

















As instalações pútridas do curtume ficavam em sítio afastado da cidade. Um lugar ermo, de fato, de dar asco. E, obviamente, assim o era para fins eufêmicos de existência, para dissimular o fogo-fátuo, o gosto e os vaga-lumes ciceroneando a inerente morte. Meu trabalho era executar o que nenhum outro motorista se atrevia ou se via inclinado a fazer, apesar da pressão moderada: levar ao curtume os restos de carne com peles e ossos para a curtição do couro dos animais. Não me pagavam muito pelo serviço extra. A empresa detinha as artimanhas, o espólio da natureza, em suma, as rédeas dos meus cavalos a diesel – estes farejadores de incenso do apodrecimento que impregnava minhas roupas como sutil lembrança para selar a relação de amizade e respeito mútuo com os conterrâneos, com as marcantes fisionomias das cabeças de gado sem corpo. Peguei a estrada só pensando em voltar para casa. Voltar, tomar banho e ficar sentado sem camiseta, bebendo cerveja. Arrotando sobre a grama molhada do quintal. Prostrado, a encarar o horizonte até sentir um olho lacrimejar. Mas as cruzes, do lado direito da pista, as vantajosamente enferrujadas nos buracos – os crivos feitos à bala –, isto é, as placas informativas com os dizeres quase apagados, me preveniam a respeito do que eu poderia encontrar adiante, sempre adiante. À frente, cavalaria! “Para quem vai sem se virar para trás, é assim que tem de ser”, em minhas reminiscências alertavam-me os outros motoristas, que eu ignorava. As placas tinham o péssimo costume de resumir aquele extenso território entre o ponto de partida e o de destino como se resumissem a vida com as palavras “não faça isso”.
Meu corpo chacoalhava dentro do caminhão. O rádio já não sintonizava nada. O volante, envolto com as mãos, parecia querer saltar ali mesmo e procurar um tronco oco para se esconder. Quantos buracos tinham aquela rodovia, não dava para calcular, mas ter um rádio fora do ar é tão deprimente quanto ter um mar e não saber nadar. Atento ao dial e desatento à estrada me assustei com a súbita aparição de uma vaca no caminho. Rapidamente gravei seu rosto, e tratei de girar bruscamente o volante para escapar do acidente. A deteriorada carroceria do caminhão não resistiu: partiu-se com a manobra. Toda a carga ficou esparramada, toda a post-mortem nudez exposta. A rodovia tornou-se uma trincheira, um belo exemplo da trincheira dos vencedores da batalha. O asfalto, coberto com a carga, começou a emanar a característica névoa verde bruxuleante dos corpos em decomposição. O caminhão, preso em uma vala do acostamento, pedia para ser sacrificado qual eqüino adoecido. Ah, era terrível! Parecia uma guerra em jogo de tabuleiro. Quase via os fantasmas galopantes, os peões jogando dados, os suínos e bovinos avantajados atravessando a BR, eu ficando rodadas sem jogar. Onde a vaca fora se meter, eu não tinha a mais vaga noção. Apenas garanto que foi fácil descobrir que não estava mais lá quando desci e constatei a real confusão em que me metera. Nenhum posto num raio de trinta quilômetros para trás. Para frente, mais ou menos a dezoito quilômetros, estava o curtume. Nenhum veículo transitou durante dois quartos de hora que esperei. Deitei dentro do baú do caminhão e cochilei, mandando pro inferno meus compromissos e dores de cabeça que se seguiriam quando a firma descobrisse aquilo. Acordei com um bando de gente saqueando a carga esparramada. De onde vieram esses ratos, só perguntando para saber.
– Ei, vocês! Parem já com isso. De onde vocês são?
Mas ninguém dizia nada. Continuavam carregando sacos com aqueles restos.
– Como é o teu nome? – perguntei, puxando um sujeito pelo braço.
Ele me fitou, imóvel e impenetrável, sereno como uma coruja com insônia.
– Nós não temos nomes. Viemos de lugar algum.
Em seguida ele assoviou. Os demais se preparam para ir embora. Embrenharam no mato de um dos lados da pista. Amaldiçoando livremente os mais variados santos fui ter com eles no intuito de que me ajudassem.
– Cale-se, tolo! – gritou-me alguém, em censura, nitidamente exasperado com minhas maledicências – Podes vir conosco se quiseres, mas terás de tornar-te outra pessoa. Terás de esquecerdes vosso passado abjeto e adaptar-te a nossos costumes elevados.
– Do que você está falando, cara? Que papo frouxo é esse?
– Se tu vieres não mais voltarás.
– Por quê?
– Porque tu verás a mais bela aurora e te esquecerás do resto.
