E foi nesse clima meio macambúzio, meio tenso, que recebi a ligação de Kravchenko.
– Hector? É Nikolai. Sei de tudo que passou e o que está passando. A bola de cristal da cigana fez-me as previsões. Há-há-há! Oras, deixe disso e venha para meu circo, человек. Aqui terás espaço para praticar seus dotes extraordinários. A única exigência minha é que faça uma apresentação por semana, e serás recompensado por. Que me diz? Em dólar, evidentemente! Temos um acordo, então?
Apanhei Sônia Stricteternum e fomos ao circo do russo, instalado dentro de um grande parque de diversões em funcionamento mas que parecia abandonado. Meu antiguíssimo sonho de trabalhar em um circo não passava nem perto do pesadelo da realidade que se mostrava. Já nas dependências, quero dizer, debaixo do teto de lonas coloridas, descobri que Nilo Grilo, outro rival, de inferior envergadura porém, também havia sido contratado. Vendo-me ali, não deixou de destilar suas toxinas saltimancas.
– Você é ridículo! Você é ridículo!
Mas aparentemente meu organismo já criara anticorpos para. Seguimos, de mãos dadas, eu e ela, intrépidos. Fomos ao centro do picadeiro. Dali, o domador de leões nos levou ao escritório, num trailer nos fundos. Entramos sem anunciar e flagramos Kravchenko falando ao telefone com Patroclus.
– Combinado, Dago. Levarei a equipe para filmar a luta. Há-há-há! Não se preocupe, tudo está indo conforme combinado. Será um prazer, meu хорошо негодяй.
Lentamente o russo colocou o fone no gancho. Em seguida me encarou com ardil em meio à cortina de fumaça de seu charuto. Não tenho certeza se encenava a conversa ou se realmente falava com meu adversário. Fato é que não gostei nada da artimanha noir.
– Eis-me! – bati o cajado no chão.
– Nota-se...
– Hector terá de fazer um show por semana. Do que se trata? – atacou Sônia.
– Ah! – e, à sua maneira irritante, gargalhou copiosamente – Não é nada de extraordinário. Venham comigo que lhes conto enquanto caminhamos.
Kravchenko levantou-se, abotoou seu uniforme camuflado e pôs a boina de ex-militar condecorado. Na certa dissera aquilo para nos ludibriar, porque não abriu a boca enquanto andávamos. Os lábios ele até que mexiam, apenas para, de modo exagerado, lubrificá-los com a língua púrpura. No trajeto um trapezista e um elefante se juntaram a nós. Teci pensamentos carnívoros diante do quadro que passamos a formar. Estaríamos em desvantagem se tivéssemos de lutar. Éramos eu e Sônia contra o russo e sua corja. Ah, se ao menos estivesse com minha M7000 Gold... Nada de pânico! Eu trouxera boas cartas nas mangas. Ademais, era estranhíssimo o gingado do elefante. Parecia o de uma centopéia humana, seu gingado. Sônia, astuta, também percebera. Deu-me uma cotovelada de advertência para chamar a atenção. A coisa toda estava cheirando a encrenca. Das quentes. Contudo, de mãos dadas com Sônia eu me sentia grande e forte, pronto para defendê-la. Em dado momento, atravessamos o nitidamente abandonado salão dos espelhos. Adentrávamos, como bem quistos convidados, o covil do inimigo.
– É logo ali – disse alguém, contendo o riso algo tirano.
Por entre as teias de aranha do vetusto salão, os reflexos fugazes dos corpos e dos mil olhos corroboravam minhas suspeitas. Eles tramavam algo. Por tal atitude, senti-me uma presa especial. Ora, a trupe premeditara aquilo tudo exclusivamente para mim. Que lisonjeadores! Pena que teria de estragar seus saborosos planos aracnóides com meu incontestável poder.
