terça-feira, 28 de julho de 2009

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves II

::::: fando & lis :::::

Quem me introduziu àqueles fura-dias (delinqüentes, no português que nos pariu) foram Dota e Mamífero, gangsters metafísicos. E diante do surto teatral dos dois títeres, Rodroga e Gayoso, murmurei, salivando cânhamo:
– Vocês não notaram que são/estão esquizofrênicos?

a patetice, isto é, a amizade - verdades breves I

::::: z - il est vivant! :::::

Descobri que Dioi forjou a própria morte para poder barganhar o caixão em troca de substâncias alucinógenas e/ou produtoras de estados alterados de consciência. Se tudo for verdade, ele foi visto por aí no instante da atividade ilícita. Flagraram-no usando tipóia e óculos de mergulhador. Mas não tenho permissão de revelar as imagens. Parece-me que isto é tão ruim quanto um maldito clichê.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

ex animo dicere XXVII

Procurando por antigos lobos, encontrei minhas fotografias insignificantes.
Ou nada disso osseva od.










Alors...

terça-feira, 14 de julho de 2009

a patetice, isto é, a amizade VII

::::: fazendo, dos novos inquilinos, novos amigos :::::

Pt. I

Dormitei no meio da tarde porque não tinha ânimo para fazer outra coisa. Soa meio depressivo, um quê de irresponsabilidade adolescente ou talvez velhice precoce, entretanto, aposto minhas fichas brancas do AA que você já fez isso também. Contrariedades e all ins à parte, acordei com calor, com o calor do som do novo vizinho. Suas caixas de abelhas zumbiam religiosamente, todo bendito dia, os hits do B-52’s, Abba, Bee Gees, Gipsy Kings, Michael Jackson, Queen e uma porção de love rock songs on the radio, em geral, do final dos anos 80. Acumule a isso o fato de sua companheira Pepita ser uma preguiçosa que fica deitada no meio da rua impedindo a passagem dos carros. E não adianta buzinar, viu? Restava-me encará-los. Fui ao quintal de casa. A cadela, melhor inimiga dos vizinhos, convicta TL – isto é, tomba-lata, raça inferior aos soezes vira-latas –, estava com a cabeça enfiada no buraco do muro entre minha pseudo-propriedade (aqui um merchandising da Caixa Econômica Federal, corja também interessada em arrematar o Clube do Gerson) e a dele. Ali, Pepita era um retrato do que era: um animal empalhado vivo. Resignei-me em enfrentar a fera. Pulei o muro, enfezado. Cheguei com aquela carantonha. Ex abrupto, o que chamam “rabujo de cachorro” me perturbou, sem trégua para as idéias helicoidais se desenvolverem.
– Desculpaí se estou fedendo, vizinho. É a roupa que não secou direito. Tem chovido tanto presses lados... – e o sujeito desapareceu no interior da casa, retornando com galho de arruda atrás da orelha – Agora melhorou o cheiro, não?
– O cheiro sim... – apontei para as fitas K7 piratas.
– Desculpaí, vizinho, o som tá alto, né? Mas é queu tô amargurado.
O sujeito tinha uma expressão de desenho animado. Acalmei-me. Dali há pouco também me acostumaria com os odores.
– Tem cerveja pra mim no freezer? Se tiver, te permito contar o que acontece.
Não tinha. Não obstante, opções e vozes internas não faltavam. Enquanto partíamos para a semi-epopéia, nos embicando na direção do mercadinho do bairro, ele começou a narração de: Espinhos que Podem Cegar um Coração.
– Bom título, não acha? – fiquei quieto – Pois é. Ela se chama Samantha, mas só vim saber disso depois de investigações não-ortodoxas. Loirinha, um metro e sessentinha, vinte aninhos, peitinhos durinhos, bumbumzinho lindo. Ó, Deus! – porque ele falava suas qualidades no diminutivo eu não sei, mas a exclamação fazia bastante sentido – Samantha é daquelas belezas que fazem os homens serem ora heróicos, ora estúpidos – as duas coisas não andam lado a lado?, perguntei-me – Nos empurram para o precipício, e concordamos sem hesitar: “Sim, eu mato, eu mato qualquer um por você, meu amor! Basta que peça. Vamos, peça sem medo”. Merda.
– Que foi? Pisou?
– Não. Tranquei a casa com a chave dentro. A planta do pé está jóia.
– Como pôde?
– Com os cadeados.
Não o repreendi por falta de intimidade. Dei de ombros. Apenas me esforçando para agir corretamente, sem desafeto, tough love. Novas amizades são tão exigentes quanto os casamentos, as bandas ou as úlceras crônicas. Sugeri que fôssemos em frente e depois à minha casa telefonar para o chaveiro. Não muito preocupado com as perspectivas dum futuro sem a amada, ele deu continuidade como se não houvesse feito pausa.
– Você não entendeu, vizinho. Eu estava lá, fazendo minhas anotações, obrigações do fanatismo, escrevendo aquilo, “sim, eu mato...”, e isso ainda sem saber o nome da ninfa. Foi quando ela, ó Deus, se sentou ao meu lado.
– Ah, então você estava só babando de longe?
– Isso, garoto – e chegamos a um dos destinos de nosso micro-deslocamento na condição de seres-formigas – Ei, Seo João, anota essas cervejas na minha conta, por obséquio. Bom, fiquei sem fala quando sentou ao meu lado. A atitude dela foi completamente inesperada. Também duvidosa. Com tantos lugares, por que ali, não é? Pensei em deixar o livro que carregava e sair fingindo que o esquecera para saber se ela viria atrás de mim.
– E aí?
– Quer deixar eu falar de uma vez? É um momento ridículo, eu sei, mas tente não interromper.. É... – ele coçou a cabeça – Como é mesmo teu nome?
– Foche. E você é?
– Noel – terminando de secar uma lata, o cara-de-desenho-animado torceu-a e atirou-a na sarjeta – Sabe por quê? Meu pai gostava do Leon, aquele assassino profissional do filme muito exibido na Bandeirantes. O Cine Band tradicional, não o Privê – salientou – Num dia, dentre as muitas reprises, o velho estava fazendo a barba e viu o reflexo do título. Meu nome!
– Muito prazer, Noel – e apertamos as mãos.
– Muito bem. Agora pega essa latinha e brinca com ela enquanto me ouve. Hã – Noel sempre coçava a cabeça quando raciocinava – Ah, o livro?! Não, nem pensar. Dava não. Troppo inadequado. Tinha um título demasiadamente obsceno. Porém, antes que eu inventasse artifícios mirabolantes, a situação melhorou: “Ei, o que você está escrevendo aí?” “O quê?”, rebati, quando na verdade ela não dissera absolutamente nada. “O quê?”, ela devolveu-me, em eco involuntário. Depois da proveitosa inconveniência, engatamos conversa sobre outra coisa mais idiota do que minha imaginação auditiva – ouvido tuberculoso, eu diria, para não perder o costume de pensar algo sobre outrem e não revelar-lhe – Algo bastante vago e sem futuro. Via-se o fim do diálogo em cada frase solta, Foche. Ó, Deus! Vinte aninhos... – fez movimento com as mãos, contornando corpo invisível, escrito em Braille – E eu só querendo ter um caso com ela pra narrar o enredo numa próxima roda de samba com bar. Cara, eu tinha promessas pra ela. “Por que você não pode me amar, Samantha? Garanto fortes emoções na maioria dos capítulos, muitos momentos felizes para emoldurar na retrospectiva e um final abrupto para funcionar do modo mais indolor possível”.
Meu grau de interesse em conhecer tal beldade extrapolara o possível de ser mascarado, ao passo que também era balanceado pelo nível de satisfação em saber que Noel jamais a possuiria.
– Certo, Noel. Faremos o seguinte. Ao invés de telefonar pro Astrogildo, o chaveiro, vamos buscá-lo. No caminho passamos pelo trabalho da Samantha e você nos apresenta com as devidas mesuras.
Aproximando seu rosto ao meu, intuo que ele vasculhava alguma maldade em minhas intenções. Incapaz de encontrar o que não estava lá, o palíndromo expliciti de Leon aceitou. Suas feições de desenho animado não eram apenas decorativas e contagiantes e coloridas. Reah! O sujeito era de fato inocente como o Mickey Mouse.