Obviamente não acreditei em nada daquilo, mas continuei com eles, aflito. Primeiro o caminhão e agora aquilo. Tratei de seguir com eles mata adentro. A vegetação cada vez mais se fechava, ameaçando os intrusos. Em dado ponto abriu-se bruscamente. Surgia, então, uma enorme clareira de onde olhávamos um céu de verdade. A partir dali o caminho ficou leve, de fácil tráfego, perfumado por flores naturalmente semeadas ao longo do trajeto. Senti que automaticamente me desprendia do passado, da vida inútil e sem objetivos que levara até então. Invadiu-me um bem-estar sem tamanho. Meus passos pareciam mais sinceros, mais seguros, mais barrosos. Procurei os rostos dos meus guias e eles todos sorriam placidamente. Então começaram a cantar. Ora as mulheres, ora os homens. Cada um com sua parte, se encarregando de sua deixa com responsabilidade. Arrisquei imitá-los. Não se queixaram. Quando paramos de caminhar, estávamos diante de uma gruta. Após o firme movimento de cabeça de um homem, os outros foram entrando. A princípio tive receio. Virei para trás e percebi que seria incapaz de retornar sozinho. Creio que um sentimento de complementaridade estava em trâmite. Afundei na escuridão. Impossibilitado de enxergar a palma de minha mão diante do meu nariz, guiei-me pelas vozes. Não sei explicar como ninguém tropeçava. Gradualmente uma luz veio surgindo, crescendo, explodindo nas retinas. “Pronto, atravessamos um formigueiro”, pensei. Depois disso nunca mais fiquei aflito.
Quando meus olhos se acostumaram novamente com a claridade, me deparei com algo deveras encantador. Um vilarejo. Algumas casinhas asseadas, um modesto templo e, mais ao norte, o maior salão do lugar. Tinha uma placa na frente deste avisando que ali funcionava a escola e o posto médico. Vasculhando com os olhos, encontrei também uma linda plantação de frutas e legumes. Ouvia-se o movimento das águas de algum córrego próximo. Era uma vila. Sem dúvida fascinante. Um povoado que não existia no mapa e não tinha nome. Há quanto tempo estariam vivendo assim pouco importava, desde que funcionasse. Para meu espanto, vi algumas crianças se divertindo com a vaca que me tirara da estrada e me colocara entre aquele peculiar grupo. As segui. Sobre uma pilha de feno, amamentavam um bezerro negro como a fuligem. Um cara se aproximou de mim.
– Por que vocês saquearam essa carne estragada? Vocês estão tão bem com a plantação e os animais daqui.
– É que às vezes precisamos do couro da carne.
– E quanto a mim? Existe algum motivo para terem permitido que eu viesse?
– Venha comigo – o homem calma e gentilmente me tomou pela mão.
Demos a volta por uma trilha estreita e, subindo umas pedras, ficamos no alto. Borboletas imensas voavam ao nosso redor. Lá embaixo eu via as suaves flores do caminho que cruzamos. Bem distante, em meio a desordem de diminutos pontos, o caminhão danificado e os restos da carga esparramada. Tudo o que esses elementos representavam perdiam-se lá. Em algum passado. Nada daquilo me fazia falta, não eram itens necessários e tampouco sustentavam coisas indispensáveis. Ele me estendeu uma cabaça dizendo para beber aquele líquido marrom. Minutos depois, deu-me pedaços de couro para me proteger. Depois desmaiei. Em fantasias caleidoscópicas. Quando o alvorecer se aproximou, me acordou. Eu estava incrivelmente lúcido. O ar de onde me encontrava era puro. Com sua paleta de cor ígnea sem vigor, a ascensão se aproximava na velocidade da correnteza de um córrego. A grama verde molhada crescia dentro do meu ventre de carne. Falei, de olhos semi-cerrados, cutucando-lhe com o cotovelo, prazerosamente exalando terra do fundo de meu peito.
– É tão bom respirar.




Aqui ao lado estão duas páginas ébrias que Hergé deu As Aventuras de Tintim - Tintim e os Pícaros, de 1977. Para 2011, quando está previsto o lançamento do filme The Secret of the Unicorn de Steven Spielberg, guardo algum sondável entusiasmo. Mas quanto ao filme de 2013 há o minúsculo receio da coisa toda começar a ser banalizada.
"Negrinho d'Água refletiu muito para fazer essa viagem [...], então encomendeu um barquinho de espumas a um cardume de piabas, moradoras das corredeiras do rio Paraguai. [...] Para sua escolta, convocou um cardume de dourados e outros peixes guerreiros, a fim de proteger a comitiva aquática. Mãe do Morro [...] saiu de Mimoso, no município de Santo Antônio do Leverger - MT. Sua partida foi anunciada por uma revoada de pássaros que escureceu o céu. Em seguida, duas araras azuis alçaram vôo e partiram como flechas, sinalizando o roteiro da viagem. [...] São Benedito apareceu em carne e osso na igreja do Bom Despacho, em Cuiabá, e rezou um terço junto com os loucos, excluídos e mutilados", disseram-me Durval de França, Cristina Campos e Ricardo Leite durante a Conferência no Cerrado.
Alors, "Um gavião branco lançou vôo no Morro da Luz com um rosário pendurado no pescoço."
Ele foi embora, e só voltou quando eu já tinha me decomposto. É claro, não fui bom banquete pros vermes: minhas certezas eram artesanais. Ele me deixou, e só voltou para buscar meus ossos. Colocou-os dentro da fronha, do embrulho da espera. Agora ele dorme, agora ele continua dormindo abraçado comigo, que sou seu travesseiro, que sou seu cemitério. Quando ele tem insônia, nós nos deitamos no gramado. Ele acaricia as falhas da minha coluna, brincando de tear, enquanto finjo que amarro seu cadarço, que sou seu sonífero, que risco a pupila do céu.