– на последнем chegamos! – exclamou o cossaco, misturando os idiomas – Veja aquela caixa suspensa, Hector – e apontou para a gaiola no alto – Você ficará ali dentro, embrulhado numa camisa de força com correntes e cadeados te prendendo. Seu número será tentar escapar dali no tempo estipulado. Se falhar, cairá no tanque cheio de ácido. Cof, cof, cof... – aqui ele desandou a tossir, provavelmente a fumaça entrara pelo buraco errado – Mas isso não acontecerá, почетно волшебник. Não queremos estragar o espetáculo, não é mesmo? Não é mesmo? – repetiu, levantando as sobrancelhas – Há-há-há!
– Há-há-há! – estranhei quando escutei sua risada ecoar.
– Há-há-há!
– Há-há-há! – nada mais era que o eco de seus fiéis escudeiros imitantes.
Sem demonstrar exasperação, respirei profundamente. Usar essa técnica mantinha-me calmo. Fui inspecionar o equipamento. Nem comecei a averiguar e já decretei a completa precariedade do mecanismo. Nem Houdini (se inserido nesse status de "recheio") sairia daquele emaranhado de elos de aço. Sem dúvidas, era uma armadilha. Das ultrajantes. Feita para pegar ratos encurralados a céu aberto. Infelizmente eu não era um roed... Ah, aos diabos! Técnica que nada! Vocês sabem do que eu sou feito, sabem o que eu penso. Ma-mas não sabem do que eu sou capaz, certo?
– Ou você faz o que eu mando ou também tiro minhas cartas da manga, Hector.
Assim, posto seus termos com limpidez, o russo fez sinal e seus capatazes nos cercaram. Nada de pânico! Era a cerimoniosa declaração de guerra. Cerimoniosa e admirável, pois de repente o elefante abriu-se ao meio. Puxaram um zíper e de dentro da fantasia germinou uma tropa de anões, menores que Nilo Grilo, e, no entanto, com labaredas nos olhos que nenhum Golias seria capaz de vestir.
– Isto não é um circo. É um gulag! – disse-lhes, tirando a cartola, preparando-me, de pensamentos pelotiqueiros tecidos, armado para a fantasia – Tomem isso: Krazex nonsense!
Minhas cartas provaram não ser tão boas como imaginava. Errei a mágica. Ao invés de bigornas de exatos cinco quilos cada caírem sobre suas cabeças, tirei uma écharpe de raposa da cartola. Imediatamente, com ou sem razão, o pescoço endureceu. (A raposa enrolou-se ali também). Precisava de uma massagem para aliviar a tensão. Não tardei a clamar por socorro. Sim, ainda tinha o curinga.
– Te quiero, Sônia. Ayúdame!
Pincelando no ar sua vareta, Sônia criou descomunal nuvem de abelhas que despejaram pólen estupefaciente e picaram somente os de coração negro. Com as contrações de dor dos “bichos de estimação” do circo estávamos momentaneamente salvos. Sem tempo de agradecer ou comemorar com Sônia, procurei por salvação definitiva. E encontrei. Nos enfiamos, abraçados, para dentro do bojudo cano dalgum espetáculo. Ela simulou uma pistola com as duas mãos e eu assoprei a ponta dos dedos. Com isso, acendemos o pavio.

– Kihhhn! – gritamos, em singela homenagem a Toriyama.
Rasgamos a lona do circo rumo ao espaço. Fomos lançados pelo canhão tal qual um homem-bala deve ser. Soltos no céu, em queda, Sônia sacou a vassoura voadora. Passeamos um pouco antes de chegar em casa tranqüila e romanticamente.