[Minutos depois...]

Diante da vitrine ele acenou para Samantha, que do alto de dois degraus portáteis, arrumando a peruca do manequim, acenou de volta.
– Que tal? – indagou Noel.
Eu fazia minha função de amigo, mudo. Balançava a cabeça em concordância, “sim, sim, agora te compreendo, homem”, quando a moça teve a bondosa necessidade incontrolável de enfiar a mão na própria bunda e puxar a calcinha que, suponho, a incomodava. Não pude resistir e, milagrosamente, do lado de cá do vidro, imaginei o barulho do elástico em contato com as nádegas. Pensei com furor: que gostosa da porra! Cabelos extremamente finos, tintura negra e raízes loiras. Detalhe no lado esquerdo, onde ela os põe atrás da orelha – e que orelhinha lindinha, Noel. Dedos puros como o mar, sem tintura ou adornos: ideais para marulharem em meu corpo. Espádua resplandecente à mostra, realçando os ossos saborosos e nuances do corpo. Rosto imaculado, com sorriso que é uma arma letal, e olhos da cor do abraço imenso que você nunca recebeu. Transbordava inocência, a pequena, o que salientava uma possível origem de família humilde. Arrisco até que era virgem, essa camponesa de beleza ancestral como vemos em velhos filmes, em tempos enterrados, em sonhos não concretizados. Mas é uma beleza fugaz que, sem o Foche ao seu lado, não será colhida, apodrecendo, portanto, nas mãos de qualquer “diretor”. Porca miseria! Evidentemente, embasbacado com seus atributos, também me apaixonei por aquele suave anjo. Vendo-me fitá-la com o coração, Samantha lançou olhar como o gato que está diante do seu dono. Nem bem a conheci e uma cumplicidade solitária nascia entre nós? Passei a língua nos dentes da arcada superior. Eles estavam ultra-sensíveis. Eu precisava morder aquela nuca.
– Que tal? – repetiu.
– É, cara, ela é um bom partido – respondi, e aproveitando que Samantha precisava massacrá-lo para estar livre às minhas investidas, sugeri – Por que você não vai falar com ela? Esquece, nem precisa nos apresentar – acrescentei, tentando aplicar a famigerada psicologia reversa waltdisneiana.
– Esperaí. Não é fácil assim, cara. E se ela me achar gordo demais?
– É, você tem um volume aí, mas e se ela achar essa barriginha sexy? – arrisquei.
Noel encolheu a barriga e ergueu as calças. Foi em frente. Decidido a agir como um elefante sendo chicoteado no picadeiro: rompante. “Que homem de coragem!”, pensei, cheio de escarninho. Ele empurrou a porta de vidro, fazendo repicarem os sinos pregados no alto. Samantha desceu cerimoniosamente sua escadinha. Lá dentro, trancados num universo próprio, malditas borboletas girando ao redor, os dois apertaram as mãos por uma eternidade. Em menos de sete minutos, o desafiante saiu.
– Estranho como a gente começa pequeno, indefeso, dormindo dentro de uma barriga, se alimentando por um cordãozinho e anos depois nos tornamos enormes, ariscos, famintos, e precisamos de seis travesseiros para dormir além de comermos da largura da boca.
– Você só dorme assim? – ora, quanto à comida não carecia questioná-lo: era um glutão nato versado na sétima arte da petiscaria.
– Não. Minha ex-mulher.
– Por que a deixou?
– Não quero ser pai, não quero ser sugado ou por filhos ou pelas vagabundas. Não tenho família. Se existem, desconheço-os. Moro sozinho desde os dezesseis. Não quero ninguém conversando com minha lápide, pedra fria, flores de plástico, itens roubados. Não me importa o que dizem sobre morrer sozinho. Só não quero viver sozinho neste inferno.
– Onde chegamos barulhentos, quando crianças, e nos vamos silenciosos, como a própria morte... – tentei completar, sem sucesso – Ok, acho que entendi. Dor e prazer têm a mesma expressão. Me diz uma coisa, como foi lá dentro com a pequena?
– Ah, marcamos de sair hoje à noite. Obrigado pela força, vizinho. Te devo essa.
Me sentiria melhor se devesse um fígado regenerado. Maníaco sortudo. Deveria ter me adiantado e a convidado para tomar vinho em minha casa. Samantha deve gostar. Tem cara de quem se interessa por. Também tem cara de mulher fácil, assim, vista de perfil, ao fundo. Na próxima, quem sabe, consigo. Ganas não me faltam para mordiscar novas e alheias coxas, ventres, orelhas, nucas... Toma cuidado, Noel. Estamos todos soltos no mesmo pântano, vizinho.


Pt. II

No futuro podemos repetir o primeiro parágrafo até certo ponto: onde eu pulo o muro. Dessa vez nada de mau cheiro. Há, ao invés, uma porção de caixões no quintal dele.
– O que é isso, Noel?
– Abra e veja.
– Eu não!
– Tá com medo de quê?
– Não é medo, é respeito pelos mortos.
– Ninguém tá morto aqui, vizinho.
Lentamente caminhei em direção da pilha mais baixa de caixões. Repousei a mão sobre o primeiro da pilha, e dobrei o pescoço para ver Noel. Insistiu, acenando apressadamente, para eu ir adiante. Abri um. Dois. Abri três, quatro, cinco e seis caixões. Todos se encontravam abarrotados de cervejas geladas! E não era qualquer marca: tratava-se de pacotes (meia dúzia cada) da mexicana Tecate. Quem era o mágico capaz de transformar fúnebres esquifes em suntuosas caixas térmicas?
– Bem útil, não acha, Foche? Fui eu quem as adaptou.
Lacrimejei lúpulo.
Noel entrou e saiu correndo de sua casa. Pepita no seu encalço, latindo canções de contentamento. Não retornou só. Samantha veio equilibrando alguns itens numa bandeja. Como aperitivo, cachaça ouro curtida com caranguejo. Pizza cinco queijos e tempero de azeite e orégano para o almoço. Balas de cacau e café de sobremesa. As cervejas eram, obviamente, para o tempo todo. Entre e durante uma coisa e outra. Oras, por um instante fiquei tão contente quanto a criança que sai do cinema imitando o que viu no Grand Écran, na realidade, tão feliz quanto aquele que ganha presente inesperado de alguém que pouco conhece. Todavia, logo em seguida, escondi o rosto, o lúpulo que gotejava dos olhos, e remoí, quietinho, as más intenções do passado próximo. Noel não sabia. A ferida mesquinha fora feita por mim, em mim: o vizinho morto de cansaço que percebe deliciosa cama para dormir, mas falta-lhe companhia.




* imagem: antigo banner do yahoo que editei grotescamente quando encontrei num dvd de back up.

a patetice, isto é, a amizade VI

::::: burburinho jeje-nagô :::::