Depois de vagar por diversas dimensões, desgovernado como um pião anômalo, rumo ao leste, sempre leste, cada vez mais próximo dela, toda direção é leste, leste até encontrar a terra natal, esse chão aqui: eu magnanimamente retornei. Sem perder tempo, parti no encalço do “bastardinho”, como bem salientou Sônia. Dago Patroclus, o chamavam. Cão danado, eu o batizo! Ao encontrá-lo, esperamos finalizar sua apresentação pública. Após o término, reunimo-nos com a Comissão Executiva do Código da Prestidigitação e marcamos o duelo. Era eu contra aquele ítalo-grego velho! Porém, é preciso registrar: notei que o cansaço da viagem entrecortada tornara-se um indigesto problema. Não permitia que os treinos para o combate rendessem, a fadiga. De certa forma, digna acima de tudo, eu me arrastava com honradez. E foi nesse clima meio macambúzio, meio tenso, que recebi a ligação de Kravchenko.
– Hector? É Nikolai. Sei de tudo que passou e o que está passando. A bola de cristal da cigana fez-me as previsões. Há-há-há! Oras, deixe disso e venha para meu circo, человек. Aqui terás espaço para praticar seus dotes extraordinários. A única exigência minha é que faça uma apresentação por semana, e serás recompensado por. Que me diz? Em dólar, evidentemente! Temos um acordo, então?
Apanhei Sônia Stricteternum e fomos ao circo do russo, instalado dentro de um grande parque de diversões em funcionamento mas que parecia abandonado. Meu antiguíssimo sonho de trabalhar em um circo não passava nem perto do pesadelo da realidade que se mostrava. Já nas dependências, quero dizer, debaixo do teto de lonas coloridas, descobri que Nilo Grilo, outro rival, de inferior envergadura porém, também havia sido contratado. Vendo-me ali, não deixou de destilar suas toxinas saltimancas.
– Você é ridículo! Você é ridículo!
Mas aparentemente meu organismo já criara anticorpos para. Seguimos, de mãos dadas, eu e ela, intrépidos. Fomos ao centro do picadeiro. Dali, o domador de leões nos levou ao escritório, num trailer nos fundos. Entramos sem anunciar e flagramos Kravchenko falando ao telefone com Patroclus.
– Combinado, Dago. Levarei a equipe para filmar a luta. Há-há-há! Não se preocupe, tudo está indo conforme combinado. Será um prazer, meu хорошо негодяй.
Lentamente o russo colocou o fone no gancho. Em seguida me encarou com ardil em meio à cortina de fumaça de seu charuto. Não tenho certeza se encenava a conversa ou se realmente falava com meu adversário. Fato é que não gostei nada da artimanha noir.
– Eis-me! – bati o cajado no chão.
– Nota-se...
– Hector terá de fazer um show por semana. Do que se trata? – atacou Sônia.
– Ah! – e, à sua maneira irritante, gargalhou copiosamente – Não é nada de extraordinário. Venham comigo que lhes conto enquanto caminhamos.
Kravchenko levantou-se, abotoou seu uniforme camuflado e pôs a boina de ex-militar condecorado. Na certa dissera aquilo para nos ludibriar, porque não abriu a boca enquanto andávamos. Os lábios ele até que mexiam, apenas para, de modo exagerado, lubrificá-los com a língua púrpura. No trajeto um trapezista e um elefante se juntaram a nós. Teci pensamentos carnívoros diante do quadro que passamos a formar. Estaríamos em desvantagem se tivéssemos de lutar. Éramos eu e Sônia contra o russo e sua corja. Ah, se ao menos estivesse com minha M7000 Gold... Nada de pânico! Eu trouxera boas cartas nas mangas. Ademais, era estranhíssimo o gingado do elefante. Parecia o de uma centopéia humana, seu gingado. Sônia, astuta, também percebera. Deu-me uma cotovelada de advertência para chamar a atenção. A coisa toda estava cheirando a encrenca. Das quentes. Contudo, de mãos dadas com Sônia eu me sentia grande e forte, pronto para defendê-la. Em dado momento, atravessamos o nitidamente abandonado salão dos espelhos. Adentrávamos, como bem quistos convidados, o covil do inimigo.
– É logo ali – disse alguém, contendo o riso algo tirano.