Pt. I

Para um texto asséptico, sem preconceitos e julgamentos parciais, o ideal seria que aqui existisse um preâmbulo sucinto para prover as informações necessárias a fim de começarmos com alguma coisa consistente ou, ainda, que agora eu discorresse sobre algo aleatório e acidental com influência indireta na minha vida. Como, em ambos os casos, não consegui escrever nada a respeito (deveria eu ter a audácia de produzir qualquer porcaria com rimas do daily news e conceder a autoria a alguém sempre usado dessa maneira, alguém virtualmente importante e sempre lido como o ousado Arnaldo Jabor?), trocarei a posição de algumas letras deste mouvement introductif e entrarei logo na parte do texto sobre o tio.
Tio O. Também chamado de Tio Ode pelos de maior verve lírica – os tipos rarefeitos que compõem sonetos como quem monta quebra-cabeças. Neste caso, a vida é feita de escolhas acidentais bem intencionadas. Opto, portanto, pelas requintadas simplificações. Pela fluidez. Tio O.
(Queria aproveitar o ensejo para cumprimentá-lo: Oi, Tio O! Como vai essa força? Temos de marcar outra peixada. Vê se me liga).
E logo após a introdução manquitola, logo após não fazer esforço algum, descobri que Tio O estava curtindo uma grande festa do estilo “quem chegar, chegou”. Ou seja, não precisava levar distintivo (a.k.a. bebida alcoólica). Parti para o local esfregando as mãos qual protagonista sem caráter, com muito estilo, cigarro no canto da boca, moedas nos bolsos, que espera descomunal deleite dum encontro familiar, mas não sabe que, para o sucesso de tal empreendimento, o escritor não tem a menor idéia de como engendrar o roteiro acidental, modelo falésia.
Km 62 outra vez. Fiz o percurso na metade do tempo. Chegando quando o galo miudava, miudando, c’est-à-dire, quando seu cacarejar decrescia gradativamente em oposição ao sol que raiava bem longe da ponta de seu bico. Bem, as coisas estavam diferentes lá. Irrelevante dizer exatamente o quanto, coño, porque elas não me interessavam até então. Basta dizer: tudo se encontrava como, de fato, deveria estar no dia... I mean, provavelmente em um março mais silencioso (ver I).
Contudo, as situações estão aí, esperando para nos surpreender quando estamos com paciência e para nos irritar quando esgotados. (Em tempo: a ocorrência do primeiro caso é quase tão rara quanto a não-ocorrência do segundo). De modo que as imagens que mais marcam nossas vidas são as que acontecem em poucos segundos, ficando assim galvanizadas em lugares de destaque nas paredes internas da cabeça do indivíduo.
O que atraiu meu interesse não foi Tio O sentado na centenária cadeira de balanço comendo o quebra torto e contando estórias inesquecíveis enquanto molhava as palavras no “mijo de burro” em intervalos regulares, cadenciados. Não, nada disso. Foi a pomba sem asa, a Intifada (informação importante para os aventureiros sem fronteiras: em árabe escrevemos assim: نتفاضة), a briga de pedras que teve início durante a chegada de Andriolli à festa.
– Hiawatha!! – ela anunciou-se, debaixo da nuvem de pedras arremessadas: escolta promovida pela autóctone infantaria pessoal do inferno, que em seguida dissipou-se em meio à nuvem do elemento de número atômico 16, é evidente.
– Não tenho medo de nada nem de ninguém. Enfrento no peito, rasgando tudo –argumentou Paulão, filho de Tio O e meu primo, levantando bruscamente seu quase 1,90m – Só tenho medo de mim mesmo... – e mandou para dentro mais um copo do líquido precioso.
– Calma lá, meu filho – avisou seu moderado pai – Baixou a pomba-gira nela. Exu-fêmea é fogo nas entranhas, rapaz!
– Rá-rá-rá-rá – Andriolli prolongou a gargalhada – Tratem de devolver o champanhe, a cocaína, os charutos, as jóias e as rosas que me pertencem!! Não me venham com porcarias, como por exemplo: cachaça de Jurubeba ou bijuterias. Quero o que é meu, minhas oferendas de direito. Caso contrário, mando tudo pelos ares! Rá-rá-rá...
– Vamos amarrá-la e açoitá-la – propôs Paulão, com sangue alcoólico subindo para os olhos – Fizeram isso em Zinho. Parece que funcionou. Nunca mais o vi possuído, voando louco pelas ruas do bairro.
De acordo com sapiência de Tio O, aquilo não era brincadeira. Era caso de se levar ao terreiro. Açoite não ajudaria. Tio O sabia do que falava, por experiência de caso. Havia, inclusive, lutado de soco com o próprio demônio. Numa madrugada densa como enxofre, ele levantara-se para ir ao banheiro e dera de cara com o tranca-rua no corredor do apartamento. Começaram a pelejar. Tio O acertava o tinhoso com os punhos, porém, nada lhe acontecia. Ele apenas sorria, faceiro, chifrudo, com as mãos na cintura. Pobre Tio O! Foi se cansando da luta. Enfraquecido, desmaiou no corredor do apartamento. Felizmente, nada de grave lhe ocorreu. Enfim, logo não se vê? Estava decidido. Levaríamos Andriolli para urgente sessão descarrego.
– Banho de sal grosso, Negramina e folha de algodão. Isso entra na pele, expurga o mal que não é corpóreo, mas espiritual – profetizou Verônica, a caseira que freqüentemente vê espíritos.
– Vai, pai, vai – incentivou Paulão – Leva essa mulher que ainda tem dente-de-leite, mas que já está precisando duma dentadura nova. Ei, garçom! Tá querendo me matar de sede? Claro, que dúvida idiota. Traz mais “mijo”. Ou melhor... Pai, não vai, não. Deixe as coisas como estão. Joga para Jesus! Enche esse copo, rapaz! Vai, joga para Jesus! Enche bem enchido.
Eu tinha aqui comigo que “jogar para Jesus” era uma forma polida de “tocar o foda-se”, e já que Paulão não se apresentara para ajudar, juntei-me a Tio O, Verônica e mais três outros jagunços do deputado dono da festa para, com dificuldade, imobilizá-la. Enfiamos a mulher no porta-malas do carro e voamos baixo naquela Parati 87, relíquia de Tio O. Nem tão baixo, porém. De repente, na estrada conseguimos o improvável. Um golpe abafado no vidro. Atropelamos um morcego em pleno vôo. Andriolli, como se estivesse conectada ao mamífero voador, pôs-se em estado convulsivo, condoído. Livrando-se dos que a seguravam, desceu do carro para sofrer junto à vítima e prestar-lhe alguma homenagem. Tendo-o na palma da mão, cantou versos incompreensíveis. Deixamos que seguisse para ver no que dava. Terminada a oração melódica, enfureceu-se conosco, em especial com o motorista.
– Ele é Deus! Vocês mataram Deus, idiotas! E você? Sim, você! Você é o culpado! – disse, apontando para o motorista: eu mesmo, no caso – Mas só por diversão, eu vou jogar pedra em todo mundo! Rá-rá-rá...
– Andri, Andri – invocou-a Tio O, sempre sereno, diante da ameaça dela avançar sobre nós – Vai morder teu pai na bunda. Entra no carro e fica quieta.
Ela misteriosamente obedeceu, e seguimos velejando a Via Láctea de asfalto ao galope do motor Volks.


Pt. II

A chegada ao terreiro foi algo charmosa e encantadora. Havia diversas oferendas depositadas nas cercanias, para contentamento das falanges e legiões das Sete Linhas. Encontramos bolo e cural milho, pamonha, arroz e garrafas de vinho e conhaque. Muito mel derramado em volta e algumas flores. Velas, por certo. Dúzias delas acesas. Descemos Andriolli do carro e a levamos diante de Piango, o pai velho. Fizemos rápida reverência, entregando-a aos seus cuidados, e nos afastamos em silêncio. Com um sinal, seus ajudantes/discípulos levaram-na para o centro do “espetáculo”. Então entoaram trechos de As Sete Lágrimas de um Preto Velho, em repetições hipnóticas produtoras de êxtase para conexão com o divino.

“Salihed, Mehi Mahar Selmi Laresh Lach Me Yê!
Saravá, Regente Oxalá!
Saravá, Umbanda!
”

Mais fiéis sectários desse sincretismo religioso juntaram-se ao coro, fechando um grande círculo em torno de Andri e Pai Piango.
– É melhor três Oxum zangado que um alegre. Esse último é imprevisível demais – comentou Pai Piango, soltando fumaça pelas ventas, e em misterioso tom de voz que ultrapassou todo o resto.
Então ele pôs máscara ancestral assustadora. Fez alguns movimentos com as mãos, diferente do que o seu pessoal fazia, e lançou os búzios que em contato com o marrom vivo do solo, começaram a se movimentar.
Photobucket
– Em mundos contrários, onde terra é água, nadamos ao invés de caminhar – disse-nos, sem perder o foco no seu trabalho: a moça.
Andriolli, no núcleo das energias do terreiro, parecia querer aquietar-se. Pai Piango aproximou-se dela e colocou um cordão de Chave Grande em seu pescoço. Ela desmaiou na hora. Depois a levaram ao quarto especial para o banho de ervas. Ficamos do lado de fora esperando, conversando.
– Deixe-me dizer, Foche. Essa fusão de práticas religiosas com culturas e crenças afro-brasileiras... – e parou para tomar fôlego, disfarçando o assunto para alguém que ele não queria que ouvisse – É o seguinte. Espiritismo é universidade – confessou meu Tio – Nos terreiros eles estão aprendendo a escrever. Entendeu?
– Sim, estão mais pra Era das Feras.
– Ah, não diga isso. O caminho é outro.
– Talvez fosse só uma TPM espetacular agindo em Andriolli – opinou um dos jagunços, murmurando como quem conta um segredo, pois ainda estava atônito com o ritual presenciado.
– Para que saber os porquês se a resposta não será aceita e não mudará suas suspeitas? – desabafou Tio O – É na loucura que reside a razão. Ponto.
Dali em diante, não evoluímos muito. Na vida. Tampouco na conversa.
Instantes foram gastos na espera. Da dissipação.
Passou um helicóptero avisando a respeito do concurso Miss Biquíni. A melhor escolha que já fiz foi ter ido ver aquele explosivo atol de peitudas formosas e bundudas gostosas. A vida, na maioria dos casos, é feita de escolhas aleatórias as quais tomamos por nossa imperativa vontade. Tio O, por exemplo, vai trabalhar segunda-feira, mas só se não chover.




* imagem: este gif saiu do site do mestre que tem seu nome mostrado ao final do loop.

ex animo dicere XXVI

"Nick estava rindo:
- Você devia tê-lo visto comer gelo. Botou uma pedra de gelo grande no prato e começou a morder aquilo como se fosse um pedaço de carne, assim mesmo. Ele deve ter comido uns cinco quilos de gelo.
- Isso faz mal - disse Kerrigan para Mooney. - Se continuar fazendo isso, vai acabar com seu estômago.
- Meu estômago agüenta qualquer coisa - disse Mooney. - Qualquer coisa mesmo. Se eu posso mastigar, posso comer. Semana passada ganhei uma aposta de três dólares.
- Que aposta? - perguntou Kerrigan.
- Comi madeira.
Nick Balançou a cabeça.
- Ele fez isso mesmo. Eu estava lá e o vi morder e mastigar a borda de uma mesa. E depois engolir o bocado inteiro. E ele recolheu três dólares do bacana.", e não só assim: A Lua na Sarjeta de David Goodis vem me divertindo loucamente com esse humor da Grande Depressão.
Alors, passez le mot!


* imagem: essa old belezinha noir com Gérard Depardieu das docas só foi utilizada porque não se tratar desta edição do livro que "caiu em minhas mãos" via afanação, e com isso espero despistar o verdadeiro dono.

ex animo dicere XXIV, XXV

Um pouco de Eduardo Ferreira, the dinosaur always on the run do pedaço. Ele merece um verbete na Wikipedia. O que o arauto ocioso está esperando para fazer isso? T. Rex & Tyrannosaurus rex já estão lá... E Ferreira, além de estar por aí no overmundo, aparece aqui - com trilhas dos extintos Psiconautas e moi-même, respectivamente:

::::: Eu Nóia :::::


::::: Parafuso Solto :::::


ALORS, PASSEZ LE CRI!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

ex animo dicere XXIII



"Com dinheiro, você pode até mandar um fantasma moer farinha", diz um ditado das putas sofridas do Camboja où Le papier ne peut pas envelopper la braise.
Alors, passez le mot!


* imagem: still da película.

ex animo dicere XXII


"Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!
Foi há vinte? Há trinta? Nem eu sei já quando!
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!

Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar.
Oh! a ingénua alma tão desiludida!
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!

Trago d'amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d'astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!

Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!

Cante-me cantigas, manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh'alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!"