Por entre as teias de aranha do vetusto salão, os reflexos fugazes dos corpos e dos mil olhos corroboravam minhas suspeitas. Eles tramavam algo. Por tal atitude, senti-me uma presa especial. Ora, a trupe premeditara aquilo tudo exclusivamente para mim. Que lisonjeadores! Pena que teria de estragar seus saborosos planos aracnóides com meu incontestável poder.
– на последнем chegamos! – exclamou o cossaco, misturando os idiomas – Veja aquela caixa suspensa, Hector – e apontou para a gaiola no alto – Você ficará ali dentro, embrulhado numa camisa de força com correntes e cadeados te prendendo. Seu número será tentar escapar dali no tempo estipulado. Se falhar, cairá no tanque cheio de ácido. Cof, cof, cof... – aqui ele desandou a tossir, provavelmente a fumaça entrara pelo buraco errado – Mas isso não acontecerá, почетно волшебник. Não queremos estragar o espetáculo, não é mesmo? Não é mesmo? – repetiu, levantando as sobrancelhas – Há-há-há!
– Há-há-há! – estranhei quando escutei sua risada ecoar.
– Há-há-há!
– Há-há-há! – nada mais era que o eco de seus fiéis escudeiros imitantes.
Sem demonstrar exasperação, respirei profundamente. Usar essa técnica mantinha-me calmo. Fui inspecionar o equipamento. Nem comecei a averiguar e já decretei a completa precariedade do mecanismo. Nem Houdini (se inserido nesse status de "recheio") sairia daquele emaranhado de elos de aço. Sem dúvidas, era uma armadilha. Das ultrajantes. Feita para pegar ratos encurralados a céu aberto. Infelizmente eu não era um roed... Ah, aos diabos! Técnica que nada! Vocês sabem do que eu sou feito, sabem o que eu penso. Ma-mas não sabem do que eu sou capaz, certo?
– Ou você faz o que eu mando ou também tiro minhas cartas da manga, Hector.
Assim, posto seus termos com limpidez, o russo fez sinal e seus capatazes nos cercaram. Nada de pânico! Era a cerimoniosa declaração de guerra. Cerimoniosa e admirável, pois de repente o elefante abriu-se ao meio. Puxaram um zíper e de dentro da fantasia germinou uma tropa de anões, menores que Nilo Grilo, e, no entanto, com labaredas nos olhos que nenhum Golias seria capaz de vestir.
– Isto não é um circo. É um gulag! – disse-lhes, tirando a cartola, preparando-me, de pensamentos pelotiqueiros tecidos, armado para a fantasia – Tomem isso: Krazex nonsense!
Minhas cartas provaram não ser tão boas como imaginava. Errei a mágica. Ao invés de bigornas de exatos cinco quilos cada caírem sobre suas cabeças, tirei uma écharpe de raposa da cartola. Imediatamente, com ou sem razão, o pescoço endureceu. (A raposa enrolou-se ali também). Precisava de uma massagem para aliviar a tensão. Não tardei a clamar por socorro. Sim, ainda tinha o curinga.
– Te quiero, Sônia. Ayúdame!
Pincelando no ar sua vareta, Sônia criou descomunal nuvem de abelhas que despejaram pólen estupefaciente e picaram somente os de coração negro. Com as contrações de dor dos “bichos de estimação” do circo estávamos momentaneamente salvos. Sem tempo de agradecer ou comemorar com Sônia, procurei por salvação definitiva. E encontrei. Nos enfiamos, abraçados, para dentro do bojudo cano dalgum espetáculo. Ela simulou uma pistola com as duas mãos e eu assoprei a ponta dos dedos. Com isso, acendemos o pavio.
– Kihhhn! – gritamos, em singela homenagem a Toriyama.
Rasgamos a lona do circo rumo ao espaço. Fomos lançados pelo canhão tal qual um homem-bala deve ser. Soltos no céu, em queda, Sônia sacou a vassoura voadora. Passeamos um pouco antes de chegar em casa tranqüila e romanticamente.
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