Contra meus principios grosseiros, divulgo este "Regresso ao Lar", poema de Guerra Junqueiro, cantado por Maria Isabel de Oliveira em Porto da Minha Infância. Ficou lindo, com aquele sotaque de Portugal, pá.
Alors, passez le chant!


* imagem: still da película.

ex animo dicere XXI

"Ainda ontem talvez, alguma anciã, sentada na soleira da porta em Grand-Bassam, lembrava-se do olhar de pavor de um branco quando rebrilharam as lágrimas, do pouco peso de seu cadáver de que se retiraram as lâminas murchas; ela hoje está morta; e morta também está Élise, que se lembrava do primeiro sorriso de um garotinho quando lhe estenderam uma maçã bem vermelha, lustrosa no avental; uma vida sem conseqüência escorreu entre a maçã e a machete, cada dia mais embotando o gosto de uma e aguçando o corte da outra; quem, se eu não lavrasse aqui a ata, se lembraria de André Dufourneau, falso nobre e camponês pervertido, que foi bom menino, talvez homem cruel, teve possantes desejos e não deixou marca senão na ficção que uma velha camponesa elaborou?", me presenteou Pierre Michon, ao final do primeiro extrato (Vida de André Dufourneau), com suas Vidas Minúsculas.
Alors, passez le mot!


* imagem: comprei o livro e fotografei com a retina, transmitindo para o pc via usb plugado na...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

ex animo dicere XX

Vinte! Vinte Ex Animo Dicere no AAAE. Ou dois ponto zero como preferem os morons online. Parece algo especial, não? Então vou cantar.
"No cume da montanha vejo uma coisa preta:
Será bosta de vaca ou será a minha amada?"
Dusan Makavejev, adoro te seqüestrar.
"De meu túmulo nascerão mil cavalos.
De meu túmulo nascerão mil cavalos.
De meu túmulo nascerão mil cavalos."

Foda-se.
Fiz um texto comemorativo.

::::: A Alva Albanesa Alcoólatra :::::

Ao amanhecer, Ana, a albanesa, acordou. Aspirou ar. Assimilou areia. Anotou algo aqui, ali, assim, assado: aliterações ao acaso. Abriu a alma. Arreganhou armários. Arremessou abajures. Abriu as asas. Arriou-se, abatida, afinal. Ainda assim, altamente alterada, Ana anunciou-se a Alberto:
– Ah, amor! Amor? Antevejo-te apalpando-me, anjo. Além. Ah, abominável acontecimento!
Alberto, autoritário, apolítico, analfabeto, ausculta Ana atentamente. Ademais, alheio ao azo, aquiesce àquela anunciação. Adota a animação a-morosa:
– Ana, aurora aveludada! Anda, amor! Anda ali, Ana, ali a aldeia ávida a acolherá amorosamente.
– Acompanha-me, Alberto. Ah! Aconchega-se, anjo adiposo. Aí amaremo-nos até as axilas azedarem, as ancas arderem – anunciou Ana, algo ambígua.
Ambos aparentavam aturdimento ao andar. Aéreos, alcançaram abieiro. Ali amaram-se aderentemente. Ao acabarem, avistaram algo acima. Acharam a anarquia anunciada: A.A. (Alcoólicos Anônimos).
– Abracadabra, Ana. Achamos a abadia – Alberto avisou, abalroando-se abertura adentro.
Ana acompanhou-o, anatematizada, abalada.
– Aguardente, amigo acólito. Agora! Anularei as aliterações abusivas, as adjetivações abomináveis. Abasteça-me. Alberto, amor, álcool, amor. Ah! Ajudem a abeberar-me, Alberto – Ana abaixou-se, asfixiada, as ancas ardendo, a alma aberta – Aguardente, amigo abade. Agora! A Albânia, aquela alma, aquelas asas. Amigo, a aurora aparece...
Ana anoitece.

Alors, alors, alors...
Passez!!


* imagem: precisa dizer?

segunda-feira, 22 de junho de 2009

a patetice, isto é, a amizade V

::::: garota de chinatown :::::

Guiga, agitadamente sentado ao meu lado, quebrou o eco do túnel que atravessávamos fazendo air guitar.
– Ua-bap-lupa-bup-lap-bem-bum.
– Little Richard, Tutti Frutti! – respondeu Tino, às pressas, sozinho no banco detrás, olhando, da janela arreganhada pela metade, sabe-se lá o quê.
Naquele instante, se o assistíssemos pelo lado de fora, o chamaríamos de Jack Nicholson do lotação. E algum jornalista embriagado de Nelson Rodrigues trataria de escrever empertigada crônica sobre. Mas voltando ao início do parágrafo encontro outro fato embutido naquele mesmo instante, dir-se-ia, très ordinaire: Tino acabara comigo. Sequer tive chance de começar a pensar a cerca da onomatopéia.
– Game over. Tino venceu. 5 x 1 em cima de Foche – apitou o árbitro Guiga em relação ao nosso joguete de adivinhações – Ei, ei! – resmungou – Devo iniciar nova contagem de pontos?
– Por obséquio, mano.
– Filhos de uma ronca e fuça!! – xinguei-os – Não há como vencê-los. Vocês moram juntos. Além de já se conhecerem muito bem, um sabe o repertório do outro.
– É verdade, gajo, ninguém pode com a família Kibe. Espere só até dominarmos o mundo, em especial o velho.
Antes que os dois incrementassem a troça contra mim, a minoria em vários sentidos, uma robusta explosão fez-se intrusiva. Nos jogamos no chão do micro-ônibus que freou bruscamente. Outros passageiros, menos cautelosos e (se vocês quiserem) mais corajosos, apenas enfiaram a cabeça entre as pernas como se instruídos pela comissária de bordo no momento do embarque ordenado. Levantamos cautelosamente para procurar a origem do som ou o próprio estrago. Todos respeitosos curiosos um tanto orgulhosos diante dum provável atentado digno de cobertura da mídia. Mirei a rua através da nossa janela embaçada pela maresia. Um motoqueiro estava no chão. Seu pneu havia estourado. Conclusão consternadora. Disfarçamos o embaraço tossindo forçosamente, coçando o ouvido com o dedo mínimo e ajeitando a gola da camisa, respectivamente, eu, Tino e Guiga. Os demais, ignoro com veemência.
– Como vai o Pelicano rebelde? – indagou Tino, desviando qualquer assunto em vigor nas últimas manchetes extraordinárias.
– Vai bem. Nem deve se lembrar de nossa existência, a essa altura. Anda fazendo negócios com gringos.
– Grande garoto!
– E-e-e-estou pensando em co-come-me-meçar a prati-ti-ticar Le Parkour – anunciou Guiga, às vezes e há não muito, acometido de enigmática gagueira.
– Em outras palavras, está ansioso para ser um macaco. Se tiver sorte, ganhará uma vaga de bombeiro – falei-lhe tentando ser a mangueira que apaga o fogo do falso alarme.
– Não, Foche. Mas espero que o exército me convide para fazer operações nos morros.
– Acho isso muito precipitado – ponderou Tino, encerrando o assunto por algumas páginas.
Guiga, que carregava o carma de ser o irmão do meio, estava fazendo um experimento inventado por seu recém-graduado (leia-se entusiasta) fonoaudiólogo. Assim sendo, repetiu o que Tino dissera. A intenção era treinar as frases alheias, repetindo-as silenciosamente assim que ouvidas.
“Exercício deveras bizarro de se assistir”, refleti, fazendo a leitura labial, por via das dúvidas, antes de realmente concordar comigo mesmo, em voz alta, que era um:
– Exercício deveras bizarro de se assistir. Um Foche nunca se atreveria a.
– Mas que faz efeito! – respondeu-me, sem titubear, fazendo com que eu pensasse que sua dificuldade com a pronúncia não passasse de mais um estudo maluco que ele inventara e nos aplicava sistematicamente.
– É verdade – endossou Tino – O garotinho está praticamente curado.
– Discordo.
– O que disse, Foche? Repete pra gente.
– Porca puttana! Por acaso estou gaguejando?
Os dois ficaram silenciosos. Na certa acharam que eu falava a sério.
– Mas e você, Tino? – inquiri-o a fim de levantar discussões que não levariam em lugar algum – Ainda consegue chorar com um olho só? E espirrar de olho aberto?
– Ser um Kibe é isso, Foche. É ser capaz do que os outros não são.
– Ok, já chega de conversê – interrompi – Falta muito para chegarmos a Chinatown do Rio? Lady K deve estar cansada de nos esperar.
– Po-por um acaso malig-ligno, descemos no pró-pró-próximo po-po-porra-ponto.
Estava escurecendo quando descemos. Esperando o sinal para atravessarmos a avenida, olhei para o céu, sonhando com situações impraticáveis. Encontrei nuvem parecida com gigantesca bolha de sabão. Ao seu lado havia espécie de aurora boreal, não muito grande, suavemente brilhante como uma pincelada borrada. Parei na faixa de pedestres e fiquei girando em 360 graus, cabeça tombada para trás, braços abertos sobre a avenida, como não diz a música e, ainda por cima, como se eu soubesse estudar a fisionomia do firmamento.
– Admita, cara – Tino passou por mim, deixando-me leve tapa na nuca.
– Esse fenômeno não existe neste lado do globo – completou Guiga.
– É, mas estava tão legal ficar ali... – retruquei, meio zonzo das voltas que dei – Escutem, desde quando existe uma Chinatown no Rio?
– Sei lá – esclareceu-me Guiga, aparentemente curado da gaguez.
– Ótimo demérito! É para isso que servem os universitários e os historiadores e os poetas e o caralho do resto, não é mesmo Tino?
– Lá está ela, garotinhos!
– Onde?
– É, onde? – apoiou-me Guiga, sem intenção de estabelecer algum tratado de paz e ajuda mútua.
– Aquela de costas, sozinha na mesa perto da fonte desligada. Lembram da Kiki de Man Ray? Pensem em Le violon d’ingres. Vamos, usem a cabeça. Esqueçam os bancos de imagem na internet.
Lady K se virou, não para trás e em nossa direção, apenas metade disso. Naquele instante nossos olhos fotográficos queimaram o negativo da memória e registraram o momento. Para alguns significava uma imagem a mais para ocupar espaço nas gavetas. Para outros...
– Há-há! Gostei da tatuagem de tua amiga, Foche. Será que ela não quer “trepar” por aí comigo? Em galhos de concreto, claro. Não! Não me entenda mal. Eu não me atreveria a te enrolar. Nunca dou desculpas vagabundas, meu caro. Ah, não. Não diga isso que você me ofende. Estou apenas a convidando para praticar Le Parkour. Já saquei. Você também a deseja naquele sentido? Seu safado. Por que não disse antes? É mesmo, sem ressentimentos? Ok! Très ok! Vamos lá.
– Olá, K – cumprimentei-a ao me aproximar.
– Não vou conseguir me levantar antes de meia-noite.
Ela terminou a frase e desmaiou. Ajeitei seu corpo na cadeira, apoiando a cabeça na mesa. Tentei dobrar seus braços, mas estes despencaram. Então pedimos quatro bebidas na esperança dela voltar a si, a qualquer momento, com muita sede. Depois que as nossas secaram, pedimos mais quatro, de modo que Lady K acumulara copos cheios. Mas enquanto ela não estava entre nós e a segunda rodada não chegava, a sensação que pairava no ambiente era a de feira de noivas. Uma calmaria finita que parece infinita. Uma forte paixão que resultará em casamento, uma crescente felicidade que trará alguma prole de respeito nos meios corrompidos (antevejo o cheiro de cocô de bebê na casa), enfim, para ser mais direto, uma abundância comemorativa similar ao masu transbordando saquê que indeterminado pingüim de gravata borboleta nos trouxe. Em contato com a mesa, os copos quadrados produziram som peculiar.
– Proponho um brinde! – foram as três primeiras palavras dela ao acordar, contrariando as próprias previsões – Um brinde à prostituição! He-he-he. Vi isso num filme, gente – e bebeu seus dois copos, um atrás do outro – Hmm. Vejo que pediram bebida de qualidade. Quase um mármore líquido lapidado com carinho e experiência. “Uma bebida inofensiva ao alcance do vício não assumido” – disse K, em tom de citação – Não se preocupem, hoje é por minha conta – sem se importar com o volume da voz, continuou – Recentemente derreti jóias da minha mãe e revendi o ouro para um renomado delegado de polícia... Renomado delegado? Seria isso pleonasmo?
Sorridente, Lady K contou-nos tudo a respeito da transação. Apreciava-me sua despreocupação em descrever todos os sórdidos pormenores de suas permutas ilícitas, mesmo diante de estranhos. Quem não a conhece pode achar que era uma maneira de se gabar. Entretanto, acreditem, para se pavonear ela dominava meios mais divertidos e cruéis. Por exemplo, durante esse mesmo encontro, nas deixas cuidadosamente estudadas de nossas falas, ela demonstrava total desinteresse. O ápice deu-se quando se abaixou e apanhou tampinha que rolara até perto de seus pés. Dali em diante, ficou brincando de pressionar a tampinha na pele, na veia, onde geralmente tira-se sangue ou injetam-se porcarias. Assim, K praticamente fazia de conta que estava sofrendo sozinha à mesa. Gosto de pensar que a crueldade era isso, porque a diversão vinha sempre em seguida. De repente, a tampinha entrou na corrente sangüínea.
– Ops – salivou K – Acho que desapareceu. He-he. Sou desse jeito. I don’t think, I drink.
– É, seguindo o fio da meada ou merda amigável (ver IV), sou obrigado a dizer que isso jamais seria comparado a uma fala de minha avó.
– Não quero ser o Senhor K de Kafka, quero ser a Lady K dos príncipes!
– Dio cane, esperem! – alarmou Tino – Sim, acho que ganhei de novo – abrindo e fechando aspas com as mãos deu prosseguimento – “Vi” isso num filme do Hitchcock. Bem me lembro. Amo esse filme desde...
– Whatsoever. A resposta está errada, garanto, e com ênfase. Essa eu sei, Tino, ovomal-Tino, essa EU sei – avisei, quase comemorando o inédito título por antecipação.
– Calem a boca, morons mitológicos – ordenou-nos Lady K, sem se importar com impossíveis explicações – Vou vomitar.
E o fez sem miséria. Com verdoenga bílis alagou considerável área abaixo de nossos pés restaurada com azulejos coloniais. Talvez ela tivesse mesmo esse dom: o de soltar algo, de certa maneira, impactante e completá-lo com ação à altura. Logo surgiram diversos pingüins de gravata para limpar o estrago. A Antártida deveria estar em crise. A população estava migrando, seguindo as correntes. Os que não integravam as tiras de Liniers estavam servindo mesas. Será que dava para “desconsiderar” essa região assim como fizeram com Plutão? Responde essa Guiga. Enfim, o importante (?) é que durante a limpeza vi a tampinha no chão. Bom para Lady K. Não teria futuros problemas em aeroportos e bancos. Porém, tampinhas são todas iguais...
– Eu vomito Zyprexa, gente. Zyprexa: um prazer similar ao de comer a comida predileta acompanhada do vinho favorito. Em excesso. Tudo, tudo para ser regurgitado. Zyprexa: prazer que começa e termina na boca. Como o próprio ato sexual em si.
– Isso é uma boa plopaganda do ploduto – comentou Guiga expondo rotacismo alienígena em nosso dialeto.
– Agora essa! – iniciou Tino, sentindo talvez vergonha alheia – Era só o que faltava. Fica bom daquilo e agora me aparece com isso.
– Você está bem, K? – perguntei, encarando-a de perto.
Em típica atitude de adolescente confusa, K batia a unha do indicador direito no canino superior direito como se estivesse fazendo esforço para pensar em que roupa vestir amanhã quando fosse a aula ou em como faria para pegar o carro sem que os pais descobrissem.
– Estou sóbria como uma trapezista, e o ventilador está contando uma piada tão rápida que não me resta tempo para rir.
Finalizando a seqüência ab absurda, o celular de Tino tocou escandalosamente. Muito embora todos soubessem a quem pertencia àquelas notas introdutórias, houve briga para decidir quem receberia a pontuação. Venceu quem soube air executá-la.

e----------0-----1-----3-----1-----0----------------------------0-----------
B---3---------------------------------3--3-----2------3/5-0h2h3---3p2p0-2-
G-------------------------------------2-------------------------------------
D------0-----0-----0-----0-----0---------0-----0---------------------------
A---------------------------------------------------------------------------
E---------------------------------------------------------------------------

ex animo dicere XIX

Momento homem-branco-estúpido-faz-piada-da-desgraça-alheia-em-forma-de-"publicidade"-for-a-capitalism-that-stole-our-virginity?

Amo muito tudo isso, Ronaldo.
Alors, passez le mot!